| Fotografia de André Carvalho |
segunda-feira, 25 de julho de 2016
Tu Podias Viajar Comigo na Noite
Tu podias viajar comigo na noite
ver como se propaga o ar
não se pode negar a indiferença
enfiaram-te o amor na cabeça
os filmes, os livros e os poemas
que leste
agora vai-te embora com as grafonolas
desampara a loja dos fantasmas da
infância
e não voltes desconfiado
o gelo não se parte,
solidifica ainda mais
solidifica ainda mais
conserva-se para a eternidade
um coração despedaçado não sobrevive
um coração despedaçado não sobrevive
fica desarmado com tanta frieza
Hás-de saber guardar para ti o medo
e o cuidado
a leveza com que desapareces da
fotografia
não sei muito bem onde aprendeste esse
orgulho
esse pequeno ritual do
desprendimento
vale o que vale a saúde e desatinas
uma casa em ruínas e o desapego
uma casa em ruínas e o desapego
quando sofres devagar e logo
adormeces
Repetes o frente a frente
sem nada conseguir expressar
madrugada adentro
até deitar tudo a perder antes da alba nascer
Filme d´Estio
Sob Céus Estranhos de Daniel Blaufucks
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| Imagem daqui: http://www.danielblaufuks.com/ |
O frequentador de bibliotecas terá sempre este prazer que é descobrir coisas ao calhas. Subitamente, este depara-se com um nome de um fotógrafo conhecido, um título curioso e intrigante, permitindo várias leituras. E de imediato essas coisas funcionam como cápsulas que gostaríamos de abrir, desvendar, trazer para o nosso quotidiano. No final do livro, um texto poético que nos faz permanecer agarrado à página, fixar aquele instante, prolongar a existência de vida e uma fotografia que podia também ser parte da nossa memória:“Agora estou deste lado do ecrã, revendo todas as fotografias e velhas bobines de 8 mm e vejo todos os que, um a um, foram partindo, levando um pouco de mim para sempre. Estranhamente, também eu, de certa forma, me tornei num exilado. Onde fica a minha casa? Não tenho bem a certeza. Possivelmente debaixo daquelas árvores de que o meu avô gostava tanto.”
sábado, 23 de julho de 2016
sexta-feira, 22 de julho de 2016
Filme d´Estio
a cultura é um marcador turístico
Ser português é como ser aborígene ou americano
Posso comer bacalhau com batatas a murro em qualquer lugar
Camões e Pessoa em todas as línguas tal como Rilke e
Confúcio
O Português só me une aos mortos da literatura
Vivo neste canto por uma questão de inércia climática
Nunca estou cá – isto já não é a cidade das igrejas e
quartéis
É um cenário intermitente onde vivo separadamente – vou ao
super
comprar chocolate belga e vinho chileno
Já não tenho inimigos nem sarracenos nem chinos como o Pinto
Nem os portugueses me incomodam mas classes de comportamentos
grosseiros em que não são os piores – Por isso vivo aqui
com os livros e discos iguais em toda a parte.
Nuno Félix da Costa in “O Desfazer das Coisas e as Coisas Desfeitas” in "Companhia das Ilhas" (2015)
A Musa em Férias
Que se passa
em Lisboa?
que se passa
em Madrid?
que se passa
em mim em ti?
Do outro
lado do mar
em Cabo
Verde no Brasil
ou na Coreia
que se passará?
A verdade
ignora-se
evita-se
e cada hora
fecha-se com um sorriso
nem alegre
nem triste
sorriso
simples acordo
do homem com
a sombra
a sombra que
cresce e o devora
num dia a
dia favorável aos fantasmas
e a quem
lucra com eles
*
Soluções
sabemos todas
mas em vão
dizemos Amor
Aventura
Poesia
Afinal as
palavras somos nós
e a nossa
esterilidade
*
Crescei e multiplicai-vos
também já cá
se sabia
Crescei no
medo
multiplicai-vos
no desepero
Um pêlo que
sobreviva
valerá por
vinte cidades
*
Com o hálito
já desfiz
alguns bailes
Afinal seria
bem fácil
dominar o
mundo
*
Mas dança em
sossego
musa em
férias
Aventura-te
um pouco
musa em
férias
Agora
só preciso
de azul
de todo o
azul cobarde
que o céu
possa oferecer-me.
Alexandre O´Neill in “Poemas Com
Endereço” (1962)
quinta-feira, 21 de julho de 2016
Sala de Embarque: Décimo Ensaio
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| Fotografia de Carlos Olyveira |
Andamos nestes
dias solarengos e estivais à volta de Santa Clara, sobretudo este cenário que sugere uma ou várias bandas sonoras. Enquanto não irrompe na dita língua e
expressão musical açoriana uma emoção forte e idêntica, surge na memória o tema “Travelling
Light” dos Tindersticks, um agrupamento musical de Nottingham, Inglaterra, criado em 1992, e que andou recentemente por Vila
do Conde (Festival de Curtas). Logo
a abrir, Stuart Staples, cumprindo esse fardo melancólico da existência, solta:“There are places I don't remember/There are
times and days they mean nothing to me/I've been looking through some of them
old pictures/They don't serve to jog my memory.” E é na luta pela
memória que também por aqui andamos, pois não esquecemos que é de rapidez que
vivem os dias que nos cobrem. Desta feita, no ensaio de hoje quisemos gravar, pretendíamos ouvir em forma de roda o texto pelas nossas vozes. Confiamos
neste processo como forma de fixação e memorização do texto. E por isso questione-se o que é isso de ser "teatral" este texto que queremos nosso?
Socorro-me, portanto, de David Ball: “Alguma coisa é
teatral, quando intensifica a atenção e envolvimento dos espectadores. Os
dramaturgos colocam o seu material mais importante nos momentos mais teatrais
da peça, auferindo desse modo vantagens da intensificação da atenção dos
espectadores”. E acrescenta ainda:“Identificar os elementos teatrais da peça
ajuda a descobrir o que o dramaturgo considera importante.” E, brevemente, é isso que faremos, pois voltaremos de novo à carga, ao palco…do Arco 8.
quarta-feira, 20 de julho de 2016
Walk and Talk: A Família de Arquitectos Bohem!
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| "Concrete Love The Boehm Family" de Maurizius Staerkle-Drux |
terça-feira, 19 de julho de 2016
Ontem, escrito numa parede da cidade
-Gostas de leite, gordo?
-Passa aí o pão, saloio!
-Dá-me um pêssego, careca!
-Esse casaquinho de lã, virgem!*
*-escutadas na Tasca do Mário.
Sala de Embarque: Nono Ensaio
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| Fotografia de Carlos Olyveira |
O verão ainda não atingiu o seu pico de calor e no
entanto por aqui a chuva alivia o capacete e a humidade. A temperatura, é um
facto, melhora sempre que chove. Encontramo-nos a ensaiar durante o período do
Festival de Arte Urbana – Walk and Talk e a ilha está, por instantes, radiosa.
É um privilégio este cair da tarde dourado em Santa Clara, a despedida da luz
do dia e a lua a encher-se, as nuvens espalhadas ao comprido cobrindo o azul do
céu. No interior da Galeria Arco 8 encontra-se uma instalação intitulada de “O
Portal”, de Nuno Paiva, um trabalho de espelhos em forma de hexágono
articuladas entre si em forma de reflexo e que já esteve no ano passado na baía
de Ponta Delgada.
Os sinos repicam na Igreja de Santa Clara e, após
exercícios de relaxamento e voz, retomamos o ensaio e a leitura de texto
corrido. Insistimos nessa vontade comum de encontrar o tom geral do texto, daí
o reforço neste trabalho de encenação colectiva e adaptação do texto às
circunstâncias. É assim que a personagem da Rapariga Aluada abandona os olhos de amêndoa no texto para se fixar
nesse azul vítreo da actriz em causa: “Eu
quero é correr mundo…Tantas coisas a acontecer lá fora, tantas coisas, e aqui
estou eu enfiada dentro de quatro paredes, nos meus dezassete anos de vida,
pois tudo isto me parece tão pouco, com estes meus olhos azuis, com esta minha camisa às flores, o meu cabelo feito ondas e
uma vontade indómita de querer viver. Eu quero é correr mundo…”. Por agora,
fixamo-nos nesta casa provisória e daqui só sairemos com o sinal de dever
cumprido. Julho entra na recta final e temos que arrepiar caminho, por isso
conviria que os dias açorianos continuassem assim...frescos e amenos.
Da Guerra
" A crueldade dos poderosos é a glória dos humildes mas ninguém paga a desolação da terra. A guerra é alimentada pela ignorância. A ignorância é uma forma de destruição. Quem não sabe de onde vem o vento por ele será empurrado. Quem não compreende o que é o corpo que usamos, nele será perdido. "
Augustina Bessa Luís
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