quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Surda de Eva Libertad

Surda de Eva Libertad, 2025 

 Esta película põe em causa o nosso sentimento básico de vivermos de acordo com a dita normalidade. Àngela é surda e vive uma vida feliz com Héctor, o seu companheiro. Entretanto, eis que chega um novo membro à família e tudo se altera. Eva Libertad consegue dar-nos essa dimensão de inadequação do personagem principal, torna-nos cúmplices desse desconforto ao jogar com o som e o silêncio, a incomidade de quem pouco ou nada escuta. Trata-se de "outro mundo" a precisar de compreensão, quem sabe, outro olhar e, porque não, outro sentir. 

Bestiário dos Rios

BD de Filipe Felizardo
Coletivo Guarda Rios 
   Como podemos conhecer as novas espécies que se encontram nos nossos rios? O Coletivo Guarda Rios fomenta acções artísticas participadas, apelando ao envolvimento das comunidades - caminhadas, dinâmicas de grupo, jogos, desenhos, instalações na paisagem - e que para isso junta gente das artes plásticas, tecnologia, arquitectura, ecologia e outros interessados. Recentemente estiveram nos Açores, na Ilha de São Miguel, na Bienal do Walk&Talk onde apresentaram, conjuntamente com a comunidade escolar da Ribeira Grande, um projecto junto das quedas de água e ribeiras.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Um Poema de Gastão Cruz

 Where are the songs of Spring? Ay, Wheree
are they?
Think not of them, thou hast thy music too.

Keats, To Autumn

Não penses nas canções da Primavera que
duraram o tempo que deviam
é do Outono o som destas planícies
destes corpos talvez demasiado
consumidos

Ouve os frutos da música é o tempo
de nebulosos frutos 
cede às livres tempestades
do vento à 
alegria que te magoa os lábios 

Não penses nas canções da Primavera na
beleza que morre
no veneno da terra
consumirás ainda a parte do meu corpo
mais tardia

A beleza que deve então
morrer 
dentro da alegria escolherá 
ruína terra som melancolia

in "Os Poemas - 1960-2006", Assírio &Alvim.

O Sítio Inverso

Um sítio 
onde o mar corre prós rios
onde a luz que há de dia 
é de noite que alumia

e o verão é a estação dos frios

Um sitio 
Onde as coisas que há de pé 
Estão sentadas 
E onde o vento ao soprar 
deixa as coisas mais paradas

Um sítio branco
um sítio tal que o deserto aqui
é floresta tropical 
e o lume é gelo 
e a montanha vale

Um sítio roxo
um sítio que é o inverso dos lugares 
aqui o são é coxo
e o cego rasga os mares

Inventar um sítio assim:
fazê-lo de tão sábios traços
que ao supores fugir de mim
me venhas cair nos braços
.

João Habitualmente, in  Poemas em Peças - Quase Dito, Fevereiro de 2014. 

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Era uma vez uma Capital da Cultura...

       Não havia apenas mais filmes para ver na tela grande, peças de teatro para fruir, bons concertos de música para assistir, mas também muito mais gente envolvida nas ditas actividades culturais, mais gente capacitada para realizar peças de teatro e estar em palco, outras ainda que pudessem arriscar realizar filmes, interpretar papéis no cinema português e estrangeiro, mais juventude a tocar nas filarmónicas, pessoas mais capacitadas para organizar e promover actividades culturais. Sim, é verdade, mais espectadores emancipados, críticos e intervenientes do espaço público, impulsionadores de eventos exigentes, reflexivos, aglutinadores, divertidos, etc. Enfim, que possa ser um momento de partilha e reunião, uma possibilidade de mobilizar e convocar a esperança...

Verso dos Divine Comedy

 The heart is a lonely hunter 

domingo, 16 de novembro de 2025

O Homem de Argila de Anaïs Tellenne

O Homem de Argila, 2023
   Dois  actores surpreendentes, Raphael Théry e Emmanuelle Devos, um cenário bucólico, esteticamente imponente, compõe este instigante filme da  Anaïs Tellenne. O tema gira em torno da arte e os limites do artista na sua relação com o objecto da sua arte, o seu modelo, a sua paisagem. Até que ponto podemos usar o objecto da nossa arte e logo abandoná-lo quando este se encontra concluído? Anaïs Tellenne filma com sensibilidade, sabe esculpir esta narrativa com foros de fantástico mas que é sobretudo um hino à arte, à poesia visual e à criatividade.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Espera-me

Nas praias que são o rosto branco das amadas mortas
Deixarei que o teu nome se perca repetido

Mas espera-me:
Pois por mais longos que sejam os caminhos 
Eu regresso

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Coral, Caminho, 1958.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

O Mundo Aqui: Batucadeiras de Santiago!

           Todos os anos em Novembro, por esta altura, a AIPA (Associação de Imigrantes dos Açores) agrega e promove uma festa com gente de muitas proveniências num único espaço: o Multiusos das Portas do Mar, em Ponta Delgada. É comum encontrar comida, artesanato, artes visuais e muita música para fruir naquele espaço em apenas dois dias. Neste evento podemos saborear as comidas e bebidas dos países e povos que aqui vivem e trabalham – da cachupa à muamba de galinha, da feijoada ao cuscuz, passando pelos tacos, chamuças, ou ainda beber um grogue, provar uma caipirinha ou degustar uma sobremesa como o bolo de coco ou cenoura, tudo é possível nesta gastronomia rica e variada.

Herança di nós Terra
Fotografia de Jorge Kol de Carvalho
  A boa surpresa da edição deste ano foram as batucadeiras, mulheres que nos trouxeram a raiz tradicio
nal da música de Cabo Verde - Herança di nós Terra, oriundos de São Domingos, naturais da Ilha de Santiago e que vieram até São Miguel celebrar o batuco e as suas composições que retratam o seu modo vida, as inquietações e a cultura cabo-verdiana. São, assim, mulheres de todas as idades que utilizam o batuco, expressão musical candidata a património cultural imaterial, e que durante uma hora dançam e cantam num ritmo harmónico e frenético. Animados em palco pela Ineida Sena, que é polícia de profissão, e que nos foi elucidando quanto aos temas e a forma de os “traduzir” a partir do criolo, sobretudo para um público interessado, vibrante e rendido.
         Parabéns, portanto, às batucadeiras de Santiago e votos renovados de estímulo e incentivo aos organizadores desta iniciativa de enorme valor comunitário.

domingo, 9 de novembro de 2025

CAC: Nova Direcção

       "Um aspecto que me parece realmente importante é reforçar a proximidade com a comunidade, com o lugar e, neste caso, com a Ribeira Grande. Precisamos de encontrar formas para derrubar um conjunto de "muros invisíveis". Como referi anteriormente, a linguagem contemporânea não é próxima para a maioria da população (dos Açores), e é fundamental estratégias para chegar a públicos menos familiarizados com o tipo de propostas artísticas que desenvolvemos..
       (...) É fundamental que as crianças e jovens vão ao Arquipélago, mas também que se desenvolva trabalho de proximidade continuado. Um dos grandes desafios de hoje são as dificuldades financeiras associadas ao transporte destes jovens. Os autocarros e transportes públicos são, de facto, um constrangimento, sobretudo na deslocação dos mais novos."

Alexandre Pascoal, in Açoriano Oriental, 9 de Novembro de 2025.

Verso dos WE SEA

Quero o fulgor de velhas canções

Do Medo

        "O medo de sair (da sociedade autoritária do medo) fez com que nunca realmente se saísse do medo. Como se voltou à velha tendência nacional de não conflitualidade social e política, ela infiltrou-se naturalmente na ausência de conflito inerente à sociedade globalizada de controlo. O salazarismo havia obtiddo a supressão dos conflitos com a repressão, mas a passagem actual para a mundialização reactiva a tendência, democraticamente, graças à existência da norma única (que é ausência de norma e de autoridade visíveis)."

José Gil, Portugal, Hoje. O Medo de Existir, Relógio D´Água Edições, 2005

sábado, 8 de novembro de 2025

Alfredo, O Coleccionador de Borboletas

S.A Marionetas
Teatro & Bonecos no CAC

na 2ªEdição do FIO
S
  Ali estavam as crianças e os professores acompanhantes para assistir ao "Alfredo, Coleccionador de Borboletas" pela S.A Marioneta Teatro & Bonecos, sediada em Alcobaça desde 1997. A blackbox estava cheia e ansiosa para assitir às peripécias de um coleccionador de borboletas vermelhas, por sinal  oriundo de um país distante que um dia repara que já não possui as suas duas pernas. Entretanto Alfredo irá deixar de ser lepidopterista pelo seu amor à liberdade e à vontade de ser livre. Um espectáculo bonito, sem dúvida! O texto do espectáculo é de autoria de José Manuel Valbom Gil, sendo a manipulação dos bonecos de José Gil e Natacha Costa Pereira.