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| Da série:'Get Rhytmn when you get the blues'- Agnès Juten, 2008. |
sábado, 7 de fevereiro de 2015
domingo, 1 de fevereiro de 2015
sábado, 31 de janeiro de 2015
O Poeta Albanês na Mesa do Hotel
O poeta
albanês aproxima-se astuto
em câmara
lenta da democracia literária
como nos
filmes mudos com banda sonora
à demanda
excelsa de dedicatória irmã
recontado o
périplo, o prato do ovo com arroz,
avenidas
largas de paranóica amplitude
de privações era feito o paraíso e a reclusão
de privações era feito o paraíso e a reclusão
em páginas
gastas com o ditador se comia
os avisos do
professor e a cantora careca
na mesa de
hotel a fintar o charme e a delícia
sem
reverência torpe ou linguístico terror
cada qual no
seu papel e a inventiva escritora
vai
escrevendo incessantes letras sem parar
são
arquitecturas perdidas na sua memória
palavras que
um amador de livros lhe quis oferecer...sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
As Ilhas de Nuvens
"O sol baixou no céu. As ilhas de nuvens ganharam em densidade e atravessaram-se à frente do sol, tornaram-se negras, o mar perdeu o seu azul e tornou-se prateado e as sombras foram sopradas como toalhas cinzentas sobre o mar."
Virginia Wolf, in As Ondas.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
FAZENDO 96
A edição do Boletim Cultural
Fazendo nº 96 ((https://issuu.com/fazendofazendo) já está nas ruas, nos cafés, nas bibliotecas, e nos lugares mais
improváveis de cinco ilhas do arquipélago açoriano onde este é normalmente distribuído. A publicação chega agora ao Faial, Pico, Terceira, São
Miguel e Santa Maria. A capa do nº96 é do ilustrador terceirense Luís Brum, um desenho
inverosímil (será?), contando esta renovada série do Fazendo com o design das ilhas Cook
e com conteúdos que vão da actualidade científica, musical, cinematográfica até às novidades
literárias existentes no arquipélago. O corpo editorial é da responsabilidade do Tomás
Melo e da Aurora Ribeiro, contém uma curiosa secção intitulada Fazendinho, pequeno
suplemento dedicado aos mais jovens e a graúdos com coração pueril. Esta nova
edição do Fazendo continua, portanto, a informar que é comunitário,
independente e gratuito.
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
Esboços de Luís Brum para a Capa do Fazendo 96
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| Esboço I |
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| Esboço III |
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| Esboço II |
"Os primeiros desenhos são
difíceis. Os esquissos são duros", diz o autor deles. E desenhar inicialmente os primeiros esquissos, esboçar alguma
coisa na folha em branco bem podia ser uma luta declarada contra bloqueios, um
desafio assumido, uma luta árdua connosco e com o branco do papel. Desenho após
desenho, traço após traço, esquissos devassados e destruídos uns atrás dos outros. E o tema? Ir de
encontro à ideia de estarmos isolados na cidade, as ruas tomadas pelos carros, a loucura automóvel que tomou conta de nós, das cidades, dos passeios e dos lugares mais pequenos. E, por instantes, a rapidez, a pressão, os
prazos, os telefonemas, as mensagens no telemóvel: “Olha, posso falar-te rapidamente do desenho”, a eclodir, a entrar de mansinho pela caixa do
correio electrónico. Escutam-se, com toda a certeza, as novas explicações do autor: “Parte
duma convergência com uma "desconversa" com o Tomás, em que se falava da cidade
auto-estrada, sem espaço para os peões. Um nova realidade citadina que agora transita cada vez
mais para os Açores”. Os pedidos feitos de uma ilha para outra, a rapidez tecnológica a funcionar, as mensagens novamente deixadas no chat: “Vá lá, despacha-te, ó
criador!”. Sabendo de antemão que dali só podia vir coisa trabalhada,
esmiuçada, garantia da dedicação, do empenho e do esforço. E, aí vem mais uma deriva, mais uma conversa, mais um detalhe sobre o trabalho encetado: "Perceber onde estão os limites e como te sentes perante eles. Algo assim do género. O
barco virado como telhado, uma casa que não anda, um desejo de partir, e um
oceano de peixes mas que não são de comer”. Por fim, o trabalho e o dever cumprido da arte final: “É pá, os esquissos são meios duros, mas foi a partir daqui…tinha mais um, mas estava já
devassado com outras coisas...”. Ufa, companheiro, já se pode realizar a capa. Valeu todo este trabalho, claro que valeu, Luís!
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
Um Postal Janeirinho para Miriam Manaia
Querida Miriam, adorei o seu singelo postal.
Sim, é verdade, vivo no interior de um vulcão
após ter dado um pontapé numa cratera e, talvez por isso, cá estou
usufruindo de uma certa paz interior, recusando assim por instantes a convulsão do mundo exterior e ainda do mundo moderno. Como
sobrevivo com tanto cheiro a enxofre? É certamente uma escolha arriscada pois vivo e adormeço no meio das ervas e das rochas, saindo apenas para recolher vegetais e frutas, bem como dar longos
passeios e meditar. Por vezes, vou até alguma casa de pasto mais próxima “abastecer-me” de líquidos e comer alguns citrinos que me permitam aguentar os próximos meses, quem sabe, alguns anos. Viver junto de um vulcão adormecido sempre implicou alguns riscos mas o facto de ouvir o barulho de um riacho que passa aqui perto faz-me esquecer este báratro interior.
Aparentemente está tudo bem por aqui pois tenho as minhas necessidades básicas satisfeitas, sendo uma sorte aquilo que me aconteceu, isto a propósito do seu postal, já que o carteiro procurava nas imediações do Farol pelo“professor doutor que se retirou da civilização”, enquanto eu tomava o meu banho de banheira mensal, uma benesse que me é concedida pelo faroleiro. Sorte a minha, portanto, em ter lido as suas notícias e ainda a novidade dos seus
mergulhos com animais de grande porte. Que risco, amiga Miriam, mas quem não arrisca não petisca, já dizia o ditado. E como deve ser engraçado ter o olhar e a corte de tanto"crocodilo amigo".E, enquanto eles não mordem...
Permita-lhe que lhe diga que não sei muito bem quando voltarei ao convívio do mestre Janeiro Alves, já que soube que se transformou recentemente num coleccionador de liras, um instrumento musical que
povoou os seus serões de infância e que lhe devolvem agora as suas memórias pueris nas primeiras notas escutadas. Sendo assim, quando souber do seu ímpeto viajeiro, acompanhá-lo-ei neste nosso desejo de mútuo reencontro.
Com consideração, alegria e estima,
(Professor) Doutor Mara
domingo, 25 de janeiro de 2015
sábado, 24 de janeiro de 2015
Um Postal de Miriam Manaia
Caro Doutor, como tem passado
este sol de Inverno com temperaturas amenas e agradáveis?
Nem imagina o quanto amei saber
que se encontra de novo a viver junto de um vulcão adormecido. Passou tanto
tempo desde o nosso último encontro e sei que nunca mais transmiti nada da
minha parte, típico desta minha personalidade errante, bruxuleante e ondulante. Durante os
últimos meses viajei sem cessar, corri mundo, fartei-me de viajar até cansar.
Regresso agora de uma viagem ao sudoeste asiático onde, pela primeira vez, nadei
com crocodilos, e, talvez por isso, tenha tido necessidade de lhe escrever com esta brevidade. É
um impulso estranho nadar com animais de grande porte, rodeá-los sem que
estes nos mordam ou apanhem, sempre com esta sensação imanente de "toca e foge". É preciso muito treino, evidentemente.
Soube, por voz amiga, que o agora (Professor) Doutor tem tido contactos
recentes com o mui amigo Janeiro Alves. Que bom seria ter a vossa companhia no recém-renovado Solar dos
Manaias.
Até breve na caixa dos correios,
com imensas saudades suas
Miriam Manaia
O Quarto
Quem te pôs
a mão no ombro,
a faca que
te atravessou o coração,
são feridas
alheias, talvez algo que leste;
entretanto
partiste
para lugares
menos iluminados
e corações
menos vulneráveis,
pode
perguntar-se é o que fazes ainda aqui
se já cá não
estás.
A hora havia
de chegar em que
nos
perderíamos um do outro.
E
acabaríamos necessariamente assim,
mortos
inventariando mortos.
Morrer,
porém, não é fácil,
ficam
sombras nem sequer as nossas,
e a nossa
voz fala-nos
numa língua
estrangeira.
Apaga a luz
e vira-te para o outro lado
e acorda
amanhã como novo,
barba
impecavelmente feita,
o dia um
sonho sólido onde a noite se limpa e se deita.
Manuel António Pina, in Como se Desenha
uma Casa, Assírio & Alvim, 2011
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