segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Associação Cultural Octopus: 40 anos


A Associação Cultural Octopus faz 40 anos de actividade. É com enorme orgulho que fiz parte desse movimento colectivo de organizar sessões de cinema todas as semanas numa pequena cidade costeira do litoral português. Lugar de aprendizagem colectiva da sétima arte, foi sempre um espaço de debate e de afirmação da expressão cinematográfica que se quer diversa e plural. Hoje as sessões continuam no Cineteatro Garrett já que a sala do Estúdio Santa Clara não existe mais. Este verão assisti entretanto a uma sessão de cinema ao ar livre, desta feita no jardim da casa de Manuel Lopes, um bibliotecário-cinéfilo recentemente desaparecido. Recordo, por isso, nesta data redonda a referência às palavras debutantes do grupo fundador da associação aquando do início do cineclube: "Fomentar o diálogo, a opinião crítica e a convivência, sensibilizar para a leitura da imagem cinematográfica, cultivar o cinema como arte e como forma de intervenção social e divulgar o cinema português são os objectivos que o Grupo Octopus pretende alcançar com a exibição regular de películas de autores nacionais, tão mal queridos dos habituais circuitos comerciais de exibição.”

Wine in Azores: 19, 20 e 21 de Outubro no Pavilhão de Exposições da Associação Agrícola na Ribeira Grande

Desde há algum tempo que os vinhos nacionais conquistam estantes noutros países, para além do facto de serem elogiados e terem obtido prémios nos muitos concursos existentes, muito à base dos produtores e promotores que lutam pela qualidade dos mesmos. Seria bom que o mercado mantivesse a qualidade associada ao bom vinho e barato, sobretudo para que estes continuem com um preço acessível, e que assim permaneça a garantia vinícola associada à região onde se dá a vinha e ao carácter do seu produtor. É curioso que somos poucos os que damos valor aos críticos ou então que se valorize de forma excessiva a importância que estes possam ter na "solvência" do mercado vitivinícola. O que é certo é que o vinho português aumentou a sua qualidade tal como se estendeu o seu hábito a uma boa fatia da população portuguesa, mantendo-se assim como um dos produtos característicos e identitários deste rectângulo à beira-mar plantado mais as suas ilhas atlânticas.

Da Raridade

"Todas as coisas dignas de atenção são tão difíceis quanto raras."
                                                                                                                Espinosa

Filme d´Outono: Annie Hall de Woody Allen



       "Voz de Alvy: ...eu pensei naquela velha piada, sabem, daquele tipo que, vai ao psiquiatra e diz: “Doutor, hum, o meu irmão está maluco. Pensa que é uma galinha." E, hum, o médico pergunta: "Bem porque é que não o interna?" E o tipo responde: "Eu internava-o, mas preciso dos ovos". Bem, creio que é mais ou menos isto que penso sobre as relações humanas ou entre as pessoas. Sabem uma coisa? Elas são completamente irracionais e loucas e absurdas e, mas, hum, creio que continuamos a mantê-las porque, hum, a maior parte de nós precisa dos ovos”.

Woody Allen in Annie Hall, 1977.

Verso de Tom Waits

Well I hope that I don't fall in love with you

domingo, 14 de outubro de 2018

Bella Ciao (Goodbye Beautiful) por Tom Waits e Marc Ribot

One fine morning I woke up early
Bella ciao, bella ciao, bella ciao
One fine morning I woke up early
Find the fascist at my door
Oh, partigiano, please take me with you
Bella ciao, bella ciao, goodbye beautiful
Oh, partigiano, please take me with you
I'm not afraid anymore
And if I die, oh, partigiano
Bella ciao, bella ciao, goodbye beautiful
Bury me upon that mountain
Beneath the shadow of the flower
Show all the people, the people passing
Bella ciao, bella ciao, goodbye beautiful
Show all the people, the people passing
And say, "oh, what a beautiful flower"
This is the flower of the partisan
Bella ciao, bella ciao, bella ciao
This is the flower of the partisan
Who died for freedom
This is the flower of the partisan
Who died for freedom

Chegou o Outono

              Chegou o Outono. Com ele avistam-se as primeiras beladonas  mais o seu ar colorido, singelo e festivo. Há neste lugar de tanto verde quem lhes atribua o nome “meninas para a escola”, sendo também conhecidas comummente por  açucenas. Outubro é o mês em que devemos fazer o cultivo na horta de nabos, nabiças, nabo greleiro ou ainda fazer o plantio de verbena, goivos, sálvia entre tantas outras coisas. É também o mês das grandes chuvas, do vento e dos dias líquidos tal como das folhas caídas. Daqui a pouco já podemos comer castanhas e escutar o mar em silêncio. 

Fotografia de Carlos Olyveira

Se tanto me dói que as coisas passem

Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo 
Em que as coisas do amor se eternizassem

Sophia de Mello Breyner Andresen 

Ontem, escrito numa parede da cidade

Soube dessa história pela tradição nasal

sábado, 13 de outubro de 2018

Verso de Vinicius de Moraes

Porque hoje é sábado

Onde não houver riso e sabedoria

Onde não houver riso e sabedoria 
Desata a correr larga de mão
Não cometas a imprudência dos tontos
Ainda que saibas adivinhar as marés e a queda do sol
Na cerimónia oficial dos levianos sorrisos
Recomeçar já não contém o fogo e a lava
Enquanto foges tropeças na atmosfera
Enganas por momentos o lirismo ao entardecer
Falta assim um horizonte de leveza.  

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Trespassados

“Não vão ser só os portugueses a ficar muito pobres nos próximos dez anos. Até as raças superiores terão que conter despesas e isso pode ser uma vantagem para nós: mais pobres os do Norte talvez se sintam tentados a trocar Bali ou Rajastão como destinos de férias de praia ou “culturais” em favor de lugares mais baratos: as praias e o património exótico situado nas traseiras das suas casas. Portugal pode ser um desses destinos caseiros de emergência e, em vez de investirmos em eólicas, ou seja, de atirarmos dinheiro ao vento, devíamos dedicar-nos a melhorar as praias, os acessos às praias, os hotéis, os campos de golfe, o património histórico-artístico português…e a disfarçar o melhor que for possível a devastação da paisagem urbana e rural a que nos dedicamos com afinco há 50 anos.
(…) No final de contas isto já foi tudo trespassado às raças superiores. Agora é só a questão de as convencer a aproveitarem as vantagens: o mínimo que podemos fazer é mostrar-lhes sítios bonitos, alindar esses sítios, escondermos a fealdade…e levá-las à praia.”

Paulo Varela Gomes, in P2 , Jornal Público, Abril 2011

Figueira Australiana (Ficus macrophylla)

 Ficus macrophylla no Jardim António Borges
(Fotografia de Carlos Olyveira)

Carta Tardia

Há tanto tempo.
Às tantas, achas tonta esta carta tardia.
Perco a conta aos anos: em tantos, parece que passou só um dia.
Espero que estejas bem.
Pensei bastante em ti.
Tanta mudança à pressa: vou cumprindo o programa das festas.
Tenho os mesmos dilemas mais velhos.
Sou pai de uma criança perfeita.
Em casa tenho amor, à noite canto o mar.
Manda notícias, sim?
Diz se sempre vais emigrar ou se aguentas um pouco mais por aqui.

J.P.Simões, Quinteto Tati, álbum "Exílio", 2004.