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segunda-feira, 12 de maio de 2025

A Meio de Maio a Dialética!

      Raul Brandão escreveu, no início do século passado, o seguinte: “Era decerto condão das flores - mas também de Maio que chegou, com a sua magia e o seu sonho. Rebentaram novas fontes, e a terra di-la-eis agitada e viva. Sob o chão que calcamos correm rios de tintas que transbordam e cobrem as árvores de roxo, de púrpura, de verde.” Os dias irão continuar, assim, dilatados e lentos, permitindo ao nosso olhar a contemplação do horizonte marítimo até altas horas, investindo nessa crença de redescoberta do cheiro das flores e dos sabores da terra. É altura de despertarmos todos os sentidos bem como em nosso redor começam novos ciclos que desejamos partilhar e contemplar.
        Sexta-feira, fim da tarde, assisto ao filme italiano “As Oito Montanhas”, um drama realizado por Felix van Groeningen e Charlotte Vandermeersch. Esta narrativa fílmica serve-nos Pietro (Lupo Barbiero), e Bruno (Cristiano Sassella), em dialética cidade-campo, esclarecendo as vicissitudes de dois amigos e as cumplicidades que estabelecem para a vida: a liberdade, os amores, as perdas, as viagens, sem nunca renegar as suas origens. Uma língua italiana que não nos cansamos de ouvir pela beleza da sua sonoridade e sentidos e uma amizade que resiste a todas as contrariedades.
      Domingo de nuvens cinzentas, cargas de água sucessivas, pedidos e benefícios vários para permanecer dentro de casa. No final da tarde, há alguma calmaria, pausa e tréguas na liquidez primaveril. Não muito longe daqui onde agora escrevo, assistiu-se à peça teatral “O Mestre”, no Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas. Um texto que integra e valoriza a relação mestre-aprendiz, sobretudo no processo de autonomia de quem aprende, abrindo espaço para a experimentação e disciplina necessárias à criação artística. Ao conceber “O Mestre”, a actriz Maria João Falcão dá, assim, relevo à  transmissão de conhecimento, aqui com a presença física de Michel, o mestre,  e no livre-arbítrio da aluna, refletida no corpo e movimento da actriz. O cenário da blackbox, em forma de rectângulo, resultou primorosamente, sobretudo, para que os espectadores presenciassem esse legado, à passagem de sabedoria de um para o outro, em modo dialético, à semelhança dos gregos antigos e dos filósofos primevos. E…Maio avança, ora chove ora faz sol!

domingo, 27 de abril de 2025

Primavera Geradora de Temperaturas Aleatórias

       Os dias primaveris estão maiores mas ainda pouco dados a mergulhos no mar. As flores dão sinais do seu despertar após tantos dias de intensidade líquida. O verde começa a pintar a paisagem e o nosso olhar serena perante o seu esplendor. Os filmes mais pertinentes e interessantes, na televisão pública, passaram sempre a altas horas da noite e é de questionar que público se pretende alcançar. Daí que fomos assistindo, madrugada adentro, a "Cerrar los Ojos" de Vitor Erice ou a "Licorice Pizza" de Paul Thomas Anderson. A horas mais convenientes, assistimos, no Cineclube Octopus, a "No Other Land", de Basel Adra, Hamdam Ballal, Yuval Abraham e Rachel Szor. E, que falta nos faz, em todo o lado e em qualquer lugar público, cinema na tela grande, acompanhados por outros tantos dispostos ao convívio, à conversa e à partilha da paixão pela sétima arte. 
     Comeram-se, entretanto,  as primeiras sardinhas do ano, longe ainda de serem gordurosas com o óleo a cair no pão, mas para lá caminham. Abril irá findar e é o mês das flores que aguardamos com alegria. Que se abram as portas para Maio entrar!

domingo, 22 de dezembro de 2024

2025: Cada Vez Mais Vida!

          O ano chega ao fim e com ele surgem as listas dos filmes, dos livros, dos discos, das viagens e das músicas que, supostamente, devíamos ter experienciado ou vivido. O diagnóstico é sempre o mesmo: tanta coisa ficou por fazer no ano de 2024.  E o que é verdade é que permanece sempre uma descomunal aflição pelo que não ouvimos, não lemos, ou sentimos, por tudo aquilo que, segundo os críticos, os especialistas, os influenciadores, sobretudo no que nos faltou viver, talvez, sentir. Podemos, é certo, falar mesmo numa bioansiedade, isto é, uma ansiedade por viver cada vez mais!
            No gira-discos caseiro, a agulha volta sempre ao princípio para ouvir o Leonard Cohen a tocar o “Famous Blue Raincoat” e, com ele, seguir a luz do horizonte e do cenário das araucárias com os versos: “It´s four in the morning, the end of December”. Há, por isso, qualquer coisa que parece estar sempre a faltar, uma inquietação interior que não se enquadra dentro de qualquer ordem ou substância material do universo. E…de repente temos a sensação que o mundo se encontra em falta, em declínio, a autodestruir-se. Ao mesmo tempo que olhamos em redor e sentimos de viva voz que o mundo está doente, que se encontra em retrocesso acelerado, uma regressão energética e civilizacional. Tornamo-nos, assim, insensíveis ao sofrimento do mundo, à queda das bombas, ao caos generalizado. O que fazer?
         Não falta quem nos diga que temos uma enormíssima crise climática pela frente, acompanhada por uma galopante inflação e demais guerras em marcha, conflitos sociais internos e externos e, para nossa desgraça, diminuição de investimento em políticas públicas – saúde, educação, cultura, habitação, transportes. Por parte da juventude, os sinais  bem que podiam ser de esperança, no entanto, surge a dúvida, já que à nossa frente existe uma comunidade que se abotoa ao sedentarismo, à lógica dos écrans e das redes, uma forte resistência à ilustração sem visão crítica do mundo. E, cúmulo dos cúmulos, há também muita juventude sedenta de autoritarismo, preconceito e visões securitárias dos estados democráticos em que vivemos. O mundo está muito perigoso, aliás, sempre esteve!

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Março Marçagão...

Mova Dreva de Katerina L´Dokova
Festival Prolíficas 2024
Vamos entrar em Março, terceiro mês do ano, período ainda de muitas dúvidas quanto ao aquecimento corporal e com um provérbio martelado na mente: “Março, marçagão, manhã de Inverno, tarde de Verão e à noite focinho de cão”. Como será o Março deste ano? Que temperaturas e ventos teremos? Será um Março agreste ou sereno no que às oscilações climatéricas se refere?!  Que dias pré-primaveris podemos esperar?
          Eis, assim, que Fevereiro, um mês de pavio muito curto, se despede. E, como foi bom em termos musicais, auspicioso e fugaz, já que recentemente ouvimos a Sara Cruz e a Marianna em cantorias crescentes com vista para o mar e lua cheia, ouvimos estas cantoras açorianas no andar de cima do Centro de Artes Contemporâneas – Arquipélago, ambas por ali à cata e à descoberta do seu lugar no mundo das canções. Duas cantautoras, portanto, convidadas que foram deste festival de mulheres compositoras, criativas e 
prolíficas que encheram o Arquipélago no fim de tarde de sábado para ouvir as suas canções, já que no domingo escutámos a Diana Botelho tocar ao piano peças de Ana Paula Andrade, Ângela da Ponte, Constança Capdeville e Teresa Gentil. Pelo meio, apreciámos a instalação “vibrante” de Ângela da Ponte em exposição e audição, numa composição que contou com a colaboração na sua materialização do mestre António da Ponte. E, por último, o concerto do fecho com Katerina L´Dokova, mostrando as canções do seu álbum Mova Dreva, naquele seu périplo de sonoridades tradicionais da Bielorrússia, misturando roupagens do jazz com outras derivações clássicas e contemporâneas. Um fim de semana, portanto, recheado de sonoridades no feminino que releva com suma importância a existência de dias claros e harmónicos para enfrentar o Inverno derradeiro que se avizinha.

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Fim de Agosto

   Lembro-me de quando Agosto encerrava, quando este mês cumpria o derradeiro dia, os meus olhos humedeciam. Não sei precisar em que altura é que isto aconteceu mas sei que já possuía a consciência de que a felicidade tinha prazo de duração. A felicidade terminava no instante em que deixávamos de ouvir a palavra Agosto pronunciada amiúde em todos os lugares aí frequentados: na praia, na esplanada, no quiosque, no café, nas conversas entre amigos. Os últimos dias de Agosto eram vividos com tal intensidade que ninguém se lembrava das horas para almoçar ou jantar e o regresso a casa era feito quando o sol se despedia. O último dia de Agosto era o verdadeiro sinal de que todos nós morríamos um pouco, não que o verão findasse ali, mas porque de um momento para o outro tudo se esvaziava, o silêncio impunha-se de forma cruel e violenta, e já não sabíamos o que fazer quando Setembro entrasse de rompante. Recordo, também, um primeiro dia de Setembro em que a praia se encontrava deserta e por isso não quis olhar o mar, cerrei os olhos e voltei de imediato para casa. Esperava-me um calendário que ainda não tinha sido alterado e assim permaneceu até ao ano seguinte.

terça-feira, 25 de abril de 2023

25 de Abril: A Democracia Continua...

 

Fotografia de Tânia Neves dos Santos
Esta data do 25 de Abril de 1974 é um momento fundacional da democracia portuguesa. “Vem aí os canhões” ouvia-se na rua enquanto se encostavam as bicicletas à parede e se bebia um pirolito ou se comia um gelado, que não era mais do que um pau de gelo com açúcar. À rua, onde brincávamos, começaram a aportar meninas e meninos que os nossos país apelidavam de “retornados”, e que aos nossos olhos traziam o colorido e alegria na roupa, o açúcar e a fantasia no linguajar, a leveza nos modos e trejeitos. A seguir, em casa, aparecia a televisão a preto e branco, os jornais e os livros do “Círculo de Leitores” ou das bibliotecas da Gulbenkian. No entanto, a música que saía dos transístores e das cantorias parecia triste, demasiado triste. Às vezes havia festas, romarias, procissões e futebol ao domingo à tarde com chapéus de papel na cabeça. Namorar, cortejar e ir à praia fazia-se sempre com culpa, com medo e receio da opinião dos outros. Uma coisa é certa: passaram-se muitos anos e os canhões não vieram, ainda que a evocação destes povoassem durante muito tempo as brincadeiras de rua. A democracia, essa, continua

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Velhos Hábitos

        O que acontece quando o jornal que pretendemos comprar não chega? É verdade que podemos ler o mesmo na internet, no tablet ou nesses écrans espalhados por todo o lado, pois há páginas de jornal online de todo o mundo disponíveis num abrir e fechar de olhos. No entanto, há também hábitos antigos que teimam em desaparecer. É difícil, mesmo muito difícil desistir desse velho costume diário de sair de casa com o propósito de comprar um jornal de que gostamos para assim poder lê-lo em algum café, balcão ou esplanada. É que nessa demanda está implícita a procura do seu local de venda em determinado espaço  citadino, envolvendo uma rotina que se repete quotidianamente que só uma grande paixão abarca, pautada pelo movimento e exercício de um determinado ritual, que ao longo do tempo foi resistindo e permanecendo. Até quando?

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Uma Janela para o Fim de Novembro

Fotografia Germana Eiriz
         De cabeça e corpo na brecha que dá para a cidade insular e, como tal, não há qualquer regresso possível às ruas da infância onde, por sinal, ainda há quem nos aguarde. A luz do tempo é serena. A acritude foi substituída pela esperança e, talvez por isso, é como se nunca tivesse havido partida para longe ou para sítio algum. A haver errância seria de resignação e permanência. O olhar pousa agora sobre o cinza da paisagem e dos telhados citadinos. Desta feita são as memórias que evitam que o desencanto se instale. Parte-se assim pelo interior dos dias adentro até à indagação de cantos e vozes deste tempo confuso, difuso, repleto de oportunidades por cumprir. Outro tempo é também  enviado pelo Alexandre, exímio guitarrista, que aprendi ouvir desde muito cedo, revelador de trilhos e veredas, que nos esclarece em suplemento de espectáculos  as vias com que agora se cose as malhas da sua criação: “Quanto mais avançamos no tempo, mais recuamos também, porque conseguimos ler melhor, descobrir mais informação sobre as coisas que já passaram há muito tempo, como se elas ficassem mais próximas.” Exagera-se, é certo, e assim talvez se acredite que é fora de portas que escutamos o clamor do mundo, que pressentimos esse coro inquieto de um universo criativo partilhado.
             Em suma, prometemos não recalcitrar do estado das coisas, incutiremos loas à encantadora  noite de sons e luzes que se avizinha. Promete-se ligar os sentidos, todos sem excepção. Respiraremos  mornas, prolongando sabor de cocadas e o verter do "quentão" e do "grogue" num auditório com nome de excelso poeta quinhentista. É testamento e herança de uma cultura que  se vive de forma misturada, alegre, intensa. A cidade, essa, vai descendo o seu cenário até ao mar. E anoitece...

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Tipografia Micaelense: A Aventura Continua


         
Ilustração de Mário Roberto
A Tipografia Micaelense está situada na Rua do Castilho, com o número 33B, em pleno centro histórico da cidade de Ponta Delgada. À passagem pela sua porta, o seu reclamo sugere de imediato curiosidade a quem sempre nutriu gosto e encanto pelo mundo das artes gráficas. Ao entrar, respira-se um ambiente de papel e máquinas que se assemelha a um repositório de vivências e memórias que não somos capazes de decifrar à primeira. É preciso, por isso, dar tempo ao tempo e dois passos em frente para nos abeirarmos da recepção e absorver o cheiro das máquinas e objectos ali presente. Num expositor do lado esquerdo estão, de forma ordenada, algumas das relíquias gráficas que a designer Júlia Garcia, tem desenhado e composto por ali com a ajuda do pessoal da casa. É esta designer quem irá discorrer, algumas horas depois, sobre esse universo tipográfico, os mistérios e encantamentos de cada gaveta, a revelação de antigas técnicas de impressão nos tipos ali guardados, bem como do trabalho manual que é necessário para cumprir cada tarefa ou a vontade que é partilhar esses conhecimentos ancestrais com diferentes pessoas que ali aportam. E o que é um facto é que cada vez mais gente nova ligada às artes gráficas e outros curiosos passam por ali e assistem espantados ao imaginário de subtilezas que importa conhecer e voltar a (re)descobrir. A porta, pelo menos, está aberta a quem decida aventurar-se naquela "catedral de conhecimento gráfico".
       Fundada em 1947, a Tipografia Micaelense faz parte desse património vivo que urge ser recuperado e novamente valorizado, sendo actualmente pertença de alguém que, com cuidado, orgulho e dedicação, tem sabido que este é de novo o tempo de misturar e voltar a dar: Dinis Botelho. É, sobretudo, ele, um homem que trabalha há muitos anos em tipografias, quem conta como agarrou em mãos esta antiga casa, em estado de pausa e desuso, e com a sua direcção e labor, irá completar este ano duas décadas de funcionamento contínuo e abertura ao público. A seu lado, está o seu companheiro de ofício de longa data - Eduardo Furtado. Dinis Botelho conta também que os primeiros dez anos não foram fáceis, já que serviram essencialmente para pagar o investimento e manutenção, sendo um período de muito empenho e esforço, algo que pertence a muitos dias e noites de entrega às canseiras e dificuldades. Hoje, a Tipografia Micaelense funciona apenas em offset, ainda que esteja por ali uma Heidelberg muito antiga e demais máquinas de outros tempos, e foi dessas subtilezas relacionadas com as artes gráficas do passado, que saíram recentemente a capa do livro “Os Caminhos do Chá”, um extraordinário catálogo de divulgação da exposição organizada pelo Museu Machado de Castro, ainda em exibição, a bonita "Agenda Luz de 2016", trabalho realizado na íntegra no espaço da Tipografia por um grupo alargado de pessoas, com Júlia Garcia à cabeça, recorrendo também ao offset,  mantendo técnicas de impressão antigas na capa e nas artes finais. Curiosamente, na última sexta-feira, assistimos ao lançamento de “Haikus de Passage”, da francesa, Elga Martin, que nos ajudou também a compreender e confirmar o que já todos sabíamos: a Tipografia Micaelense está viva, vivinha e, por sinal, bem “requinha”!

Tipografia Micaelense: A Aventura Continua


         
Ilustração de Mário Roberto
A Tipografia Micaelense está situada na Rua do Castilho, com o número 33B, em pleno centro histórico da cidade de Ponta Delgada. À passagem pela sua porta, o seu reclamo sugere de imediato curiosidade a quem sempre nutriu gosto e encanto pelo mundo das artes gráficas. Ao entrar, respira-se um ambiente de papel e máquinas que se assemelha a um repositório de vivências e memórias que não somos capazes de decifrar à primeira. É preciso, por isso, dar tempo ao tempo e dois passos em frente para nos abeirarmos da recepção e absorver o cheiro das máquinas e objectos ali presente. Num expositor do lado esquerdo estão, de forma ordenada, algumas das relíquias gráficas que a designer Júlia Garcia, tem desenhado e composto por ali com a ajuda do pessoal da casa. É esta designer quem irá discorrer, algumas horas depois, sobre esse universo tipográfico, os mistérios e encantamentos de cada gaveta, a revelação de antigas técnicas de impressão nos tipos ali guardados, bem como do trabalho manual que é necessário para cumprir cada tarefa ou a vontade que é partilhar esses conhecimentos ancestrais com diferentes pessoas que ali aportam. E o que é um facto é que cada vez mais gente nova ligada às artes gráficas e outros curiosos passam por ali e assistem espantados ao imaginário de subtilezas que importa conhecer e voltar a (re)descobrir. A porta, pelo menos, está aberta a quem decida aventurar-se naquela "catedral de conhecimento gráfico".
       Fundada em 1947, a Tipografia Micaelense faz parte desse património vivo que urge ser recuperado e novamente valorizado, sendo actualmente pertença de alguém que, com cuidado, orgulho e dedicação, tem sabido que este é de novo o tempo de misturar e voltar a dar: Dinis Botelho. É, sobretudo, ele, um homem que trabalha há muitos anos em tipografias, quem conta como agarrou em mãos esta antiga casa, em estado de pausa e desuso, e com a sua direcção e labor, irá completar este ano duas décadas de funcionamento contínuo e abertura ao público. A seu lado, está o seu companheiro de ofício de longa data - Eduardo Furtado. Dinis Botelho conta também que os primeiros dez anos não foram fáceis, já que serviram essencialmente para pagar o investimento e manutenção, sendo um período de muito empenho e esforço, algo que pertence a muitos dias e noites de entrega às canseiras e dificuldades. Hoje, a Tipografia Micaelense funciona apenas em offset, ainda que esteja por ali uma Heidelberg muito antiga e demais máquinas de outros tempos, e foi dessas subtilezas relacionadas com as artes gráficas do passado, que saíram recentemente a capa do livro “Os Caminhos do Chá”, um extraordinário catálogo de divulgação da exposição organizada pelo Museu Machado de Castro, ainda em exibição, a bonita "Agenda Luz de 2016", trabalho realizado na íntegra no espaço da Tipografia por um grupo alargado de pessoas, com Júlia Garcia à cabeça, recorrendo também ao offset,  mantendo técnicas de impressão antigas na capa e nas artes finais. Curiosamente, na última sexta-feira, assistimos ao lançamento de “Haikus de Passage”, da francesa, Elga Martin, que nos ajudou também a compreender e confirmar o que já todos sabíamos: a Tipografia Micaelense está viva, vivinha e, por sinal, bem “requinha”!

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

O Obséquio de Comprar Produtos da Terra e do Mar

            O Mercado da Graça, em Ponta Delgada, abre portas muito cedo, por volta das sete horas da manhã, repetindo o mesmo horário até quinta-feira, encerrando nestes dias às seis da tarde. Nos dias de sexta e sábado este lugar de comércio é apenas reservado às manhãs, pois fecha às duas da tarde e, como encerra aos domingos, tem essa particularidade de concentrar as compras numa parte do dia. O melhor é começar as compras bem cedo.

"Mercado do Peixe" - Ilustração de Mário Roberto

            Logo à entrada do mercado, devemos exercitar o sentido do olfacto, já que acreditamos não ser possível usar o paladar, exercitemos, portanto, o exalar de aromas e cheiros dos produtos da terra que lá se encontram, provenientes dos mais diferentes lugares da ilha verde. Esse sentido deve vir, portanto, muito antes da visão, já que muitas vezes a aparência e colorido dos respectivos víveres, não é atributo de odor exuberante e frescura, por isso convirá meter a mão e o nariz onde se é chamado, sem abusar, claro.  A verdade é que muitos de nós acordamos com ansias e desejos de artigos frescos, coisas boas e tenras, sobretudo deliciosas para comer ou ter por perto, se possível, muito, muito saborosas. É, sem dúvida, zeloso e bastante cuidadoso da nossa parte ir ao encontro das delícias e paladares que a nossa terra e mar dão, a exigência obrigatória de qualidade alimentar, bem longe dos plásticos e demais embalagens poluentes, ainda com a vantagem de se poder aprender sobre o tempo das colheitas e abordar a meteorologia de forma provisória e descomprometida, à boa maneira açoriana.
           É ali, na freguesia de São Pedro, num edifício que remonta a meados do século XIX, que se concentram os vendedores habituais, as pessoas que fazem e vivem aquele quotidiano enquanto comerciantes e vendedores de produtos locais. Por vezes, simpáticos, muitas vezes cansados com as agruras de um dia-a-dia árduo e nem sempre dispostos a tolerar clientes inquisitivos e impacientes. No entanto, por vezes, é deveras surpreendente a alegria permanente que se vislumbra num lugar como este, sabendo nós de histórias de sacrifício e obstáculos que existem por detrás daquelas existências. O sítio é, pois, propício à policromia em qualquer altura do ano, com uma pletora de cores que os frutos, vegetais e flores lhe confere.  Na visita a realizar não podemos descurar a compra dos produtos que a terra açoriana nos dá: inhame, pimenta da terra, batata doce, anonas, araçás, goiabas (quando é o tempo delas, claro), ainda o famoso ananás e, claro, há também por lá um cantinho dedicado aos queijos oriundos de todo o arquipélago que, como podem imaginar, são um verdadeiro comprazimento. Bem lá no fundo do mercado, há também a peixaria, sendo razão de sobra para aí encontrar e indagar a origem dos peixes do mar profundo do Atlântico, deparar-nos assim com o peixão, veja, boca negra, espadarte, alfonsim, imperador, bodião, bonito, congro, chicharro (no continente, o jaquinzinho) e ainda o polvo, que dali passarão a ser as verdadeiras atracções da restauração local.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Pública Poesia

                      "E portanto
Ilustração de Pedro Valim
                    antes que decidas trocar o silêncio
                         por novas tapeçarias – procura o
                         amor por entre o ritmo das folhas
                                                                 lá fora."



Leonardo Sousa

             Ler poesia é um acto que comporta alguma seriedade e justeza. Num primeiro plano é uma tarefa rodeada de alguma exposição e uso pessoal dos textos de outros, já que são poucos os que lêem a sua própria poesia, podendo e devendo  ser esta uma fonte de valorização e enriquecimento da palavra em verso ou não, nem sempre aceite ou compreendida pelos arredados das letras. Há, portanto, nestes  momentos de leitura de poemas em público em que a poesia pode sair a ganhar mas também é certo que muitas vezes corremos o risco de banalizá-la caso esta seja desvirtuada dos procedimentos com que foi realizada.
            É justo pensar que cada poema tem a sua organicidade, isto é, o seu próprio funcionamento interno. Não há aqui nada contra a leitura espontânea (o autor deste texto já a concebeu muitas vezes, evidentemente) de poemas junto do público. A não ser que quem o diga seja também o autor dos próprios poemas que se encontra a dizer. Quando se lê  poemas de  outros poetas penso que devemos tentar saber tudo sobre os autores em questão e o período em que estes foram escritos. Conhecer-lhe os modos e o tempo entre quem  escreveu os seus poemas e o tempo actual, descobrir-lhe os gestos possíveis ou imaginários, cruzar referências ou perceber os seus tempos, ingressar a fundo nos temas se os houver, e, a partir daí, encarnar um tom num conjunto de possíveis, essencialmente, experienciar individualmente os poemas antes de poder proferi-los publicamente. Um poema deve, sobretudo, funcionar para quem lê, trabalhá-lo enquanto ritmo, tempo e acentuação e só depois apresentá-lo aos ouvintes. Por isso, é importante mostrá-lo a alguém, sobretudo alguém atento que possa ser perspicaz na crítica da forma e do dizer, na exigência constante de uma boa leitura. Há, certamente, neste mundo da poesia, muito boa gente convencida que diz muito bem a poesia dos outros em público. Mas também não mentiria se dissesse que por vezes são raros os que, no meu entender, ganham novos ouvintes para a poesia e concedem aos escritores e poetas mais algum tempo de existência.