sábado, 9 de fevereiro de 2019

Já Ninguém nos Toca à Porta

já ninguém nos toca à porta
a vender cerejas.

devíamos talvez lembrar
à terra o nosso nome

plantar sílabas frescas
que nos matem a sede

ter um pingo de esperança
na morte depois da vida.

Renata Correia Botelho in Um Circo no Nevoeiro, Averno, Lisboa, 2009.

Um Verso de Nick Cave

I hold this letter in my hand

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

O Nome

aos vinte anos e gozando de excelente memória
comecei duas listas, e até hoje mantenho
numa delas estão os nomes
de todas as pessoas que amei na vida
e que me amaram de volta.
na outra, os nomes das pessoas próximas de mim
que morreram.
até aos trinta, a primeira lista abria grande e crescente vantagem
sobre a segunda.
até aos quarenta a vantagem permanecia grande
mas deixou de aumentar.
aos cinquenta a lista dos meus mortos pela primeira vez
alcançou a dos amores, e
aos sessenta finalmente tomou a dianteira.
hoje, pela primeira vez,
um nome se repetiu nas duas.

Luca Argel, in Flanzine, nº18, Dezembro de 2018

ΠΑΤΡΑ

Porto de Patras, um súbito desejo de escrita.
Uma vontade de registo:
             - Os lençóis deixados no leito
             com as frases de uma noite; o sol
             olhado do extremo do Verão que
              cega um declínio.
À partida, na largura azul do Mediterrâneo,
o alongamento até ao limite que se desprende
do seu fundo, não abandona os fragmentos.

Como cristais soltos de uma relíquia,
a respiração segue descompassada do
ritmo do mar. Forma o ritual de um sonho
no espaço de um destino:
- O golpe seco de um amor.

Rui Miguel Ribeiro, Europa e Mais Três Poemas, Letra Livre, Novembro de 2017.

Do Colonialismo

Visão: Persistem muitos mitos sobre o império colonial português? Qual deles é prioritário desfazer?

Miguel Cardina: O principal mito que prevalece é o de que o colonialismo português foi diferente dos outros. Naturalmente, não foi igual ao britânico, ao espanhol ou ao holandês, mas isso não significa que tenha sido qualitativamente mais benigno. O colonialismo português foi tão violento quanto os outros. Essa ideia de um colonialismo de outra natureza, miscigenado com as populações locais, resulta da importação da teoria lusotropicalista elaborada por Gilberto Freyre, adotada como uma espécie de ideologia do Estado Novo, num contexto em que o regime era acossado internacionalmente por tardar em iniciar o seu processo de descolonização. Esta ideia criou uma realidade e, apesar do 25 de Abril, este lastro manteve-se por várias razões.

Entrevista publicada na revista Visão de 3 de Fevereiro de 2019.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Das Ausências...

         
Filme "Domenica d´Agosto", de Luciano Emmer
(imagem do sítio "Cinefilia Ritrovata")
 "O que me passa pela cabeça são as ausências. Isto é, o espaço vazio que deixam e que são ocupadas pelas imagens, as palavras e as músicas. Proponho não encarar as ausências que nos acompanham como um espaço vazio mas como um espaço aberto para serem habitadas pelos nossos desejos.
            Falando de desejo: a minha lua-de-mel levou-me a Bologna e ocupei a ausência da selecção italiana do campeonato do mundo com enormes doses de amor, ragù e filmes no Cinema Ritrovato. Uma descoberta: Luciano Emmer e os retratos de ficção, da Itália e Europa dos anos 50, a rebentar de vida - tão comovente, despretensiosa e verdadeira que parece ter deixado uma ausência no cinema de hoje. Em Domenica d´Agosto (1950), as classes sociais fogem do calor de Roma para se atirarem ao mar de Ostia. Dois jovens furam a barreira que separa a areia dos pobres da areia dos ricos e apaixonam-se à beira-mar, fingindo, como jovens actores, que têm hábitos e fortunas, crendo que o outro é aristocrata. Na cidade, um casal de namorados fica para trás e descobre que o seu amor é abalado pela realidade: a gravidez dela provoca o despedimento daa casa onde trabalha, como empregada, e a incerteza provocada pela ausência de dinheiro, no polícia sinaleiro, fá-lo perder a capacidade de orientar a vida à sua volta. É verão e tudo nos diz, nestes rostos, que a vida continuará quando o calor se fizer sentir pela sua ausência."

Francisco Valente, programador e realizador, Ípsilon, 25 de Janeiro de 2019

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Um Poema de Leonardo

não digo ilha
nem sufoco sinónimo
não digo o teu nome
o mel golpeia a lingua
fecha-te os lábios 
estou cercado

in Caderno dos Mitos Pessoais, Edições Artes e Letras, 1ºEdição, Dezembro de 2018.
Diogo Sousa

Fardo dos WE SEA

É meu chão de criança que não mais te posso dar
É tão complicado fardo que não mais me entristece
Foi-se embora a embriaguez que um dia nos fez sonhar
Foi-se embora e menos somos, menos do que outrora fomos

Pergunto ao ar o que é feito de ti
Esmoreço ai, se não estás aqui
Pergunto ao ar o que é feito de ti
Esmoreço ai, se não estás aqui

Quero p´ra mim mesmo menos desse teu céu cinzento
Amor amargurado, diz que é fardo modorrento
Tanto se fez p'ra se viver que só se viveu p'ra se fazer
Triste e só de modéstia feito homem, tristeza é meu prazer

Pergunto ao ar o que é feito de ti
Esmoreço ai, se não estás aqui
Pergunto ao ar o que é feito de ti
Esmoreço ai, por não estares aqui

Letra: Rui Rofino