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segunda-feira, 12 de maio de 2025
A Meio de Maio a Dialética!
Raul Brandão escreveu, no início do século passado, o seguinte: “Era decerto condão das flores - mas também de Maio que chegou, com a sua magia e o seu sonho. Rebentaram novas fontes, e a terra di-la-eis agitada e viva. Sob o chão que calcamos correm rios de tintas que transbordam e cobrem as árvores de roxo, de púrpura, de verde.” Os dias irão continuar, assim, dilatados e lentos, permitindo ao nosso olhar a contemplação do horizonte marítimo até altas horas, investindo nessa crença de redescoberta do cheiro das flores e dos sabores da terra. É altura de despertarmos todos os sentidos bem como em nosso redor começam novos ciclos que desejamos partilhar e contemplar.
domingo, 27 de abril de 2025
Primavera Geradora de Temperaturas Aleatórias
Os
dias primaveris estão maiores mas ainda pouco dados a mergulhos no mar. As
flores dão sinais do seu despertar após tantos dias de intensidade líquida. O
verde começa a pintar a paisagem e o nosso olhar serena perante o seu
esplendor. Os filmes mais pertinentes e interessantes, na televisão pública, passaram sempre a altas horas
da noite e é de questionar que público se pretende alcançar. Daí que fomos assistindo, madrugada adentro, a "Cerrar los Ojos" de Vitor Erice ou a "Licorice Pizza" de Paul Thomas Anderson. A
horas mais convenientes, assistimos, no Cineclube Octopus, a "No Other Land", de
Basel Adra, Hamdam Ballal, Yuval Abraham e Rachel Szor. E, que falta nos faz, em
todo o lado e em qualquer lugar público, cinema na tela grande, acompanhados por outros tantos dispostos ao convívio, à conversa e à partilha da paixão pela sétima arte.
Comeram-se, entretanto, as primeiras sardinhas do ano, longe ainda de serem gordurosas com o óleo a cair no pão, mas para lá caminham. Abril irá findar e é o mês das flores que aguardamos com alegria. Que se abram as portas para Maio entrar!
Comeram-se, entretanto, as primeiras sardinhas do ano, longe ainda de serem gordurosas com o óleo a cair no pão, mas para lá caminham. Abril irá findar e é o mês das flores que aguardamos com alegria. Que se abram as portas para Maio entrar!
domingo, 22 de dezembro de 2024
2025: Cada Vez Mais Vida!
O
ano chega ao fim e com ele surgem as listas dos filmes, dos livros, dos discos,
das viagens e das músicas que, supostamente, devíamos ter experienciado ou vivido. O diagnóstico é
sempre o mesmo: tanta coisa ficou por fazer no ano de 2024. E o que é verdade é que permanece sempre uma
descomunal aflição pelo que não ouvimos, não lemos, ou sentimos, por tudo
aquilo que, segundo os críticos, os especialistas, os influenciadores,
sobretudo no que nos faltou viver, talvez, sentir. Podemos, é certo, falar mesmo numa bioansiedade, isto é, uma ansiedade por viver cada vez mais! No gira-discos caseiro, a agulha
volta sempre ao princípio para ouvir o Leonard Cohen a tocar o “Famous Blue
Raincoat” e, com ele, seguir a luz do horizonte e do cenário das araucárias com os versos:
“It´s four in the morning, the end of December”. Há, por isso, qualquer coisa
que parece estar sempre a faltar, uma inquietação interior que não se enquadra
dentro de qualquer ordem ou substância material do universo. E…de repente temos
a sensação que o mundo se encontra em falta, em declínio, a autodestruir-se. Ao
mesmo tempo que olhamos em redor e sentimos de viva voz que o mundo está
doente, que se encontra em retrocesso acelerado, uma regressão energética e
civilizacional. Tornamo-nos, assim, insensíveis ao sofrimento do mundo, à queda
das bombas, ao caos generalizado. O que fazer?
Não falta quem nos diga que temos uma
enormíssima crise climática pela frente, acompanhada por uma galopante inflação
e demais guerras em marcha, conflitos sociais internos e externos e, para nossa
desgraça, diminuição de investimento em políticas públicas – saúde, educação,
cultura, habitação, transportes. Por parte da juventude, os sinais bem que podiam ser de esperança, no entanto,
surge a dúvida, já que à nossa frente existe uma comunidade que se abotoa ao
sedentarismo, à lógica dos écrans e das redes, uma forte resistência à
ilustração sem visão crítica do mundo. E, cúmulo dos cúmulos, há também muita
juventude sedenta de autoritarismo, preconceito e visões securitárias dos
estados democráticos em que vivemos. O mundo está muito perigoso, aliás, sempre
esteve!
Não falta quem nos diga que temos uma enormíssima crise climática pela frente, acompanhada por uma galopante inflação e demais guerras em marcha, conflitos sociais internos e externos e, para nossa desgraça, diminuição de investimento em políticas públicas – saúde, educação, cultura, habitação, transportes. Por parte da juventude, os sinais bem que podiam ser de esperança, no entanto, surge a dúvida, já que à nossa frente existe uma comunidade que se abotoa ao sedentarismo, à lógica dos écrans e das redes, uma forte resistência à ilustração sem visão crítica do mundo. E, cúmulo dos cúmulos, há também muita juventude sedenta de autoritarismo, preconceito e visões securitárias dos estados democráticos em que vivemos. O mundo está muito perigoso, aliás, sempre esteve!
terça-feira, 27 de fevereiro de 2024
Março Marçagão...
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| Mova Dreva de Katerina L´Dokova Festival Prolíficas 2024 |
Eis, assim, que Fevereiro, um mês de pavio muito curto, se despede. E, como foi bom em termos musicais, auspicioso e fugaz, já que recentemente ouvimos a Sara Cruz e a Marianna em cantorias crescentes com vista para o mar e lua cheia, ouvimos estas cantoras açorianas no andar de cima do Centro de Artes Contemporâneas – Arquipélago, ambas por ali à cata e à descoberta do seu lugar no mundo das canções. Duas cantautoras, portanto, convidadas que foram deste festival de mulheres compositoras, criativas e prolíficas que encheram o Arquipélago no fim de tarde de sábado para ouvir as suas canções, já que no domingo escutámos a Diana Botelho tocar ao piano peças de Ana Paula Andrade, Ângela da Ponte, Constança Capdeville e Teresa Gentil. Pelo meio, apreciámos a instalação “vibrante” de Ângela da Ponte em exposição e audição, numa composição que contou com a colaboração na sua materialização do mestre António da Ponte. E, por último, o concerto do fecho com Katerina L´Dokova, mostrando as canções do seu álbum Mova Dreva, naquele seu périplo de sonoridades tradicionais da Bielorrússia, misturando roupagens do jazz com outras derivações clássicas e contemporâneas. Um fim de semana, portanto, recheado de sonoridades no feminino que releva com suma importância a existência de dias claros e harmónicos para enfrentar o Inverno derradeiro que se avizinha.
quinta-feira, 31 de agosto de 2023
Fim de Agosto
Lembro-me de quando Agosto encerrava, quando este mês cumpria o derradeiro dia, os meus olhos humedeciam. Não sei precisar em
que altura é que isto aconteceu mas sei que já possuía a consciência de que a
felicidade tinha prazo de duração. A felicidade terminava no instante em que
deixávamos de ouvir a palavra Agosto pronunciada amiúde em todos os lugares aí
frequentados: na praia, na esplanada, no quiosque, no café, nas conversas entre
amigos. Os últimos dias de Agosto eram vividos com tal intensidade que ninguém
se lembrava das horas para almoçar ou jantar e o regresso a casa era feito
quando o sol se despedia. O último dia de Agosto era o verdadeiro sinal de que
todos nós morríamos um pouco, não que o verão findasse ali, mas porque de um
momento para o outro tudo se esvaziava, o silêncio impunha-se de forma cruel e violenta, e já não sabíamos o que fazer quando
Setembro entrasse de rompante. Recordo, também, um primeiro dia de Setembro em que a praia se
encontrava deserta e por isso não quis olhar o mar, cerrei os olhos e voltei de imediato para casa.
Esperava-me um calendário que ainda não tinha sido alterado e assim permaneceu
até ao ano seguinte.
terça-feira, 25 de abril de 2023
25 de Abril: A Democracia Continua...
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| Fotografia de Tânia Neves dos Santos |
Esta
data do 25 de Abril de 1974 é um momento fundacional da democracia portuguesa.
“Vem aí os canhões” ouvia-se na rua enquanto se encostavam as bicicletas à
parede e se bebia um pirolito ou se comia um gelado, que não era mais do que um pau de gelo com açúcar. À rua, onde
brincávamos, começaram a aportar meninas e meninos que os nossos país apelidavam de
“retornados”, e que aos nossos olhos traziam o colorido e alegria na roupa, o
açúcar e a fantasia no linguajar, a leveza nos modos e trejeitos. A seguir, em
casa, aparecia a televisão a preto e branco, os jornais e os livros do “Círculo de Leitores” ou das bibliotecas da
Gulbenkian. No entanto, a música que saía dos transístores e das cantorias parecia triste, demasiado triste. Às vezes havia festas, romarias, procissões e futebol
ao domingo à tarde com chapéus de papel na cabeça. Namorar, cortejar e ir à
praia fazia-se sempre com culpa, com medo e receio da opinião dos outros. Uma
coisa é certa: passaram-se muitos anos e os canhões não vieram, ainda que a evocação destes povoassem durante muito tempo as brincadeiras de rua. A democracia, essa, continua…
sexta-feira, 26 de agosto de 2022
Velhos Hábitos
O
que acontece quando o jornal que pretendemos comprar não chega? É verdade que podemos
ler o mesmo na internet, no tablet ou nesses écrans espalhados por todo
o lado, pois há páginas de jornal online de todo o mundo disponíveis num abrir e
fechar de olhos. No entanto, há também hábitos antigos que teimam em desaparecer. É difícil,
mesmo muito difícil desistir desse velho costume diário de sair de casa com o propósito
de comprar um jornal de que gostamos para assim poder lê-lo em algum café,
balcão ou esplanada. É que nessa demanda está implícita a procura do seu local
de venda em determinado espaço citadino, envolvendo uma rotina que se repete quotidianamente que
só uma grande paixão abarca, pautada pelo movimento e exercício de um
determinado ritual, que ao longo do tempo foi resistindo e permanecendo. Até quando?
sexta-feira, 25 de novembro de 2016
Uma Janela para o Fim de Novembro
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| Fotografia Germana Eiriz |
De cabeça e corpo na brecha que dá para a cidade
insular e, como tal, não há qualquer regresso possível às ruas da infância onde,
por sinal, ainda há quem nos aguarde. A luz do tempo é serena. A acritude foi substituída pela
esperança e, talvez por isso, é como se nunca tivesse havido partida para longe
ou para sítio algum. A haver errância seria de resignação e permanência. O olhar
pousa agora sobre o cinza da paisagem e dos telhados citadinos. Desta feita são as
memórias que evitam que o desencanto se instale. Parte-se assim pelo interior dos dias adentro até à indagação de cantos e vozes deste tempo confuso, difuso, repleto de
oportunidades por cumprir. Outro tempo é também enviado pelo Alexandre, exímio
guitarrista, que aprendi ouvir desde muito cedo, revelador de trilhos e veredas, que
nos esclarece em suplemento de espectáculos as vias com que agora se cose
as malhas da sua criação: “Quanto mais
avançamos no tempo, mais recuamos também, porque conseguimos ler melhor,
descobrir mais informação sobre as coisas que já passaram há muito tempo, como
se elas ficassem mais próximas.” Exagera-se, é certo, e assim talvez se acredite que é fora
de portas que escutamos o clamor do mundo, que pressentimos esse coro inquieto
de um universo criativo partilhado.
Em suma, prometemos não recalcitrar do estado
das coisas, incutiremos loas à encantadora noite de sons e luzes que se avizinha. Promete-se ligar os sentidos, todos sem excepção. Respiraremos mornas, prolongando sabor de cocadas e o verter do "quentão" e do "grogue" num
auditório com nome de excelso poeta quinhentista. É testamento e herança de uma cultura
que se vive de forma misturada, alegre, intensa. A cidade, essa, vai descendo o seu cenário até
ao mar. E anoitece...
terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
Tipografia Micaelense: A Aventura Continua
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| Ilustração de Mário Roberto |
Fundada em 1947, a Tipografia Micaelense faz parte desse património vivo
que urge ser recuperado e novamente valorizado, sendo actualmente pertença de
alguém que, com cuidado, orgulho e dedicação, tem sabido que este é de novo o
tempo de misturar e voltar a dar: Dinis Botelho. É, sobretudo, ele, um homem
que trabalha há muitos anos em tipografias, quem conta como agarrou em mãos
esta antiga casa, em estado de pausa e desuso, e com a sua direcção e labor,
irá completar este ano duas décadas de funcionamento contínuo e abertura ao
público. A seu lado, está o seu companheiro de ofício de longa data - Eduardo
Furtado. Dinis Botelho conta também que os primeiros dez anos não foram fáceis,
já que serviram essencialmente para pagar o investimento e manutenção, sendo um
período de muito empenho e esforço, algo que pertence a muitos dias e noites de
entrega às canseiras e dificuldades. Hoje, a Tipografia Micaelense funciona
apenas em offset, ainda que esteja por ali uma Heidelberg muito antiga e demais
máquinas de outros tempos, e foi dessas subtilezas relacionadas com as artes
gráficas do passado, que saíram recentemente a capa do livro “Os Caminhos do
Chá”, um extraordinário catálogo de divulgação da exposição organizada pelo
Museu Machado de Castro, ainda em exibição, a bonita "Agenda Luz de 2016", trabalho realizado na íntegra
no espaço da Tipografia por um grupo alargado de pessoas, com Júlia Garcia à
cabeça, recorrendo também ao offset,
mantendo técnicas de impressão antigas na capa e nas artes finais.
Curiosamente, na última sexta-feira, assistimos ao lançamento de “Haikus de
Passage”, da francesa, Elga Martin, que nos ajudou também a compreender e
confirmar o que já todos sabíamos: a Tipografia Micaelense está viva, vivinha
e, por sinal, bem “requinha”!
Tipografia Micaelense: A Aventura Continua
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| Ilustração de Mário Roberto |
Fundada em 1947, a Tipografia Micaelense faz parte desse património vivo
que urge ser recuperado e novamente valorizado, sendo actualmente pertença de
alguém que, com cuidado, orgulho e dedicação, tem sabido que este é de novo o
tempo de misturar e voltar a dar: Dinis Botelho. É, sobretudo, ele, um homem
que trabalha há muitos anos em tipografias, quem conta como agarrou em mãos
esta antiga casa, em estado de pausa e desuso, e com a sua direcção e labor,
irá completar este ano duas décadas de funcionamento contínuo e abertura ao
público. A seu lado, está o seu companheiro de ofício de longa data - Eduardo
Furtado. Dinis Botelho conta também que os primeiros dez anos não foram fáceis,
já que serviram essencialmente para pagar o investimento e manutenção, sendo um
período de muito empenho e esforço, algo que pertence a muitos dias e noites de
entrega às canseiras e dificuldades. Hoje, a Tipografia Micaelense funciona
apenas em offset, ainda que esteja por ali uma Heidelberg muito antiga e demais
máquinas de outros tempos, e foi dessas subtilezas relacionadas com as artes
gráficas do passado, que saíram recentemente a capa do livro “Os Caminhos do
Chá”, um extraordinário catálogo de divulgação da exposição organizada pelo
Museu Machado de Castro, ainda em exibição, a bonita "Agenda Luz de 2016", trabalho realizado na íntegra
no espaço da Tipografia por um grupo alargado de pessoas, com Júlia Garcia à
cabeça, recorrendo também ao offset,
mantendo técnicas de impressão antigas na capa e nas artes finais.
Curiosamente, na última sexta-feira, assistimos ao lançamento de “Haikus de
Passage”, da francesa, Elga Martin, que nos ajudou também a compreender e
confirmar o que já todos sabíamos: a Tipografia Micaelense está viva, vivinha
e, por sinal, bem “requinha”!
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
O Obséquio de Comprar Produtos da Terra e do Mar
O Mercado da Graça,
em Ponta Delgada, abre portas muito cedo, por volta das sete horas da manhã,
repetindo o mesmo horário até quinta-feira, encerrando nestes dias às seis da
tarde. Nos dias de sexta e sábado este lugar de comércio é apenas reservado às
manhãs, pois fecha às duas da tarde e, como encerra aos domingos, tem essa
particularidade de concentrar as compras numa parte do dia. O melhor é começar
as compras bem cedo.
Logo à entrada do mercado, devemos
exercitar o sentido do olfacto, já que acreditamos não ser possível usar o
paladar, exercitemos, portanto, o exalar de aromas e cheiros dos produtos da
terra que lá se encontram, provenientes dos mais diferentes lugares da ilha
verde. Esse sentido deve vir, portanto, muito antes da visão, já que muitas
vezes a aparência e colorido dos respectivos víveres, não é atributo de odor
exuberante e frescura, por isso convirá meter a mão e o nariz onde se é
chamado, sem abusar, claro. A verdade é
que muitos de nós acordamos com ansias e desejos de artigos frescos, coisas
boas e tenras, sobretudo deliciosas para comer ou ter por perto, se possível,
muito, muito saborosas. É, sem dúvida, zeloso e bastante cuidadoso da nossa
parte ir ao encontro das delícias e paladares que a nossa terra e mar dão, a
exigência obrigatória de qualidade alimentar, bem longe dos plásticos e demais
embalagens poluentes, ainda com a vantagem de se poder aprender sobre o tempo das
colheitas e abordar a meteorologia de forma provisória e descomprometida, à boa maneira açoriana.
É ali, na freguesia
de São Pedro, num edifício que remonta a meados do século XIX, que se
concentram os vendedores habituais, as pessoas que fazem e vivem aquele
quotidiano enquanto comerciantes e vendedores de produtos locais. Por vezes,
simpáticos, muitas vezes cansados com as agruras de um dia-a-dia árduo e nem
sempre dispostos a tolerar clientes inquisitivos e impacientes. No entanto, por
vezes, é deveras surpreendente a alegria permanente que se vislumbra num lugar
como este, sabendo nós de histórias de sacrifício e obstáculos que existem por
detrás daquelas existências. O sítio é, pois, propício à policromia em qualquer
altura do ano, com uma pletora de cores que os frutos, vegetais e flores lhe
confere. Na visita a realizar não podemos
descurar a compra dos produtos que a terra açoriana nos dá: inhame, pimenta da
terra, batata doce, anonas, araçás, goiabas (quando é o tempo delas, claro),
ainda o famoso ananás e, claro, há também por lá um cantinho dedicado aos
queijos oriundos de todo o arquipélago que, como podem imaginar, são um
verdadeiro comprazimento. Bem lá no fundo do mercado, há também a peixaria,
sendo razão de sobra para aí encontrar e indagar a origem dos peixes do mar
profundo do Atlântico, deparar-nos assim com o peixão, veja, boca negra, espadarte,
alfonsim, imperador, bodião, bonito, congro, chicharro (no continente, o jaquinzinho) e
ainda o polvo, que dali passarão a ser as verdadeiras atracções da restauração
local.
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
Pública Poesia
"E portanto
por novas tapeçarias – procura o
amor por entre o ritmo das folhas
lá fora."
Leonardo Sousa
Ler poesia é um acto que comporta alguma seriedade e justeza. Num primeiro plano é uma tarefa rodeada de alguma exposição e uso pessoal dos textos de outros, já que são poucos os que lêem a sua própria poesia, podendo e devendo ser esta uma fonte de valorização e enriquecimento da palavra em verso ou não, nem sempre aceite ou compreendida pelos arredados das letras. Há, portanto, nestes momentos de leitura de poemas em público em que a poesia pode sair a ganhar mas também é certo que muitas vezes corremos o risco de banalizá-la caso esta seja desvirtuada dos procedimentos com que foi realizada.
É justo pensar que cada poema tem a sua organicidade, isto é, o seu próprio funcionamento interno. Não há aqui nada contra a leitura espontânea (o autor deste texto já a concebeu muitas vezes, evidentemente) de poemas junto do público. A não ser que quem o diga seja também o autor dos próprios poemas que se encontra a dizer. Quando se lê poemas de outros poetas penso que devemos tentar saber tudo sobre os autores em questão e o período em que estes foram escritos. Conhecer-lhe os modos e o tempo entre quem escreveu os seus poemas e o tempo actual, descobrir-lhe os gestos possíveis ou imaginários, cruzar referências ou perceber os seus tempos, ingressar a fundo nos temas se os houver, e, a partir daí, encarnar um tom num conjunto de possíveis, essencialmente, experienciar individualmente os poemas antes de poder proferi-los publicamente. Um poema deve, sobretudo, funcionar para quem lê, trabalhá-lo enquanto ritmo, tempo e acentuação e só depois apresentá-lo aos ouvintes. Por isso, é importante mostrá-lo a alguém, sobretudo alguém atento que possa ser perspicaz na crítica da forma e do dizer, na exigência constante de uma boa leitura. Há, certamente, neste mundo da poesia, muito boa gente convencida que diz muito bem a poesia dos outros em público. Mas também não mentiria se dissesse que por vezes são raros os que, no meu entender, ganham novos ouvintes para a poesia e concedem aos escritores e poetas mais algum tempo de existência.
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