domingo, 15 de março de 2015

Tarde de Domingo

Um brinquedo na língua em rodopio
tal brado o nome
desaforo e o desatino
rimos da luz a ostentar o sol
ainda esta longínqua distância
num braço de madeira a dividir
défice de vida e cinema pronunciado
a maré continua a encher
se no fim do dia tal for possível aportar.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Uma Carta Marciana de Janeiro Alves

Caro Doutor Mara,

                   Encontro-me preso numa casa de banho de um centro comercial, e aproveito para lhe escrever. Já tentei escapar por debaixo da porta, mas quando tinha o corpo já quase todo do lado de fora, a cabeça não passou. Foi por pouco. Já bati à porta, já gritei por ajuda, e acabei de ligar para o 112, pois estou na posse de um telefone. Infelizmente não me levaram a sério. De resto ninguém me atende o telefone, e aqui estou. A olhar para quatro paredes sentado na sanita. Há alguns minutos entrou um indivíduo a assobiar, fez de conta que não me ouviu. Não entrou mais ninguém. De repente as pessoas deixaram de vir à casa de banho, de propósito, para me deixarem aqui.
                   Há já alguns dias que pressentia que me andavam a preparar alguma. Mas eu finjo que estou bem, que não é nada comigo. Já nem faço barulho. Não lhes quero dar o prazer de observarem a minha angústia com um prazer perverso, como quem vê o National Geographic e se deleita a observar um herbívoro galopante a ser encurralado por uma cambada de leões esfomeados. Não dou o braço a torcer. O Doutor Mara sabe como sou um osso duro de roer. Enfim, a noite aqui é garantida, pois já é uma da manhã, e os poucos que ficaram para o cinema já saíram concerteza. Os seguranças devem estar a enviar mensagens, aborrecidos por não se passar nada. E eu aqui. Eles sabem que eu estou aqui, eu sei que eles sabem. Mas não querem saber, de propósito. Eu também não quero saber, tenho mais que fazer. Tenho assuntos para tratar. Não lhes vou dar o prazer de passar pela vergonha decorrente de uma libertação ridícula, de me virem salvar como se fossem uns heróis. De ser o bombo da festa enquanto eles são condecorados com medalhas de mérito. Já me convenci que passarei aqui a noite. Na verdade isto é uma espécie de suite desprovida de quarto.
          Apesar desta situação embaraçosa, escrevo-lhe para saber de si. Como tem passado o meu amigo? Já tive conhecimento que figura de novo no portfolio das ilustres figuras Fayalenses, que regressou à casa partida, que deu uma volta de 360 graus, que afinal o filme era uma saga de duas partes, que suprimiu o espaço físico que o separava da origem, que se voltou a banhar nas águas tropicais da exótica baía de Porto Pim, e que o Pico agora o volta a perseguir como um vulto incontornável.
          Também sei que aguarda ansiosamente novidades dos Manaias. Estão falidos. Filomeno Manaia, o gestor de toda a herança acabou por investir acções num banco que faliu e falaciosamente mudou de nome. Neste momento, alguns Manaias já estão a trabalhar em call centers, enquanto que outros fazem espera na fila do centro de emprego. Uma calamidade social, Dr. Mara. Todo o património da família está agora nas mãos de gestores de insolvência, homens vestidos de negro, com barbas escorridas e pasta na mão, que cheiram a môfo e levitam à volta dos velhos Manaias. Miriam soube disto em Inglaterra, e regressou de emergência a Viseu, a tempo de evitar que Clemêncio Manaia pusesse termo à vida com uma corda ao pescoço. Passou por Lisboa logo após. Almoçou comigo e pôs-me a par de toda a história. Filetes de pescada, junto ao rio, em sua homenagem, Dr. Mara. Miriam confessou-me que tem saudades dos velhos tempos, quando passeava consigo de mão dada pela Matriz, e dos choques que apanhavam quando tocavam em metal. Ela quer visitá-lo em breve. Registe.
          O Solar dos Manaias está agora à venda. É uma machadada na história, Dr. Mara. É o fim de infindáveis acontecimentos antológicos, do baluarte de muitos serões que figurarão nos anais da cultura nacional. É o fim do próprio Dr. Mara, produto de fino recorte, intelectualmente renascido e recriado no Solar. É uma catástrofe Dr. Mara, e por isso lhe escrevo, preocupado consigo. Presumo que ainda não soubesse desta notícia, e dou-lha com pesar. Antes presidiário de uma casa de banho pública do que estar na sua situação, Dr. Mara.
          Bom, está a acabar a minha bateria, e portanto vou dormir. O chão está coberto de papel higiénico de folha dupla, e encostarei a cabeça ao sanitário.
          Peço desculpa por esta escrita de retrete, um tanto ou quanto atabalhoada, fruto da situação embaraçosa em que me encontro. Dentro em breve, já no meu apartamento, tratarei de lhe enviar impressões sobre as minhas vivências citadinas, assim como algumas situações que ando a preparar de forma a alterar o curso dos acontecimentos. Os projectos estão em efervescência, e porei o Dr. Mara a par de tudo. Até lá, não cometa nenhuma loucura!

Com Amizade,
Janeiro Alves

segunda-feira, 2 de março de 2015

Há Asas Feridas nas Vozes que Vêm do Mar

     
Medeiros/Lucas (Mar Aberto, 2015)
  "No porto deserto/ Só há um navio/Já triste e cansado/ O resto é vazio/ No velho costado/O mar escreveu/Com algas e búzios/O que ele sofreu/O que ele passou/Sulcando oceanos/ Cruéis temporais/ Por anos e anos/ Nas horas sem fim/ Por noites e dias/ Das rotas distantes/ E das calmarias/ Navio parado/ Em frente do mar/ Que bom é partir/Que triste é ficar/ Mistério de longe/Chamando, chamando/Adeus que me vou/Deus sabe até quando.”

Armando Côrtes Rodriguesin  Mar Aberto (Carlinhos Medeiros e Pedro Lucasfaixa nº11, "Navio")

       Conta-me um pescador que todas as manhãs, muito cedo,vai alimentar um cagarro com uma asa ferida no porto da Horta. Diz-me isso neste início do mês de Março, com  alegria, emoção e o brilho dos olhos que eu não consigo descrever com exactidão. Porventura, até sei, mas a realidade neste caso supera em larga medida a ficção. Tudo isto se passa num pequeno café, apelidado de Vinte, com uma vista tão ou mais bela para a Baía de Porto Pim como a história deste biólogo inventado. É um conhecedor profundo de aves marinhas e que se podia fundir com todos os outros seres que habitam no fundo do mar, já que carrega consigo uma voz que é semelhante ao som de um búzio. Por vezes, ao fim da tarde, confirmo com clareza quando me saúda mal me encontra ou avista e é tal e qual como se fosse sempre a nossa primeira vez, pois parece que aquela voz vem do fundo dos tempos, um eco tão antigo que me faz relembrar velhos amigos ou familiares de outras histórias e épocas. Ouço a sua história, omitirei o seu nome, como devem calcular, e desato a recordar imediatamente o “Cantar Na m´Incomoda”, editado em 1998, por Carlinhos Medeiros e produzido pelo Luís Gil Bettencourt. Foram raras as vezes que ouvi os temas desse seminal disco, essencialmente o “Rema”,“Santiana”,ou, concretamente, o “Marujo”, oriundas do cancioneiro tradicional da Ilha das Flores, em que não me devolvessem por instantes a vida difícil desta gente ou que de súbito me reavivassem os seus dias duros e difíceis da faina e a dolorosa existência  destes homens enquanto vivembaloiçam no alto mar. Não raras vezes também que é através do som do mar, no que este tem de mais instintivo, primitivo e primordial, que se misturam em mim as suas vozes com a dos cagarros num linguajar imperceptível entre homens e aves marinhas, impossível de distinguir. Tenho uma admiração indefectível por estes homens corajosos e rudes. Por eles e pelas suas reduzidas palavras, arrancadas com um anzol do tamanho da sinceridade. Ouço-os várias vezes, sempre com atenção, é apaixonante. É como se todo o tempo se condensasse numa única frase melódica, num singular timbre inaudito e criptado, assustador, numa articulação de sons desconhecidos por desvendar. Uma magia viva e transmissível. Acabadinho de ouvir o "Navio", faixa presente em "Mar Aberto", e é exactamente a mesma e deslumbrante emoção. São asas feridas que cavam fundo a dor de querer voar. 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Fazendo de Março (nº97)

     
Ilustração de Jacques Cousteau (Pedro Valim)
Neste número 97 a fotografia da capa pertence ao holandês residente no Faial há cinco anos: Dieter Ludwig. Trata-se de um retrato dos anos finais da caça à baleia nas ilhas do triângulo. No seu interior uma entrevista arejada, muito fresca, por sinal, ao Outdórico Dabneyda” que acabou de se estrear na ilha azul. Destaque para as exposições de Agnès Juten (escultura) e Rui Melo (pintura), o curioso e pertinente artigo de Paulo Lisboa intitulado “Nos Açores com Raul Brandão”, os “Morcegos” Dieter Ludwig e Agnès Juten, a apresentação do Múma que irá animar os fins de semana faialenses, o sempre animado suplemento “Fazendinho”, da responsabilidade da Rita Mendes e da Melina Álvaro, a inusitada e sempre hilariante rúbrica “Onde São para Ti os Açores”, da Sara Soares, uma conversa com os Wave Jazz Ensemble que atuam este fim de semana no Teatro Faialense, o artigo “A Vida dos Cachalotes no Atlântico Norte” da autoria da Claúdia Oliveira, uma entrevista de Teresa Cerqueira a Ricardo Ferreira sobre as danças que nos fazem bem à saúde e ainda outro artigo sobre arte na forma de palavras no Museu de Angra do Heroísmo.  A concepção gráfica desta edição é das Ilhas Cook (Tomás Melo e Aurora Ribeiro) e é, certo e seguro, continua a espalhar-se ao comprido pelas habituais cinco ilhas do arquipélago açoriano. Boa leitura.


J.P.Simões no Sporting...da Horta.

Fotografia:http://www.jpsimoes-fotos.blogspot.pt/

      Já passaram mais de dez anos dos “Quinteto Tati” e houve, entretanto, o álbum “1970” e um trovador em dueto com Márcia (a canção chamava-se “A Pele que Há em Mim (Quando o Dia Entardeceu”), tendo este tema ajudado a elevar-se ao trono da popularidade. Para trás ficou a participação enquanto cantor dos "Belle Chase Hotel" e várias “óperas musicais” levadas a cima do palco em forma de canção. Quem for assistir ao concerto na sala do Sporting da Horta, no próximo dia 28 de Fevereiro, pelas 23 horas, pode  ouvir baladas, dissonâncias e ousadias deste cantautor presentes no recente disco “Roma”, editado em Abril de 2013. A organização do concerto é da Associação Cultural Música Vadia.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Que Vergonha Rapazes!

Que vergonha, rapazes! Nós práqui,
caídos na cerveja ou no uísque,
a enrolar a conversa no “diz que”
e a desnalgar a fêmea (“Vist’? Viii!”)

Que miséria, meus filhos! Tão sem jeito
é esta videirunha à portuguesa,
que às vezes me sorgo no meu leito
e vejo entrar quarta invasão francesa.

Desejo recalcado, com certeza...
Mas logo desço à rua, encontro o Roque
(“O Roque abre-lhe a porta, nunca toque!”)
e desabafo: - Ó Roque, com franqueza:

Você nunca quis ver outros países?
-Bem queria, Sr. O’Neill! E... as varizes?

Alexandre O`Neill in "De Ombro na Ombreira" (1969)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Os Wave Jazz Ensemble no Teatro Faialense

-Em que fase é que o Wave Jazz Ensemble se encontram, isto é, o que é que têm feito e o que pensam fazer?
Fotografia de Manuel Martins Menezes
WJE-A banda, tendo nascido em 2010, partindo da vontade de uma exploração da linguagem jazzística em combo, no sentido de permitir uma abordagem mais livre dos temas, privilegiando o desenvolvimento da improvisação, continua a fazer esse trabalho no sentido de uma evolução em termos de conjunto e também individual. Paralelamente, ou complementarmente, a banda tem trabalhado e desenvolvido temas originais e arranjos próprios de standards e, também, temas tradicionais. Os Wave têm feito, também, um trabalho gravação de alguns desses temas, com vista a uma publicação futura, neste momento, sem prazo definido, dependendo esta dos apoios necessários. Para além desta atividade, existe depois o trabalho específico de preparação de repertório específico para os concertos que, felizmente, têm acontecido, sendo o próximo no dia 28 de fevereiro às 21h30, no Teatro Faialense. No futuro próximo, a banda tem compromissos em agenda de natureza estritamente musical e, também, de divulgação e sensibilização para o Jazz, encontrando-se alguns deles em fase de produção, e que vêm na sequência dos concertos marcantes para a banda, como foram aqueles com Claus Nymark, Coro Pactis, por exemplo, sendo a nossa intenção poder fazê-los, também fora da Terceira, com outros convidados, assim haja interesse das entidades promotoras de eventos nesse sentido.

Excerto de uma entrevista aos Wave Jazz Ensemble

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Ver Estranhas Formas a Pensar - sobre a escultura e os desenhos de Agnès Juten

Escultura como arte da representação. Desde a antiguidade clássica, muito antes da escultura ter sido escolhida para ser a quarta arte por Ricciotto Canudo, que esta esteve sempre ao serviço da representação do corpo humano, elevando-o à condição suprema nas artes clássicas, pontuando as suas formas antropomórficas com o estatuto de divindade. Desta tradição e volume constam o mármore e o bronze como materiais essenciais ao trabalho do colectivo de artistas. O renascimento acentua a representação naturalista do corpo humano, desenvolvendo a técnica e aperfeiçoamento do nu, muito pelo conhecimento adquirido e avanço do saber acerca da anatomia humana. Os processos criativos foram variando ao longo dos tempos e das épocas. Esculpir era, pois, ilustrar, representar por imagens o ser humano em redor, e se possível revelar a plasticidade das formas humanas, moldando-o com várias técnicas e  materiais envolvidos na criação de objetos representativos da figura humana e humanizada.
Sem título - Agnès Juten (2014)
Escultura como arte de manifestação e suporte. Chegados à escultura contemporânea e, já sem pensar na representação do corpo humano, que ideia de arte podemos conceber? Olhamos em redor e vemos que não há representação de corpos ou figuras humanizadas, apenas manifestações de uma vontade individual de construir uma realidade, que é sua, e expressar a sua visão do mundo. Melhor dizendo, dar a pensar os vários mundos que em nós habitam podia bem ser o leit motiv deste impulso criador, pois criar pode ser o sustentáculo de novas formas de realizar o nosso olhar, muitas vezes que julgamos estar perdidas ou nunca vistas. Os materiais que muitas vezes julgamos desencontrados, espalhados pelos nossos lugares de trabalho, pelas ruas, à deriva pelo chão, apartados de qualquer espaço ou local, poderão assim encontrar outros significados e expressão. Há uma espécie de serendipitismo da forma (ou arte de configurar o mundo) se quiserem. O uso dos materiais recuperados ganha assim nova expressão, resultando daí um novo suporte. O caos em redor, ou quem sabe, o caos interior, necessitou sempre de ser ordenado, procurando novas formas e renovadas representações, para fornecer e inventariar ideias, sobretudo para dar conta de outros mundos por vir, imaginar, ou saber.
Escultura como arte em movimento. A escultura contemporânea e a arte em geral podem ser consideradas inúteis e desprovidas de qualquer função caso não tenham, pelo menos, a veleidade de nos fazer pensar. É perfeitamente consensual acreditar que os objetos aqui presentes nos suscitem um conjunto de significações, sentidos e, com toda a clareza e distinção, sentimentos. Dessa sensibilidade da autora até ao vosso entendimento como fruidores da obra da arte é que podemos afirmar se a arte está a ser devidamente cumprida, isto é, pensada, interrogada, sentida. Essa é a escultura, enquanto metáfora do mundo e da vida, que faz mover o pensamento, o sentimento. Aquela que é capaz de lançar novos mundos no nosso mundo.Aquela que introduz acção, movimento, enfim, desequilíbrio, essencialmente, inquietação. Inquietemo-nos.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

"Novas Obras"de Agnès Juten na Casa Manuel de Arriaga

retirado daqui:www.agnesjuten.com 

       Agnès Juten irá expor esculturas e desenhos na Casa Manuel de Arriaga, na cidade da Horta, Ilha do Faial. A exposição intitulada "Novas Obras" abre dia 20 de Fevereiro, às 18 horas, e vai até 10 de Abril. Agnès Juten é uma artista plástica, holandesa, radicada na Horta, com um longo percurso e pergaminhos. Será mais uma oportunidade de apreciar um conjunto considerável da sua vasta obra. São desenhos e esculturas muito recentes, alguns destes realizados para o efeito, que a artista elaborou, imaginou e concebeu no seu atelier da rua Visconde de Santana, nº 7. 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Lastro Rubro de um Fevereiro Ameno

        Nuvens feitas farrapos cobrem por instantes o céu que se avista da praia de Porto Pim no declinar do sol. São vários desenhos de nuvens que se estendem até ao horizonte, dispostos como lençóis brancos repletos de curvas e de formas bem compridas. Há, no entanto, um clarão de luz a abrilhantar a cor rubro-alaranjada que emerge ao fundo de um cenário alvo e resplandecente. A noite há-de chegar. E enquanto há reflexos de uma luz flamante resiste-se à caminhada que nos virá a temperar a vista com um azul cerúleo, desbotado, completando assim a solenidade de cores que se agrupam sem se agredir. Acompanha-nos o marulhar das ondas como carneirinhos movimentados a compasso e a talho de despedida de mais um fim de tarde ameno. Não tarda nada e a noite vencerá o dia. Desfeita a ilusão que resta da claridade, recupera-se com esperança aquele momento ténue e reluzente. É noite. A escrita deverá cumprir agora o seu dever do que resta dessa incandescente interioridade. 

Do amadurecimento

       "O amadurecimento é perceber que não somos omnipotentes e que os verdadeiros heróis são aqueles que não são mitificados. São aqueles que são heróis e amados por serem como são. Uma coisa é mitificar as pessoas, outra é aceitar a vida como ela é. Absurda. Sem lógica, não mitificada. Não ficcionada."

Beatriz Batarda, in P2, 15 de Fevereiro de 2015