domingo, 30 de novembro de 2025

XVI Curtas Açores: Há Cinema Insular?

     Terminou ontem o Curta Açores na Ribeira Grande, após 30 fimes a concurso, vistos na sala do Teatro Ribeiragrandense, com abertura a toda a população e, sobretudo, aos que ainda valorizam a sétima arte na tela grande. Durante os dias da semana houve também sessões de cinema dedicadas à juventude estudantil a residr no concelho com dois blocos de curtas-metragens pela manhã e outra à tarde. 
A Mulher que Morreu de Pé 
de Rosa Coutinho Cabral 
   As sessões de sexta e sábado foram marcadas pela exibição de dois filmes realizados em território açoriano: São Miguel e Ilha do Pico. O primeiro foi "A Mulher que Morreu de Pé", da realizadora, Rosa Coutinho Cabral, acompanhada pela sua trupe de actores: Leonor Cabral, Lídia Franco, João Araújo, Carolina Bettencourt, Paula Guedes, João Cabral, Mariana Pacheco Medeiros, Leonor Seixas, Sergio Ferrajota e ainda a bailarina Milagros Paz e a escritora Ângela Almeida. Trata-se de um documentário ficcionado em torno de uma figura açoriana maior do século XX: Natália Correia. Aqui vemos uma mulher multifacetada que se diversificou em acções e funções, espelhada neste mosaico de interpretações e situações a que estes actores e actrizes lhe deram corpo e voz, como se de uma colagem se tratasse. Um documento visual importante para revivermos e relermos a figura controversa e dilacerante de Natália Correia. O filme de sábado foi "First Date", de Luís Filipe Borges, trouxe-nos dois actores, Ana Lopes e Santiago Melissa, em torno de um primeiro encontro à volta do colosso do Pico. Esta curta-metragem de quinze minutos acabaria por levar o prémio "Curta Açores" bem como esteve na origem a um debate plural e bastante crítico sobre o papel da sétima arte e dos filmes realizados em solo insular. Durante a sessão de encerramento foram também homenageados o professor e cineclubista, Paulo Ruas, a realizadora açoriana, Rosa Coutinho Cabral, e ainda o actor, Ricardo Carriço. 

sábado, 29 de novembro de 2025

O Corpo Ardeu

Atirámos um homem do penhasco abaixo,
Toda a aldeia reunida  no adro;
corremos sobre ele aos gritos 
fizemo-lo cair de grande altura.

O padre disse que agora, sim, é
que começa a verdadeira vida 
e eu pensei com muita força e muita fé:
mete a verdadeira vida no cu.

Acordo a meio da noite com uivos das pessoas sãs.
Prendem um homem no manicómio
atam-no à cama, enfiam-lhe comida
pela goela abaixo, engordam-lhe o fígado.

Ele tinha um anjo dentro da cabeça 
sempre a lavá-lo, a voá-lo muito 
para lá das nuvens, repuxava-lhe os fios
forçava-os a uns esgares, uns dizeres obscenos.

Quando o deixava a planar a meia altura
a uns quinhentos metros, digamos, uma
corrente inesgotável de lenços coloridos
saia-lhe da cartola, com as músicas mais belas 

Tanto medo da loucura,
tantas verdades incómodas ali à mostra,
tantos segredos insuportáveis.
Vamos estabilizá-lo, disseram.

Quero escapar, morrer,
arder-vos por entre os dedos
ó boas pessoas, ó sãos de espírito,
ó assassinos, adeus.

João Paulo Esteves da Silva, in Doutor Tristeza, Mia Soave, 2015.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Sozinho de Ângelo de Lima

Quando eu morrer m´envolva a Singeleza,
Vá sem Pompa o caminho do coval, 
Acompanhe-me apenas a tristeza 
Não vá do bronze o som de val´em val!

Chove o céu sobre mim de orvalho as bagas
Luz do sol-posto fulja em seu cristal,
Cantem-me o «dorme em paz» ao longe as vagas,

Gemente a viração entoe o «Amén»
Vá assim té ermas, afastadas plagas...
Lá...fique eu só! 

Não volte lá ninguém!
in Doutor Tristeza, Mia Soave, 2015

terça-feira, 25 de novembro de 2025

59 de Manuel Zerbone

       "(...) Não sei bem porque sinto esta necessidade de deixar transparecer uma melancolia triste que me envolve, sem causa que eu possa precisamente determinar. Mas, todavia, é assim.
      Nem já os campos me alegram, essas crianças eternas, que despem cada Inverno o manto suavíssimo das suas ilusões, para novamente se enfeitarem com ele nas suas Primaveras que se sucedem; nem o mar com os seus suspiros de ternura, nem com os seus rugidos de cólera, nem com a sua vastidão imensa, por cima da qual o meu espírito paira e se agita às vezes, como a pena caída da asa de uma pomba, pode vogar em baldões, à tona de uma niágara que se despenha em cascatas de espuma. 
       Quando assim anda enlutado o nosso espírito, a ponto que nem mesmo a música
, esse bálsamo consolador de todas as amarguras, pode fazer-lhe bem, em tudo vemos um motivo tristeza, e os nossos corações abrem-se facilmente para receber e compreender as mágoas daqueles que nos parecem ainda mais infelizes que nós."

14 de Novembro de 1886, in Crónicas Alegres, 1884-1888, Organização Carlos Lobão e Urbano Bettencourt, Edição Núcleo Cultural da Horta. 

Novembro de Almeida Firmino

Vão em romagem de silêncio
Ao cemitério do seu berço 
(Os crisântemos junto ao peito
Num jeito de contrição)
Depor as pétalas de saudade 
Nas compras do perdão.

No aceno breve do seu olhar 
O diálogo mudo de mágoa
Só memória e asa...
E se vão calados, tristes e sós 
Mais tristes e sós voltam a casa.

Não estão longe os seus mortos, não...
Vivem aqui perto e felizes 
À sombra dos ciprestes 
Bem junto ao coração.

Mas os meuss que ficaram 
(Feitas as malas e a viagem)
Para lá do mar a distância...
Como tocar a sua imagem?


in Narcose, Obra Poética Completa, Colecção Gaivota/27, 1982, Secretaria Regional da Educação e Cultura

Da Terra...

        Mas pouco a pouco descobrimos que não ouviremos mais o riso claro daquele companheiro; descobrimos que aquele jardim está fechado para sempre. Então começa o nosso verdadeiro luto, que não é desesperado, mas um pouco amargo. Nada jamais, na verdade, substituirá o companheiro perdido.  Ninguém pode criar velhos companheiros. Nada vale o tesouro de tantas recordações  comuns, de tantas horas vividas juntos, de tantas reconciliações, de tantos impulsos afecxtivos. Não se reconstroem essas amizades. Seria inútil plantar um carvalho na esperança  de ter, em breve, o abrigo de suas folhas. 

Antoine de Saint-Exupéry, Terra de Homens. 

Verso de David Sylvian

 Come lead me through the morning for the land that I long to see again 

Do Outono

       O facto pelo qual prefiro o Outono à Primavera é porque no Outono olhamos para o céu, na Primavera para a terra. 

Soren Kierkegaard 

Debaixo do betão...

Fotografia de Jorge Kol de Carvalho 
 

domingo, 23 de novembro de 2025

Deriva Litoral de Sofia Barata

Clube de Cinema da Ribeira Grande 
Exibido dia 21 de Novembro de 2025
18h30
           O documentário de Sofia Barata sobre a erosão costeira conta já uma década de existência da sua realização mas só agora foi possível vê-lo nestas paragens. O diagnóstico é preciso – as praias estão cada vez mais pequenas, o mar vai ganhando terreno e ameaça a segurança de pessoas e dos seu bens materiais.
        As razões desta erosão? Essas são múltiplas, aqui esclarecidas por Ana Carrilho, Bruno Pedrosa, Cátia Azevedo Clife, Pedro Hugo, Domingues Laura Tubarão e Tiago Abreu. Ao longo dos seus 75 minutos, Deriva Litoral mostra-nos imagens da costa portuguesa e a acentuada erosão das suas praias. Uma reflexão da situação actual será cada mais premente e necessária. 

Do Abrigo

   "Talvez o problema seja confundirmos segurança com hostilidade. Queremos cidades aparentemente perfeitas, mas a humanidade é desarrumada por natureza. Faz barulho, ocupa espaço, cheira a sopa e cigarro. Uma cidade que não tolera isso é uma cidade que deixou de ser casa."
 Catarina Valadão, in "A Cidade que não sabe ser um abrigo", Açoriano Oriental, 22 de Novembro, 2025. 

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Filipe Furtado: As Primaveras Outonais!

  “Como Se Matam Primaveras” é o título do novo trabalho musical de Filipe Furtado Trio, três anos depois de “Prelúdio”, álbum debutante. Este novo trabalho anuncia uma transição gradual da guitarra para o piano, onde Filipe Furtado partilha o palco com os músicos Paulo Silva (bateria) e ao Filipe Fidalgo (saxofone). 
       Desta feita a solo, o músico açoriano prepara-se para voltar a casa em Dezembro e tocar num concerto ilustrado no FLOP – Mercado da Banda Desenhada e do Fanzine, no próximo dia 6 de Dezembro, na Biblioteca Arquivo Municipal, em Ponta Delgada. Entretanto, a Douta Melancolia conversou com ele para atestar o seu estado musical.

Douta Melancolia: “Como se Matam Primaveras” é o teu novo álbum editado no fim de Maio. Como é que foi o processo até chegares à edição?
Filipe Furtado: Quando o Prelúdio sai a público, com as demoras inerentes a um primeiro lançamento, já estava noutra fase de pensar a minha linguagem e a minha composição e já a iniciar o processo de fazer novas canções, de continuar a compor material novo. Depois foi começar a trabalhar esses temas com o restante trio, integrar alguns nos repertórios ao vivo, de forma a muscular essas composições, perceber que caminhos poderiam seguir. Nas questões pragmáticas de gravações, mistura e masterização levamos quase dois anos a terminar o álbum.
DM: O que é que estás a preparar para os concertos ao vivo?
FF: Os concertos ao vivo são onde a magia acontece. Todos os concertos são diferentes, principalmente, onde pode haver mais improvisação. Tento sempre pensar como posso fazer as coisas melhor ou de forma diferente, muitos vezes ajustando também ao estado de espírito com que subimos a palco. Alguns poemas do álbum ganham um outra vida em palco, trocamos as sonoplastias e os floreados minimalistas por uma nova vida harmónica e melódica, de forma espontânea que nós os três seguimos intuitivamente. 
DM: Quais são os motores essenciais à criação/processo criativo das novas músicas?
FF: Penso que, em primeiro lugar, essa transição gradual da guitarra para o piano. Sentia que a guitarra, o meu primeiro instrumento, já não me permitia percorrer os caminhos que começava a imaginar para a música que queria fazer/escrever. O tempo também é um factor de mudança grande. O "Prelúdio" havia sido o primeiro álbum, inevitavelmente para mim um compêndio com as primeiras experiências a compor, a escrever, a musicar poemas e, ainda para mais, já desfasado no tempo. Um segundo álbum já vem com outra maturidade, menos desconhecimento sobre todo o processo de gravar um álbum, vem com essas outras referências que passara a escutar com outra atenção. Vem, certamente, muito da experiência em palco que fui adquirindo e desenvolvendo com o Paulo e com o Fidalgo enquanto trio. Em função dessa possível maturidade também uma escrita que também transmita maior pensamento e questionamento político e filosófico. Claro, a tentativa de abordar a música próxima de linguagens do cinema ou da fotografia. Interessa-me muito essa ideia de viagem, da viagem que esses formatos nos permitem também pela nostalgia, pela melancolia, porum contexto do tempo e espaço. Foi propositado todo o processo fotográfico analógico para as capas de singles e do álbum "Como Se Matam Primaveras". Os livros são sempre uma foto importante para imaginar e dar corpo a canções. A "Ada" é uma leitura musical sobre um romance de Vladimir Nabokov com o mesmo título, por exemplo, um dos escritores que lia ainda nos tempos das aulas de literatura russa na Faculdade de Letras de Coimbra.     
DM: Este disco dá continuidade ao “Prelúdio”?
FF: Acho que o único elo de ligação é ao single do "Prelúdio", a canção "Uma Coisa Linda de Morrer", que havia sido a última a integrar o alinhamento do primeiro álbum e já representava uma transição para o piano, para os teclados. Entre nesses novos horizontes instrumentais e cinematográficos que começava a procurar. Há um afastamento óbvio da guitarra, até dessa influência muito grande do cancioneiro do Brasil, da Bossa Nova. Estava a voltar a querer abraçar o jazz, pelo menos nas suas formas contemporâneas menos verticais, mais abrangentes. Comecei a ouvir muito a cena UK Jazz, que é uma mistura muito grande e muito versátil. 

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Tira o Disco e Toca ao Vivo

A Indústria Musical em Portugal
João Gobern

     A pequena indústria musical portuguesa  mudou muito nas últimas décadas, parece ser esse o diagnóstico  feito pelo jornalista João Gobern. A começar pela ideia de que "antes faziam-se concertos para vender discos. Agora editam-se dicos para conseguir concertos.". A difusão das bandas e dos seus trabahos é a norma visível num tempo em que as plataformas electrónicas de divulgação jogam um papel fundamental no acesso do público às bandas com mais audiência, que depois podem ou não realizar concertos. A edição deste ensaio do antigo director do semanário musical Se7e pertence à Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Do Estudo

 Estudo sugere que primeiro beijo pode ter surgido há 21 milhões de anos
in Jornal Expresso, Lusa.