sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Baloiço nas Caixas do Correio

          Entrar nos correios com cartas, envelopes, selos, e logo espantamos quem nos vê carregados daqueles papéis de outros tempos, embrulhos e encomendas de quem ainda não renunciou ou cansou de surpreender na caixa do correio. Esse foi, certamente, o mundo em que crescemos, um verdadeiro e distinto universo de caligrafias, moradas ou ainda pessoas que nos batiam à porta a confirmar endereços ou, simplesmente, a lembrança daquele Inverno da juventude em que bateram à porta para entregar o “Psycho Candy”, dos The Jesus And Mary Chain, numa caixa de papelão com os dizeres - contém disco!
Fotografia: Ester Gutzovà
      Hoje, tudo isto nos parece ultapassado, anacrónico, tal como se escrever postais ou cartas fosse do tempo da invenção do papiro ou ainda da tipografia de Gutenberg. Há, inclusive, países a cancelar o envio de cartas por falta de destinatários, enquanto estas notícias se dão como se de um mundo novo emergisse e nos trouxesse alguma paz ou sossego. Nada disso irá acontecer, acreditem.
      A deslocação é, pois, ao edifício dos correios para enviar um conjunto de “Baloiços” a todos aqueles que aqui não habitam e que não puderam estar na apresentação desse pequeno livro de poesia no Festival Bom Colesterol. Foram muitos? Alguns. Será que os livros ainda chegarão este mês? Aguardemos de forma esperançosa que sim.
       Na verdade, continuemos a escrever postais, cartas, façamos encomendas e partilhemos coisas de que nos orgulhamos e gostamos. Temos todas e mais algumas razões para continuarmos a fazê-lo e que poderíamos fazê-lo ainda mais de forma vasta e muito mais profunda. É que é sempre tão surpreendente abrir a caixa dos correios. Basta vontade!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O Meu Poema é Isto de Rui D. Rodrigues

Rui Duarte Rodrigues
Edição do IAC

Instituto Açoriano de Cultura
   Foi em 1970, aos 18 anos, que este editou o seu primeiro livro: “Os Meninos Morrem Dentro dos Homens”. Esse foi também o ano em que Salazar faleceu com 81 anos e que Jimi Hendrix, um dos maiores guitarristas de todos os tempos, deixou o mundo dos vivos, com apenas 27 anos.
      Rui Duarte Rodrigues, natural da Ilha Terceira, foi um conhecido jornalista angrense que desapareceu do nosso convívio na Primavera de 2004. Destes seus poemas de juventude até à idade adulta – o poeta só publicou apenas mais um livro (“Com Segredos e Silêncios”, 1994) – permanecendo desse seu gesto uma poesia implicada com o real, testemunho de um tempo vigoroso em que as palavras se empenhavam em expressar utopias e sentimentos, num empenhamento político-social intenso e comprometido.
          Registe-se, pois, esta edição do IAC (Instituto Açoriano da Cultura) intitulada “O Meu Poema é Isto - Poesia Reunida”, de Rui Duarte Rodrigues, num trabalho elaborado pelo linguísta Luís Fagundes Duarte. Saúde-se e torne-se, então, a ler poemas de um tempo em que a infância se perdia para sempre e os sonhos consumiam-se nos corpos juvenis que se tornavam velozmente adultos: “Os meninos/ morrem dentro dos homens/ na volúpia escaldante de corpos pegajosos/ em negros e agudos penedos dos profundos abismos do desengano/ na luta do pão/ mel a escorrer das fontes de servidão/ os meninos/ morrem dentro dos homens/ à carícia cada vez mais nostálgica do sol-poente / à descoberta do segredo guardado e resguardado/ e afinal efémero, fortuito e banal.”. A interrogação impõe-se: será que ainda podemos renascer? 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Em Escuta...

   Este é um disco-documento daquilo que se passou no Ljubljana Jazz Festival,  em 1970, 1972 e 1973, registado pela Radio-Tv de Ljubljana, capital da Eslovénia.
   O disco abre com o piano de Bill Evans que anuncia “Nardis”, tema de Miles Davis, em quinze minutos de jazz deambulante entre Eddie Gomes no baixo e Tony Oxley na bateria. Na segunda faixa deste lado A escutamos o clássico de Williams “Monk” - “Round About Midnight”, aqui na voz de Karin Krog e o baixo de Arild Andersen. O Lado II é ocupado com o tema “Sonny´s Back”,  assinado por Grachan Moncur, e conta com as presenças de Archie Schepp (saxofone tenor), Dave Burrel (piano) Don Garret (baixo), Suzanne Fasteau (percussão) e Mahammad Ali (bateria). O disco termina com uma faixa intitulada “The Creators”, pertença de Herbie Lewis, e que conta com os músicos Bobby Hutcheson (vibrafone), Harold Land (saxofone tenor), Hal Galperp (piano), Reggie Johnson (baixo) e Joe Chambers (bateria). Jazz em estado puro.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Mano a Mano: Inspiração nas Sombras

    A dupla começou o concerto de forma discreta sem qualquer apresentação num diálogo de guitarras com as sombras a surgirem por detrás do palco, visíveis através da performance de Tiago Martins. Os músicos de “Mano a Mano” são os irmãos André Santos e Bruno Santos que tocaram o tema inicial "Caixa de Música - o Baile do Anjo",  enunciando desta forma um tributo carregado de sons extraídos de cordas ao desafio. Estamos, por isso, em Janeiro, e foi preciso esperar por “Agitações”  para que o ambiente aquecesse, sendo que a toada musical fosse  crescendo com a faixa "Sol e Sombra", até começarmos a ouvir a voz de Lourdes Castro em “Murmúrios do Mar Embalam os Calhaus” ou ainda o poema “Lourdes Castro – Rua da Olaria” no tema “Uma espécie de Pacto”, na voz do poeta José Tolentino Mendonça. O espectáculo terminaria da melhor forma num tema intitulado "Ein Herz", uma cadência repetitiva de baixo com o gravitas sonoro em crescendo, faixa composta por André Santos, sendo a mais intensa e perfeita para fechar este inspirado tributo à artista Lourdes Castro. 
      No final, os músicos deslocaram-se à entrada da Blackbox para assinar o disco “Trilogia das Sombras”, um objecto gráfico pensado e elaborado pela artista plástica madeirense, Carla Cabral. 

Agente Secreto: Três Globos de Ouro!

   Kleber Mendonça venceu três Globos de Ouro  na cerimória do dia 12 de Janeiro, com o seu filme Agente Secreto. Os três prémios foram para Melhor Actor (Wagner Moura), Melhor Filme de Língua Estrangeira e Melhor Filme Dramático. 

DIa 21, no Teatro Ribeiragrandense

às 18 horas 

 

Da Sabedoria

      A grande sabedoria, penso eu, é ter um sentido relativizado de tudo. Não dramatizar nada.
José Saramago

Até 1 de Fevereiro, no CAC

 Um calhau é uma obra prima

Lourdes Castro

sábado, 10 de janeiro de 2026

Sobre a lírica de Camões...

        A lírica de Camões é a nossa Vénus de Milo, o nosso Laocoonte descoberto, os nossos Bronzes de Riace, os nossos sarcófagos etruscos, a nossa Capela Sistina, a nossa música de Bach. A lírica camoniana pertence a essa ordem porque é um lugar onde a língua e o pensamento afirmam acerca da vida qualquer coisa que não estava dita, pelo menos naqueles termos absolutos, naquela forma incomparável, passando a alargar as fronteiras do conhecimento humano. Na verdade, apreciar simplesmente o mérito cultural de um grande livro de poesia é um incipiente exercício escolar. Um grande livro de poesia é um dispositivo de diagnóstico de alta precisão que permite a captação de imagens (como fazem os aparelhos de ressonância magnética ou as sondas espaciais), úteis para a compreensão das estruturas internas de um determinado sistema, seja o corpo de um homem ou universo. A lírica de Luís Vaz de Camões é um detentor de intensidades: um mega scanner que permite visualizar, traduzir em dados e conservar o enigma do real; é um decifrador dos nossos códigos mais decisivos. 

José Tolentino Mendonça, Lírica de Camões - Antologia: Amor é um Brando Afeito, Expresso, Janeiro de 2026.

Janeiro de 1904 de K. J. Kaváfis

Ah, as noites de Janeiro,
fico sentado enquanto a mente recompõe
aqueles momentos, e encontro-te,
e oiço as nossas últimas palavras, e oiço as primeiras.

Desesperadas noites deste Janeiro,
quando a visão se vai, deixando-me só.
Tão apressada que parte, e dissolve-se - 
e lá vão árvores, lá vão ruas, lá vão casas, lá vão luzes:
apaga-se e perde-se a tua desejada forma. 

in Aquele Belo Rapaz, Poesias Completas, Assírio & Alvim, Novembro de 2025. Tradução de José Luís Costa.

Campeões de Inverno

Portugal, 1976
Fotografia:Josef Koudelka