domingo, 20 de abril de 2025
Da Ilusão
Joaquim Mendes
sábado, 19 de abril de 2025
Da Maturidade
E, de Repente, a Alegria de Manuel Vilas
"Porque mais tarde, na minha vida, percebi que comprar coisas me cria medo. E creio que é um medo que provém dos meus antepassados, porque os meus avoengos nunca puderam comprar nada. Daí o terror em relação a comprar coisas, pareço que não as mereço, é um sentimento muito difícil de exprimir, é visualmente um sentimento no qual Arnold Schoneberg se deleita a potenciar e retorce."
"E, de repente, a alegria!" de Manuel Vilas, Alfaguara, 2020.
sexta-feira, 18 de abril de 2025
A Nave dos Loucos
"Para o caos que se vive - da guerra às tarifas, das alterações climáticas às aptidões do IA, da violência entre os jovens ao excesso de informação, da liberdade de expressão à defesa da censura, etc - não são poucos os que recorrem a conceitos antigos de Psicologia (até Pacheco Pereira voltou Rousseau e a Hobbes) ou da política (como fascismo e populismo) para tentar perceber o que se passa. Pela parte que me toca, e limitando-me a voltar às àrvores, acho que estamos mesmo à nora como na história contada em "Platão e um Otorrinco Entram num Bar"...(Thomas Cathcart e Daniel Klein, Dom Quixote, 2008). É Outono e os índios perguntam ao novo chefe se o Inverno vai ser frio. O novo chefe nunca aprendeu segredos antigos, mas não querendo arriscar, manda a tribo apanhar lenha e preparar-se para um Inverno frio. Poucos dias depois, telefonou para o Instituto de Meteorologia. O Meteorologista acha que o Inverno vai ser frio. Então, o chefe aconselha a tribo a apanhar mais lenha. Algumas semanas depois, liga novamente para o Serviço de Meteorologia. Ainda acham que vai ser um Inverno frio? Parece que vai ser um Inverno muito frio! E o chefe aconselha a tribo a apanhar mais lenha. Semanas depois, liga de novo. Continuam a prever um Inverno muito frio? Estamos a prever um dos Invernos mais frios de sempre! Como podem ter tanta certeza? Porque os índios andam a apanhar lenha como loucos!"
Ana Cristina Leonardo, Meditação na Pastelaria, Público, 11 de Abril.
quarta-feira, 16 de abril de 2025
Quem Procura Sempre Encontra
Após leitura, no verão passado, de "Em Tudo Havia Beleza", Alfaguara, editado em 2019, quis muito ler o que o escritor Manuel Vilas tinha escrito a seguir. Desafio que à partida parecia simples, irrisório, dado o entusiasmo do livro anterior, e que, por isso, fui procurar ler o livro "E, de repente, a alegria", Alfaguara, 2020, começando aí a saga da sua acquisição e posterior leitura. Coisa complicada como se veio a provar. Em todas as livrarias em que fui entrando obtive um sorriso e o lamento pela inexistência deste objecto literário. Uns foram dizendo que o livro estaria esgotado, outros que demoraria a ser reposto, tal como poderia efectuar o pedido e ficar a aguardar pelo seu aparecimento na caixa do correio. Nada feito. O tempo foi passando e, animado pela vontade de encontrá-lo numa estatante de uma biblioteca, aguardei pacientemente por um acaso ou surpresa. Recentemente, no regresso à terra de nascimento e casa paterna, decidi entrar numa livraria, insistir de novo e tentar a minha sorte. E, eis que de repente, através de uma livreira atenta e informada, adquiri o livro que me devolveu a alegria do reencontro com este autor.
A Piedade do Tempo
vivem ainda
a arder, aquelas coxas?
que voltam agora a ser o milagre que foram:
desejo de uma carne, e a alegria
do que não se nega.
que já nunca saberemos se existiu,
pois só pertence a um lugar extinto.
Cipreste de João Habitualmente
vi que caminhaste
e te despiste
(a roupa na sombra da árvore
dependurada do nada)
o leito agreste
nadaste
depois saíste.
Sem Sair do Lugar
terça-feira, 15 de abril de 2025
O Azul de Francisco Brines
em areias desertas. Houve amor
no recanto florido de um jardim
fechado. E quis achar palavras
que alguém pudesse amar, e elas valeram-me.
Estou a chegar ao fim. Cega meus olhos
um desolado azul iluminado.
A Minha Praia de João Habitualmente
Da pedra sobre pedra
Com que fomos compondo nossos ninhos
Seremos ruína
Arqueologia dum tempo sulfúrico
Betão desgastado ferro torcido
Nada falará
Só o cosmos em festa
Libertado da sua verruga
Será assim, a nossa ausência
Um silêncio para sempre
Nada que perturbe a perfeição dos ventos
Mas, por agora
Resta ainda a minha praia favorita
Com encontros à ilharga
E um mar nítido como nos postais antigos

