terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Das Palavras

     "Aquilo que separa as pessoas é o facto de umas terem palavras e outras não as terem."

José Rentes de Carvalho 

O Beijo

Um rapaz beijou-me ontem à tarde
E o seu beijo era um vinho perfumado 
Tão longamente bebi nesses lábios o vinho o amor
que ainda agora me sinto embriagado.

Anónimo, Grécia, séc.I a.c, tradução de Jorge Sousa Braga 

sábado, 25 de dezembro de 2021

"Contigo aprendi coisas tão simples como" de Ruy Belo

Contigo aprendi coisas tão simples como 
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas 
só tu me acompanhaste súbitos momentos 
quando tudo ruía em meu redor 
e me sentia só e no cabo do mundo
contigo fui cruel no dia a dia 
mais do que mulher tu és já a minha única viúva 
Não posso dar-te mais do que te dou 
este molhado olhar do homem que morre 
e se comove ao ver-te assim  presente tão subitamente.

"Mutações" de Liv Ullmann

Daniel Lopes

    "
Eu procurava algo na Ilha. 
    As pessoas viviam perto da terra, perto do mar, perto daquilo que é natural e predeterminado para nós.
    O sinal que distinguia as pessoas que encontrei, quando os turistas partiam, no fim do Verão, era a sua simplicidade.
    Nenhum daqueles homens e mulheres, segundo percebi, poderia jamais ser humilhado. Viviam em harmonia com os seus eus, com tudo o que era bom e mau em si mesmos. Nenhum estranho poderia apontar para eles e fazerem-se sentir-se inferiores.
    Pessoas que confiaram no seu lugar na terra . Estavam longe de não ter complicações, não eram destituídos de exigências, ódios e agressões. Mas   possuíam orgulho, e uma dignidade que não permitiam a ninguém destruir. Tinham razões que ficaram plantadas no mesmo lugar da terra, durante toda a sua vida. 
    Muito velhos têm isso. Renunciaram a pretensões, deixaram de lados sonhos falsos, pararam com a louca corrida.
    Também são ilhéus na nossa sociedade.
    Como as crianças.
    Pessoas que não se preocupam em manter a máscara e a fachada em ordem. Que ousam mostrar quem são.
    Ilhéus.
    Pessoas que vivem de acordo com a sua maneira de pensar. Mesmo que esta não seja assim tão notável.
    De alguns deles emana uma sensação de segurança, uma coisa simples, que talvez seja a dignidade do coração." 
in excerto de Mutações, 1974, Editora Nova Nórdica, Lda.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Da Liberdade

          "Por exemplo, eu para me libertar tenho de me acorrentar a um projecto. E perante isso - como sou livre - digo a mim próprio: "Bom, não sei se o farei bem, porque sou estúpido. Deveria ter pesquisado mais". Liberto-me do facto de não ser um campeão. Sou o que sou, não mais do que isso. Sou simplesmente o que sou. E, quando aceitamos nos nossos próprios limites, somos livres. É esta a minha teoria sobre liberdade."

Oliviero Toscani em entrevista a João Pacheco, Revista Expresso, dia 23 de Dezembro de 2021.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

"Nas Nuvens" por João Decq

"1. Nuvens

Etéreas, voláteis, passageiras.
Carregadas de chuva. Contrastes de um céu azul.
Pretas ou cinza, brancas, lilases, rosa.
Sempre mutantes, sempre livres.
Prenúncios do que há de vir,
as nuvens são coisas de ver.
Se me oferecessem nuvens pô-las-ia no chão ou numa 
cama para poderem descansar. Dava-lhes chá ou
limonada. Abria-lhes todas as janelas e portas de casa
para que pudessem partir sempre que quisessem.
Toda a gente sabe que as nuvens adoram piqueniques." 
                  
                                         (...)

in Exposição de continuidade "Quatro por Quatro", Centro de Artes Contemporâneas, Ribeira Grande

"Três Andares" de Nanni Moretti no Teatro Micaelense

     “O ser espectador de cinema conta muito na minha vida. Quando, durante a pandemia, esperei que reabrissem as salas, não quis vender "Três Andares" à Amazon, à Disney, etc. Esperei que as salas abrissem. Fi-lo porque ainda antes de ser realizador, produtor ou exibidor, falo como espectador. Uma das coisas que mais me faltaram durante o lockdown foi ir ver os filmes em sala. Não é uma questão ideológica ou nostálgica. Faz parte estruturalmente da minha vida, dos meus dias.”
         Nanni Moretti,  Ípsilon, 5 de Novembro de 2021.

Tínhamos muitas saudades de ver filmes de Nanni Moretti no grande écran: a sua ironia, o seu desplante crítico, a sua forma prazerosa de fazer cinema e estar na vida. “Três Andares” não tem nada disso, não há ironia, nem identificação fácil com um único personagem. É um filme duro, tal como o tempo que nos encontramos a viver. Os seres humanos, ali evidenciados, colocam-nos questões, as vidas dos condóminos não são a preto e branco e, talvez por isso, saímos dali sem nenhuma certezas sobre o bem e o mal. Baseado num romance do israelita Eshkol Nevo, o filme “Três Andares” é um outro Moretti que emerge, muito mais próximo de Thanatos do que de Eros, ainda que haja redenção no fim de tudo isso. 

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

O Fim de Dezembro...


 

"It's four in the morning, the end of December

I'm writing you now just to see if you're better

New York is cold, but I like where I'm living

There's music on Clinton Street all through the evening"



Leonard Cohen in Famous Blue Raincoat. 

domingo, 19 de dezembro de 2021

Um Verso de Grafeno

 Se eu fosse de fora também queria cá morar

"Fim de Semana" de Alexandre O´Neill

Estirado na areia, a olhar o azul,

Ainda me treme o parvalhão do corpo,

Do que houve que fazer para ganhar o nosso,

Do que houve que esburgar para limpar o osso,

Do que houve que descer para alcançar o céu,

Já não digo esse de Vossa Reverência,

Mas este onde estou, de azul e areia,

Para onde, aos milhares, nos abalançamos,

Como quem, às pressas, o corpo semeia.

 in Ombro na Ombreira, Publicações Dom Quixote, 1969.

Faria hoje 97 anos


 









Alexandre  O´Neill nasceu a 19 de Dezembro de 1924.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

"Ser Ilhéu" de Blanca Martin Calero

Pergunto-me se nos podemos tornar ilhéus ou se devemos
nascer numa ilha para o sermos. Pergunto-me se é possível
adoptar uma terra mãe, substituir o espaço falsamente infinito
pelo limitado, em troca de um punhado de anos. Se serei sempre
um pedaço de espaço em colisão com outros pedaços, asteroide
 num mundo de água, ou, pelo contrário, poderei ensaiar
coreografias equidistantes, formando arquipélagos de números variáveis.
Aqui, ergo-me a observar a barreira do mar ao alcance da mão.
Tornar-me-ei no rapazinho de chupeta que vem à porta ver os carros que passam?
Na velhota que dia a dia sobe e desce o declive da rua principal, pernas arqueadas, camisa
de flores, sacos nas mãos? No rapaz rude que atira a beata para o espaço entre o passeio e o pé, recusando a vida no gesto?
Feita de uma terra seca e estirada, talvez nunca me transforme
em montículos, em vincos, em bruma sobre os ombros. É possível que nunca o consiga, mesmo que tenha plantado três bonitas sementes que me transformaram as veias em verde, verde
brilhante, verde húmido. A mente–ou será a alma? – voa sem
pouso. Poder-se-á dividir entre insular e continental? Poderei desenhar dois círculos e instalar-me a viver na sua intersecção, com uma perna a balançar em cada lado? Terão as palavras o dom de conciliar o irreconciliável?  
                                                                                 
                                         in Neste Mar Imóvel, Araucária Edições, 2019.

Ontem, escrito numa parede da cidade

Qual é a cor do frio?