O fotógrafo Pepe Brix, natural da
Ilha de Santa Maria, nasceu em 1984 no seio de uma família com pergaminhos no
mundo da fotografia. Recentemente viajou pela Índia e pelo Nepal acompanhado
pela sua máquina fotográfica mais a sua determinação infinda de registar o que
os seus olhos iam vendo e observando ao longo da viagem. Com o decorrer de tal
empreitada foi descobrindo o aprumo dos gestos e do silêncio dos nepaleses, de tão
magnificente geografia, bem como das suas paisagens e cultura. Pepe Brix
apresenta agora as suas fotografias a preto e branco, patentes até ao dia 9 de
Fevereiro na Galeria Arco 8. São imagens deste périplo nepalês com a entrega de
quem viaja e a reciprocidade de quem recebe contando sempre com o particular
ensejo de fixar os rostos e os olhares das gentes, do(s) modo(s) de vida à
religião. O fotógrafo dá-nos a ler também os seus escritos bem como ainda o
texto de apresentação desta exposição dedicada ao Nepal onde podemos ler que “o
travo milenar da sua cultura confere ao país um núcleo magnético incrivelmente
denso.”A abertura da exposição está marcada para as 22 horas da noite deste
sábado.sábado, 11 de janeiro de 2014
NEPAL-A Verticalidade do Silêncio na Galeria Arco 8
O fotógrafo Pepe Brix, natural da
Ilha de Santa Maria, nasceu em 1984 no seio de uma família com pergaminhos no
mundo da fotografia. Recentemente viajou pela Índia e pelo Nepal acompanhado
pela sua máquina fotográfica mais a sua determinação infinda de registar o que
os seus olhos iam vendo e observando ao longo da viagem. Com o decorrer de tal
empreitada foi descobrindo o aprumo dos gestos e do silêncio dos nepaleses, de tão
magnificente geografia, bem como das suas paisagens e cultura. Pepe Brix
apresenta agora as suas fotografias a preto e branco, patentes até ao dia 9 de
Fevereiro na Galeria Arco 8. São imagens deste périplo nepalês com a entrega de
quem viaja e a reciprocidade de quem recebe contando sempre com o particular
ensejo de fixar os rostos e os olhares das gentes, do(s) modo(s) de vida à
religião. O fotógrafo dá-nos a ler também os seus escritos bem como ainda o
texto de apresentação desta exposição dedicada ao Nepal onde podemos ler que “o
travo milenar da sua cultura confere ao país um núcleo magnético incrivelmente
denso.”A abertura da exposição está marcada para as 22 horas da noite deste
sábado.Vânia Dilac: Cantora ou Diva?
Vânia Dilac é
diva das cantigas e das antigas pois tem o dom e a dádiva de encantar para quem
tiver intenções de se deixar render e cativar pelo seu canto. Esta é, sem
qualquer dúvida, uma voz desmedida, solta, com rédea livre de quem sabe que
nada nem ninguém pode travar aquele
curso de águas cálidas que na sua voz habita na máxima energia e
vitalidade. Por isso não lhe peçam grandes teorizações sobre os seus temas que
interpreta – apenas que cante no auge da sua sinceridade vocal. Por mais que
ela enfeitice com a sua voz este centro histórico da cidade de Ponta Delgada, em plena Travessa
dos Artistas, com música sem muros nem ameias e, essencialmente, com o fervilhar
da interpretação de temas de outros autores:“Blue Moon” de Frank
Sinatra, “Fever”, de Peggy Lee, “Summertime”, de George Gershwin, “Sodade” de
Cesária Évora ou “Halleluyah” de Leonard Cohen, é nos temas cantados em português
que este ardente canto em tons de veludo ganha velocidade, espessura e rumo. Acompanhada por Paulão (bateria) e
Clayton (teclados) é, portanto, uma voz que propaga com rapidez calor e chama neste Inverno
frio e húmido. Ouvi-la a cantar Amália Rodrigues (“Barco Negro”), Paulo de Carvalho (“Mãe Negra”) ou Jorge Palma (“Frágil”)
é acreditar que há um vulcão interior em ebulição pronto a expelir sons e
trovas carregado dum eco feminino dolente e magoado, profundamente negro como a maioria das vozes da soul, a carimbar o timbre da sua alma africana. É de arrepiar quando eleva a sua voz nas canções de Amália ou
Jorge Palma, naquele português
misturado, modelado e mélico para de imediato lhe sentirmos a garra, o enleio sonoro, o
sentimento pujante em cada frase melódica. Uma pérola, evidentemente.
Escutar Vânia
Dilac é também um privilégio por podermos imaginar o quanto estará por vir já
que aqui há qualquer coisa de vidro fino, delicado, um diamante em bruto por lapidar, e que
é necessário preservar e cuidar enquanto ele irradia de fulgência e de brilho. A
cantora vive em São Miguel, bebe muita música
soul e o blues num arquipélago que fica não muito longe do local de origem
destes géneros musicais, sendo normal que almeje
voos mais altos ou deseje cantar em
outras paragens, palcos e destinos. Entrementes,
para uma cantora que absorve as águas cálidas da ilha há mais de trinta anos,
ela nasceu em Moçambique, bem como sabe de cor e salteado as dores e as mágoas das
nossas maiores cantoras que a precederam, bastava que cantasse e fizesse um disco pessoal com uma dezena de
poetas ou cantores nesta língua que nos une para firmar e confirmar o seu talento neste tempo e
espaço, o emergir de uma grande voz em território insular, tantos anos depois da fase de oiro das vozes femininas de 80/90 da
música açoriana.
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Filmes de Ingmar Bergman nas salas
![]() |
| Ingmar Bergman, Sven Nyqvist, Erland Josephson e Liv Ullman |
A Leopardo
Filmes promove em Janeiro um ciclo de filmes do realizador sueco Ingmar Bergman
nas cidades de Lisboa (Nimas) e Porto (Teatro do Campo Alegre). O país e os
portugueses, agora apelidados de “suecos do sul”, terão uma oportunidade sem par
de conhecer a obra deste superior criador da sétima arte. Dez filmes
restaurados e um total de dezassete obras do realizador para ver em tela e
depois passar os dias e as noites a falar sobre eles. Está lá tudo o que é possível pensar sobre a alma humana e ainda as suas mulheres, todas elas de uma
beleza singular e expostas enquanto actrizes como só ele as soube filmar, e por
isso adivinharam ser as personagens que ele quis nos papéis mais dolorosos, intensos
e impenetráveis –“Mónica e o Desejo”, “A Sonata do Outono”, “Lágrimas e Suspiros”,“Máscara” entre outros. Que júbilo poder (re) ver Liv Ullmann,
Anita Björk, Ingrid Thulin, Harriet Andersson, Bibi Anderson ou Ingrid Bergman em papéis tão
diferentes e desiguais mas com a nítida sensação e alguma certeza ao constatar que o cinema deste
sueco, malgrado o seu desaparecimento recente, continua a ser uma excelente poltrona para pensarmos
a vida e o mundo.
Entrevista, poema de Mircea Dinescu.
Aqui no campo está tudo bem e bonito
os princípios envelheceram um pouco
mas o álcool medicinal passado pelo pão rejuvenesce
e o médico recomenda-o para "uso interno".
Aqui o adro da igreja foi devolvido à agricultura
o porco mastigou a criança esquecida no berço
(de qualquer modo um e outro eram do Estado)
em geral está tudo bem aqui no campo
os pequenos vêem televisão de caneca nas mãos talvez dê leite
na rádio acabámos há muito a colheita
e em breve a acabaremos nos campos
em geral está tudo bem aqui no campo temos betão é bonito
se comprares o ovo na city
se a fábrica de chouriço deixar de piscar
o olho aos cavalos.
Aqui no campo está tudo bem
os bombeiros em geral põem fogo às casas é bonito
o tractor abre entre uns e outros
entre uns e outros um sulco profundo
está tudo bem e bonito.
Mircea Dinescu, poemas, 1950, tradução de Rosa Alice Branco
os princípios envelheceram um pouco
mas o álcool medicinal passado pelo pão rejuvenesce
e o médico recomenda-o para "uso interno".
Aqui o adro da igreja foi devolvido à agricultura
o porco mastigou a criança esquecida no berço
(de qualquer modo um e outro eram do Estado)
em geral está tudo bem aqui no campo
os pequenos vêem televisão de caneca nas mãos talvez dê leite
na rádio acabámos há muito a colheita
e em breve a acabaremos nos campos
em geral está tudo bem aqui no campo temos betão é bonito
se comprares o ovo na city
se a fábrica de chouriço deixar de piscar
o olho aos cavalos.
Aqui no campo está tudo bem
os bombeiros em geral põem fogo às casas é bonito
o tractor abre entre uns e outros
entre uns e outros um sulco profundo
está tudo bem e bonito.
Mircea Dinescu, poemas, 1950, tradução de Rosa Alice Branco
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
Batel
Não cheguei a roubar o coração
que fez mover o teu batel
juro que não fiz por mal
deixei-o intacto e sem mácula
talvez assim encontre o rumo
descubra
finalmente sua rota
afinal era um barco de papel
Mosteiros: a Vera Ilha.
“(…) mas estamos tão pouco
onde estamos”
José Tolentino Mendonça
Aquoso
A minha cabeça é vagamente sólida
respiro como os golfinhos
afundo velhas carcaças no mar
é de prever que a quilha meta água.
respiro como os golfinhos
afundo velhas carcaças no mar
é de prever que a quilha meta água.
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
Meia Praia
para o António Perdigão
Tentei ser pintor e o que vejo
não chega para uma única tela
atravesso o horizonte de olhos fechados
e escrevo o teu nome pela metade
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Um Homem Sonha Deitado Sobre Nuvens
![]() |
| Fotografia: Eduardo Brito |
Um homem sonha deitado sobre nuvens. Quando um
homem abre os olhos tem a cabeça pousada sobre as nuvens. As nuvens não
precisam de almofadas. As nuvens por vezes escolhem a cor em que os homens se
deitam sobre elas. O vento sabe escolher as circunstâncias que sopram sobre o
homem que cresce a pensar as horas do dia em nuvens. Um homem que vive e sonha
nas nuvens é um nefelibata. Um homem que está nas nuvens não é deste mundo. O
homem que aprende a olhar as nuvens arrisca-se a cair. Um homem que gosta de
nuvens há muito que escolheu viver acima das suas possibilidades. O homem que
sabe distinguir as nuvens há muito que descobriu que o tempo não é bom
conselheiro. Um homem que sonha com nuvens sabe que a qualquer momento pode
chover. O que existe para lá das nuvens do homem que sonha?
Um homem que sonha com nuvens só acredita num
único gesto que lhe restituia a direcção desejada. Assim de uma única vez, num
único trago, de uma assentada. Como se o mundo parasse para a ver passar. Ponto
final, sem vírgula. Mudar de rumo, alterar a direcção, intuir o movimento,
alcançar a velocidade desejada. Há momentos na vida de um homem que ele quer
agarrar a nuvem e nem sempre consegue. Um homem deseja abraçar a nuvem e ela
desfaz-se. Um homem tenta por todos os meios acomodar-se e a nuvem desliza,
derrapa, escapa-se-lhe. Um gesto apenas e bastava. Largar tudo o que se tinha
feito até então, largar como se fosse um barco no mar, abandonar as coisas
desejadas apenas pela metade, pelos interstícios, pelo meio. Sem intervalos. O
que se começou e se abandonou, assim sem mais. O que se começou e nunca se
terminou. E assim se calaria no céu azul para sempre como a última nuvem. Em silêncio.
Sem rumor, apenas. Nem mais um som a ecoar, uma frase à superfície. Nem mais uma
metáfora para justificar o abandono das coisas pelo meio. Nunca mais o ensejo de
deixar todas as coisas pela metade, pelo meio, sem nunca chegar ao final. Da
cabeça aos pés, dos pés até à cabeça, do tronco até à folha, nem mais uma
palavra caída no Outono da vida.
Assim o homem que sonha com nuvens fosse como uma
seta que atravessasse e mudasse todo e qualquer rumo, alinhamento, direcção. E
que o caminho pudesse agora ter um fim, até à morte, e que esse final apenas
estivesse para lá da linha do horizonte. Até ao fim da estrada. Até ao fim da
vida. Nenhuma coisa, nenhum olhar, nenhum gesto, nenhuma nuvem negra desse
outro tempo pudesse ficar. Nada. Porque já nada interessa. Porque o homem que
sonha com uma nuvem renasce nos braços de outra nuvem, num outro sítio, num
outro lugar.
sábado, 4 de janeiro de 2014
Homenagem a 4 poetas e 1 cineasta
Livra-me
das tentações
de fugir ao fisco
e que em Fevereiro pague sempre
os meus impostos.
Afasta-me do supérfluo e
da vaidade e recorda-me sempre que
um dia hei-de ter hemorróidas.
E não me deixes cair em pecado
da ideologia
para que não leve com o proletariado nas trombas.
Guia-me pelos caminhos do amor
até um centro comercial
onde o amado me acompanhará
a experimentar um a um cada vestido.
E, por último, faz com que
todo o iogurte que coma seja
- foda-se! -
de morango.
Resumo. A poesia em 2011 [antologia]. Lisboa. Documenta/FNAC. 2012.
de fugir ao fisco
e que em Fevereiro pague sempre
os meus impostos.
Afasta-me do supérfluo e
da vaidade e recorda-me sempre que
um dia hei-de ter hemorróidas.
E não me deixes cair em pecado
da ideologia
para que não leve com o proletariado nas trombas.
Guia-me pelos caminhos do amor
até um centro comercial
onde o amado me acompanhará
a experimentar um a um cada vestido.
E, por último, faz com que
todo o iogurte que coma seja
- foda-se! -
de morango.
Ana
Paula Inácio
Resumo. A poesia em 2011 [antologia]. Lisboa. Documenta/FNAC. 2012.
Retratos da Crise no Teatro Micaelense
Hoje à noite uma açoriana e um grego sobem ao
palco do Teatro Micaelense para um concerto intitulado “Retratos da Crise”.
Trata-se de um espectáculo multidisciplinar em que um duo de
compositores/intérpretes improvisa a partir da projecção de imagens do início
do século passado explorando sons em tempo real. O duo 21KHz é constituído por
Ângela da Ponte e Dimitris Andrikopoulos.
Sul
Cada qual no seu silêncio
transporta versos limpos lisos
luminosos
em praias nuas brancas desertas
com pedras nítidas quentes
transparentes
noites insónias luas sem lógica
versos palavras paisagens
rompem como gritos espadas e tiros
explodem faúlhas flores frutos
poemas beijos canções desejos
serenos sejam o sul o sol e a solidão
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
88

Cantador(a)
O álbum "Torna-Viagem" de Zeca Medeiros completará dez anos em 2014 desde a
sua edição e foi prémio José Afonso em 2005.Ontem, ao serão, para além do
repertório habitual, ouviu-se o “Cantador” na Travessa dos Artistas: “O cantador/ chegou de madrugada/ venceu a
noite/ pelas praias do mar/ na sua voz/ teceu uma balada /amanhecer/ que
havemos de cantar/ O cantador/ rasgou as nossas penas/ num canto moço/ que
havemos d'acender/ na sua voz/ ergueu vilas morenas/ Maio maduro/ que havemos
de colher/ Ergueu cidades/ sem muros nem ameias/ lançou sementes/ na terra de
ninguém/ cantou o sol/ rompeu nossas cadeias/ trouxe consigo/ outro amigo
também/”. E não é que "irrompeu um amigo" no feminino que
transportava consigo a luz e o fogo na voz? O seu nome: Vânia Dilac e vive no
arquipélago há mais de três décadas, após ter nascido em Moçambique. O seu
português misturado, modelado e mélico encantou e entoou pelas ruas do centro
da cidade, com pingos de chuva e lançando a semente de um próximo concerto que
se aguarda, para já, com a maior das expectativas e curiosidade.
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