segunda-feira, 7 de março de 2016

Partirás em condição de não saber

Partirás em condição de não saber
a outra já de si desconhecida hesitação
o que de ti escasso veio atesta
ínsula de segredo e fantasia
nunca leveza nem círio de traição
Desvelas um farol à distância
e é como se ao longe o mar devolvesse
a linha do horizonte sem fim à vista.

Ontem, escrito numa parede da cidade

Conheci um homem que um dia me disse:-"Uma rua não começa nem acaba, é lá que está a minha casa".

Os Poetas

           "O dinheiro está em toda a parte, mas a poesia também. O que falta são os poetas. Os produtores dizem que são poetas, é verdade, porque acreditam que têm público. Eu faço o que faço porque é só isso que sei fazer. É como se tivesse sido feito, mais ou menos penosamente, mais ou menos felizmente, para ser realizador. A vida real não me interessa."

Federico Fellini -"Sou Um Grande Mentiroso - Uma Conversa com Damian Pettigrew",Tradução de Miguel Serras Pereira, Fim de Século, 2008.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Capítulo C está Pronto!

O culminar deste projecto literário, tido inicialmente como  uma trilogia editorial, deve ser francamente saudado. Este fecho, agora concretizado, correspondeu a uma vontade genuína de dar a conhecer um leque alargado de autores, isto é, a divulgação de poetas residentes nos Açores. O Capítulo C está, portanto, pronto e reúne novamente um conjunto de poetas e poemas bastante heterogéneo, essencialmente com um lanceiro de registos poéticos para diferentes gostos, ideias e estéticas.
Esta publicação relembra também a importância e o aparecimento de espaços públicos que funcionaram como encontros semanais, quinzenais e mensais de actividades públicas de divulgação de poesia: o Poetry Slam de Ponta Delgada, as quintas de Poesia na Travessa dos Artistas ou da TASCÀ, na Rua de Lisboa.  A vantagem de reunir estes poetas e poemas terá ajudado certamente na criação de novos leitores de poesia, ainda o eventual surgimento de novas vozes poéticas, salientando-se neste impulso editorial só por si, ser portador da ideia de comunidade poética, o que não é de somenos. Fica assim fechada a trilogia editorial com a edição do Capítulos C (nada invalida que o projecto não possa crescer ainda mais). A tiragem, para cada uma das três edições, foi de 150 exemplares e contou com o preço simbólico de 2 euros. O designer Luís Andrade coordenou, organizou e fez o grafismo deste projecto apoiado pela Direcção Regional da Juventude dos Açores, através do programa "Põe-te em Cena". Esta súmula reúne assim dois poemas dos seguintes autores: Artur Falcão, Carla Veríssimo, Dalila Bettencourt, Eleonora Marino Duarte, Fernando Nunes, João Malaquias, Jaqueline Torres, José Soares, Júlio Ávila, Leonardo e Luís Augusto. Todos os pedidos dos capítulos A, B e C poderão ser feitos para: capitulospoesia@gmail.com

Ontem, escrito numa parede da cidade

O pescador ao regressar da faina diz ao filho que o mar é verdadeiramente grande mas maior é a viagem que faz quando olha para ele a partir da terra.

quinta-feira, 3 de março de 2016

"Adeus Pai" no Teatro Micaelense

Há vinte anos atrás, Luís Filipe Rocha apresentou nas salas de cinema “Adeus, Pai”. O filme foi filmado nas Ilhas Terceira e São Miguel, para além de Lisboa. Ontem, de manhã, voltou a ser exibido no Teatro Micaelense, em Ponta Delgada, através do Plano Nacional de Cinema, com a sala cheia de estudantes e a presença do realizador. No final do filme houve debate alargado, num acontecimento raro de presenciar pois estavam presentes estudantes de todas as idades que quiseram sobretudo questionar o realizador sobre elementos ficcionais pertencentes à história do filme. Luís Filipe Rocha, que acredita que falar com o público espectador faz parte do caderno de encargos de quem dá a ver os próprios filmes, começou por falar da sua necessidade enquanto cineasta em contar histórias e que aquela era uma ficção que surgiu no entrementes do filme “Sinais de Fogo”. Entre a preparação, rodagem e montagem, esta longa-metragem demorou um ano a ser realizada. A verdade é que este autor de cinema narrativo – “são as histórias que escolhem os seus contadores”- não podia ter melhores companheiros de viagem. Durante uma hora, os alunos das várias escolas da cidade insular, foram incansáveis nas perguntas, revelando assim que houve encontro e empatia com as imagens presentes no filme, denotando uma necessidade em ver “resolvidas” algumas interrogações que o filme suscita. No final, o realizador respondeu que "é muito importante num determinado momento do nosso crescimento ter um pai, alguém que nos pergunte ou simplesmente comente como foi o dia” e, que muito embora “vivamos e suportemos uma realidade palpável, concreta, real, transportamos sempre connosco muita fantasia, imaginação e sonho”. Luís Filipe Rocha, que realizou recentemente a longa-metragem  “Cinzento e Negro”, rodada nas Ilhas do Faial e do Pico, espera poder continuar a mostrar os seus filmes e a “comunicar com eles”.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Barco ao Sol

São Miguel, Jorge de Oliveira e Tereza Arriaga (1972)

Fellini e Rimini

         “A noite passada sonhei com o porto de Rimini, que abria para um mar ondulante, verde, tão ameaçador como um prado em movimento, sobre o qual corressem nuvens baixas, tocando o solo.
          Eu era um gigante, nadando para o mar alto, a partir do porto, que era pequeno e estreito. Disse a mim mesmo: “Posso ser um gigante, mas o mar é sempre o mar. Vamos supor que não sou capaz?" Mas não estava preocupado. Nadei em grandes braçadas pelo porto fora. Não me podia afogar porque tocava com os pés no chão. No mar já poderia ser; mas continuei a nadar como se não fosse nada comigo.
      Era um sonho tipo alimentício, que tendia para restabelecimento da minha confiança no mar. Um convite para uma sobrevalorização pessoal; ou melhor, para subestimar as frágeis condições protectoras que poderiam suster-me. De qualquer modo, não compreendi se deveria desistir da ideia de abandonar o porto ou se estaria a sobrevalorizar-me.
        Seja como for, uma coisa é certa. Não gosto da ideia de voltar a Rimini. Tenho de admitir isto: é uma espécie de bloqueamento. A minha família continua a viver lá, a minha mãe, a minha irmã: estarei com receios de alguns dos meus sentimentos? O que me parece é que regressar é sobretudo uma insistência complacente e masochista da memória: uma acção literal, teatral. É claro que pode ser aí que reside o seu encanto. Um encanto turvo, sonolento. Mas não consigo considerar Rimini com um facto objectivo. É uma dimensão da memória, nada mais. De facto, quando estou em Rimini sou sempre assaltado por fantasmas que já havia arquivado, colocado no seu devido lugar.”

in Fellini conta Fellini, Livraria Bertrand, Tradução de Maria Dulce e Salvato Teles Meneses, 1974.

Ontem, escrito numa parede da cidade

Ao escritor doía-lhe o corpo de tanto escrever e, quando entrou na biblioteca, sentou-se descansado a ler.

terça-feira, 1 de março de 2016

Olof Palme: Um Cidadão Comum!


       
Olof Palme
imagem daqui: www.relevant.at
        Faz hoje trinta anos que assassinaram Olof Palme, à porta do Grand Cinema, na cidade de Estocolmo, Suécia. O assassinato ocorreu pelas costas quando este se encontrava acompanhado pela sua mulher. Nunca se soube quem foi o autor dos disparos. A Europa que actualmente queremos viva e herdeira dessa social-democracia avançada, sob o signo de Olof Palme e Willy Brandt, parece estar a definhar. Sem dúvida, foram eles os criadores, primeiro  da realidade  e depois do mito, arautos de uma sociedade política e culturalmente exigente, tolerante e verdadeiramente democrática. Infelizmente, os exemplos que temos hoje  à nossa frente deixam muito a desejar. Actualmente, um primeiro ministro que sai à rua sem guarda-costas e que vai ao cinema de metro, parece mesmo uma história de um tempo impossível, bem como a dedicação e serviços à causa pública se tornaram reflexo de algum cinismo e motivo de pândega. Olof Palme simbolizou o exercício e a prática da social-democracia, isto é, um Estado Social responsável pela Saúde e a Educação dos seus cidadãos, a protecção aos mais velhos, o cuidado para com as crianças e a atenção devida aos mais desfavorecidos. Foi também um politico que acreditou no fim do apartheid na África do Sul e que se opôs firmemente em relação ao nuclear, sendo um defensor do Exército de Libertação da Palestina e da autonomia política da Cuba de Fidel Castro. A Suécia simplesmente não se esqueceu de um político que promovia a garantia de trabalho para todos e que legislava para que não fosse fácil despedir um trabalhador. Um homem que se enganou apenas ao pensar que era um cidadão comum.

Lugar de Inspiração e de Poetas

     “A primeira coisa para que me alertaram quando cheguei aqui foi para o estado do tempo, com as quatro estações a acontecerem no mesmo dia. Fiquei espantado, mas já me apercebi que é mesmo assim: o sol, a chuva, o céu azul, ou o céu nublado podem caber num intervalo de apenas seis horas…Contudo achei logo os Açores um óptimo lugar para a inspiração. Pelo que me dizem, esta é uma terra de poetas e sempre me interessei pelos lugares que levam as pessoas a escrever e sobre os ambientes que as inspiram.”

Entrevista ao músico norte-americano, Thurston Moore, fundador dos Sonic Youth, por Rui Jorge Cabral in “O Açoriano Oriental”, 1 de Março de 2016.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

De que é Feito o Passado

       
Imagem daqui:www.filmaffinity.com
 "O Amarcord é uma reflexão sobre  a incapacidade de observarmos criticamente o nosso passado fascista, um passado que recusamos, mas do qual nunca nos poderíamos separar: o que faz parte do passado de cada um de nós forma inalteravelmente uma parte íntima de si próprio. Por isso o Amarcord é mais um exame do presente do que uma nostalgia. Na realidade, quando foi estreado o Satyricon, muitos viram o filme como um comentário sobre o Maio de 68. Creio que filmes como Casanova ou O Navio podem ser interpretados como reflexos de uma certa actualidade, como o jornal da noite. (...) Muitas vezes simplifiquei o sentido cabalístico da palavra amarcord, dizendo que é um termo romagnolo e que significa "Lembro-me". Mas não é bem verdade. Penso que a ideia original me ocorreu depois de ter lido qualquer coisa sobre o sueco defensor do aborto Hammercord, e que a sonoridade do seu nome o ponto de partida. Se se juntarem as palavras amare (amar), cuore (coração), ricordare (lembrar) e amaro (amargo) obtém-se Amarcord."

Federico Fellini -"Sou Um Grande Mentiroso - Uma Conversa com Damian   Pettigrew",Tradução de Miguel Serras Pereira, Fim de Século, 2008.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Relógios

          "Toda a gente sabe que o tempo é a morte, que a morte se esconde nos relógios. Apesar de tudo, se impusermos um outro tempo, que é alimentado pelo relógio da imaginação, podemos rejeitar a sua lei. Aí, livres da foice do triste ceifeiro, aprendemos que a dor é conhecimento e que todo o conhecimento é dor."

Federico Fellini -"Sou Um Grande Mentiroso - Uma Conversa com Damian Pettigrew",Tradução de Miguel Serras Pereira, Fim de Século, 2008.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016