terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Caminhos

Caminhos por entre prados
Dos quais não sabe ninguém
Nem sequer onde começam
Nem onde vão dar também

Caminhos sempre isolados
Abertos num simples traço
Só tendo em frente o tempo
E o puro espaço…

Rainer Maria Rilke (Tradução de Armando Côrtes Rodrigues, que aproveitou para dedicar ao seu amigo, Domingos Rebelo, pintor micaelense que fixou residência em Lisboa, em 1942).

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Éden



"A melhor homenagem que podemos fazer ao espírito d`As Ilhas Desconhecidas é preservar a paisagem, protegê-la do betão e de infra-estruturas desnecessárias. As companhias de baixo custo poderão revolucionar o mercado da aviação, trazer mais turistas, mas não creio que o arquipélago passe a ser um destino de massas. A falta da luz e do Sol de outras latitudes dão-lhe alguma protecção, contudo não há isenção de riscos. Acredito que o turismo nos Açores será sempre destinado a diferentes nichos de amantes da natureza, a viajantes sem pressa e pacientes perante os humores atmosféricos. Espero que As Ilhas Desconhecidas nunca venham a ser lidas pelas futuras gerações como um lamento por um éden que se perdeu."

Paulo Lisboa, in "Nos Açores, com Raul Brandão no século XXI"- Boletim Cultural Fazendo nº97.

Os Dias Fevereiros que se Anunciam

             Janeiro, enquanto mês inicial de um novo ano, promete sempre muito mais do que aquilo que cumpre e, talvez por isso, parece demorar uma eternidade até cumprir as suas demandas e promessas. Por vezes, traz com ele algumas surpresas, inquietudes e demais devaneios meteorológicos, sendo assim incumbido de enxugar de forma irrepreensível os nossos cabides e existências. Janeiro passou entretanto, despedindo-se de forma líquida e cordial, arriscando novos desenvolvimentos no ano impar que ainda demorará a chegar, deixando certamente um lastro de indescritível e húmida saudade. Venha, portanto, Fevereiro, esse mês que nem damos por ele, de tão curto que é, e que quase nos deixamos enternecer pelo seu particular nome volátil e diminutos dias. Como desafio, devia ser possível esboçar um pequeno diário passado todo ele neste mês diminuído e, se possível, explicitando a rapidez da sua passagem, o estado cronicamente frio da sua temperatura, os dias curíssimos e a escassez da luz e de brilho. Um quase mês por completar. É por isso tempo de procurar canções ou poemas que falem da alegria e melancolia de Fevereiro e é tempo agora de anunciar por aqui os versos  de “Caligrafia”, dedicados a este mês num outro calendário existencial: "Numa manhã de Fevereiro/Apaixonei-me pela tua caligrafia/Daí em diante fiquei a saber/Este é o mês em que se sofre menos.”

sábado, 30 de janeiro de 2016

Saída

temos na terra um dizer
Que é diferente do de fora
Temos as vogais bem cheias
Encanadas pelo vento
Do tempo que se demora

nesta terra temos tempo para gastar
Nesta terra temos tempo
Nesta terra vemos o tempo passar
Nesta terra somos tempo

vem à ilha
Só para ver o que ela tem
nesta terra temos tempo para gastar
Nesta terra temos tempo
Nesta terra vemos o tempo passar
Nesta terra somos tempo

vem à ilha
Só para ver o que ela tem
Quatro tempos num só dia
Cada minuto são cem

vem à ilha
Talvez fiques mais um dia
Porque o avião não vem

música dos Bandarra (Letra: Miguel Machete), in álbum Bicho do Diabo, 2012.

O Mapa da Minha Experiência

       "Quando fiz 50 anos, deixei de contar os lugares em que tinha vivido. Às vezes por poucas semanas, às vezes durante uma década ou mais, o mapa mundo consistiu, para mim, não na sua convencional representação num globo, como o que tinha na minha mesa de cabeceira quando era criança, mas numa cartografia pessoal em que as maiores massas de terra eram os lugares em que eu passava períodos maiores, e as ilhas os locais de passagem mais curta. Tal como o modelo do eu concebido por fisiologistas em que o tamanho de cada traço corresponde à importância que lhe atribuímos na nossa cabeça, o meu modelo do mundo é o mapa da minha experiência."

Alberto Manguel

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

À Procura da Biblioteca Ideal


As bibliotecas são, por vezes, lugares demasiado solenes, cerimoniosos e, porventura, ainda bem. Uma biblioteca é uma casa de cultura viva, guardiã máxima do saber e da memória e, porque não dizê-lo, ponto de descoberta de mundos novos, espaço, portanto, de vários encontros entre quem lê e quem escreve, impulsionador da troca de saberes e de experiências e, quem sabe, um lugar propício ao aparecimento de novas vozes literárias, podendo estas ir de encontro ou não ao que sentimos e queremos deste mundo em que vivemos. Esperemos, entretanto, que novas utopias brotem.
A memória de infância que guardo de uma Biblioteca não é a melhor. Estou ainda a ver uma senhora bibliotecária numa minúscula sala com livros, ali com os seus cabelos brancos encaracolados, o rosto duro e fechado, os seus olhos negros enfiados pelos óculos de vidro de garrafa, a instigar terror quando os livros passavam o prazo de entrega. Era vê-la aos berros a ver se envergonhava os faltosos, a controlar a ficha dos incumpridores e a verificar o estado dos livros um a um (maioritariamente, banda desenhada), chegando mesmo a ruborizar tudo e todos, só para que víssemos o sacrilégio que tínhamos acabado de cometer, fosse aquilo que fosse. Devo ter demorado alguns anos até voltar a entrar numa biblioteca pública.
Os anos passaram e, à volta das cidades portuguesas, as novas bibliotecas abriram-se aos novos tempos e diversificaram a sua actividade, imprimindo diferentes funcionalidades, deixando assim de ser exclusivamente depósitos de livros ou consulta de documentos, para ser também lugares de estudo ou pesquisas de livros, deslocando espaços para a fruição e prazer associado à leitura, tais como salas  dedicadas à Hemeroteca (material periódico) ou videoteca (cinema e documentários), para além de outras salas dedicadas às crianças, com leituras de histórias e conto infantis, preparando assim novos e futuros leitores! As bibliotecas poderiam ter também um espaço consagrado ao absoluto silêncio, à leitura e introspecção pura, onde nem sequer fosse possível ouvir a voz humana.
Ultimamente, partilho com frequência e com muitos outros a Biblioteca Municipal e Arquivo de Ponta Delgada, em São Miguel, apreciando deste modo a beleza e largueza do seu edifício, trata-se de um projecto de recuperação do antigo Colégio Jesuíta, contém no seu interior diferentes espaços, sendo visitada diariamente por centenas de estudantes e investigadores, possui pátios exteriores muito bonitos (um deles, conta com uma escultura do João Cutileiro). Proporciona também um agradável serviço de bar, com uma gastronomia cuidada e diversificada e um serviço de empréstimo de livros vasto e bastante actualizado, pois como diria o físico, Carlos Fiolhais, “investir em belos livros é investir na beleza e a beleza é sempre consoladora”. Consolemo-nos, pois!

...

Con los dias contados
chaval, así vivimos
todos. Esperando
a que nos tachen
de la lista. Distrayendo
la espera con tragos
y canciones. No hay más.
Puedes llorar o morirte
de risa. Como prefieras.

Karmelo C. Iribaren

Açores, seis anos depois...

           Eu era novo, demasiado novo, quando vim aos Açores pela primeira vez. Foi um pouco depois dos célebres protestos estudantis na República Popular da China e um mês antes da queda do muro de Berlim. Passaram-se, portanto, vinte anos, pude confirmá-lo agora com as fotografias guardadas no silêncio da gaveta. Foi amor à primeira vista. À semelhança dos amores duradouros, há dias com maior paixão e intensidade, dias claros e luminosos, outros nem por isso. Quando aqui estive, em 1989, ainda não tinha lido o livro de Raul Brandão “As Ilhas Desconhecidas”, nem o arquipélago açoriano era considerado o segundo lugar dos melhores destinos do mundo no turismo sustentável (segundo a revista “National Geographic Traveler”). Porque nasci à beira-mar, fiquei com uma memória viva desse primeiro encontro, daí a nunca mais ter esquecido foi um passo de gigante ou o tamanho da montanha do Pico.
           Há duas décadas fazer uma viagem a quatro ilhas dos Açores: Faial, Pico, Terceira e São Miguel, foi um profundo acaso na vida de um adolescente. Tudo aconteceu após ter escrito um artigo para a Antena 1, o programa “Os Jovens Encontram a Europa”, sobre um tema que gostaria de ver discutido no Parlamento Europeu: o desemprego. Três meses depois, tive direito a um prémio. O prémio foi uma viagem/visita com tudo pago ao arquipélago dos Açores durante oito dias, com estadia incluída. Era uma comitiva de estudantes muito novos: portugueses, espanhóis, italianos e alemães para além dos organizadores, todos eles ligados às emissoras radiofónicas dos países organizadores do respectivo concurso. Com a bagagem retida em Lisboa, a primeira ilha a visitar foi o Faial com o seu vulcão dos Capelinhos, o Cabeço Gordo, a Caldeira e a passagem natural pelo Peter Café Sport. Tudo isto superou a possível irritação com os haveres, tendo dado origem a uma grande aventura até ao aeroporto em carrinha de caixa aberta, um dia depois, dada as constantes alterações climatéricas que se faziam sentir e as oscilações naturais do percurso, pois nem tudo estava naquela altura alcatroado.
       Recordo-me, muito para lá do postal turístico, da presença esmagadora do verde enquanto reflexo da força e poder dos elementos naturais: a abundância da água que caía, a irradiação da luz e as suas variações cromáticas e, claro, as nuvens em constante mutação. E, evidentemente, a visão do Pico que também naquele momento nos enchia a vida…para além dos licores, que lá fomos beber dois dias depois. Os Açores assemelhavam-se, portanto, à “policromia orgiástica”, que mais tarde viria a descobrir no livro de Brandão. Os Açores eram assim a infância renovada, a possibilidade de reencontrar uma natureza ainda intocável e virgem que, para desencanto de muitos continentais, foi desaparecendo nas terras do litoral e, quem sabe, no interior. E, embora hoje se sinta um sentimento de “continentalização”, é o progresso dizem-nos, a paisagem é perene e imutável, continuando por isso sempre bela e de fácil contemplação.
            Os Açores, para qualquer ser melancólico em crescimento, prolongavam e prolongam o espelho. Pode-se afirmar que, passados tantos anos, os Açores continuam a ser lugares imaculados de silêncio e de natureza rica na sua expressão mais vital e fulgurante, os tais “montes de fogo, vento e solidão”, descritos pelos primeiros navegantes. E, talvez por isso, há quem goste de contemplar e se sinta bem por aqui.

in "Re(faial)izar", Boletim Cultural Fazendo (https://issuu.com/fazendofazendo), Janeiro de 2010

Ontem, escrito numa parede da cidade

Não devia ser permitido ir a uma biblioteca de barriga vazia.

Brumário


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Dizer Poesia à Lua

             Uma vez questionado sobre se seríamos ou não um país de poetas, Alexandre O´Neill respondeu que estaríamos mais próximo de um país de lunáticos. Nada contra os lunáticos, demais poetas e todos os outros cultores das palavras ditas e escritas. Certo é que falamos uma língua com 170 milhões de utilizadores, somos o sexto idioma mais falado no mundo como primeira língua. Perante os que não são portugueses, e a todos os outros que se mostram curiosos da nossa poesia e literatura, dizemos sempre que lemos e gostamos do Camões, Pessoa, Bocage, Sophia, Alexandre O´Neill e, agora, o Herberto Helder. Lemos, gostamos, de facto? E aquilo que se faz de novo na poesia portuguesa, temos sido, suficientemente, curiosos? Como é que podemos aceitar que uma boa edição de poesia ronde apenas os trezentos exemplares? E os livros circularão pelos lares portugueses tal e qual os jornais desportivos?
           Durante anos, patenteei uma salutar desconfiança perante leituras públicas de poesia, talvez fosse o hábito de ler ao meu próprio ritmo, ou porventura, atribuir aos poemas uma solenidade e secretismo que de facto estes bem merecem e que uma leitura pública pouca ou nada preparada pode perturbar. Nunca fui, por isso, seguidor de leituras espontâneas de poesia, e, inclusive, fiquei já incomodado ou mesmo algo convulso por leituras que se fizeram ou fazem de poemas dos quais gosto muito. No entanto, já houve também audições de poemas que me fizeram ir à procura dos textos, concederam entrada directa no universo poético dos seus autores, ou ainda nutrir por estes um afecto ainda maior na minha hierarquia. Deste modo, quando ouço alguém ler um poema satisfaz-me quando este/a conhece o autor em questão ou entendeu os modos e o tempo em que este escreveu os poemas, descobriu-lhe os gestos possíveis ou imaginários, ou sonda penetrar a fundo nos temas e encarnar um possível tom. E é, a partir desse conjunto de possíveis, que experiencia individualmente os poemas antes de os dizer publicamente. Um texto poético deverá, em primeiro lugar, funcionar para quem o lê, trabalhá-lo enquanto ritmo, tempo e entoação e, só depois, tornar pública a sua apresentação.
            Recentemente, tornei-me um leitor comum de poesia na TASCÀ, uma antiga taberna e mercearia, bastante particular do ponto de vista estético, e dada a conversas e demais tertúlias, sendo aqui que se dão as noites de poesia micaelense. O poeta Fernando Pessoa afirmou que “a minha pátria é a língua portuguesa”, concedendo assim a hipótese da língua ser cultivada, divulgada, exteriorizada nas suas mais diferentes expressões. Certo é que a poesia deveria ser mais lida, partilhada e guardada no interior de cada um, decorada, se possível. Mas, entre aquilo que é ou poderia ser, prefiro ler com e para os outros em oposição àquilo que se ouvia muito no “basfond” lisboeta dos anos 80 – “coisíssima nenhuma”.

Troféu

Como quem percorre uma costa
maravilhado com a abundância do mar,
recompensado pela luz e pelo pródigo espaço,
eu fui o espectador da tua beleza
durante um longo dia.
Despedimo-nos ao anoitecer
e em gradual solidão
ao voltar pela rua cujos rostos ainda te conhecem,
 a minha felicidade ensombrou-se, pensando
que de tão nobre acervo de memórias
iriam perdurar escassamente uma ou duas
para decoro da alma
na imortalidade do seu rumo.

Jorge Luís Borges, (Trad. Fernando Pinto do Amaral), OBRA POÉTICA, Vol. 1, Quetzal, 2012

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

A Amizade e a Inutilidade da Arte

             Há muitos anos, numa passagem por Constância, após presença e vivência na zona da raia, visitei a Biblioteca Alexandre O´Neill, e, para lá de ter encontrado um arquivista/bibliotecário apaixonado e encantado com as histórias deste poeta, pude certificar-me que a biblioteca era detentora do espólio da casa de férias do autor de “Um Adeus Português”, encontrando por ali as suas paixões literárias (alguns italianos, como Sandro Penna, Giovanni Raboni, Quasimodo, etc). Ainda as suas fixações poéticas patentes em dedicatórias, sobretudo uma bem especial assinada pelo seu amigo, Ruy Belo, na primeira página de “Homem de Palavras”: "Ao Alexandre, condenado a só ver de longe em longe, mas sempre camarada e amigo, com um abraço do Ruy". Alguns anos depois, posso confirmar que nenhuma biografia pode devolver de forma tão abrupta aquela afinidade, a porção de afecto e camaradagem entre aqueles dois poetas de eleição, patenteada naquela amostra de caligrafia.
             Há três anos atrás, na ilha Terceira, mais concretamente na cidade de Angra do Heroísmo, fiquei a conhecer a amizade superlativa que existia entre um poeta, Rui Duarte Rodrigues, e o maravilhoso autor de “O Cantar Na M´Incomoda”, o músico, Carlos Medeiros. Dessa convivência, tomei nota dos dias passados em conjunto no café “Portugália”, a partilha de músicas e de versos, a cumplicidade esmagadora, quase febril, a comunhão entre personalidades tão opostas. Foi certamente uma alegria poder comprová-la, essencialmente através do depoimento de amigos, saber de tão profícua união, geradora de encontros, discussões, controvérsia, criatividade. Uma satisfação criadora, de facto.
           Entretanto, uma amiga de confiança, deu-me a conhecer um poema que o poeta micaelense, Armando Côrtes Rodrigues, dedicou ao seu eterno amigo, o pintor Domingos Rebelo, reforçando assim a ideia de amizade desmedida entre ambos e a cumplicidade expressa em simples dedicatória que abre o respectivo texto poético, agora digitalizado: “a ti, que vives o sonho da tua arte, inútil para a maioria dos homens, a sinceridade destes versos”. Decorria o ano de 1931 em São Miguel, a ilha não era o que é hoje, vive-se, é certo, um período de globalização acelerada pautada pela rapidez das tecnologias e das redes sociais, continuando a existir amigos que pintam e escrevem. Será que a amizade ainda hoje se mantém fecunda?

Das Utopias

    "O que me parece forte em algumas utopias sociais ou artísticas do século XX é que o centro da utopia não era viver mais tempo, era viver de forma diferente."

Gonçalo M. Tavares, in Público, 8 de Janeiro de 2015.