quarta-feira, 7 de março de 2018

Uma Missiva de JB Malaca na Caixa do Correio

Caro Doutor Mara
            
           Não tenho o privilégio de me dirigir ao meu ilustre amigo desde o tempo do nevoeiro, quando deambulávamos pela noite de Ponta Delgada a observar a movida e parávamos nas tascas, onde, entre sandes de atum e vinho de dois euros, mudávamos o mundo e a cultura e cortávamos na casaca dos arcebispos. Agora estou refugiado no palacete do Livramento onde entardeço o sonoro regresso arrulhado das rolas aos ninhos que construíram nas yucas do quintal. Estas columbiformes do género Streptopelia são aves ditas territoriais na época do acasalamento, mas eu ainda consigo ouvir os outros pássaros.
         Às Quintas pego na cesta (…) dos livros e rumo à nossa tasquinha da Rua de Lisboa. Digo nossa, porque lá passámos bons momentos e, estou certo, havemos de passar muitos mais. Continuam a surgir espontâneos diseurs, bardos, poetas malditos e alguma fauna subterrânea do bas-fond pontadelgadense. Mas não é para falar da minha rotina nem das nossas memórias conjuntas que lhe escrevo estas palavras no meu teclado Bluetooth. O assunto desta narrativa electrónico-espitolar tem a ver com a publicação em certa revista literária, da troca de correspondência entre o meu ilustre companheiro e esse outro compagnon de route, o nosso, não menos ilustre, Janeiro Alves. Ora, na dita revista, são revelados segredos que deitam por terra a aura romântica da superidentidade dos meus excelsos amigos. Imagine, caro Doutor Mara, se o Super-Homem revelasse a Metrópolis que não era mais que o modesto Clark Kent jornalista do "Daily Planet" ou que o Batman revelasse que na realidade era Bruce Wayne, o milionário de Gotham. Era um desastre para Humanidade. E para que não restem dúvidas, não sou o único a insurgir-me contra esta escorregadela identitária. Há dias em conversa com o nosso amigo comum, o senhor Arq. A., portuense ilustre, que escolheu uma das ilhas de baixo para viver e trabalhar, bem o ouvi insurgir-se com esta aguilhada no mito, este levantar do véu da lenda.
            Saiba o meu amigo que as consequências podem ser demolidoras. Espero, a bem da reputação dos meus amigos, que os leitores da revista sejam discretos.

O seu sempre amigo
JB Malaca
(arq. Naturalista Pós Graduado em Geografias Oníricas)

terça-feira, 6 de março de 2018

A Arma do Jazz

"De todas as operações conhecidas da CIA, entre as ridículas e as tenebrosas, há uma que se destaca, pelo facto inusitado de a arma usada ser a música, mais concretamente o jazz. Foi um programa criado em 1968, depois do falhanço da Baía dos Porcos e da operação Northwoods. Esta última parece mais uma absurda teoria da conspiração do que um projeto factual: foi recusada por John F. Kennedy e tinha por objetivo organizar e cometer, dentro das fronteiras americanas, diversos atos terroristas, entre sequestros, atentados bombistas, sabotagens, etc., atribuindo as culpas a Cuba e justificando assim uma possível invasão – estes documentos foram tornados públicos em 1997. Mas já no final dos anos sessenta, a CIA criou o programa Jazz Ambassadors, em que se pretendia, através da música, melhorar a perceção internacional que se tinha dos Estados Unidos da América, que era especialmente negativa.
            Organizaram-se diversos concertos do outro lado da Cortina de Ferro, com vários talentos do jazz, incluindo Satchmo (Louis Armstrong), Benny Goodman, Dizzy Gillespie e Duke Ellington, entre outros. Os músicos negros eram os preferidos para mostrar ao mundo que, afinal, os americanos não eram racistas. Genuinamente, acreditaram poder, com este programa, vencer a Guerra Fria, evangelizando uma juventude de Leste que ouvia música erudita mas tinha pouco contacto com outros géneros musicais, especialmente o jazz.
Este facto parece-me uma das ideias mais fantásticas da humanidade: pretender conquistar o mundo através da música em vez de, por exemplo, fazer explodir Hiroxima ou invadir o Iraque. A música tem um enorme poder transformador, quase imediato, é uma das únicas artes, senão a única, capaz de nos fazer mexer o corpo, de nos fazer dançar, provocar a catarse ou o êxtase. E não tem sequer de ser de qualidade para o conseguir. Uma pintura de Van Gogh não nos põe a dançar, mas uma canção, por pior que seja, é bem capaz de o fazer. O programa americano pode ter falhado, o muro só viria a cair muitos anos depois, mas a esperança, ainda que utópica, não deixa de ser maravilhosa: a possibilidade de uma guerra poder terminar num baile em vez de com a explosão de uma bomba de hidrogénio."

Afonso Cruz inNem todas as Baleias Voam

Da Memória

        (...) com o tempo, um princípio de entropia corrói a recordação, que fica como que roída pela traça, lacunar se desfia e, in extremis, quando a queremos reconstituir passados tantos anos, só nos restam bocados incertos..."
Edgar Morin, As Grandes Questões do Nosso Tempo, Notícias, 1987.

segunda-feira, 5 de março de 2018

(...)

de manhã as ruas estão cheias de breves insurreições
as pessoas zangam-se com tanta espera
e apitam ao portão da escola

confundem via-rápida com rotunda
trespassam a passadeira e atropelam
adormecem no semáforo

a revolução pressupõe mecanismos matemáticos
um certo controlo de velocidade
estradas mais equilibradas e racionais
trajectos que nos levem em segurança
a um futuro calculável

os verdadeiros assassinos
cumprem os sinais de trânsito

isto de por acaso contornar a esquina a pé
e assaltar a despensa do presidente
é que não dá

Leonardo

Noivado

"Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mãos abertas e cheias de ternura.
-És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era o Bernardo.
Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes.
É o que faz a miopia."
in “Contos do Gin Tonic”, de Mário-Henrique Leiria.

A Turistolândia...

Fotografia de Carlos Olyveira

O turismo está aí e é, de facto, a nova galinha dos ovos de ouro. Fala-se todos os dias de milhões de euros em investimentos em hotéis e bungalows à beira mar, promessas de duas centenas de empregos no turismo e aumento aos magotes no número de casas disponíveis para o alojamento local. O que também é verdade é que não se ouve ninguém preocupado acerca de políticas de requalificação urbana que favoreçam a recuperação e a colocação para arrendamento de imóveis de longa duração, isto é, habitação para residentes. Será que custaria muito às câmaras, ou mesmo ao governo, adquirirem prédios abandonados ou devolutos nos centros históricos das cidades, requalificá-los e disponibilizá-los a preços acessíveis à população que ali quisesse residir e viver?
Acredite-se, assim, que é de real importância para uma cidade quem a visita mas, sobretudo, e não de somenos relevância, a promoção de uma vida digna e saudável para quem nela habita ou pretenda habitar.

O sôr tor...

(...)
"Tome cuidado, senão
fazem-no Dr. Do pé prá mão.
Mas se o Dr. não diz que é,
fazem-no cão da mão pró pé."

Alexandre O´Neill, in “A Cordial Botelha”.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Poltrona

Fotografia de Carlos Olyveira 

Instântaneos de Claudio Magris

             
          "Certos lugares, por vezes, formam quase uma unidade com as nossas próprias pessoas, são uma modalidade da nossa relação com o mundo. Lugares significam paisagens, naturais ou edificadas pelo Homem, ou melhor, ambas, o lago e a pequena casa na beira indissolúveis numa lírica de Brecht. Lugares significam sobretudo pessoas, mais ou menos familiares ou quase desconhecidas, mas ainda assim testemunhas, embora parciais, da nossa existência."


Claudio Magris, in Instântaneos, 2018

quinta-feira, 1 de março de 2018

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Oficinas de São Miguel: Serigrafia com Igor Boyer

O caderno impresso com serigrafias
(Fotografia de Carlos Olyveira)

Serigrafia de Dinis Botelho
(Fotografia de Carlos Olyveira)
A serigrafia tem vindo a conquistar entusiastas e seguidores em Ponta Delgada e isso ficou patente no workshop promovido pelas Oficinas de São Miguel. Uma dezena e meia de participantes realizou experiências e deu azo à criatividade e liberdade gráfica. Foi um processo orientado por Igor Boyer, artista natural de Aveyron, França, bastante activo na cena alternativa francesa, e que tem participado em variadíssimos projectos colectivos bem como investido em torno de publicações e organização de eventos performativos e sonoros. O resultado, tal como podem ver pelas imagens, é sempre esta arte próxima e singular.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

A Quatro Mãos


                               “Mas de repente dou por mim a olhar para o nosso quintalinho literário e a perguntar-me: que se passa? Os escritores não precisam de estímulos? A realidade, agora a cores, basta-lhe? É ela o grande ópio? Quase tudo sóbrio e a trabalhar por obrigação. Acabaram-se os O´Neill e os Pachecos (o Luís e o Assis), os cafés e as tertúlias de onde se saía, ou de gatas ou com a cabeça cheia de ideias para escrever, ou as duas coisas juntas. Grande parte da literatura caiu nas malhas de uma triste engrenagem comercial que se julga alegre e viva, mas é cinzenta e igual. Ninguém arrisca uma gargalhada forte, satírica (Júlio Conrado acaba de dar uma, mas a gargalhada ressentida também não é sadia), a poesia anda melancólica, a prosa vive de memórias, o ensaio, depois do vigor do Eduardo Lourenço, academizou-se (e por mim falo). Falta-nos seiva (vamos buscá-la, de vez em quando, aos livros de Maria Gabriela Llansol), falta-nos a verve visceral, o humor certeiro – sempre vamos lendo o “Fora de Mercado” do Jorge (Silva Melo). A literatura que se faz será séria, sólida e serena, mas raramente nos desafia ou faz estremecer. Está a ficar frouxa. É dos tempos. (…) A escrita profissionalizou-se, é o que é, - hoje, todos temos que ser “profissionais” sem professar coisa nem causa nenhuma. E por muito que muitos continuem a dizer em entrevistas que escrever é “uma necessidade” (Necessidade? Ah, a língua portuguesa, tão traiçoeira, e tão poucos a servir-se disso, a fazer desta necessidade uma virtude!), os resultados raramente convencem.”
João Barrento, in “A Quatro Mãos”, Público, 28 de Julho de 2001.

Andar nas Nuvens

Levanta apenas a cabeça
E é o mundo a extensão do mundo
Repousem sombrios nas mãos
São esses os frutos aéreos
Respiram em ti
Na profusão da terra

Um dia inteiro sustenta os olhos
Afunda as figuras que adivinhas
Tanto persistem, sempre mais revoltas

Onde adormeces quando partes?
Abraçar o tempo, andar nas nuvens.

José Manuel Teixeira da Silva, in Música de Anónimo, edição da Companhia das Ilhas.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Se me Agiganto

Espero que te venha o sono
Que te deites cedo antes de eu chegar
Que isto de ser dois, longe de plural é tão singular

Paredes de empena já não vale a pena resta-nos arder
Que esta chama lenta já virou tormenta ao entardecer

Ninguém me diz o que há depois de nós
E se depois de nós os dois me agiganto

Eu já fui embora já marquei a hora pra não me atrasar
Já comprei bilhete, deixei-te um bilhete a descongelar
Os restos de ontem dão pró jantar

Ninguém me diz o que há depois de nós
E se depois de nós os dois me agiganto

in "Linda Martini", Linda Martini, 2018.