segunda-feira, 12 de outubro de 2015

O Doce Canto das Caldeiras

A cantora Bia
Bia actuou neste último sábado, dia 10 de Outubro, no Teatro Micaelense, numa sala composta ainda que não totalmente cheia como seria de esperar. A cantora de origem micaelense, nascida em Ponta Delgada no princípio dos anos 80, veio à sua terra natal apresentar pela primeira vez o álbum “Xi-Coração”. De nome artístico “Bia”, o seu nome é Beatriz Noronha, começou a cantar aos catorze anos de idade com a “Art Band”, e a partir daí nunca mais parou. Entretanto e, após diversas aventuras musicais, fez parte do grupo Xaile em 2004, tendo só este ano aparecido com o seu projecto a solo e a título individual. A cantora surgiu em palco com a sua banda para cantar temas como “Monopólio”, “Ora Viva”, “Uma Canção Comercial”, “Meio a Meio” ou “Indecisa Decisão”, entre outros, fazendo assim desfilar os seus convidados que a ela se foram juntando palco: Henrique Ben David (percursionista) e os músicos Zeca Medeiros e Rafael Carvalho. Bia apresentou assim os os temas presentes no álbum como se de um regresso a casa se tratasse, não se cansando de agradecer a muitos presentes, pais inclusive, a sua trajectória e herança musical. O momento alto da noite, que viria a ser replicado em encore com a sua irmã (Ana Braz), foi a canção “Sou de uma Ilha”, momento alto para ouvir em tom maior : “Sou de uma Ilha, não há volta a dar/ Onde o princípio do fim é só mar/Sou sangue fogo que há na cratera/ Sou de alma e de quem navega.” Não esquecendo, porém, o dueto muito bonito que esta encetou com Zeca Medeiros no tema “Carta de Despedida”.

Quatro Poemas de Karmelo C. Iribarren

Ya Está

Ya poseemos
casi todo
lo que nos iba
a hacer felices
Puede decirse
que lo hemos
conseguido

Ya está.

Ahora solo
nos queda
comprovar
hasta qué punto
fuímos sinceros
conostros
mismos.

Retratos del Poeta Adolescente

Un paquete de tabaco
un libro de poemas
cuarenta duros
para tomar unas cervezas.

Poca cosa, es verdade:
pero para mi
era suficiente.
Y entonces aparecieron las mujeres.

Conviene no olvidarlo

No hay nada
Grátis. Ni siquiera
lo que es grátis es grátis de verdad.

Siempre
te lo descuentan
de algun sítio.

Lo Difícil

Enarmorarse es fácil
Uno pude enamorarse
-sin demasiado esfuerzo –
varias veces al dia,
a nada
que se lo proponga
y se mueva un poco por ahí;
y si es verano,
ni te cuento

Enamorarse no tiene
maior mérito
Lo realmente difícil
-no conozco
ningun caso-
Es salir entero
de una história de amor.

60 Cêntimos e Pouco Sono

É aqui o fim da noite
crepitam linhas no papel
a insânia do teu esgar
devastado e danoso
como se anunciasse ao longe
o fogo das castanhas de Novembro

Os Dias Normais

Chegam
e vão-se
sem deixar rasto
   e tu ficas a vê-los
a afastarem-se sobre os telhados
-e com eles, os anos-
e apenas sentes nada
ou sentes algo, vago,
que não sabes decifrar
                  são os dias
normais, os de sempre,
os que parecem que passam
à distância,
os assassinos
do amor.


Karmelo C. Iribarren

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Capítulo B

  
      A criação de colectâneas corresponde a uma vontade de dar a conhecer um leque alargado de autores. Há, por isso, neste Capítulo B um conjunto de poetas bastante diversificado e ainda uma variedade de poemas para vários gostos, ideias e estéticas, o que por si só é salutar e extremamente enriquecedor. As perguntas de hoje são evidentemente as mesmas de sempre: quem são hoje os leitores de poesia? Que eco tem a poesia na sociedade em que vivemos? Independentemente das respostas que possamos dar, o que há de importante neste impulso editorial é o facto de ser portador de uma ideia comum de comunidade poética. Estes autores surgem a partir de encontros semanais, quinzenais e mensais em actividades públicas de poesia: o Poetry Slam de Ponta Delgada, as quintas de Poesia na Travessa dos Artistas ou na TASCÀ, da Rua de Lisboa. Muitos destes poemas foram lidos em público, obtiveram timbre e diferentes ressonâncias junto dos seus ouvintes. Existe por aqui, tal como não podia deixar de ser, uma enorme cumplicidade entre os autores destes Capítulos, sendo este um bom motivo para uma maior divulgação desta compilação junto do público. É que a poesia é um género com pouca divulgação em Portugal e nas ilhas, os poetas editados são, na maioria das vezes, detentores de editoras, isto é, editam os seus próprios livros e editam os seus parceiros e amigos. São, portanto, poucos os poetas editados que não pertencem aos círculos da poesia amical, o que por um lado é sinal de cumplicidade e qualidade garantida, mas denuncia, não poucas vezes, sinais de estagnação ou cristalização estética. Ninguém quer, pois, arriscar uma edição de poemas se não conseguir pagar os custos da mesma. Deste modo, saúde-se a edição de colectâneas e, esta em particular, que conseguiu assim reunir dois poemas de Carla Veríssimo, Eleonora Marino Duarte, Fernando Nunes, João Malaquias, João Morais, João Quental Oliveira, José Soares, Júlio Ávila, Leonardo e Luís Augusto. Boa leitura!

Make do de Paulo Nozolino

Fotografia de Paulo Nozolino

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Capítulos B – Poesia nos Açores

      

      A edição é de 150 exemplares e tem o preço simbólico de 2 euros. Luís Andrade coordenou, organizou e fez o grafismo deste projecto apoiado pela Direcção Regional da Juventude, através do programa "Põe-te em Cena". A colectânea reúne dois poemas dos seguintes autores: Carla Veríssimo, Eleonora Marino Duarte, Fernando Nunes, João Malaquias, João Morais, João Quental Oliveira, José Soares, Júlio Ávila, Leonardo e Luís Augusto. Os pedidos deverão ser feitos para: capitulospoesia@gmail.com

Furnas

“Diz-se que certos indivíduos, que ao chegarem às Furnas parecem montanhas de carne, no regresso a suas casas vão de tal modo magros que quase os desconhecem os seus amigos. O processo consistiu em permanecer de molho umas horas por dia em águas muito quentes, deixando depois que por espaço de mais uma ou duas horas se opere o suadoiro de expurgo, para o que o paciente se embrulha em grossos casacões de lã e envolve a cabeça e o pescoço em toalhas. Os banhos produzem nestas pessoas um desgaste de reservas corpóreas semelhante ao que a fome no Inverno causa num arganaz hibernante.”



in Um Inverno nos Açores e Um Verão no Vale das Furnas, de Joseph e Henry Bullar, edição do Instituto Cultural de Ponta Delgada, Ilha de São Miguel, Açores, 1986.

Cantar com a Patti Smith…

     “Talvez seja uma utopia do contra, mais uma para a oposição do que para um governo, mas votar também é dizer não (como não votar pode ser) e, ainda que eu não votasse neles para o governo, vários candidatos, do Livre ao PCP, passando pelo Bloco, me parecem óptimos para essa resistência: zero retrocesso na lei do aborto, direitos plenos para os homossexuais, defesa do Estado Social, barreira contra os desmandos da Banca, a antítese de uma cultura agradecida, decorativa, ufanista. A propósito, Pàf assenta como uma bofetada nesta coligação. Portugal à frente de quê e para quê? Da quantidade de portugueses que esta coligação fez sentir a mais? Será a diferença entre patrioteiros e patriotas, mas sobre isso não me alongo. A ideia de pátria não me interessa, o nacionalismo não ama mais, confina e distingue. Interessa-me a ideia de amor a um lugar que se liga aos outros por isso mesmo, não tem medo de se perder, está em toda a parte: partir porque é bom, ficar porque é melhor. A vontade é que faz a casa. E aí podemos todos cantar com a Patti Smith "people have power". Somos nós e não há outros.”

Alexandra Lucas Coelho in P2, dia 4 de Outubro de 2015

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

As Charlas...Versão Itinerante.

Tiago Vouga em "As Charlas Quotidianas
 do Doutor Mara" (Agosto de 2015)
      O meu amigo, Tiago Vouga, regressou hoje ao continente português. O Tiago Vouga é o actor das "Charlas Quotidianas do Doutor Mara", excelente representação, por sinal. Sim, sou suspeito para dizer que este teve uma brilhante representação nas três vezes que a peça foi apresentada no Auditório ao Ar Livre da Biblioteca Municipal da Horta, durante o mês de Agosto. O Tiago Vouga e a Aurora Ribeiro actuaram para cerca de cento e cinquenta pessoas e, à semelhança de elementos do Teatro de Giz, também ele leu as Charlas na rádio Antena 9. 
   Agradeço-lhe, por isso, a generosidade, a humildade e simplicidade com que de forma voluntária, gratuita e empenhada se dedicou a este trabalho, a este texto e encenação colectiva. Durante este último mês, dedicámo-nos também a enviar propostas para dezenas de lugares que se ocupam destas coisas do teatro, da cultura e dos apoios a itinerâncias culturais. Gostaríamos, deste modo, que mais pessoas possam ainda assistir a este trabalho conjunto que nos deu tanto trabalho a realizar e levar adiante. O teatro tem este lado efémero, vive do momento em que assistimos e, por isso, tem que ser apoiado, divulgado, compreendido, valorizado. Em breve, contamos dar conta desses palcos em que terão lugar as Charlas do Doutor...Mara! Aqui: https://www.youtube.com/watch?v=0m_9pwmHtqc

Da Brumal Estação das Aves

Eis o marítimo Outono das aves,
seca noite da cidade fria,
nuvens viajantes até ao infinito,
por rotas dos ventos e do mar,

As flores nas águas sorvendo,
teu perfil de ardente utilidade,
A infância de frente: envelhecendo,
convenção presente esclarecida
agora habitada.

Desfeitos elos envoltos 
iluminado ócio da humanidade.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Tudo o Que é Novo é Belo

De tudo o que é novo nasce um novo prazer, 
mas eu sei que não é boa a jovem morte,

Ela fere pelas costas, e não é doce como o açúcar,
nem é como o vinho, nem como o sumo das uvas. 

(Al-Hountay`a)

in Quatro Poemas Árabes, "O Bebedor Nocturno" - Versões de Herberto Helder.