segunda-feira, 27 de abril de 2020

Um Verso de Lluis Llhac

Compañeros, si buscáis las primaveras libres

Dois Poemas de Daniel Faria

Histórias do País de Helena

Havia marinheiros
No país de Helena
Que morriam ao pôr do sol
E havia Helena que sonhava
Fazer um dia tranças às ondas
E um berço muito grande para o mar

Ítaca

O que dói
É não poder apagar a tua ausência
e repetir dia após dia os mesmos gestos
O que dói
é o teu nome que ficou como mendigo
Descoberto em cada esquina dos meus versos
O que dói
é tudo e mais aquilo que desteço
Ao tecer para ti novos regressos

in "Poesia", edição de Vera Vouga, Quasi edições, 2009.

Dessa Silente Artéria...

Uma espécie de anjo ferido na raiz

Examinemos também a escrita
O solo negro deixado pelo fogo
O mecanismo semelhante às queimadas
Deixando a terra arável na sua devastação.
Tudo isto serve para retomarmos a pedra onde está escrita
A palavra nova
A pedra onde corre o sangue.
Enquanto perguntas pelas dez palavras.
Põe a boca na palavra líquida
Examina o coração de carne em vez da escrita antiga
O verbo onde jorra a palavra incessante

Há dentro dela uma palavra nupcial

Daniel Faria, in Poesia, Quasi Edições, 2009.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

“Maria do Mar”: Cuidado com as Miúdas!

"Maria do Mar" de João Rosas, 2015
(imagem daqui:Icateca.ica.ip.pt)

“Sembra un angelo caduto dal cielo
com'è vestita quando entra al "Sassofono Blu"
ma si annoia appoggiata a uno specchio
tra fanatici in pelle che la scrutano senza poesia
sta perdendo, sta perdendo, sta perdendo, sta perdendo

Nada

        Maria do Mar” é uma curta-metragem de João Rosas, realizada em 2015, que se encontra disponível na plataforma da TerraTreme Filmes, uma produtora de cinema que tem disponibilizado semanalmente alguns dos seus filmes para (re)ver nesta quarentena cinéfila.
Da sinopse ficámos a saber que Nicolau (Francisco Melo) é um adolescente que acompanha o irmão mais velho e amigos, num fim de semana de estio até Sintra. Pelo meio há contadores de histórias familiares de engate, uma rapariga misteriosa e voluntária de esquerda e, que vê filmes de autor, e ainda um jovem personagem com indumentária de ursinho, este no apogeu da dor e sofrimento por desilusão amorosa. É ele quem avisa Nicolau - "Cuidado com as miúdas!" E quem vê o resto do filme outra coisa não seria de esperar.
Desta feita e, sem nos apercebermos imediatamente do que está em jogo, à semelhança dos amores na adolescência ou do nascimento das flores na Primavera, Nicolau é quem nos guia na descoberta desse desejo e encantamento primordial. Enquanto típico adolescente, atento e observador, vai subindo até ao cimo das árvores, realiza truques com baralhos de cartas ou faz uso das mãos ou do lápis para ludibriar, observando e contemplando o irmão e seus amigos de modo complacente, como se nada tivesse a ver com estes. João Rosas filma os subterrâneos da paixão, já que subentendemos em Nicolau o aflorar dos sentidos, a seiva a despontar nos tecidos, convocando-nos para esse  “Eros” estival que é, sem espinhas, a confirmação do anseio sexual perante aquela figura feminina enigmática.
Esta curta-metragem é, por isso, uma agradável surpresa, com momentos de grande cinema e em que dá mesmo gosto ter aquele olhar ingénuo, melhor, poder dormir ao relento depois do momento em que a rapariga italiana narra a origem e configuração da massa tortellini. Aparentemente, sem criar muito alarido, à semelhança da personagem feminina que lhe dá o título - “Maria do Mar”, este filme é penetrante e cativante, sobretudo pelo apelo à cumplicidade dos olhares que Nicolau vai estabelecendo com o espectador. Isso e…todos os silêncios que se vão formando e crescendo!
Depois, o filme encerra da melhor forma possível, isto é, conosco a intuirmos e acedermos secretamente à paixão de Nicolau por Maria do Mar (Mariana Galvão), quando ficamos todos confinados no interior do carro com música à escuta, num provável regresso à outra casa - será esta a casa do amor? “Maria do Mar” é, sem qualquer dúvida, um filme caído do céu!

Carta a Janeiro Alves num Confinado Abril

Caro Janeiro Alves,

Meu caro amigo, prolixo, padrinho, pintor, profeta, poliglota, profícuo, pastor e profissional da escrita, diga-me: o que é que tem feito? Será que há novidades desse seu confinamento e isolamento social? Soube, entretanto, por fontes fidedignas, que Janeiro Alves se tem dedicado à pintura entre dez a quinze horas diárias. O que é que tem andado a aprontar nas catacumbas do seu ser? Perdoe-me esta minha curiosidade excessiva, mas anseio por novidades suas, tal e qual a chegada dos cagarros muito em breve.
Estamos ainda no mês de Abril e sabemos que é tempo de transformação e liberdade. Depois virá Maio que é, entre todos, o mês mais belo, superando em pulcritude os restantes meses. Poucas letras compõe o nome deste mês que irá robustecer os dias primaveris há muito aguardados. Daqui a muito pouco tempo, celebraremos a ascensão da temperatura e renunciaremos a roupa quente que, entretanto, guardaremos nas gavetas pesadas de bolor. Juntos permaneceremos na presença dos dias que admitimos maiores, ampliando o tempo ao gosto das horas e do calor. Assim, visionaremos a metamorfose do azul e contemplaremos luscos-fuscos memoráveis.
Eu, por aqui, vou conversando com a Miriam, que está de regresso após longa viagem pela Índia. Partilhamos a meias o Solar dos Manaias, ainda que nos encontremos somente no jardim para bebericar um chá verde, oriundo das melhores folhas de Camélia Sinensis. Sempre dá para dividir o pacote de bolachas Maria, ler o horóscopo e trocar impressões sobre as cores crepusculares do entardecer. Comunico-lhe que Miriam está diferente, mais bonita, é certo. A viagem tornou-a mais tolerante e dócil. No entanto, medita várias vezes ao dia, o que torna os nossos encontros demasiado dolentes e silenciosos. Às vezes julgo estar na presença de uma sombra, de um fantasma de outrora, sem rasgo ou chama. Quase ausente. 
Despeço-me com a sensação que talvez ainda possa chegar uma missiva na caixa do correio por estes dias. Regurgito, melhor, anseio por um passeio e pelo sorriso imaculado e galante das donzelas que despertam na fulgência primaveril. Por agora é tudo o que me ocorre, e quero, simplesmente, sugerir-lhe que me envie um tupperware com filetes de pescada confecionados pelo meu querido amigo. Será que é possível?
Com  elevado apreço e estima,
Doutor Mara

Verso de Nada

Sembra un angelo caduto dal cielo

quarta-feira, 22 de abril de 2020

"Roma, Cidade Aberta" de Roberto Rosselini

         Aldo Fabrizi, Marcello Pagliero e Ana Magnani são alguns dos atores que fazem parte do elenco do filme "Roma, Cidade Aberta", de Roberto Rossellini. Este filme, obra debutante do neorealismo italiano, trata a ocupação durante nove meses da Itália pela Alemanha nazi durante a Segunda Guerra Mundial. A película retrata a vida italiana, pobre e desesperada, unida contra o invasor, criando redes de solidariedade social e disseminando a luta clandestina, envolvendo tipógrafos, padres e activistas políticos. Ana Magnani (Pina) é uma mulher solitária, que se descobre grávida, e que morre no dia do seu próprio casamento. A revolta alastra, no entanto as perseguições e o cerco vai aumentando a repressão.
          "Roma, Cidade Aberta" esteve disponível nesta quarentena pela Medeia Filmes, possibilitando acesso a uma obra imprescindível e fundamental do cinema mundial. 

Terra

“Quando eu me encontrava preso
Na cela de uma cadeia
Foi que vi pela primeira vez
As tais fotografias
Em que apareces inteira
Porém lá não estavas nua
E sim coberta de nuvens...

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria? (…).”

Terra” de Caetano Veloso

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Ilha Revisitada

Perto do mar
de novo estou perto de mim
fecha-se o cerco o lugar
retoma o princípio e o fim

brisa de infância
ao cair da tarde assim
se encurta a distância
entre o que sou e mim

Desejado vai-vem discreto
das marés  ritmo secreto
do tempo sem tempo livremente

espelho d´água imagem
solidária companheira de viagem
rumo à ilha novamente

Artur Goulart, in "nove rumores do mar- antologia de poesia açoriana contemporânea", organização de Eduardo Bettencourt Pinto. 

domingo, 19 de abril de 2020

Pequenos Trabalhos de Domingo

não saio antes
que tudo esteja pronto

a loiça a escorrer na cozinha
o aspirador cheio
a varanda lavada pelo dia
o rádio em off

nessa hora em que 
a noite se aproxima devagar
do meu rosto
escrevo poema nenhum
falta-me língua

sento-me num banco do jardim 
mais próximo
onde (que perfeição)

nada acontece

Miguel-Manso, in "Santo Subito", 2010.

Crepúsculo

Já ninguém percorre este caminho
a não ser dois petroleiros
com os porões vazios

Jorge Sousa Braga in"O Poeta Nu" (Poesia Reunida), Assírio&Alvim, 2007.

"Vidas Íntimas" de Noël Coward pelos Artistas Unidos

      
Vidas Íntimas de Noël Coward
          "Ora, a longo prazo, não há ninguém que não diga senão disparates. Temos de ser superficiais, e ter piedade dos pobres filósofos. Vamos mas é soprar trombetas e apitos e gozar  a festa ao máximo que pudermos, como se fôssemos crianças da escola. Vamos apreciar o gozo do momento. Venha cá beijar-me, querida, antes que o seu corpo apodreça e os vermes saltem das suas cavidades oculares."

Elyot in "Vidas Íntimas", de Noël Coward, 1930, trad. Miguel Esteves Cardoso, Livrinhos de Teatro, Artistas Unidos, 2019.