terça-feira, 20 de abril de 2021

Uma bela história, não interessa se verdadeira ou não.

     "Umberto Eco conta que, quando andava na Universidade de Turim, via todas as peças de teatro, as clássicas e as contemporâneas, no edifício municipal, entrando praticamente sem pagar. No entanto, como estava na residência universitária tinha de regressar a tempo de o deixarem entrar – a residência fechava cedo – e por isso nunca via os últimos quinze minutos das peças. Nunca sabia, então, como terminavam as grandes peças contemporâneas.
Umberto Eco conta que, tempos mais tarde, fez amizade com Paolo Fabbri, um outro estudante, que “para ganhar algum dinheiro” trabalhava no teatro, a controlar as entradas e os bilhetes e, por isso, nunca via os primeiros quinze minutos das peças. Assim, conta Eco, a certa altura, ele contava o início das peças e Paolo descrevia-lhe os finais das peças. Ficavam a saber o que acontecia pela narração do outro. Uma bela história, não interessa se verdadeira ou não.”
Umberto Eco conta que, tempos mais tarde, fez amizade com Paolo Fabri, um outro estudante, que “para ganhar algum dinheiro” trabalhava no teatro, a controlar as entradas e os bilhetes e, por isso, nunca via os primeiros quinze minutos das peças. Assim, conta Eco, a certa altura, ele contava o início das peças e Paolo descrevia-lhe os finais das peças. Ficavam a saber o que acontecia pela narração do outro. Uma bela história, não interessa se verdadeira ou não.”

 inOs Cadernos e os Dias, História Fragmentada do Mundo”, de Gonçalo M.Tavares, Revista Expresso, 16 de Abril de 2021.

sábado, 17 de abril de 2021

Abril no Almanaque do Camponez

         A aurora principia às 04h, e 17m.O Sol nasce às 07h. e 23m. De 1 a 30, os dias crescem 1h. e 12 minutos.

      O signo que domina de 22 deste mês até 21 de Maio é o Taurus e o Planeta Vénus. Promove ventos centrais secos e melancólicos. No crescente, semeia pevides de melão, melancia, cabaça, pepino, alface, milho, feijão, couve-flor, rabanetes, abóboras e tomates; planta em terra fraca e bem adubada, batata doce; enxerta; planta morangueiros, evitando o estrume de besta; sacha e pulveriza os batatais e deita-lhes bastante cinza para teres boa batata; tosquia o gado lanígero.

in Almanaque do Camponez, Repertório Crítico, Cómico e Prognóstico, 104º ano de Publicação para 2021, fundado por Manuel Joaquim de Andrade.

O Sol (ainda) Escondido

                      Fotografia de Carlos Olyveira

sexta-feira, 16 de abril de 2021

"Para os Açores ou para o Inferno"

      "Regressada a paz aos oceanos, Knud sente a necessidade de voltar a velejar para recolher material para a sua escrita e traça um objetivo: Açores. Finalmente chegara a hora de visitar as “ilhas abençoadas e temíveis”. Sonda marinheiros que vai encontrando para saber mais sobre o arquipélago, mas não consegue mais do que histórias ouvidas e recontadas. Toda a viagem é preparada a partir das informações que recolhe nas bibliotecas e enciclopédias. Toma notas sobre tudo o que lê: história, cultura, clima, geografia e geologia. Procura um veleiro e a escolha recai sobre o Sejleren, mais uma vez um velho pesqueiro sueco de onze metros. Os planos revelam-se difíceis, o núcleo familiar alargara-se e a guerra consumira recursos. Os preparativos e os custos da equipagem exigem agilidades financeiras, mas não terá sido difícil convencer a família Andersen, toda ela contagiada pela folia do mar e cansada das insanidades e provações da guerra. Um revés de última hora ameaça a viagem, as autoridades consulares portuguesas negam os vistos de entrada e, perante a insistência de Knud, ameaçam mesmo com a detenção ao primeiro desembarque em porto nacional. O escritor não se deixa abalar, embarca a família no Sejleren juntamente com livros, instrumentos musicais e jogos. Escreve a primeira entrada no diário de bordo: “Para os Açores ou para o Inferno! Dia 16 de abril de 1947, 12:00 horas”. Está dado o mote de partida. Knud tinha então 57 anos e esta seria a sua última grande viagem oceânica."

in "A Folia do Mar" de Elísio Marques e ilustração de André Chiote, in Revista FALTA nº2.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Retrospectiva de Peter Casper na Galeria Camarupa, Ilha do Faial


       Peter Casper é nome de artista do mundo, ainda que já tivesse sido das ilhas. Ele vive em Lisboa e tem uma retrospectiva dos seus trabalhos na Galeria Camarupa, sediada na Horta, Ilha do Faial. A Douta Melancolia contactou Peter Casper minutos antes dele ir ao barbeiro, aparar a franja do seu cabelo.



Doutor Mara: Uma pergunta para um milhão de euros: a arte tenta imitar a vida?

Peter Casper: Eu diria que a arte tenta perceber a vida.

DM: Nós, portugueses, somos os responsáveis pela invenção do Nónio, a Geringonça, o Pastel de Belém, a Caixa Multibanco e a Via Verde. O que é que ainda é possível inventar?

PC: Tendo em conta que a maioria das invenções que o Doutor Mara refere são praticamente contemporâneas, podemos deduzir que o espírito criativo do português não cessará com tal fugacidade.

DM: Sei que Peter Casper não considera a atitude estética uma disposição, mas sim um ato, porquê?

PC: Eu diria que é um acto que temos à nossa disposição. Uma atitude estética não é necessariamente uma acção criativa. Poderá ser contemplativa ou reflexiva, e poderá (ou não) vir a resultar num produto final palpável.

DM: Peter Casper disse um dia: "a satisfação de desejos e necessidades está sempre presente em quem cria, escreve, pinta, toca, assim como em quem observa, lê, escuta". Isto significa que não existe arte desinteressada?

PC: Sim. Em primeira instância, o processo criativo propõe-nos problemas para os quais devemos arranjar soluções. Antes de desafiarmos o olhar do público, temos de desafiar o nosso. Cada vez é mais urgente essa auto-provocação para estarmos mais cientes do nosso lugar na sociedade.

DM: O que é uma experiência estética real, concreta e verdadeira, para Peter Casper?

PC: Não há experiência estética mais concreta e verdadeira do que a pura contemplação da natureza.

DM: Peter Casper, tal como dizia Segismundo Freud e António Lobo Antunes, a arte é a infância fermentada. Corrobora?

PC: Concordo. Sou uma pessoa muito infantil. Gugu Dada.

DM: Depois de observar a sua pintura, parece que há um fascínio particular pelo primeiro gesto, a pulsão inicial dos criadores, o toque vibrante dos debutantes. É isso que procura, o gesto primacial ou fundacional?

PC: Sim. Tudo o resto é excedência, como um manto de nevoeiro que se adensa à medida que nos afastamos do nosso objecto de desejo.

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Recital de Poesia na Biblioteca Pública da Horta

 


Missiva para Janeiro Alves (tendo como pano de fundo um campo de margaridas)

                                                                                    Algures a meio do Atlântico, Abril de 2021

Caro Janeiro Alves,

 Espero que o amigo Janeiro se encontre bem de saúde! É Primavera e, por isso, caminhe-se na senda do seu vigor e potencial adquirido, rumo à sua máxima expansão! Em breve vaguearão por aqui jangadas de cagarros e faço questão de me aproximar da orla marítima só para os ouvir “falar”. Faz agora um ano em que sucumbi à luz elétrica e à carência de comunicações com o exterior, tendo valido os jovens cagarros à noitinha para me confortar da ausência humana.

A última notícia que tive sua, fiquei atónito! Uma pessoa credível contou-me que o meu amigo tinha ido passar o ano a Foz Côa numa autocaravana e que aí tinha permanecido.  Fiquei, assim, a saber que dormitou junto das gravuras rupestres, que bebeu água pura e fresca, que perambulou e pintou ao pôr do sol, para além de ter passado as noites acompanhado pelas castas Touriga Franca, Tinta Roriz e Touriga Nacional.  Deve ter sido um banho de cultura adâmica. Imagino, pois, o meu amigo a respirar todo o esplendor da arte ancestral na tentativa de encontrar inspiração para esse vanguardismo primitivo, que agora nos apresenta em retrospectiva na ilha azul.  

Curiosamente, roda neste momento no meu gira-discos, um álbum novo - “Voz de Veludo”, da cantora italiana “Áugure”, a adivinhadora, uma homenagem aos que ditavam presságios. A capa tem um V maiúsculo sobre um desenho de uma escala de índole económica. Enquanto o disco vai tocando, fixo-me no seu tema mais romântico e pungente – Apartar – “Estou afastada e solitária/ Não é desespero ou calvário/ Lento voo, fogo fátuo/ Vou daqui rumo ao espaço/”. Penso, por instantes, em todos os momentos vividos, nas dores consumidas e extintas, agora que vamos lentamente abrindo os olhos, espreitando os corpos que se movimentam em redor, perdidos que estivemos nesse labirinto de memórias e afastamento.    

Outra novidade é o facto de Miriam ter voltado a viver na cave do solar, pedindo-me muitas vezes para controlar a minha intensidade vocal evidenciada na excitação matinal, sobretudo desde que me retiraram a saudável esbórnia de outrora. Miriam está linda e contou-me, entretanto, querer voltar a passear comigo junto destes campos ornados de margaridas. É bonito, não é?

                                                                                                   Com superlativa estima,

 Doutor Mara  

terça-feira, 13 de abril de 2021

Do Trabalho

"Às escuras e em silêncio é que se trabalha."

                                                                               Lourdes Castro 

sábado, 10 de abril de 2021

Da Vida

    "Nascemos, crescemos e morremos sozinhos. O amor e a amizade dão-nos a ilusão do contrário."                                                                                                

          Orson Welles

quarta-feira, 7 de abril de 2021

PETRA, um filme de Jaime Rosales


      Um filme que pretende ser um mergulho na  própria identidade de Petra. Subitamente, tudo muda. De repente e, como se de uma cebola se tratasse, vai sendo revelada a verdade. Afinal, a verdade e a beleza sempre foram as missões clássicas da arte e não o dinheiro. Ê isso que este "Petra" nos revela, a arte não está confinada ao mercado mas sim a uma ideia profunda de verdade que todos transportamos.e...sem ressentimentos. 

domingo, 4 de abril de 2021

FLO & EDDIE

Com o tempo

Tornámo-nos bons a ser roubados

Enganados

A ver cair no chão as nossas coisas

Vê-las desaparecer entre a caruma

 

Pega na tua flor

E vai mostrá-la ao mundo

Não esperes receber porra nenhuma


Sebastião Belfort Cerqueira, in "Música Normal", Companhia das Ilhas, 2021.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Viajantes nos Açores

"O Arquipélago dos Açores constitui actualmente uma das mais prósperas províncias do reino de Portugal. Um grande número de factores contribui para o crescimento incessante de uma riqueza generalizada. Um clima ameno, um solo fértil, uma situação geográfica eminentemente favorável ao desenvolvimento de relações comerciais, uma população inteligente e laboriosa, uma administração liberal e benevolente são elementos de prosperidade – uma dependendo da acção do homem, outros inerentes à própria Região. A estas vantagens juntam-se as maravilhosas belezas naturais de que os Açores disfrutam."

             Ferdinand Fouqué, excerto de “Les Eaux Thermales de L´Ile de San-Miguel”, 1873, in Viajantes nos Açores” de Maria das Mercês Pacheco, edição Artes e Letras, 2021.