sexta-feira, 4 de abril de 2014

Declaração Urgente à Primavera!

         Hoje acordei com vontade de dizer um palavrão à Primavera. Não disse. Calei-me a tempo. Pela manhã alguém quis dar-me uma palavrinha e quase me estragava por definitivo este dia de plena invernia. Foi talvez assim que passei a jornada entre médias palavras, não esquecendo que por vezes há pequenas palavras que nos salvam – “um cafezinho, bem dispostinho?”, “está cá um friozinho” – e tudo de imediato se recompõe para salvação dos nossos e dos pecados dos outros. O mundo é demasiado grande mas não seria mesmo nada, ou mesmo muito pouco, sem estas pequenas coisas. E, no entanto, o Inverno já vai longo, comprido e quase sem remissão. Ò Prima, não queres dar um sinal à Vera para aparecer?
       Entristece-me assim e, de que maneira, ver tão maltratada esta debutante estação do ano e constatar por dentro do interior dos dias o falso e ambicioso admitido tomo primaveril de calendário tão incaracterístico, tão incomum e tão impróprio para consumo. Dar por mim a pensar que a estação das estações é agora um logro, isto é, ela, a Primavera, ao contrário de todas as previsões, afinal ainda não tinha chegado. E, por muito que os pássaros cantem, as flores brotem e os dias sejam maiores não se consegue avistar um raio de luz mínima que seja. O sol e a Primavera deste ano talvez venham mais tarde, talvez venham daqui a bastante tempo como veio a encardida a notícia de que Bergen é há muito a capital europeia do bacalhau ou que só agora se saiba que o desenhador judeu, Abraham Abobbot, era de estatura baixa e usava um lenço à L´avalier. Ou que talvez só agora visionemos uma película em que se dá a devida relevância em ter uma vaca no Burkina Faso. O que é um facto e, assumo desavergonhadamente à frente de toda a gente, é que invariavelmente e, por diversas vezes, traí o destino a que me estava destinado. E, desculpem, é que não me importo mesmo nada ou pouco de dar as voltas necessárias à Primavera. E, caso for mesmo necessário, casar-me-ei com ela já no próximo domingo!

terça-feira, 1 de abril de 2014

Os Pássaros Nascem na Ponta das Árvores

Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
Deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
Quando o Outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
Mas deixo essa forma de dizer ao romancista
É complicada e não se dá bem na poesia
Não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração


Ruy Belo

ALENTOS

(Sephi alter)
        
       I
a amendoeira
acho que é dia
vou entre línguas
que ninguém sabe
amarga e branca
em pleno inverno
o sol já vinha
florescia
fora da amêndoa
dentro das línguas
ninguém sabia
que despertava
com a flor primeira
acho que é dia
       
         II
mexe mexe damasqueiro
ainda sem  folhas ali
com as origens à mostra
todo o por dentro de fora
que até se vê através
das flores que não vieram
toca no que ainda dorme
mexe no mês de Janeiro
fica desarmado um ninho
onde o tronco se bifurca
desabitado  uma roda
de restos em turbilhão
mexe dentro da origem
toca na polpa do alperce
invisível mas que vem
relâmpago no caminho.

            III
se te lembras da China
ou se já tudo esqueceste, diz,
amoreira tão alta, cansada de
tudo. cantas  agora em silêncio,
escuta-se   
a tua altura sem neve.
lembras-te ao menos do verão
da fadiga, folha após folha
dizendo amoras amoras
dizendo tudo da seda da fruta.
cantar, diziam amoras
nos sinais do Outono
a cair a cantar

              IV

querem as uvas sair daqueles meandros
daquelas matérias mortiças;
vide dormindo sem presença
passa despercebida
tempo concentrado, vida escura
querem que  pague a fé na sepultura
que hás-de florir
dar sombra verde uma turba de mãos
estender-te velocíssima
agarrar trepar aumentar invadir o espaço
fazer brotar cabelos de bagaço
sei por ouvir dizer
por histórias contadas repetidas
coisas do teu futuro
cachos sumos bebedeiras
bondades crimes carreiras.
acreditas que sonhei
estar sentado à tua sombra
num socalco de Lisboa
e depois vinha uma abelha
de Évora com um ferrão
(daqueles que suicidam qualquer abelha em qualquer lugar)
para me comer à mão?

       V
nespereira
não pereira
que já seca
que já arde
na fogueira
pêra seca
sobre a mesa
desespera
a noite inteira
dizes freira
sempre verde
gargalhada
não esperada
cócegas dentro da nêspera
tragédias de Inês Pereira
nome doce
no caroço
abrasivo
na dentada
riso vivo
amarelo
como a casca
como a chama
alaranjada
quatro nozes
vinte vozes
contra a alma
mil algozes
no regresso do Japão
casa queimada não gozes

João Paulo Esteves da Silva

sábado, 29 de março de 2014

Guia Açoriano (II)

Fotografia de Tiago Rodrigues
        Cheguei à Ilha Terceira ao tombar da tarde, tudo me parecia absolutamente fascinante. E à cidade de Angra somente uma hora depois. Chovia. Encontrei um centro da cidade carregada de história e de património e à qual tinham acrescentado o dado mundial e, que ainda assim, não era causador de atracção turística. As suas casas e ruas tem um mistério de séculos e foi nessa ânsia de busca de conhecimento e passado que mergulhei através do “taxista-poeta” nas histórias de uma cidade aberta à minha curiosidade. Descobri no caminho para a cidade de Angra que bem perto do centro há um cemitério hebreu. Tomei um banho no hotel, jantei um amanteigado prato de lapas no Aliança e telefonei novamente ao taxista que me tinha acompanhado. Solicitei que me acompanhasse ao “Campo da Igualdade”, ao mesmo tempo que interroguei sobre a possibilidade de vir comigo ao tão afamado cemitério hebreu questionei sobre se este sabia mais alguma coisa sobra a passagem dessa comunidade em Angra. Este disse-me que quando terminasse o serviço nocturno que me ligava. Entretanto, munido do prospecto turístico que me tinha sido oferecido no aeroporto, caminhei em direcção à elogiada baía de Angra, inscrita em todos os roteiros turísticos. Após uma centena e meia de escadas, deparei-me com o antigo Mercado Dona Maria Pia, actual Centro de Ciência, situado no antigo caminho dos Côrte-Reais e tinha sido inaugurado a 23 de Agosto de 1884, ainda que neste folheto não diga quem foi o desenhador ou arquitecto de tão particular edifício. Minutos depois, o taxista ligou e, após duas ou três histórias caricatas da sua profissão, referiu que estava a caminho. Cheguei ao cemitério de madrugada e com ele trazia um folheto encardido, muito antigo, sobre a presença hebraica na ilha, escrito por um tal de Pedro de Merelim, e que me cedeu para ler durante essa curta viagem. Descobri de imediato que um Fortunato Benjamim, às portas de deixar este mundo e sem vontade de se juntar às almas inglesas no cemitério protestante, comprou à câmara municipal um terreno por 300 mil réis em 1832 com o intento de juntar por ali as almas da sua comunidade. Quando ali aportamos, ainda tentei subir o muro mas assustei a minha companhia nocturna, refreando o ímpeto constatei que o melhor seria voltar quando este se encontrasse aberto ao público. De volta ao hotel, passei a noite em branco a ler aquele livro emprestado com a promessa que o devolveria em mão na manhã do dia seguinte.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Os Meninos Morrem Dentro dos Homens

“Os meninos/morrem dentro dos homens/ na volúpia escaldante de corpos pegajosos/ em negros e agudos penedos dos profundos abismos do desengano/ na luta do pão/ mel a escorrer das fontes da servidão/ os meninos/ morrem dentro dos homens/ à carícia cada vez mais nostálgica do sol-poente/ à descoberta do segredo guardado e resguardado/ e afinal efémero fortuito e banal.”

Rui Duarte Rodrigues, “Os meninos Morrem Dentro dos Homens” (1970)

quarta-feira, 19 de março de 2014

"Meu Pescador, Meu Velho" no Alpendre.


Meu Pescador, Meu Velho dia 20 no Alpendre
(Cine-Eco com extensão à Ilha Terceira pelo Cine-Clube)
  Amaya Sumpsi não faz parte dos conhecimentos deste escriba, tão pouco os pescadores de Porto Formoso, da Ilha de São Miguel. Não há também qualquer interesse escondido em promover ou divulgar este documentário, somente partilhar e querer estar próximo desta gente. No entanto, é caso para dizer que este foi o "o filme de 2013". Porventura, o filme surpresa, visto e apreciado nestes últimos tempos ou aquele que mais emoções causou. No fim deste filme a questão foi feita muitas vezes: para que serve a arte ou para que serve o cinema documental se não for para dar conta das pessoas que vivem em tempo real, isto é, que nos dê  a "ver" estes tempos conturbados que nos encontramos a passar e…a sofrer? Diversas vezes se questionou o facto de podemos ou não chorar quando vemos filmes com esta força e intensidade, com este poder de nos tocar e surpreender. Meu Pescador, Meu Velho é um documentário de uma riqueza por vezes indescritível e com um valor que podemos mesmo não estar à altura de corresponder. Portugal podia ter aprendido com "Os Pescadores" de Raul Brandão, escrito em 1923 e, quem sabe, talvez ainda possa aprender com este gesto de Amaya Sumpsi. Poucos filmes conseguiram ir tão longe e tão perto nessa busca da verdade  sobre o que cada um traz dentro de si. É certo que foi feito em sete anos, tempo suficiente para construir uma casa, mas que ainda assim vale a pena escutarmos o que estas pessoas nos dizem - e muito! - bem como guardar o legado e o lastro que este filme nos deixa para construirmos outro presente que não este. Ou, simplesmente, a alegria de estarmos vivos! 

terça-feira, 18 de março de 2014

Natália Correia: 21 anos depois!

Ilustração de Pedro Vieira
(retirado de Bibliotecário de Babel) 







“Sou uma imprudência a mesa posta/ de um verso onde possa escrever/ Ó subalimentados do sonho!/ A poesia é para comer.”



Natália Correia



domingo, 16 de março de 2014

O Guia Açoriano

       “Tu és a pessoa indicada para a realização de um guia à volta do arquipélago.”- declarou a chefe de redacção alagada de salamaleques identitários quando ouviu falar na diminuição de pessoal no jornal e uma adquirida reestruturação do quadro da redacção do diário. Eu pensei rapidamente que aquela era uma forma subtil de me dizer qual era o caminho mais fácil para a desocupação laboral. Num breve instante passaram-me pela cabeça todos os artigos e reportagens que tinha escrito para aquele diário em dez anos de jornalista com carteira profissional para além das noites que passei naquela minúscula sala a escrever como um vagabundo, sem rota nem destino, a acrescentar o álcool vertido e o odor do tabaco colado à roupa, andrajos que no regresso a casa iam directamente para a vetustíssima máquina de lavar. “Quanto tempo é que precisas para realizar tal tarefa?”- Repetiu de forma contundente a senhora redactora e de mim apenas saiu um esgar de cansaço e um sorriso furtivo e sem alma. Era garantido que uma visita ao arquipélago açoriano era, no imediato, o que se me afigurava no horizonte em perspectiva.

       
Fotografia de Tânia Santos
         A minha interrogação, no entanto, crescia a cada momento pois não parava de indagar sobre o que é que eu sabia sobre as nove ilhas açorianas deixadas a meio do oceano atlântico por um antigo império ultramarino? Outra questão era o que é que a senhora redactora terá visto em mim para me escolher como organizador de um guia turístico para sair em breve com o jornal, ao mesmo tempo que me retirava das funções de sempre, da rotina a que estava habituado há tanto, tanto tempo. Desliguei o computador, saí da redacção do jornal e indaguei qual seria a agência de viagens mais próxima, precisaria entretanto de saber o preço das viagens já que com a contenção tudo me seria pedido nos próximos dias. Numa primeira instância precisava digerir o anúncio do despedimento ou afastamento das minhas funções de jornalista durante algum tempo. Daí ter procurado o café mais próximo para ler o jornal concorrente e pensar no que me estava a acontecer. Não era grave. Pensava em todos os amigos que tinha tido das diferentes ilhas durante o período da Universidade e numa viagem em tempos longevos a quatro ilhas integrado numa comitiva de jovens estudantes de Biologia nos idos anos noventa.  

sexta-feira, 14 de março de 2014

Não é tarde

O amor é como o fogo, não se propaga
onde o ar escasseia. Mas não te preocupes,
eu fecho mais a porta.

Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro
funciona! Poderoso combustível
é o corpo. Acende deste lado.

Ainda não é tarde, foi agora anunciado
pela rádio, são dezoito e vinte cinco.
Respira-nos, repara, a ilusão

de que a vida não se esgota, como os saldos
de verão. E a morte, à medida que te despes,
vai perdendo o nosso número de telefone.


José Miguel Silva de Ulisses já não mora aqui; & etc, 2002 


quinta-feira, 13 de março de 2014

terça-feira, 11 de março de 2014

Sul

Fotografia de Eduardo Brito.

Postal de Miriam Manaia da Capital

          Como vai o senhor doutor?
       Aqui vai um postal da Costa do Castelo onde aluguei um pequeno apartamento para absorver a luz da cidade. Ultimamente tenho passado as noites às claras já que me tenho dedicado a rever documentários de Cris Marker e de Patrício Gúzman. Desta forma, acabo por não sair o que me traz alguma paz de espírito mas que torna o desassossego artístico e criativo cada vez maior. O que fazer?
        Soube, entretanto, que o Doutor tinha sido deslocalizado - na magnífica expressão e adjectivação desse momento pelo seu amigo de longa data, Janeiro Alves. E, talvez por isso ou não, decidi prolongar a minha estadia na cidade das sete colinas. Caso o Doutor Mara passe pela capital não se esqueça de visitar esta sua amiga que não esquece os dias de farândola noctívaga e darandina cultural – vivida e fruída em PDL – tendo por pousio o solar dos meus familiares mais próximos, os insuportáveis mas sempre fraternos, manos Manaia.

Sempre sua amiga,

Miriam Manaia 

quinta-feira, 6 de março de 2014

Mestre da Improvisação

João Paulo
Fotografia: Ana Nobre
-Estiveste há três anos na cidade da Horta, Ilha do Faial, numa oficina de improvisação musical. Que recordações guardas dessa actividade e da passagem pelo arquipélago?
João Paulo Esteves da Silva: Excelentes recordações. Ambiente fantástico, muito talento e abertura de espírito por parte dos participantes, jovens e menos jovens.
-Por fim, quais são os músicos e as músicas que te acompanham para todo o lado?
JPES: Como a lista seria interminável, proponho o seguinte jogo: Vou improvisar os primeiros dez nomes que me vierem agora à cabeça. Então, cá vai, Mozart, Bach, Beethoven, Chopin, Bob Dylan, Kate Bush, Joni Mitchel, Keith Jarret, Ornette Coleman, The Beatles...

Excerto de uma entrevista a João Paulo Esteves da Silva.

quarta-feira, 5 de março de 2014

O Miró pintor do Mundo!

Carnaval de Arlequim de Juan Miró (1924-1925)
                            









-Quem é o Miró?
-É o Miró pintor do mundo...
 in Bailinho da Ribeirinha, Carnaval da Ilha Terceira (2014)