Um disco acabadinho de chegar aos
escaparates e ali está, Cristina Branco, mais a sua banda, em palco no Teatro
Micaelense. “E às vezes dou por mim”, com letra de André Henriques (Linda Martini), inicia
a ponte para uma grande noite, já que atente-se nos versos da canção que abre o mais recente álbum “Menina”: “E às vezes dou por mim/Quando ninguém está a
ver/Ser que é por tanto crer/Que ninguém me quer/Sozinha na moldura/Na casa dos
meus pais/Dizem que estou madura/E eu não quero esperar mais”. Como pano de fundo, discreta e imponente, a guitarra portuguesa, aqui
tocada exemplarmente por Bernardo Couto. Seguiu-se uma hora e meia de espectáculo musical com muitas e bonitas palavras, ainda a intensidade da partilha. No final, desfeito o gelo, os músicos voltaram ao palco para encher de novo o coração de lindas melodias, frases e versos controversos de gente cheia de alma. Certo é que foi um belo
serão musical. Estamos, sem qualquer dúvida, na presença de um disco orelhudo que merece a repetição da escuta.
domingo, 18 de dezembro de 2016
sábado, 17 de dezembro de 2016
Eu, Daniel Blake
![]() |
| (daqui:www.slate.fr) |
"A lógica do sistema está pensada na actualidade para aprisionar as pessoas, apanhá-las em falso. Há uma discriminação terrível nos centros de emprego que tende a submeter as pessoas. É uma lógica mais importante do que haver ou não haver trabalho. Haver trabalho há, mas também há discriminação na forma como são filtradas as oportunidades. E há uma questão ideológica por detrás disto: tudo está feito para que as pessoas interiorizem que se estão desempregadas, é culpa delas, são pobres, é culpa delas."
Ken Loach, in Ípslon, Público, dia 2 de Dezembro de 2016
quinta-feira, 15 de dezembro de 2016
O Corpo Ardeu
Atirámos um homem do
penhasco abaixo.
Toda a aldeia
reunida no adro;
corremos sobre ele
aos gritos
fizemo-lo cair de
grande altura.
O padre disse que
agora, sim, é
que começa a
verdadeira vida
e eu pensei com muita
força e muita fé;
mete a verdadeira
vida no cu.
Acordo a meio da
noite com os uivos das pessoas
Prendem um homem no
manicómio
atam-no à cama,
enfiam-lhe comida
pela goela abaixo,
engordam-lhe o fígado.
Ele tinha um anjo
dentro da cabeça
sempre a levá-lo, a
voá-lo muito
para lá das nuvens,
repuxava-lhe os fios
forçava-o a uns
esgares, uns dizeres obscenos
Quando o deixava
planar a meia altura
a uns quinhentos
metros, digamos, uma
corrente inesgotável
de lenços coloridos
saia-lhe da cartola,
com as músicas mais belas.
Tanto medo da
loucura,
tantas verdades
incómodas ali à mostra,
tantos segredos
insuportáveis.
Vamos estabilizá-lo,
disseram.
Quero escapar,
morrer,
arder-vos por entre
os dedos,
ó boas pessoas, ó
sãos de espírito,
ó assassinos, adeus.
Da Amizade
«Falei de amigos. Haverá melhor
na vida do que tê-los? Muitos? Uns partem de vez (eram amigos a prazo), outros
andaram por longe, regressaram, convertidos à ideia de que não há como beber um
copo juntos. Nem que seja de café. Só na desgraça se conhecem bem: sabedoria
popular. Fi-los em toda a parte.»
Mário Dionísio
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
Carlos Olyveira: Fotógrafo dos Dias que Passam!
A
cidade é campo aberto para a respiração. Respiramos as ruas, as casas,
os sólidos, corpos e luzes em movimento. Desse exercício diário de aproximação
à existência vemos apenas aquilo que realmente importa, dedicamos especial cuidado
à delicadeza dos gestos e prestamos ainda uma atenção inusitada pelas coisas
que diariamente se repetem. Repetidamente, também nós, por aqui, vivemos e, tal e qual Bresson um dia disse: "Fotografar é colocar na mesma linha a cabeça, o olho e o coração".
A
partir dessa rotina e dos hábitos que se instalam estamos, portanto, preparados
para nos concentrarmos naquilo que muitas vezes nos parece descabido, focados nos
gestos mais banais ou inesperados ou, quem sabe, detidos na permanência insistente dos
traços que julgamos ser comuns. Um distinto louvor à passagem do tempo. Eis, então, que entra aqui o fotógrafo, enquanto conhecedor da urbe e do seu pulsar, narrador
curioso por calcorrear os seus recantos e buscar a vida no interior das ruas e rostos
de personagens conhecidos. A visão do fotógrafo fixa, portanto, cada instante que passa,
obedecendo aos humores das sombras e da luz. À semelhança deste seu olhar, espreitamos também com ele o quotidiano trânsito da ilha em viagem, tornamo-nos cúmplices da sua
paisagem e movimento. Alimentamos o corpo com estas imagens para de novo vibrar
com a existência, afagando e abraçando estes registos enquanto diário visual, reconhecendo
o corpo citadino e as suas indissociáveis figuras. Acompanhar este olhar carece de continuidade, de expressão e reflexão crítica. Contemplemos pois, a repetição dos gestos tal qual a
cidade e os dias que julgamos ser nossos, pois é assim que acreditamos estar vivos. Carlos Olyveira é o fotógrafo dos dias que passam!
Soneto 34
Porque me prometeste um dia assim tão belo
E me fizeste andar sem que usasse o meu manto,
Deixando as nuvens baixas tomar o meu caminho
Escondendo o seu fulgor em nevoeiro imenso?
Não te basta brilhar pelas nuvens envolto
Pela tormenta, pois que não chega unguento
Que cura a ferida, mas não cura a desgraça?
Nem a tua vergonha me conforta o tormento:
Que a culpa do que peca traz só alívio leve
Àquele que mais sofre e suporta a ofensa.
Mas as lágrimas suaves que o teu amor me dá
São ricas e resgatam todo o mal que me fazes.
William Shakespeare, “31 Sonetos”, Tradução de Ana Luísa Amaral, Relógio D´Água.
Da Personalidade
"É muito estranha a facilidade com que as pessoas têm tendência para avaliar as outras isolando apenas algumas partes da sua personalidade."
domingo, 11 de dezembro de 2016
[Quando M. me Enviou Sms]
Quando M. me enviou sms
a perguntar plo programa de
fim-de-semana
senti a angústia da página em
branco de sexta-feira
do cronista de domingo
mas depois lá esbocei este
plano,
mais uma mnemónica, diria:
1.º mastigar a angústia como uma
chiclete
ao som dos Táxi da altura em que
a cuspia
sem qualquer preocupação com a
pegada ecológica;
2.º passar pela secção dos
Perdidos e Achados da PSP,
do Metro e dos STCP para ver se
encontraram um
coração que há dias que não
sinto o meu;
3.º listar todas as músicas de
língua inglesa
que expõem um broken heart no
refrão;
4.º desfazer a máxima:
«Toi, tu est un blogueur.
Moi, je suis une blagueuse.» (que
construí a pensar no O'Neill)
sentindo-me digna de uma
serviçal de Penélope, que as devia ter,
escondidas nas dobras da
história, como escrevi a Z;
5.º rever o filme de Eris Riklis
e deixar-te
sobre a tua mesinha de cabeceira
este bilhete:
«Não verei o limoeiro crescer!»
Aviso ao leitor: pode começar pelo último ponto, passar ao terceiro,
eliminar o segundo e acabar no primeiro. Pode mesmo não sair do primeiro. Ou
passar todo o tempo no terceiro. E, se chegou até aqui, pode mesmo ignorar este
poema.
Ana Paula Inácio, 2010-2011, Averno, Lisboa, 2011. (Respigado do blogue Hospedaria Camões)
O Olhar de cada um...
“A grandeza da observação e a gestão do silêncio funcionam como
principais instrumentos de aprendizagem. Mas algo me diz que cada um olha para
o mar como olha para dentro de si mesmo.”
in “Os Últimos Marinheiros”, Filipa Melo, Edição Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2015.
sábado, 10 de dezembro de 2016
sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
Soneto 5
As horas em terno ofício emolduraram
Essa face gentil onde o olhar se demora
Hão-de ser as tiranas de si mesmas, as horas,
Como da fealdade que a perfeição supera.
Pois não repousa o Tempo, antes guia o Verão
Ao temível Inverno, para aí lograr;
A seiva enregelada, as folhas sem fulgor,
Soterrada a beleza, e em vez, desolação.
Assim, não fora a essência do Verão conservada,
Líquida prisioneira entre vítreas paredes,
O fruto da beleza por ela era roubado
E nem memória havia de beleza que fosse.
Mas a flor, no Inverno, perde só a aparência,
Sobrevivendo, doce, o que lhe deu substância.
William Shakespeare, “31 Sonetos”, Tradução de Ana Luísa Amaral, Relógio D´Água.
Essa face gentil onde o olhar se demora
Hão-de ser as tiranas de si mesmas, as horas,
Como da fealdade que a perfeição supera.
Pois não repousa o Tempo, antes guia o Verão
Ao temível Inverno, para aí lograr;
A seiva enregelada, as folhas sem fulgor,
Soterrada a beleza, e em vez, desolação.
Assim, não fora a essência do Verão conservada,
Líquida prisioneira entre vítreas paredes,
O fruto da beleza por ela era roubado
E nem memória havia de beleza que fosse.
Mas a flor, no Inverno, perde só a aparência,
Sobrevivendo, doce, o que lhe deu substância.
William Shakespeare, “31 Sonetos”, Tradução de Ana Luísa Amaral, Relógio D´Água.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
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