quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

O Fim de Dezembro...


 

"It's four in the morning, the end of December

I'm writing you now just to see if you're better

New York is cold, but I like where I'm living

There's music on Clinton Street all through the evening"



Leonard Cohen in Famous Blue Raincoat. 

domingo, 19 de dezembro de 2021

Um Verso de Grafeno

 Se eu fosse de fora também queria cá morar

"Fim de Semana" de Alexandre O´Neill

Estirado na areia, a olhar o azul,

Ainda me treme o parvalhão do corpo,

Do que houve que fazer para ganhar o nosso,

Do que houve que esburgar para limpar o osso,

Do que houve que descer para alcançar o céu,

Já não digo esse de Vossa Reverência,

Mas este onde estou, de azul e areia,

Para onde, aos milhares, nos abalançamos,

Como quem, às pressas, o corpo semeia.

 in Ombro na Ombreira, Publicações Dom Quixote, 1969.

Faria hoje 97 anos


 









Alexandre  O´Neill nasceu a 19 de Dezembro de 1924.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

"Ser Ilhéu" de Blanca Martin Calero

Pergunto-me se nos podemos tornar ilhéus ou se devemos
nascer numa ilha para o sermos. Pergunto-me se é possível
adoptar uma terra mãe, substituir o espaço falsamente infinito
pelo limitado, em troca de um punhado de anos. Se serei sempre
um pedaço de espaço em colisão com outros pedaços, asteroide
 num mundo de água, ou, pelo contrário, poderei ensaiar
coreografias equidistantes, formando arquipélagos de números variáveis.
Aqui, ergo-me a observar a barreira do mar ao alcance da mão.
Tornar-me-ei no rapazinho de chupeta que vem à porta ver os carros que passam?
Na velhota que dia a dia sobe e desce o declive da rua principal, pernas arqueadas, camisa
de flores, sacos nas mãos? No rapaz rude que atira a beata para o espaço entre o passeio e o pé, recusando a vida no gesto?
Feita de uma terra seca e estirada, talvez nunca me transforme
em montículos, em vincos, em bruma sobre os ombros. É possível que nunca o consiga, mesmo que tenha plantado três bonitas sementes que me transformaram as veias em verde, verde
brilhante, verde húmido. A mente–ou será a alma? – voa sem
pouso. Poder-se-á dividir entre insular e continental? Poderei desenhar dois círculos e instalar-me a viver na sua intersecção, com uma perna a balançar em cada lado? Terão as palavras o dom de conciliar o irreconciliável?  
                                                                                 
                                         in Neste Mar Imóvel, Araucária Edições, 2019.

Ontem, escrito numa parede da cidade

Qual é a cor do frio? 

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Rogério Samora(1958-2021)

 











Cartaz do filme "Matar Saudades" de Fernando Lopes

(daqui: http://www.cinept.ubi.pt)

"O Fim de um Amor" de Rui Machado

É assim a nossa história. Dá a impressão de que nada

Acontece quando tudo se espera: duas cadeiras vazias

Junto a uma lareira que ninguém aquece. E por isso

Inclino-me hoje especialmente para o silêncio

Mesmo que tenham ficado pequenas lembranças

Memórias que parecem coladas a alguma coisa

Como as gravuras inscritas nas pedras.

Se servimos para algo, para quê as mãos no fogo?

E se esticarmos a luz pela tarde para quê a sombra?

As circunstâncias foram como foram, umas urgentes

Outras carregadas de malas ou adiadas para nunca

Mas sempre excecionais na sua imperfeição. Entretanto

Escuta como se aquietou em mim o teu coração

Num diálogo velozmente atravessado por distâncias.

Horta, 11.12.2021.

Verso de Caetano Veloso

Somos mulatos, híbridos e mamelucos

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Pensamento do Dia

     "Gostamos do homem que tem a franqueza de dizer, cara a cara, o que pensa...desde que estejamos de acordo com ele...-Mark Twain. (1835-1910) - pseudónimo de Samuel Langhowe Clement, escritor norte americano. 

    -Este é o tricentésimo quadragésimo nono dia do ano. Faltam 17 dias para o termo de 2021."

in Correio dos Açores, 14 de Dezembro de 2021. 

Um Poema de Fernando Moreira

do féretro que levo na vida
ao ovni da minha esperança
a ti é hélida dorida:
 Numa noite calada
     dos meus sonhos distantes
Teci teu corpo
     na miragem do meu nenúfar
Poisei tímido
      no teu gineceu errante
E vibrante ...
      derramei em êxtase
      na minha hélida dorida
      abatida e sem esperança
      ... o último espasmo do meu
                                       corpo
  Já caía o amanhecer!

 in "Mar Branco".

Praia do Guincho

 








Fotografia de Carlos Olyveira 

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Mapear a Amizade

      Recebi há dias, via email, uma fotografia com a imagem de um exemplar artesanal do "Cavalas e Chicharros" junto de um livro intitulado "Mar Branco", com capa e badana "a sério", em que não consigo descortinar o nome do autor. Gostei da combinação, vi que ambos se ajustam na composição, coincidem no propósito de "falarem" de mar ou sugestão de aventuras piscatórias. É também uma fotografia enviada por dois amigos para este seu amigo, como quem quer provocar uma reacção, um gesto, uma emoção. O email era oriundo do grupo central do arquipélago açoriano, sítio de memórias e de baías partilhadas, mergulhos tardios depois das canseiras, canções à lareira de outros Outonos idos. Mapa e geografia de territórios de pertença emocional. Irei, por isso, omitir o nome dos autores da fotografia, aliás, sei que compuseram a fotografia em conjunto, dado que eles sabem do que falam quando se refere o valor da amizade, isto é, essa cumplicidade prolongada de que somos depósito e memória. 
    Por fim, esclareço que "Cavalas e Chícharos" é um conjunto de poemas policopiados e distribuídos a amigos próximos no início do último Verão, entregue em mãos como súmula poética de um determinado período ou fase. Este foi o segundo após "Os Poetas Também Dançam", com cerca de três dezenas de exemplares sujeitos à boa vontade e desenho gráfico do Diogo Aguiar. Será que há duas sem três? E...a faina continua!