domingo, 5 de junho de 2016

Do Populismo

         "Populismo" já não designa nada da ordem da constituição e legitimação de um corpo político ou dos métodos de governação, já que o seu sentido está inteiramente do lado dos meios de comunicação, do regime mediático; não tem nada a ver com o povo, mas apenas com espectadores."

António Guerreiro, Ípslon, Sexta-feira, 27 de Maio de 2016,

sábado, 4 de junho de 2016

Sobre o Monólogo...

            
"Podemos Controlar o que os Outros Pensam de Nós?" com
o actor João Malaquias.
      “Podemos Controlar o que os Outros Pensam de Nós?” é um monólogo teatral que reflecte sobre essa capacidade de nos aceitarmos enquanto seres humanos, independentemente daquilo que pensamos ser ou de qualquer julgamento exterior. Ao mesmo tempo pretende exaltar o uso das palavras, a inocência do amor e da amizade, enaltecer a relevância da beleza e do seu papel no quotidiano, bem como exprimir a nossa necessidade de pacificação e de silêncio.
 Este texto foi sendo escrito, reescrito, ao longo do tempo. A sua génese, bem como a sua elaboração, está associada a uma circunstância especial, sobretudo a uma tirada de um amigo que se interrogava sobre essa possibilidade de controle, esse exame permanente que fazemos sobre aquilo que os outros podem pensar sobre nós. A indagação activa e vigilância permanente das nossas acções e sobre o que fazemos, uma atenção constante ao que os outros podem ou não pensar. É neste nosso comportamento que encontramos motivo para inibições ou acções nem sempre consentâneas com as nossas reais intenções.
          A partir daqui o texto foi-se tornando esclarecedor no sentido de criar um momento de introspecção, uma celebração de um aniversário e a exaltação de um registo dialógico virtual que criasse um uma reflexão intima e consciente sobre a existência e a passagem do tempo.”

Hoje à noite, no Teatro Micaelense



Cafés: Ágoras Modernas.

         
“Os cafés são a versão moderna da ágora grega. Locais onde se misturam trabalho e lazer, onde nos entregamos a certas rotinas, a certa preguiça, a certa reflexão, e onde podemos ler, discutir e depois escrever. Isto nem sempre existe nas cidades de hoje, com o ritmo de hoje.”

Claudio Magris, Ípslon



quinta-feira, 2 de junho de 2016

A Missiva de Janeiro Alves em Junho

Amigo Doutor Mara,
Estava eu a estender as minhas meias brancas no estendal, quando recebo inadvertidamente, e como se um taco de basebol me acertasse no lombo, a sua última carta. Doutor Mara, Doutor Mara, Doutor Mara… que deplorável espectáculo pirotécnico da escrita, com foguetes atirados em todas as direcções, e alguns a rebentarem-lhe nas mãos. O doutor mara navega à deriva no meio de um monótono oceano, e atirou um very light a pedir ajuda, só assim posso compreender o seu desespero.
Mas dou-lhe uma sugestão: já que não consegue parar de ingerir papel, experimente comer papel higiénico, quem sabe não ajudará a higienizar o seu discurso. Outra possibilidade é ingerir dois ou três livros de auto-ajuda, capa e tudo, acompanhados de uns goles de água para amolecer as folhas e a sua retórica também.
Eu bem sei que estas cartas são privadas (a não ser que as ande aí a publicar sem a minha autorização) e mal não virá ao mundo com as suas imprecisões e perversas judiações, mas imagine um dia que alguém as lê! É a destruição do meu património intelectual, é a minha pessoa a arder em destroços num inferno de mil chamas, é enfim, o meu fim Doutor Mara.
Ainda lhe pergunto, Doutor Mara, como pode confiar na União dos Amigos de Eisenstein, quando o próprio foi alvo das minhas severas críticas cinematográficas semanais quando escrevia para o semanário que saía de semana a semana? Os estatutos dessa associação são actualmente constituídos por um único artigo – “Artigo único: Esta associação tem como objectivo único e prioritário prejudicar Janeiro Alves de todas as formas possíveis, promovendo o seu enxovalhamento.” – em que a palavra enxovalhamento reúne em si os conceitos de maculação, rebaixamento e emporcalhamento.
Por fim, uma interrogação: Belém? Belém, Doutor Mara? Na última vez que estive fisicamente em Belém ainda nem existiam os pastéis de belém! E metafisicamente já foi o ano passado. Fico portanto estupefacto com estas suas invenções, que naturalmente só podem decorrer do seu estado de debilidade, combinado com a sua precipitada tendência para a fantasia. Há um mundo real à nossa volta, Doutor Mara. Se não consegue acordar, meta o despertador.
Antes de ir aparar o bigode, acabo esta carta com uma sugestão e uma confirmação. Sugiro-lhe que reveja a medicação que anda a fazer. Começaria talvez por reduzir os comprimidos amarelos, e aumentar a dose diária dos verdes. Por fim a confirmação: Marquei para o final deste mês uma visita não oficial a Ponta Delgada para me inteirar do seu estado de saúde, e para discutir consigo assuntos de extrema importância. Levarei comigo um colaborador para tirar apontamentos, e outro para fazer a reportagem, que culminará com a habitual foto do aperto de mão europeu.
            Finalizo desejando-lhe as melhoras da cabeça, e que da próxima vez não me importune com assuntos de menor relevância.

Cordialmente,
Janeiro Alves

Hoje, às 19 horas, na Galeria Miolo.

Cartaz de Victor Marques

"St John’s, Porto de Abrigo - A Frota Branca" no Museu de Ílhavo

Fotografia de Paul Anna Soik (1919-­1999)

quarta-feira, 1 de junho de 2016

3ª Sessão na Galeria Miolo

         
Fotografia de Carlos de Olyveira
Depois de duas apresentações, são cerca de cinquenta as pessoas que já assistiram, inclusive, houve quem quisesse repetir, voltaremos à Galeria Miolo no fim de tarde de amanhã, quinta-feira, dia 2 de Junho, pelas 19 horas. O João Malaquias, cada vem mais confiante, ensaia o texto de forma a melhorar a cada apresentação, exaltando a cadência e o baloiço repetitivo do texto : “Navegador solitário? Não. Nem pensar. Quando foi a primeira vez que olhaste o mar…quando foi? Lembras-te? Tenho que confessar-te que és, por vezes, um marinheiro à deriva, perdes-te com os teus olhos cheios de mar, levitas na sua grande beleza afirmativa e deixas-te encantar com a sua expressão no horizonte, inspiras-te tal e qual os poetas com as musas, mergulhas bem fundo nas águas, navegas à superfície, mergulhas novamente e vens à tona, reaprendes a boiar… vais tendo vários empregos, agarras-te às palavras como polvos na infância se agarravam às tuas pernas. Tu sabes que não podes cometer nenhum excesso. Percebes? Qualquer excesso agora pode ser fatal(…)” À Galeria/Editora Miolo que acarinhou e apoiou este monólogo, ao público que esteve presente e divulgou esta produção de baixíssimo custo e, que simpaticamente apelidamos de “Teatro Pobre”, estamos "teatralmente"gratos!

Douta Inquietude

Levaste contigo a locomotiva
douta inquietação a rasgar
as virtudes do vento e do azul
as linhas do céu plangente
cartas por escrever com destino certo
ruidosos dias estilhaçados 
de tudo o que se tem para dizer

João da Ponte, Ponta Delgada, 12 de Fevereiro de 2016.

terça-feira, 31 de maio de 2016

João da Ponte: Um Activista Cultural!

Clique na imagem para Ler
“A produção cultural em Lisboa é muito mais fácil de fazer, em certo sentido. Noutro sentido, tem muito muito menos interesse porque há muita gente a fazer. Vive-se, eu penso, muito mais de resultados do que aqui porque a competição é feroz, a concorrência é feroz. Aqui…quando nós começamos havia muita pouca gente a fazer coisas. Neste momento, há mais algumas, felizmente. Mas, continuamos a ser poucos e há espaço. E eu sinto que a pequena coisa que fazemos…, apesar de ser uma pequena coisa, com pouco impacto, porque não teve nenhum reflexo nos media, por exemplo. Apesar disso, valeu a pena…”

in “Causas por Amor”, entrevista a João da Ponte, produtor cultural, Revista Ilhas, Abril/Maio de 2002.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Porquê, João?

            O João da Ponte faleceu, diz-me o outro João. Dos amigos não apetece desconfiar do que dizem. Eu não quero acreditar, não consigo. A notícia é triste, demasiado triste.  O João é das pessoas que não devia morrer. O João com quem eu partilhava o fim da tarde no ¾, as noites de poesia na Tascà, com quem eu debatia cinema, política, teatro, futebol e tantas outras coisas que fazem com que a vida valha a pena. Sim, o João gostava de discutir sobre tudo o que estava relacionado com a vida. O João adorava viver. O João não devia morrer. E morreu. 

domingo, 29 de maio de 2016

3ª Sessão na Galeria Miolo

Cartaz de Victor Marques

Luz da Tarde

Fotografia: Tânia Santos
(Loch Ness, Escócia, 2016)

Resposta a Janeiro Alves no Maduríssimo Maio

Apreciei abundantemente a ligeireza e a desfaçatez da sua carta, amigo Janeiro. Começo, de facto, a ficar deveras preocupado com a sua falta de maneiras e inexistência de delicadeza da sua parte. Serão, porventura, esses solilóquios junto da natureza e da árvore de pinho que o fazem retroceder a essa força vital e primitiva de outros tempos? Velhos, sim, foram os tempos em que o amigo Janeiro se dirigia à minha pessoa com respeito e reverência. Um verdadeiro gentleman na arte de congratular-se pelas bolas para o pinhal que tantas vezes lhe ofertei em anteriores missivas. O que é que se passa consigo, meu bom amigo? Será a febre dos fenos e seus respectivos esbirros e espirros?
A verdade é que eu já desconfiava que o nome de “Janeiro Alves” pudesse estar por detrás do enredo e consequente desaparecimento de mais uma obra prima de Miriam Manaia.  O que eu não sabia é que por esse motivo o amigo Janeiro aproveitasse para viajar até à Rússia e apanhasse uma valente bruega de vodka na bonita estação de Moscovo. Dizem, amigos comuns, pertencentes à União dos Amigos de Eisenstein, que só faltou trautear Alfredo Marceneiro e o “Playback”, de Carlos Paião, dado o fervor pátrio em que o nosso amigo estava imbuído. E, por fim, ainda lamentou a nossa trágica sorte pela perda das antigas colónias e os filhos e filhas que lá deixamos num manto de saudade irreparável. Que triste, Janeiro Alves. O meu amigo talvez ainda não saiba, mas tive uma fase da minha vida em que, também eu, chorava baba e ranho quando me traziam uma garrafa de “groguinho” da Ilha de Santo Antão.
Deixe-me dizer-lhe que sim, é verdade. Estou mal, muito mal, amigo Janeiro, pois sofro de uma patologia para o qual soube há instantes não haver cura mas apenas uma terapêutica preventiva. Padeço, portanto, de papiromania…um vício ignominioso e obsessivo por papéis. A enfermidade é tal que me faz engoli-los ou devorá-los consoante o momento em que os vejo ou encontro. Acordo sobrevoado de papéis, deito-me com papéis e bebo a pensar ficar rodeado por estes que acabo a julgar que, também eu, estou mergulhado até ao tutano nos célebres papéis do Panamá. Nada a fazer, penso. Muito embora, a psiquiatra, a Doutora Alice Campos Ferreira, me aconselhasse uma terapêutica de substituição: abrir uma conta no Livro das Caras ou realizar diariamente três quilómetros de caminhadas junto do mar!
            Por último, espero que Janeiro Alves se encontre bem aí para os lados de Belém. Coma, portanto, um pastel de nata para diminuir a azia, o que certamente lhe fará bem às próximas missivas a enviar e ajudará nas competências sociais a desempenhar.  
Com um grande abraço de amizade,

Doutor Mara