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| Estudo "Cyclon/1"- 1990 |
terça-feira, 17 de março de 2015
domingo, 15 de março de 2015
Tarde de Domingo
Um brinquedo na língua em rodopio
tal brado o nome
desaforo e o desatino
rimos da luz a ostentar o sol
ainda esta longínqua distância
num braço de madeira a dividir
défice de vida e cinema pronunciado
a maré continua a encher
se no fim do dia tal for possível aportar.
tal brado o nome
desaforo e o desatino
rimos da luz a ostentar o sol
ainda esta longínqua distância
num braço de madeira a dividir
défice de vida e cinema pronunciado
a maré continua a encher
se no fim do dia tal for possível aportar.
segunda-feira, 9 de março de 2015
Uma Carta Marciana de Janeiro Alves
Caro Doutor Mara,
Encontro-me preso numa casa de banho de um centro
comercial, e aproveito para lhe escrever. Já tentei escapar por debaixo da
porta, mas quando tinha o corpo já quase todo do lado de fora, a cabeça não
passou. Foi por pouco. Já bati à porta, já gritei por ajuda, e acabei de ligar
para o 112, pois estou na posse de um telefone. Infelizmente não me levaram a
sério. De resto ninguém me atende o telefone, e aqui estou. A olhar para quatro
paredes sentado na sanita. Há alguns minutos entrou um indivíduo a assobiar,
fez de conta que não me ouviu. Não entrou mais ninguém. De repente as pessoas
deixaram de vir à casa de banho, de propósito, para me deixarem aqui.
Há já alguns dias que pressentia que me andavam a
preparar alguma. Mas eu finjo que estou bem, que não é nada comigo. Já nem faço
barulho. Não lhes quero dar o prazer de observarem a minha angústia com um
prazer perverso, como quem vê o National Geographic e se deleita a observar um
herbívoro galopante a ser encurralado por uma cambada de leões esfomeados. Não
dou o braço a torcer. O Doutor Mara sabe como sou um osso duro de roer. Enfim, a
noite aqui é garantida, pois já é uma da manhã, e os poucos que ficaram para o
cinema já saíram concerteza. Os seguranças devem estar a enviar mensagens,
aborrecidos por não se passar nada. E eu aqui. Eles sabem que eu estou aqui, eu
sei que eles sabem. Mas não querem saber, de propósito. Eu também não quero
saber, tenho mais que fazer. Tenho assuntos para tratar. Não lhes vou dar o
prazer de passar pela vergonha decorrente de uma libertação ridícula, de me
virem salvar como se fossem uns heróis. De ser o bombo da festa enquanto eles
são condecorados com medalhas de mérito. Já me convenci que passarei aqui a
noite. Na verdade isto é uma espécie de suite desprovida de quarto.
Apesar
desta situação embaraçosa, escrevo-lhe para saber de si. Como tem passado o meu
amigo? Já tive conhecimento que figura de novo no portfolio das ilustres
figuras Fayalenses, que regressou à casa partida, que deu uma volta de 360
graus, que afinal o filme era uma saga de duas partes, que suprimiu o espaço
físico que o separava da origem, que se voltou a banhar nas águas tropicais da
exótica baía de Porto Pim, e que o Pico agora o volta a perseguir como um vulto
incontornável.
Também
sei que aguarda ansiosamente novidades dos Manaias. Estão falidos. Filomeno
Manaia, o gestor de toda a herança acabou por investir acções num banco que
faliu e falaciosamente mudou de nome. Neste momento, alguns Manaias já estão a
trabalhar em call centers, enquanto
que outros fazem espera na fila do centro de emprego. Uma calamidade social,
Dr. Mara. Todo o património da família está agora nas mãos de gestores de
insolvência, homens vestidos de negro, com barbas escorridas e pasta na mão,
que cheiram a môfo e levitam à volta dos velhos Manaias. Miriam soube disto em
Inglaterra, e regressou de emergência a Viseu, a tempo de evitar que Clemêncio
Manaia pusesse termo à vida com uma corda ao pescoço. Passou por Lisboa logo
após. Almoçou comigo e pôs-me a par de toda a história. Filetes de pescada,
junto ao rio, em sua homenagem, Dr. Mara. Miriam confessou-me que tem saudades
dos velhos tempos, quando passeava consigo de mão dada pela Matriz, e dos
choques que apanhavam quando tocavam em metal. Ela quer visitá-lo em breve. Registe.
O
Solar dos Manaias está agora à venda. É uma machadada na história, Dr. Mara. É
o fim de infindáveis acontecimentos antológicos, do baluarte de muitos serões
que figurarão nos anais da cultura nacional. É o fim do próprio Dr. Mara,
produto de fino recorte, intelectualmente renascido e recriado no Solar. É uma
catástrofe Dr. Mara, e por isso lhe escrevo, preocupado consigo. Presumo que
ainda não soubesse desta notícia, e dou-lha com pesar. Antes presidiário de uma
casa de banho pública do que estar na sua situação, Dr. Mara.
Bom,
está a acabar a minha bateria, e portanto vou dormir. O chão está coberto de
papel higiénico de folha dupla, e encostarei a cabeça ao sanitário.
Peço
desculpa por esta escrita de retrete, um tanto ou quanto atabalhoada, fruto da
situação embaraçosa em que me encontro. Dentro em breve, já no meu apartamento,
tratarei de lhe enviar impressões sobre as minhas vivências citadinas, assim
como algumas situações que ando a preparar de forma a alterar o curso dos
acontecimentos. Os projectos estão em efervescência, e porei o Dr. Mara a par
de tudo. Até lá, não cometa nenhuma
loucura!
Com
Amizade,
Janeiro
Alves
segunda-feira, 2 de março de 2015
Há Asas Feridas nas Vozes que Vêm do Mar
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| Medeiros/Lucas (Mar Aberto, 2015) |
"No porto deserto/ Só há um navio/Já triste
e cansado/ O resto é vazio/ No velho costado/O mar escreveu/Com algas e
búzios/O que ele sofreu/O que ele passou/Sulcando oceanos/ Cruéis temporais/ Por
anos e anos/ Nas horas sem fim/ Por noites e dias/ Das rotas distantes/ E das
calmarias/ Navio parado/ Em frente do mar/ Que bom é partir/Que triste é
ficar/ Mistério de longe/Chamando, chamando/Adeus que me vou/Deus sabe até
quando.”
Armando
Côrtes Rodrigues, in Mar Aberto (Carlinhos Medeiros e Pedro Lucas, faixa nº11, "Navio")
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
Fazendo de Março (nº97)
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| Ilustração de Jacques Cousteau (Pedro Valim) |
J.P.Simões no Sporting...da Horta.
| Fotografia:http://www.jpsimoes-fotos.blogspot.pt/ |
Já passaram mais de dez anos dos “Quinteto Tati” e houve, entretanto, o álbum “1970” e um trovador em dueto com Márcia (a canção chamava-se “A Pele que Há em Mim (Quando o Dia Entardeceu”), tendo este tema ajudado a elevar-se ao trono da popularidade. Para trás ficou a participação enquanto cantor dos "Belle Chase Hotel" e várias “óperas musicais” levadas a cima do palco em forma de canção. Quem for assistir ao concerto na sala do Sporting da Horta, no próximo dia 28 de Fevereiro, pelas 23 horas, pode ouvir baladas, dissonâncias e ousadias deste cantautor presentes no recente disco “Roma”, editado em Abril de 2013. A organização do concerto é da Associação Cultural Música Vadia.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
Que Vergonha Rapazes!
Que
vergonha, rapazes! Nós práqui,
caídos na
cerveja ou no uísque,
a enrolar a
conversa no “diz que”
e a
desnalgar a fêmea (“Vist’? Viii!”)
Que miséria, meus filhos! Tão sem jeito
é esta
videirunha à portuguesa,
que às vezes
me sorgo no meu leito
e vejo
entrar quarta invasão francesa.
Desejo recalcado, com certeza...
Mas logo
desço à rua, encontro o Roque
(“O Roque
abre-lhe a porta, nunca toque!”)
e desabafo:
- Ó Roque, com franqueza:
Você nunca quis ver outros países?
-Bem queria,
Sr. O’Neill! E... as varizes?
Alexandre O`Neill in "De Ombro na Ombreira" (1969)
terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
Os Wave Jazz Ensemble no Teatro Faialense
-Em que fase é que
o Wave Jazz Ensemble se encontram, isto é, o que é que têm feito e o que pensam
fazer?
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| Fotografia de Manuel Martins Menezes |
WJE-A banda, tendo nascido em 2010,
partindo da vontade de uma exploração da linguagem jazzística em combo, no
sentido de permitir uma abordagem mais livre dos temas, privilegiando o
desenvolvimento da improvisação, continua a fazer esse trabalho no sentido de
uma evolução em termos de conjunto e também individual. Paralelamente, ou
complementarmente, a banda tem trabalhado e desenvolvido temas originais e
arranjos próprios de standards e, também, temas tradicionais. Os Wave têm
feito, também, um trabalho gravação de alguns desses temas, com vista a uma
publicação futura, neste momento, sem prazo definido, dependendo esta dos
apoios necessários. Para além desta atividade, existe depois o trabalho
específico de preparação de repertório específico para os concertos que,
felizmente, têm acontecido, sendo o próximo no dia 28 de fevereiro às 21h30, no
Teatro Faialense. No futuro próximo, a banda tem compromissos em agenda de
natureza estritamente musical e, também, de divulgação e sensibilização para o
Jazz, encontrando-se alguns deles em fase de produção, e que vêm na sequência
dos concertos marcantes para a banda, como foram aqueles com Claus Nymark, Coro
Pactis, por exemplo, sendo a nossa intenção poder fazê-los, também fora da
Terceira, com outros convidados, assim haja interesse das entidades promotoras
de eventos nesse sentido.
Excerto de uma
entrevista aos Wave Jazz Ensemble
domingo, 22 de fevereiro de 2015
Ontem escrito numa parede da cidade
"Eu nuvem, tu nuvem, ele nuvem, nós nuvem, vós nuvem, eles nuvem de certeza."
sábado, 21 de fevereiro de 2015
Ver Estranhas Formas a Pensar - sobre a escultura e os desenhos de Agnès Juten
Escultura como arte da representação. Desde a
antiguidade clássica, muito antes da escultura ter sido escolhida para ser a quarta arte por Ricciotto
Canudo, que esta esteve sempre ao serviço da representação do corpo humano, elevando-o à condição suprema nas artes clássicas, pontuando as suas formas
antropomórficas com o estatuto de divindade. Desta tradição e volume constam o
mármore e o bronze como materiais essenciais ao trabalho do colectivo de
artistas. O renascimento acentua a representação naturalista do corpo humano,
desenvolvendo a técnica e aperfeiçoamento do nu, muito pelo conhecimento
adquirido e avanço do saber acerca da anatomia humana. Os processos criativos
foram variando ao longo dos tempos e das épocas. Esculpir era, pois, ilustrar,
representar por imagens o ser humano em redor, e se possível revelar a
plasticidade das formas humanas, moldando-o com várias técnicas e materiais envolvidos na criação de objetos representativos da figura humana e humanizada.
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| Sem título - Agnès Juten (2014) |
Escultura como arte em movimento. A
escultura contemporânea e a arte em geral podem ser consideradas inúteis e
desprovidas de qualquer função caso não tenham, pelo menos, a veleidade de nos
fazer pensar. É perfeitamente consensual acreditar que os objetos aqui
presentes nos suscitem um conjunto de significações, sentidos e, com toda a
clareza e distinção, sentimentos. Dessa sensibilidade da autora até ao vosso
entendimento como fruidores da obra da arte é que podemos afirmar se a arte
está a ser devidamente cumprida, isto é, pensada, interrogada, sentida. Essa é
a escultura, enquanto metáfora do mundo e da vida, que faz mover o pensamento, o
sentimento. Aquela que é capaz de lançar novos mundos no nosso mundo.Aquela que
introduz acção, movimento, enfim, desequilíbrio, essencialmente, inquietação. Inquietemo-nos.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
"Novas Obras"de Agnès Juten na Casa Manuel de Arriaga
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| retirado daqui:www.agnesjuten.com |
Agnès Juten irá expor esculturas
e desenhos na Casa Manuel de Arriaga, na cidade da Horta, Ilha do Faial. A
exposição intitulada "Novas Obras" abre dia 20 de Fevereiro, às 18 horas, e vai até 10 de Abril. Agnès
Juten é uma artista plástica, holandesa, radicada na Horta, com um longo
percurso e pergaminhos. Será mais uma oportunidade de apreciar um
conjunto considerável da sua vasta obra. São desenhos e esculturas muito
recentes, alguns destes realizados para o efeito, que a artista elaborou, imaginou e concebeu no seu atelier da rua Visconde de
Santana, nº 7.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
Lastro Rubro de um Fevereiro Ameno
Nuvens feitas farrapos cobrem por instantes o céu que se avista da praia de Porto Pim no declinar do sol. São vários
desenhos de nuvens que se estendem até ao horizonte, dispostos como lençóis brancos
repletos de curvas e de formas bem compridas. Há, no entanto, um clarão de luz a abrilhantar a cor rubro-alaranjada que emerge ao fundo de um cenário alvo e resplandecente.
A noite há-de chegar. E enquanto há reflexos de uma luz flamante resiste-se à
caminhada que nos virá a temperar a vista com um azul cerúleo, desbotado,
completando assim a solenidade de cores que se agrupam sem se agredir.
Acompanha-nos o marulhar das ondas como carneirinhos movimentados a compasso e a talho
de despedida de mais um fim de tarde ameno. Não tarda nada e a noite vencerá o dia.
Desfeita a ilusão que resta da claridade, recupera-se com esperança aquele momento
ténue e reluzente. É noite. A escrita deverá cumprir agora o seu dever do que resta
dessa incandescente interioridade.
Do amadurecimento
"O amadurecimento é perceber que não somos omnipotentes e que os verdadeiros heróis são aqueles que não são mitificados. São aqueles que são heróis e amados por serem como são. Uma coisa é mitificar as pessoas, outra é aceitar a vida como ela é. Absurda. Sem lógica, não mitificada. Não ficcionada."
Beatriz Batarda, in P2, 15 de Fevereiro de 2015
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