Aos vinte anos ambicionava ser o Pessoa
Hoje contento-me com o Fernando.
quinta-feira, 13 de março de 2014
terça-feira, 11 de março de 2014
Postal de Miriam Manaia da Capital
Aqui vai um postal da Costa do
Castelo onde aluguei um pequeno apartamento para absorver a luz da cidade.
Ultimamente tenho passado as noites às claras já que me tenho dedicado a rever
documentários de Cris Marker e de Patrício Gúzman. Desta forma, acabo por não
sair o que me traz alguma paz de espírito mas que torna o desassossego artístico e criativo cada
vez maior. O que fazer?
Soube, entretanto, que o Doutor
tinha sido deslocalizado - na magnífica expressão e adjectivação desse momento
pelo seu amigo de longa data, Janeiro Alves. E, talvez por isso ou não, decidi prolongar a minha estadia
na cidade das sete colinas. Caso o Doutor Mara passe pela capital não se esqueça
de visitar esta sua amiga que não esquece os dias de farândola noctívaga e
darandina cultural – vivida e fruída em PDL – tendo por pousio o solar dos meus
familiares mais próximos, os insuportáveis mas sempre fraternos, manos Manaia.
Sempre sua amiga,
Miriam Manaia
quinta-feira, 6 de março de 2014
Mestre da Improvisação
| João Paulo Fotografia: Ana Nobre |
-Estiveste há três anos na cidade da Horta, Ilha do Faial, numa oficina de
improvisação musical. Que recordações guardas dessa actividade e da passagem pelo arquipélago?
João Paulo Esteves da Silva: Excelentes recordações. Ambiente fantástico, muito talento e
abertura de espírito por parte dos participantes, jovens e menos jovens.
-Por fim, quais são os músicos e as músicas que te acompanham para todo
o lado?
JPES: Como a lista seria interminável, proponho o seguinte jogo: Vou
improvisar os primeiros dez nomes que me vierem agora à cabeça. Então, cá vai, Mozart, Bach,
Beethoven, Chopin, Bob Dylan, Kate Bush, Joni Mitchel, Keith Jarret, Ornette
Coleman, The Beatles...
Excerto de uma entrevista a João Paulo Esteves da Silva.
quarta-feira, 5 de março de 2014
O Miró pintor do Mundo!
A Valsa Quase Anti Depressiva - Quiteto Tati (2004)
“Dança comigo a primeira valsa da Primavera/dança sem sonhos/ esquece as promessas/ ninguém nos espera/”
J.P.Simões
segunda-feira, 3 de março de 2014
90ª edição do FAZENDO
O boletim cultural FAZENDO(https://issuu.com/fazendofazendo) já tem
cá fora a edição número 90 e está de pedra e cal no seu sexto ano de existência. Diga-se que
o "Fazendo" conseguiu reunir os apoios necessários da comunidade leitora
para manter a sua actividade mensal, continuando assim independente e gratuito.
Neste número noventa, que pode ser lido em cinco ilhas do arquipélago, é possível
ler um resumo do que aconteceu nessa ano do século XX, um artigo sobre o banco de Portugal
e de artistas na cidade da Horta, apreciações ao trabalho musical dos Lulu Monde e de Vânia Dilac de São Miguel, textos sobre as espécies marinhas que habitam
as águas açorianas, ainda uma canção de Chico Buarque, o ciclo de cinema cabo-verdiano
na Ilha Terceira, as várias resenhas de livros por ler, a conclusão da crónica "As aventuras de Ezequiel
Malaquias no Paraíso", etc. A tiragem é pequena, apenas quinhentos exemplares, mas que ainda assim vai tornando
o Fazendo cada vez mais insular e plural.
sábado, 1 de março de 2014
Março Adentro
![]() |
| Fotografia: Tiago Rodrigues |
Entrar por Março e também pelo
mar adentro. Permanecer por ali, a ondejar com o peito completamente gelado e a
dominar a vaga e a esconder os pequenos dedos hirtos dos pés. Um corpo ocupa
demasiado espaço na água límpida por romper. Descerrar as mãos pela água
salgada, abri-las para acreditar que à superfície tudo é credível, por instantes
saber que são profundas as águas em que cada um se move e enfiar a cabeça nesse
abraço e em todo este azul em redor. Daquele lugar guardar-se-á quase todos os
mergulhos que ficaram por dar neste inverno fugidio e com o monte defronte só
dá para espreitar o fundo destas águas, que são límpidas, realmente cristalinas. E a espuma é como se fosse um sopro no
interior dos pulmões, em silêncio, onde podemos viver e mergulhar durante mais algum tempo. Respiramos. O mês de Março pode começar.
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
Revista Atlântida
A
edição anual da revista Atlântida já está disponível e pode ser adquirida na
sede do IAC (Instituto Açoriano de Cultura), sito no Alto das Covas, Angra do
Heroísmo. A autoria dos desenhos no
interior, capa e separadores, é do arquitecto/ilustrador Luís Brum.
A abrir a contenda está o artigo: “Qual o papel da cultura no nosso
Portugal contemporâneo?”, onde se incita à reflexão que urge fazer sobre o
“desinvestimento generalizado” nestas coisas culturais e que terá consequências
na “desconstrução de todo um sistema complexo e identitário que caracteriza a
nossa sociedade e nos une como um povo com oito séculos de história”. Interessante
é, sem dúvida, a conversa que decorre entre Vanessa Rato e o artista Pedro
Cabrita Reis bem como o “Retrato de Natália", segundo Ana Maria Pacheco do
Nascimento. Uma atenção mais do que merecida e especial para “A
Tourada do Mar: A Baleação Açoriana observada por Mário Ruspoli e Chris Marker”, num texto muito bem escrito e demorado, exemplarmente escrito por Francisco Maia Henriques.
Parabéns à direcção do IAC, Paulo Raimundo e Filipa Tavares, pelo trabalho de
recolha e organização editorial.
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
Vitorino Nemésio: 36 anos depois!
Tenho uma Saudade Tão Braba
Tenho uma
saudade tão braba
Da ilha onde
já não moro,
Que em velho
só bebo a baba
Do pouco
pranto que choro.
Os meus
parentes, com dó,
Bem que me
querem levar,
Mas talvez
que nem meu pó
Mereça a
Deus lá ficar.
Enfim, só
Nosso Senhor
Há-de
decidir se posso
Morrer lá
com esta dor,
A meio de um
Padre Nosso.
Quando se
diz «Seja feita»
Eu sentirei
na garganta
A mão da
Morte, direita
A este
peito, que ainda canta.
Vitorino Nemésio,
in "Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga".
sábado, 22 de fevereiro de 2014
A NAIFA em São Miguel
A NAIFA dá hoje um concerto único
no Teatro Micaelense, em Ponta Delgada. O arquipélago tem nove ilhas. E nas outras
digressões houve concerto no Teatro Faialense, Ilha do Faial. Sempre com sala
cheia, muita entrega e um envolvimento raro e contagioso. Triste país em que
todos os dias tudo começa e em que nada, mesmo nada, se inscreve no corpo
colectivo e já não consegue recordar a estes servidores da causa pública que
antes deles outras pessoas fizeram coisas, sonharam com um país diferente e,
mal ou bem, realizaram coisas que podem ou deviam ter continuidade. A verdade é
que eles passam e os poetas e os músicos ficam, perdurarão no tempo. Valha-nos isso e...os auscultadores! Deusa Art Deco
Conheci uma deusa Art Deco
foi-me apresentada por um poeta no Caziff,
um café onde vou.
No outro dia fomos lá tomar uma bebida,
estava cheio de belas raparigas e rapazes, a conversar.
Ela lá estava, com pose atrevida, lânguida,
a insinuar o engano.
Comentamos a graça da sua elegância singular,
a razão de estar só, o olhar persuasivo...
A rapariga do balcão elucidou:
Foi pintada por um novaiorquino
de lusa fala sibilante
e a estética não é sua coetânea.
João Malaquias
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Uma Missiva Citadina de Janeiro Alves!
Espero que esta carta o encontre favorecido nas suas faculdades mentais e na boa forma física, já que ambas são o antídoto para este marasmo social a que nos submeteram. E desejo que a força construtiva e criadora do século XXI encontre em si um fiel entusiasta, para gáudio dos que o rodeiam, e para preservação do nosso património futurista.
Agradeço
ao meu caro amigo por ter levantado o véu sobre o plano de Vivaldo. Parece-me
bem arquitectado, mas ambicioso quanto à sua execução, tendo em conta as forças
de bloqueio. Ainda ontem fiquei bloqueado num elevador, e sei que não foi um
infortúnio casual. Temos de estar atentos, Dr. Mara... Quanto à sua amiga que
partiu, a mais bela das manas Manaias, estou certo que a distância que vos
separa criará uma aceleração de partículas à volta dos assuntos do coração, mas
lembre-se que o fogo de artifício só brilha no escuro. Sugiro-lhe que
experimente cuspir as borboletas que tem no estômago, é benéfico encontrarem o
seu caminho ao invés de morrerem nos ácidos estomacais. Mas quem sou eu para
falar de amores e desamores... prefiro falar de conservas e enlatados.
Depois
das intermináveis viagens de comboio pelos grandes maciços europeus, caí de
paraquedas na grande cidade, junto ao burburinho ininterrupto das coisas da
vida quando estão todas juntas. A polícia apreendeu-me o paraquedas, mas
libertou-me sem caução. Habito, como sempre, ao pé de uma estação de comboios,
medida de precaução. Gostaria de lhe deixar algumas impressões sobre esta
mudança, mas agora não posso. Tenho de ir fazer o jantar. Gosto de jantar a
horas quando estou sozinho. Voltarei a este assunto mais tarde.
Caro
Dr. Mara, aqui estou eu de volta e mais aconchegado pelo bacalhau espiritual e
alguns decilitros de vinho do bom. Compra-se sempre vinho de qualidade perto
das estações de comboios. Depois de alguns anos em isolamento nas montanhas, e
depois de lidos muitos livros à luz da vela, experimento agora os antípodas,
vivo as histórias da cidade, o frenesi e a novela quotidiana de cá andarmos uns
com os outros. Larguei o comboio para andar a pé, e pelas ruelas da cidade
sinto os cheiros a comida acabada de fazer por entre a roupa pendurada, a mãe
que chama o filho, o homem do talho que alerta o freguês, o taxista aos gritos
pela janela fora, da sua viatura em transgressão. Ninguém responde a ninguém, é
som de fundo nas ruas como músicas de natal. Agrada-me observar as pessoas, e
perceber o que é que afinal andam a fazer. O Dr. Mara não imagina a quantidade
de gente que anda de trás para a frente e de frente para trás, e também de um
lado para o outro. Fazem tudo a correr para depois irem para as suas casas. À
noite, a luz firme das casas faz-me acreditar que o direito a ter um tecto
deveria estar consagrado em todas as escrituras, mas sobretudo na preposição da
vida. O Dr. Mara não imagina a angústia que é para mim ver alguém a dormir na
rua, e a fazer de uma velha arcada o seu abrigo. É que o abrigo não serve só
para abrigar o corpo, mas também a alma.
A
luz da cidade é favorável ao romantismo, não pela luz em si, mas pelo facto de
ela incidir directa e indirectamente na beleza arquitectónica geométrica ou
orgânica. A cidade é como uma casa grande cheia de assoalhadas, portas e
janelas, elementos decorativos e cores vibrantes, em que o tecto é um enorme
céu azul. Na cidade não há vizinhos, moramos todos na mesma casa. Pelos
extensos e sinuosos corredores desta enorme moradia ouve-se musica, poesia,
conversas, discussões, confusões, trambolhões e outras sonorizações da dor de
viver. Na cave há contrabando e jogos ilícitos. No hall principal duzentos
milhares de visitantes amontoam-se para entrar e outros tantos para os receber.
Nas escadarias, um corropio acima-abaixo. No terraço todos se encontram ao fim
da tarde para admirar a obra da humanidade. Talvez sejamos uma praga, mas como
é bela esta praga.
Já
vai longa esta missiva. Deixo para o fim um assunto que me preocupa, e cujo
cariz sensível me leva a simplificar. Soube por fontes de informação de grande
fidelidade, através dos mais conceituados informadores da nossa praça, aqueles
que por vezes arriscam a própria vida para recolher informações nos mais recônditos
antros do secretismo, que o Dr. Mara foi deslocalizado. Não que tenha sido
desprovido de um local, pois isso seria aritmeticamente impossível, mas terá
sido "transplantado" para outro contexto. Espero sinceramente que se
adapte ao novo terreno, que apanhe muito sol e que seja devidamente regado,
pois sei que por onde passa, deixa sempre bons frutos.
Um abraço
Janeiro Alves
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