O artista plástico Gregory Le Lay
(nascido em Toulon, em 1977) deixou o mundo dos vivos esta semana. Todos os que o conheceram de
perto sentiram um profundo abalo pelo seu súbito desaparecimento, já que ele
era altamente criativo e um verdadeiro parceiro na dinamização das artes plásticas na ilha. Durante
os anos em que esteve connosco fundou a Brui, uma galeria que se se tornou um pólo
de agitação cultural pontadelgadense–exposições, ateliers, concertos e
apresentações de fanzines. O Greg, tal como era conhecido, andava entusiasmado com
a residência artística que estava a fazer na Escola Secundária Antero de
Quental. Ele gostava de ver as coisas em movimento, tinha muito gosto em ajudar os outros a realizar e concretizar projectos. Ele tinha muito prazer em desenhar! E ria muito, sempre! Obrigado por tudo, Greg!
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023
terça-feira, 7 de fevereiro de 2023
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023
"O Incêndio" de João Luís Barreto Guimarães
Alguém tem de amar
o banal. Alguém tem de tratar disso. Os
rostos que passam idênticos
como os pombos
de uma praça. A mala
que apenas fecha se alguém
se senta em cima. Insectos suicidando-se
contra o brilho dos faróis. O apetite
da ferrugem
nos portões da avenida. Alguém
tem de amar o vulgar (falar
do que é
ordinário). O cheiro a peixe frito que
sobe desde a cozinha. As luas que nascem dos
dedos quando
se roem as unhas. Alguém tem de amar
o que é feio
(trazê-lo para o poema). Só assim
por entre o impuro pode o
incêndio acontecer.
o banal. Alguém tem de tratar disso. Os
rostos que passam idênticos
como os pombos
de uma praça. A mala
que apenas fecha se alguém
se senta em cima. Insectos suicidando-se
contra o brilho dos faróis. O apetite
da ferrugem
nos portões da avenida. Alguém
tem de amar o vulgar (falar
do que é
ordinário). O cheiro a peixe frito que
sobe desde a cozinha. As luas que nascem dos
dedos quando
se roem as unhas. Alguém tem de amar
o que é feio
(trazê-lo para o poema). Só assim
por entre o impuro pode o
incêndio acontecer.
in "Aberto Todos os Dias", Quetzal, Janeiro de 2023.
domingo, 5 de fevereiro de 2023
sábado, 4 de fevereiro de 2023
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023
Um Poema de Herberto Helder
e eu que me esqueci de cultivar: família, inocência,
delicadeza,
vou morrer como um cão deitado à fossa!
delicadeza,
vou morrer como um cão deitado à fossa!
in "A Morte Sem Mestre", Porto Editora, 2014.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023
Da Visão
"Toda a gente diz: sim, sabemos o que está escrito nos livros, mas agora vamos ver o que nos dizem os olhos."
Bertol Brecht
Bertol Brecht
terça-feira, 31 de janeiro de 2023
Performance no CAC: A Hora da "Loba"!
Mariana Pacheco de Medeiros
apresentou, neste último fim de semana, na blackbox do Centro de Artes,
Arquipélago, Ribeira Grande, a sua performance teatral intitulada “A Loba”. Ao
todo cinco sessões, sempre com a sala composta e com bilheteira esgotada algumas
horas antes. Houve também tempo para apresentações escolares e ronda de debate
e discussão pública.
“Loba” recria em cena os rituais de passagem para a idade adulta, a afirmação da sexualidade e os valores da feminilidade, a necessidade de fantasia e ainda de transformação, associados à arte e evasão pessoal. O mote é-nos dado pela evocação do célebre “Conto do Capuchinho Vermelho”, sendo que a saída para o baile de debutantes rondará a “floresta” até ao cair do pano. Por momentos, observamos um corpo que dança e que se manifesta, como se o mundo estivesse suspenso perante os espelhos dos caminhos que se abrem e multiplicam. Qual é o destino desta “Loba”?
A performer/actriz surpreendeu o público presente numa recepção íntima do banho, narrando num registo autobiográfico a sua visão de mundo, convidando a audiência a segui-la neste seu relato pessoal. A audiência sentou-se, assim, diante de uma banheira ao mesmo tempo que se projectavam na parede vídeos em simultâneo que aludiam ao conteúdo sonoro escutado. Enalteça-se, pois, a coragem e ousadia inicial desta “Loba” – a água como ritual iniciático e fundacional – despertando os sentidos para os elementos cénicos em disputa, mantendo sempre a tensão e o suspense sem nunca atingir o clímax. Deste modo, enquanto decorriam as várias projecções, escutava-se uma narrativa de permeio, permitindo à assistência ingressar naquela intimidade – memórias e lembranças daquele corpo feminino em crescimento, visualizado esse quebrar de convenções, esse desejo e ânsia de viver, um protesto libertador que visa acalmar e, por fim, "quando a barriga estiver cheia, adormecer".
“Loba” recria em cena os rituais de passagem para a idade adulta, a afirmação da sexualidade e os valores da feminilidade, a necessidade de fantasia e ainda de transformação, associados à arte e evasão pessoal. O mote é-nos dado pela evocação do célebre “Conto do Capuchinho Vermelho”, sendo que a saída para o baile de debutantes rondará a “floresta” até ao cair do pano. Por momentos, observamos um corpo que dança e que se manifesta, como se o mundo estivesse suspenso perante os espelhos dos caminhos que se abrem e multiplicam. Qual é o destino desta “Loba”?
A performer/actriz surpreendeu o público presente numa recepção íntima do banho, narrando num registo autobiográfico a sua visão de mundo, convidando a audiência a segui-la neste seu relato pessoal. A audiência sentou-se, assim, diante de uma banheira ao mesmo tempo que se projectavam na parede vídeos em simultâneo que aludiam ao conteúdo sonoro escutado. Enalteça-se, pois, a coragem e ousadia inicial desta “Loba” – a água como ritual iniciático e fundacional – despertando os sentidos para os elementos cénicos em disputa, mantendo sempre a tensão e o suspense sem nunca atingir o clímax. Deste modo, enquanto decorriam as várias projecções, escutava-se uma narrativa de permeio, permitindo à assistência ingressar naquela intimidade – memórias e lembranças daquele corpo feminino em crescimento, visualizado esse quebrar de convenções, esse desejo e ânsia de viver, um protesto libertador que visa acalmar e, por fim, "quando a barriga estiver cheia, adormecer".
Porventura, alguma profusão e
dispersão de imagens fosse desnecessária tal como a introdução da voz natural
combinasse melhor com alguma artificialidade pela voz gravada e consequente distanciamento. No entanto,
é caso para referir que este “Loba” é um gesto teatral/performativo forte e intenso,
ao que parece tão radical e urgente num tempo de retrocessos e fechamentos.
Por último, uma referência à música
presente na “Loba” , dado que esta está carregada de dramatismo e balanço, com os devidos
parabéns a Elliot Sheedy, tornando este momento altamente criativo, com
relativa emoção e expressividade, deliciando e cativando a assistência que se deslocou à blackbox do Centro de
Artes Contemporâneas, Arquipélago.
"A Decisão" de João Luís Barreto Guimarães
Vem
Janeiro e
hesitamos no que fazer ao pinheiro
mais antigo
do jardim. Janeiro tem duas faces. Por nobre
que possa ser o
seu sumptuoso tronco
as pinhas e a caruma que encobrem
a erva rasa vão
criando um paraíso (distante das leis do fórum)
nada menos que
anárquico. Há anos que
o jardineiro lhe promete a motosserra
(detido pelo mau juízo do nosso
sim
definitivo). Nem é tanto pela mágoa de
trocarmos a madeira por meros
instantes de cinza é
não sabermos depois onde a Sombra
da árvore cortada
habitaria.
hesitamos no que fazer ao pinheiro
mais antigo
do jardim. Janeiro tem duas faces. Por nobre
que possa ser o
seu sumptuoso tronco
as pinhas e a caruma que encobrem
a erva rasa vão
criando um paraíso (distante das leis do fórum)
nada menos que
anárquico. Há anos que
o jardineiro lhe promete a motosserra
(detido pelo mau juízo do nosso
sim
definitivo). Nem é tanto pela mágoa de
trocarmos a madeira por meros
instantes de cinza é
não sabermos depois onde a Sombra
da árvore cortada
habitaria.
in
“Aberto Todos os Dias”, Janeiro de 2023.
sábado, 28 de janeiro de 2023
quinta-feira, 26 de janeiro de 2023
quarta-feira, 25 de janeiro de 2023
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