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| Fotografia de Joana Gama |
terça-feira, 12 de fevereiro de 2019
sábado, 9 de fevereiro de 2019
Já Ninguém nos Toca à Porta
já
ninguém nos toca à porta
a
vender cerejas.
devíamos
talvez lembrar
à
terra o nosso nome
plantar
sílabas frescas
que
nos matem a sede
ter
um pingo de esperança
na
morte depois da vida.
Renata Correia Botelho in Um Circo no Nevoeiro, Averno, Lisboa, 2009.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019
Da Subsistência
Como é que Portugal vai subsistir sem mim?
João César Monteiro a Fernando Lopes, 1971.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2019
O Nome
aos vinte anos e gozando de excelente memória
comecei duas listas, e até hoje mantenho
numa delas estão os nomes
de todas as pessoas que amei na vida
e que me amaram de volta.
na outra, os nomes das pessoas próximas de mim
que morreram.
até aos trinta, a primeira lista abria grande e crescente vantagem
sobre a segunda.
até aos quarenta a vantagem permanecia grande
mas deixou de aumentar.
aos cinquenta a lista dos meus mortos pela primeira vez
alcançou a dos amores, e
aos sessenta finalmente tomou a dianteira.
hoje, pela primeira vez,
um nome se repetiu nas duas.
comecei duas listas, e até hoje mantenho
numa delas estão os nomes
de todas as pessoas que amei na vida
e que me amaram de volta.
na outra, os nomes das pessoas próximas de mim
que morreram.
até aos trinta, a primeira lista abria grande e crescente vantagem
sobre a segunda.
até aos quarenta a vantagem permanecia grande
mas deixou de aumentar.
aos cinquenta a lista dos meus mortos pela primeira vez
alcançou a dos amores, e
aos sessenta finalmente tomou a dianteira.
hoje, pela primeira vez,
um nome se repetiu nas duas.
Luca
Argel, in
Flanzine, nº18, Dezembro de 2018
ΠΑΤΡΑ
Porto de Patras, um súbito desejo
de escrita.
Uma vontade de registo:
- Os lençóis deixados
no leito
com as frases de uma noite; o sol
olhado do extremo do Verão que
cega um declínio.
À partida, na largura azul do Mediterrâneo,
o alongamento até ao limite que se
desprende
do seu fundo, não abandona os
fragmentos.
Como cristais soltos de uma
relíquia,
a respiração segue descompassada do
ritmo do mar. Forma o ritual de um
sonho
no espaço de um destino:
- O golpe
seco de um amor.
Rui Miguel Ribeiro, Europa e Mais Três Poemas, Letra
Livre, Novembro de 2017.
Do Colonialismo
Visão: Persistem muitos mitos sobre o império
colonial português? Qual deles é prioritário desfazer?
Miguel
Cardina: O
principal mito que prevalece é o de que o colonialismo português foi diferente
dos outros. Naturalmente, não foi igual ao britânico, ao espanhol ou ao
holandês, mas isso não significa que tenha sido qualitativamente mais benigno.
O colonialismo português foi tão violento quanto os outros. Essa ideia de um
colonialismo de outra natureza, miscigenado com as populações locais, resulta
da importação da teoria lusotropicalista elaborada por Gilberto Freyre, adotada
como uma espécie de ideologia do Estado Novo, num contexto em que o regime era
acossado internacionalmente por tardar em iniciar o seu processo de
descolonização. Esta ideia criou uma realidade e, apesar do 25 de Abril, este
lastro manteve-se por várias razões.
Entrevista
publicada na revista Visão de 3 de
Fevereiro de 2019.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019
Das Ausências...
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| Filme "Domenica d´Agosto", de Luciano Emmer (imagem do sítio "Cinefilia Ritrovata") |
Falando de desejo: a minha lua-de-mel levou-me a Bologna e ocupei a ausência da selecção italiana do campeonato do mundo com enormes doses de amor, ragù e filmes no Cinema Ritrovato. Uma descoberta: Luciano Emmer e os retratos de ficção, da Itália e Europa dos anos 50, a rebentar de vida - tão comovente, despretensiosa e verdadeira que parece ter deixado uma ausência no cinema de hoje. Em Domenica d´Agosto (1950), as classes sociais fogem do calor de Roma para se atirarem ao mar de Ostia. Dois jovens furam a barreira que separa a areia dos pobres da areia dos ricos e apaixonam-se à beira-mar, fingindo, como jovens actores, que têm hábitos e fortunas, crendo que o outro é aristocrata. Na cidade, um casal de namorados fica para trás e descobre que o seu amor é abalado pela realidade: a gravidez dela provoca o despedimento daa casa onde trabalha, como empregada, e a incerteza provocada pela ausência de dinheiro, no polícia sinaleiro, fá-lo perder a capacidade de orientar a vida à sua volta. É verão e tudo nos diz, nestes rostos, que a vida continuará quando o calor se fizer sentir pela sua ausência."
Francisco Valente, programador e realizador, Ípsilon, 25 de Janeiro de 2019
domingo, 3 de fevereiro de 2019
Um Poema de Leonardo
não digo ilha
nem sufoco sinónimo
não digo o teu nome
o mel golpeia a lingua
fecha-te os lábios
estou cercado
in Caderno dos Mitos Pessoais, Edições Artes e Letras, 1ºEdição, Dezembro de 2018.
Fardo dos WE SEA
É
meu chão de criança que não mais te posso dar
É
tão complicado fardo que não mais me entristece
Foi-se
embora a embriaguez que um dia nos fez sonhar
Foi-se
embora e menos somos, menos do que outrora fomos
Pergunto
ao ar o que é feito de ti
Esmoreço
ai, se não estás aqui
Pergunto
ao ar o que é feito de ti
Esmoreço
ai, se não estás aqui
Quero
p´ra mim mesmo menos desse teu céu cinzento
Amor
amargurado, diz que é fardo modorrento
Tanto
se fez p'ra se viver que só se viveu p'ra se fazer
Triste
e só de modéstia feito homem, tristeza é meu prazer
Pergunto
ao ar o que é feito de ti
Esmoreço
ai, se não estás aqui
Pergunto
ao ar o que é feito de ti
Esmoreço
ai, por não estares aqui
Letra: Rui Rofino
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