sábado, 25 de novembro de 2017

Do Contexto

       "É verdade que uma pessoa se habitue ao conforto de um hotel, de um voo, etc. Quando nos habituamos a que alguém tome conta de nós, tornamo-nos um pouco mais ignorantes. Mas pensei sobretudo no modo como representamos os pobres no cinema, que é muito sentimental e não é forçosamente verdade: os pobres são mais solidários uns com os outros, etc. Não quis retratar os pobres de modo sentimental, nem criticar as classes altas. Acho apenas que todos nos comportamos de acordo com a posição que temos na sociedade, ao longo de uma hirerarquia económica. Pensamos em nós próprios como indivíduos livres independentemente do contexto em que vivemos mas a verdade que estamos completamente dependentes desse contexto." 
Ruben Östlund, in Ípsilon, 24 de Novembro de 2017

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Novembro Teima em Despedir-se

Fotografia de Carlos Olyveira
Novembro teima em despedir-se, faço-lhe a vontade, inclino a cabeça para o futuro e avisto navios no horizonte. Não tarda nada entrará Dezembro, o último mês do ano. A água do mar está mais quente do que aquela que corre no chuveiro. A temperatura do ar continua irrepreensível, permitindo-se em jeito de reflexão pensar no frio que virá... ou será que não teremos frio? Bebemos agora muito muito mais chá já que assumimos que os dias são curtos, os agasalhos alinhados, e eis que a claridade esvai-se muito cedo. De súbito, estremecemos com a passagem dos dias que cortam o fôlego de tão lestos, ansiosos e demasiado rápidos sem darmos conta. Entramos assim na recta final do ano dezassete deste século XXI.
Celebramos, portanto, a melancolia típica da estação. Julgamos ser este o mês dos fotógrafos, dos pintores, dos músicos e das artes que exultam esta morrinha existencial tão própria do Outono. Por isso a cidade é lugar de exposições, espaço de renovação deste nosso olhar que queremos atento, na busca curiosa ou demanda das artes visuais na contemporaneidade. Que arte e artistas para este tempo? Em lugar de visionamento e contemplação ali está, no Núcleo de Arte Sacra, a exposição de fotografia “Prece Geral”, mergulho interior nas imagens veneráveis e privilegiadas de Daniel Blaufucks aquando andou em visita pelo Mosteiro da Cartuxa. Em exibição também e, até à Primavera do próximo ano, ficará “Interior/Exterior”, com curadoria de Nuno Marques da Silva e Luísa Cardoso, que nos revelam a riqueza e singularidade das obras presentes nas colecções do Museu Carlos Machado. Visitamos a mostra com essa delicadeza da ocupação do espaço e o cheiro a criptoméria, aproveitando assim para ver obras de artistas plásticos - Ana Vieira, Domingos Rebelo, Tomaz Borba Viera, Ernesto Canto da Maia, Duarte Faria Maia, Pedro Palma, entre tantos outros que aqui viveram, vivem ou por aqui deixaram obra. Do mesmo modo, que quem quiser ver os animais que vivem à noite enquanto dormimos, pode sempre dar um salto à Miolo, galeria multi-artes, na rua Pedro Homem, e assistir assim à proposta de Mariana Lopes, que regressa muito mais intimista, quase secreta, fortalecida neste seu trabalho solitário e luminoso, percorrendo veredas e mato, em busca dos segredos escondidos da Ilha do Faial. Ao observarmos esta exposição retiramos outra perspectiva/abordagem imagética do arquipélago e, talvez por isso, estas imagens necessitassem de uma maior amplitude e profundidade.
Ainda nestes últimos dias de Novembro, para lá das castanhas nos pratos e o vinho tinto nos copos, aqui esteve em delícia, sumptuosidade e arrojo -“Viagens na Nossa Terra",  recital de Joana Gama, interpretando obras de Amílcar Vasques-Dias e Fernando Lopes Graça, mais aquela tarde de sábado com sonhos e pesadelos de “Nocturno”, num espectáculo de Victor Hugo Pontes e Joana Gama, a partir das surpreendentes composições sonoras de João Godinho. E...agora que recordamos as promessas por cumprir no ano que vai rapidamente encerrar, conviria recordar que, muito embora o fim deste ano esteja próximo, sempre nos restam os versos de Ruy Belo: "Não temas porque tudo recomeça/ Nada se perde por mais que aconteça / uma vez que já tudo se perdeu”.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Enquanto o novo disco não chega...

Pedro Lucas e Carlos Medeiros
         

              "Ou como dirá Carlos Medeiros: "Fala-se da música tradicional como algo distante, lá do campo. Não vejo a "música do povo" como distante. Quem sou eu? Eu sou do povo. Quando falo da música tradicional falo da minha música e mudá-la não faz de mim menos genuíno ou autêntico."


in Visão, 16 de Novembro de 2017

domingo, 19 de novembro de 2017

Um Poema de Leonardo

detrás dos tambores de uma grande asma
um ardor arfa no vidro 
um eco 
com o seu vento de longe 
acorda-te apenas com os dedos
esboço 
de uma derrocada de flautas tristes

trata-se
de um anjo bêbedo que veio dizer-te 
que a fractura abriu pálpebras nas paredes 
que uma leve lua fende o chão 
do rumor de um exército de cascos 
que se aproxima

vem ajudar-te nos preparativos do festim 
para nos receber 
chegaremos cansados 
as preces encheram de pó as estradas 
os soldados suspiram por haxixe 
os cavalos não bebem ouro há três dias

prepara-nos banhos vinhos música 
acende todas as velas do oásis 
espalha os incensos  
enquanto esta carta atravessa a alegria 
do reencontro

ao chegarmos  
a mais alada das minhas filhas descerá
dir-te-á ao véu do ouvido ouve 
vê 
chove neste inferno 
por isso dança

e um dia 
ao regressares tu pelos passos da criança
sorrir-te-á pelo caminho 
a memória confusa de tudo isto que te escrevo agora 
em silêncio porque 
ambos sabemos 
felicidade e oxigénio e voz
tudo isto é inflamável

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Uma Missiva Extraordinária de Janeiro com Selo e sem Dinheiro

Magnífico Doutor,

               A presente carta reveste-se de um carácter extraordinário e premente, e resulta da minha indisfarçável preocupação com o modelo adoptado para as Conferências da Fajã deste ano. Por este andar, qualquer dia seremos uma espécie de web summit regional, um folclore mediatizado de pseudo-hypster-trendy-dandys engalanados, preocupados com os seus egos, e pouco interessados no pensamento de vanguarda e no bem comum. Qualquer dia, as Conferências da Fajã são patrocinadas pela vodafone ou pela margarina vaqueiro! Como pudemos aqui chegar, Doutor Mara?! Como podemos deitar por terra todo o manancial de reflexão crítica e construtiva para a construção do Séc. XXII futurista e expressionista?! Para que tenha noção do meu estado, tenho o sobrolho a palpitar, de nervoso. Há pouco, tomei um calmante e um copo de Macieira, para ver se não descambo. Perante isto, temos de tomar uma atitude, Doutor Mara! Eis portanto a razão desta carta.
Em primeiro lugar, e porque nem tudo é mau, queria dar-lhe (pessoalmente) os parabéns pela escolha do Champagne. É realmente uma selecção cuja dignidade e sofisticação se coaduna com a elevação do evento. Eu juntaria apenas o famoso Boerl & Kroff Brut, bastante apreciado quando bebido em cenário natural ou florestal, combinado com leves odores a maresia. Infelizmente, não posso dar-lhe os parabéns pessoalmente como desejaria, dada a impossibilidade física e psicológica de me deslocar, pelo que deixo aqui os meus parabéns por escrito. Apesar de não ser um acto tão efusivo como seria pessoalmente, onde seria selado com um aperto de bacalhau e algumas palmadas nas costas, tem a vantagem de ficar registado para a posteridade ou pelo menos até que estas folhas voem dos seus bolsos para a beleza do desconhecido.
Sem causar prejuízo na congratulação antecedente, avanço com a minha severa crítica à escolha dos chefes Gomes de Sá e Bulhão Pato para conferencistas, pois como é do conhecimento geral, estão presos ao passado, são conservadores, botas-de-elástico, e contribuem sempre com a mesma receita para pensar o país, aquela que já apresentaram no passado, e que já enjoa de tanto enjoar. Relativamente aos restantes conferencistas, por muita categoria que tenham, vejo muita gente ligada à temática do turismo. E a consciência Futurista, Doutor Mara? O turismo é apenas um fenómeno passageiro do nosso tempo. É preciso ver mais além! É preciso gente das ciências ocultas, da sociologia, da meteorologia, das artes e letras, da indústria têxtil!
Por outro lado, reconheço no Doutor Mara qualidades para a organização de um evento deste gabarito, mas não vislumbro em si dotes de “curassário”, esse vocábulo espalhafatoso e sobredimensionado. Julgo que a Comissão Geral se precipitou ao depositar em si toda esta responsabilidade. O Doutor Mara precisa de ser assessorado por quem saiba da matéria. Infelizmente não vou poder ajudá-lo nesta fase, pois estou a tratar da minha dentição de forma a vir a revelar um sorriso irrepreensível nas sessões fotográficas das Conferências. Ainda assim, é meu dever dar uma mão a um amigo de longa data, sobretudo quando mais precisa. É por isso que a seu tempo enviarei algumas sugestões ao Dr. Costa Martins, da comissão organizadora. Quero no entanto, e previamente, recolher a sua opinião sobre a ideia que tive esta manhã, a aplicar já na próxima edição: Proponho que os conferencistas vistam roupas tradicionais dos seus países, para que os restantes colegas possam fazer um reconhecimento imediato da sua proveniência, podendo assim preparar antecipadamente uma abordagem para conversa casual nos coffee breaks, evitando-se desta formas constrangimentos linguísticos desnecessários. Estou certo que também considerará esta ideia genial. Fazemos o que podemos, com altruísmo, e por amor à causa.
Por fim, despeço-me do meu caro amigo com uma triste notícia. Por imposição das elevadíssimas e doutas autoridades sanitárias desta cidade, deu-se ordem para a extinção imediata do fabrico de filetes de peixe, com ou sem espinhas, pelo facto de este produto gastronómico não obedecer à normativa nº 121 do código de qualidade e segurança 3001 da União Europeia, com efeitos retroactivos e devolução imediata dos produtos adquiridos nas últimas 3 semanas. Assim, e por ordem daquela autoridade, solicito-lhe que me devolva os filetes de peixe da última remessa.
Com apreço e consideração
Janeiro Alves

Um Poema de Daniel Gonçalves

Dá-me o mar, o meu rio, minha calçada, dá-me
todas essas coisas, que embrulhei nas cartas, e
aqueci nos beijos, dá-me tudo de volta, mesmo
riscado e subtraído, sem pilhas nem escamas,
apenas o pó do silêncio, e o bolso fundo do
futuro, faz-me falta o musgo da sombra, que
levaste no presépio da alegria, dá-me o tempo
das searas, e o pão que devíamos ter amassado,
na poesia da nossa cama, dá-me a coleira dos
nossos gatos, para eu prender a tristeza, e voltar a
rezar, se não levaste também, o deus que sempre
nos perdoou, as horas no sofá, a esquecer que
tudo isto, como tudo o resto, passa e acaba.

Inédito com a Márcia 

Joana Gama apresenta "Viagens na Minha Terra" no Teatro Micaelense


               No ano passado, Joana Gama trouxe-nos Satie.150, mais a narrativa biográfica do músico francês e o seu quotidiano místico e fantasioso em que a vida deste se confundia com a sua própria obra. É que agora que cai tanta chuva por estas bandas que nos servia tanto aquele legado de guarda-chuvas que Satie deixou no seu apartamento da periferia de Paris.
Desta vez, Joana Gama apresenta-nos “Viagens na Minha Terra”, um reportório composto por obras de Fernando Lopes Graça e Amílcar Vasques-Dias. O recital é na próxima sexta-feira, dia 17 de Novembro, às 21h30, no Teatro Micaelense. O preço dos bilhetes ronda os 7,5 euros.

168 anos depois...

"Preservado em conhaque, o coração de Chopin revela causa da sua morte."
in Atlântico Expresso, 13 de Novembro de 2017