terça-feira, 17 de setembro de 2019

Fim da Tarde

Fotografia de Carlos Olyveira 

Ainda o Burning Summer Festival

Tcheka e Mário Laginha


O “Burning Summer Festival” é, cada vez mais, um festival que conjuga a ecologia com a diversidade musical num território particular como é a freguesia de Porto Formoso, na Ilha de São Miguel. Aqui alia-se a beleza da paisagem com uma paleta de sonoridades díspares que continua a ter uma boa recepção por parte dos festivaleiros e melómanos à mistura. A edição deste ano não foi diferente e foi então momento para ouvir a excelente dupla: Tcheka e Márilo Laginha. Estes abriram uma frente musical que primou assim pela diferença, tendo ficado na retina e nos ouvidos uma canção crioula de grande melodia e intensidade - "Rosadi Rezadu". Coisa linda para audição constante. 




Fui ao Mar Buscar Laranjas de Pedro da Silveira

A poesia reunida de Pedro da Silveira

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Dos Sonhos

"Os sonhos são as manifestações não falsificadas da actividade criativa inconsciente."
Carl Jung

terça-feira, 10 de setembro de 2019

das palavras finais de um homem

         "A primeira palavra dita em Citizen Kane, de Orson Wells, é também a última palavra de um protagonista que morre: «Rosebud». No ano seguinte - 1942 - sai Casablanca, tendo como protagonista Humphrey Bogart, que só morrerá na década seguinte, logo após afirmar:« Nunca devia ter trocado o Scotch pelo Martini.» 
        Nesse mesmo dia morre um velho escocês, um bêbado, cujas últimas palavras se dirigem à filha mais velha: «Passas tu pela lavandaria?»
        Uma milionária muda o testamento, privando os netos de tudo, e deixa o seu vasto império ao gato Tobias. Nomeio o irmão como cuidador, a quem deixa alguns milhões. Deixa-se morrer em silêncio, regozijando com a imagem de assombro na cara dos netos quando descobrissem.
        «O papel de parede ou eu!» Terá dito Oscar Wilde em 1900. Não muito longe morre uma octogenária junto ao marido desolado. Ela diz-lhe com doçura: «Estes sessenta e três anos de casamento vivia-os todos outra vez...», e morre de olhos abertos.
        «Mais luz!», terá bradado Goethe em 1832.«Estou farto!», terá confessado Winston Churchil antes de cair num coma. «Tenho de ir, o nevoeiro adensa-se», terá sido o verso final de Emily Dickinson em 1886.«Preparem o figurino de cisne», as palavras que pontuaram a vida da bailarina Anna Pavlova,  e «o Teodósio não é teu filho», as palavras que mudaram a vida do Adalberto. 
         «I Know not  what tomorrow will bring» terá sido a última frase escrita por Fernando Pessoa, um antes da morte em 1935. O biógrafo João Gaspar Simões, no entanto, assegura que as palavras finais do poeta terão sido: «Dá-me os óculos.»
        O som preferido por milhares e milhares de homens e mulheres nos instantes antes de partir terá sido um gemido. Muitos terão  dito «Adeus», tantos quantos «Não quero morrer». Um número considerável pediu perdão, um número menor que cuidassem da sorte de um animal de estimação, e um número ainda menor agradeceu.
         Um número considerável de mulheres e homens prestes a morrer confessam um segredo, um pecado, libertam-se de um peso que não querem ter de carregar. Muitos rezam, em todos os idiomas e todas as fés, a diferentes deuses. Alguns perguntam: «Porquê?»"

Joana Bértholo, in Ecologia, Editorial Caminho, 2019.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Da Respiração

      "Continua-se a respirar. No fundo é respirar, respirar a sua respiração."

Lourdes Castro, entrevista de João Pacheco na Revista Expresso, 31 de Agosto de 2019.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Agosto: Celebração do Cinema Europeu


O cinema europeu continua a obter a visibilidade e atenção necessárias junto das sessões dos cineclubes, e são muitos os que insistem em manter uma programação activa durante os meses de estio. O Cineclube Octopus, com lugar na Póvoa de Varzim, mantém a sua actividade há trinta e seis anos de forma consecutiva, uma vez por semana, junta os seus sócios e espectadores que dessa forma participam nas sessões, encontrando-se este num momento de grande entusiasmo e aposta na diversidade e interesse pela sétima arte.
A primeira sessão, a que tive oportunidade de assistir, deu-se com um filme francês “Os Combatentes”, primeira obra do realizador Thomas Cailley, numa sessão ao ar livre. O filme retrata a vida de um par de jovens, a luta pela chegada à idade adulta, o questionar das convenções sociais, o problema da natureza humana com as óbvias dificuldades de comunicação, sob o pano de fundo de uma paixão entre o casal de protagonistas. 
           Seguiu-se depois “A Face”, de Malgorzata Szumowska, uma narrativa que pretende retratar o momento actual da sociedade polaca contemporânea, sobretudo o espaço onde esta se revela mais conservadora, xenófoba e contraditória. O filme levanta questões profundas sobre a diferença e aceitação, revelando desequilíbrios nas representações, mas com uma vitalidade e ousadia sempre presentes.  Depois, houve o “momento Jarmusch”, com o filme “Os Mortos Não Morrem”, um cineasta que parece viver um momento de redefinição cinematográfica, já que parecia resolvido a comemorar a vida, pois a longa metragem gira em torno de mortos que retomam à vida com as suas antigas paixões, errando pela pequena cidade, sendo que a partir de determinado momento, à semelhança dos navios sem rumo, somos invadidos pelo cansaço e excessos da falta de originalidade, redimindo-se com a narração soberba da voz de Tom Waits. Por outras razões e noutra sessão de Agosto, assistiu-se à longa-metragem “Culpado”, de Gustav Möller, um triller psicológico sobre um polícia suspenso, agora confinado a um departamento onde recebe chamadas de emergência, lutando assim consigo próprio e a culpa de um crime, numa narrativa que dá forte presença ao corpo e à inquietação deste, como se estivesse encurralado e nós com ele. Por esse motivo, vemos a angustia do personagem que não se sente nada bem no novo lugar que ocupa, espreitamos a fragilidade humana, pressentimos ali o triz do precipício, numa descida aos infernos travada pelo instante final da redenção. Tanto alarido sobre as fragilidades da narrativa que já se ouve falar de remake em versão hollywoodesca. Curioso, não é?
Fora da actividade cineclubística, houve tempo também para ver o filme “Variações” que já que é um sucesso enorme de bilheteira nacional, permanecendo há várias semanas nas salas, batendo recordes de assistências. Trata-se de uma biografia musical, sendo aqui o registo cinematográfico de importância documental, ao mesmo tempo que comporta uma dimensão de sonho que agarra o espectador de principio até ao fim, desperta ainda o ensejo necessário de qualquer jovem nascido num lugar pequeno a partir e a conhecer outras realidades diferentes da sua. “Variações” tem esse condão de apelar a não ficarmos circunscritos às circunstâncias e aos limites, obriga-nos a olhar o exemplo de alguém que arriscou sair, lutou pelos seus sonhos e anseios, lançou-se em horizontes alargados. Venceu? O importante era atingir o seu sonho. E que belíssima interpretação de Sérgio Praia na personagem de António Variações.
Assim, aproveitou-se da melhor maneira o momento estival para ver diferentes cinematografias oriundas do continente europeu que, ao contrário do que se papagueia por aí, continua vivo e atinente no que toca à sétima arte.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Açores: Atlântico Azul

No “Inverno Quente” deste Agosto chegam boas notícias sobre objetos artísticos que tem como tema central o mar e os pescadores. Raul Brandão, autor de “Os Pescadores” e "As Ilhas Desconhecidas”, “pintou” como só ele soube o azul do atlântico no seu bulício e transformação. O escritor, natural da foz do Douro, narrou a vida dos homens do mar de norte a sul do país ao mesmo tempo que descobria as ilhas atlânticas que, aos seus olhos, lhe eram desconhecidas.
              Deste modo, as obras atrás referidas de Raul Brandão serviram de mote e inspiração para o documentário “Hálito Azul”, realizado por Rodrigo Areias com argumento de Eduardo Brito, rodado junto da comunidade de pescadores da Ribeira Quente, Ilha de São Miguel, com estreia marcada nos Açores no dia 20 de Setembro, pelas 21h00, na Igreja daquela freguesia. Recorde-se que o filme teve uma primeira exibição no Festival de Locarno, na Suíça, tendo sido a sua primeira apresentação pública na edição do festival Porto/Post/Doc em Novembro último, seguindo-se vária exibições em concurso dos mais diversos festivais, onde obteve aí dois curiosos prémios: Prémio Especial do Júri (Ismaília Film Festival, no Egipto) e o Prémio Melhor Documentário (Pristina Film Festival, no Kosovo).  
               Atente-se, assim, a outro projecto relacionado com mar, as ilhas e os pescadores, denominado de “Atlântico”, pertença do artista multimédia, Helder Luís, actualmente em residência artística na cidade de Póvoa de Varzim.  O resultado deste labor documental surge no seguimento da instalação MAR que esteve em Serralves e que dará lugar à publicação de vários livros e demais exposições. Actualmente encontra-se em exibição "Atlântico", numa das salas do museu municipal, um conjunto de fotografias e vídeo que documentam uma viagem começou na Póvoa de Varzim e terminou em Ponta Delgada, tendo depois existido uma outra saída para a pesca. Helder Luís acompanhou a tripulação da embarcação açoriana “Íris do Mar”, documentando a actividade piscatória nos seus gestos, vivência e modos, servindo-se da fotografia, do vídeo e ainda da música. Desta feita, “Atlântico” evidencia uma vontade de dar a conhecer as artes de pesca praticadas no arquipélago, registando a energia e a vitalidade da força de trabalho de um grupo de pescadores, curiosamente oriundos de diferentes comunidades e nacionalidades, reflexo de um mundo laboral em transformação.
Celebre-se, pois, quase um século depois da publicação destas duas obras de Raul Brandão, o empenho e esforço dos criativos portugueses em colocar a centelha piscatória e do mar na ordem do dia, atribuindo o destaque e atenção mais do que merecidas.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Resposta Urgente de Janeiro Alves com a Humidade nos 90%

Lisboa, Octogésimo Primeiro dia a contar do Treze de Maio

Caro Doutor Mara,

Enceto esta carta com um veemente pedido de desculpas pela minha prolongada ausência, desejando que a mesma o encontre de boa saúde e dentro dos percentis estipulados pela ciência moderna. De facto, ao se aventurar a redigir bojardas sobre a minha pessoa, o Doutor Mara tem em parte razão, perdendo-a logo de seguida. Fui efectivamente alcançado pela máquina demolidora da turistificação. Fui expulso do meu apartamento em Campo de Ourique, e acabei numa sub-cave desagradável e residual, onde mal tenho espaço para a minha colecção de insectos embalsamados. Compreendo também o seu ímpeto provocador ao se referir a uma tal barbearia (que é apenas uma fantasia da sua cabeça e dos seus amigos intelectuais de trazer por casa), e começo a pensar que o Doutor Mara sente inveja desta barba bem lavrada, pois é conhecido o seu desejo de vir a ser aceite pela nossa Confraria dos Barbudos só para poder usufruir das excursões que organizamos às melhores casas de pasto nacionais. Relativamente a este assunto, deixe que lhe diga que a fotografia que há uns dias enviou juntamente com a ficha de inscrição de sócio, onde envergava nitidamente uma barba postiça foi no mínimo constrangedor. Quando os meus camaradas me perguntaram se o conhecia, afirmei “O nome dele não me é estranho…”, mas o Deodato que é cego sentiu a minha voz um pouco trémula. Este episódio não belisca em nada a nossa já longa amizade, apesar de não poder dizer com segurança que esta frase seja de uma autenticidade imaculada.
Posto isto, gostaria de lhe dar uma vaga noção dos meus tempos recentes, mas nada de relevante me ocorre. Os dias seguem o seu curso, as árvores preparam-se para caducar, as gentes movem-se em vagas que se precipitam sobre os areais, e os pombos assumem-se cada vez mais como espécie reinante, olhando sobranceiros e circunspectos os transeuntes foto-génios entediados pelo turismo. Recentemente arranjei trabalho numa biblioteca, e a minha função é limpar o pó dos livros. Tiro um livro, limpo o pó, meto no lugar. Tiro outro livro, limpo o pó, e meto no lugar. E assim sucessivamente. Tenho lido excelentes capas e contracapas. Já as lombadas dispenso, uma vez que me obriga a flectir o pescoço, e o Doutor Mara sabe em que estado fiquei quando me precipitei para salvar o Bobi de ser atropelado. Aproveito para lhe comunicar que o cão morreu engasgado na semana passada.
Acabo esta breve carta com uma nota de encorajamento e motivação, e uma outra de prudência. Sei que está motivado com o seu mergulho às profundezas do oceano, e que se de lá conseguir sair terá um ou outro episódio curioso para partilhar. Digo-lhe que tenho a profunda convicção que dado o seu considerável peso em quilogramas, rapidamente alcançará o fundo. A nota de prudência prende-se com os Alarvistas. O Doutor Mara afaste-se dessa gente, se não quer ficar como eles. Se ao invés quiser ficar como eles, não se afaste. Nesse caso aproxime-se, ou mantenha-se apenas por perto, caso a aproximação já esteja no limiar da “distância pessoal” tal como definida pelo Grande Livro da Ergonomia.
                                    Duma sub-cave Lisboeta, despeço-me com uma Vénia de Milo desnuda.
Janeiro Alves