segunda-feira, 4 de julho de 2016
Ontem, escrito numa parede da cidade
"Trata bem os animais/Dá-lhes repouso, comer/Eles não são teus iguais/Mas ajudam-te a viver."
domingo, 3 de julho de 2016
A Caldeirada de Porto Formoso
Devo à Amaya
Sumpsi, uma cineasta madrilena que faz filmes e ao seu documentário “Meu Pescador,
Meu Velho”, aquele deslumbrado olhar pelos pescadores de Porto Formoso e a
razão de ter querido muito voltar a esta baía micaelense para uma caldeirada e
arraial musical. Ontem, pude assim comprovar a simplicidade e a simpatia das
gentes de Porto Formoso, o constatar de quanto a beleza dos lugares pode
influenciar a forma de estar e sentir de uma pequena comunidade. Os pescadores possuem hoje uma
doca em cimento, pois os pequenos barcos necessitavam de chegar nas melhores
condições e deixar de aportar os barcos no areal. É certo que se perdeu a beleza natural do porto com aquele cinzento abrupto na paisagem. Entretanto, as
ruínas do castelo esperam pela sua valorização e com isso poder vir a ser uma atracção turística daquele lugar. A partir de agora, o policromatismo passa a fazer parte das casinhas dos pescadores naquele
portinho encantador e a vida da comunidade continua a ser essencialmente de frente para o
mar. E é…uma maravilha!
Do teatro
"Do que tenho mais saudades é de escrever. Mas o Brecht dizia que o teatro é para velhos, e por isso é que eu acho que vou sempre a tempo."
Catarina Martins, Jornal I, 24 de Junho de 2016.
sexta-feira, 1 de julho de 2016
O Olhar...
Liv Ullmann nasceu
em Tóquio, Japão, a 16 de Dezembro de 1938. Filha de um engenheiro em
permanente digressão, viveria também no Canadá e Nova Iorque, tendo crescido na
terra dos pais, em Trondheim, na Noruega. No final da adolescência rumou a
Londres, onde estudou Arte Dramática na Webber Douglas Academy of Dramatic Art.
De regresso à Noruega, enceta o seu percurso teatral no Teatro Rogalang, em
Stavanger, com o “Diário de Anne Frank”. Até ao reconhecimento enquanto actriz
foi uma longa caminhada, já que se deu ao trabalho de aprender e representar
Bertolt Brecht, Bernard Shaw e Shakespeare no Teatro Nacional da Noruega, em
Oslo. Simultaneamente dava os primeiros passos em produções televisivas de
baixo custo e qualidade duvidosa. Em Estocolmo, conheceu a actriz Bibi
Anderson, que lhe apresentou Ingmar Bergman, onde viria a entrar em dez filmes
daquele realizador sueco: “Persona” (1966); “A Vergonha” (1968); “A Hora do
Lobo” (1968); “A Paixão de Ana” (1969); “Lágrimas e Suspiros” (1972); “Cenas
da Vida Conjugal” (1973); “Face a Face” (1976); “O Ovo da Serpente” (1977);
“Sonata de Outono” (1978) e “Saraband” (2003). Foi ao lado de Bergman, que arriscou viveu cinco anos nas Ilhas Fårö e de quem teve uma filha Linn Ullmann, actualmente
escritora. Recentemente, Liv Ullmann contracenou com a actriz
australiana, Cate Blanchett, a peça do norte-americano Tennesse Williams,
intitulada “Um Eléctrico Chamado desejo”. O “Anjo norueguês”, apelido porque
ficou conhecida, realizou também há dois anos o filme “Miss Julie”, a partir de um
texto de August Strindberg. Faz igualmente neste mês de Julho cinco anos que
apresentámos o tributo "O Olhar de Uma Inatingível
Ternura" - textos, palavras e imagens de um espectador para a actriz Liv
Johanne Ullmann. O tributo/homenagem consistia na encenação de um texto poético com as
interpretações de Ana Sequeira e Tiago Silva, a composição musical de João
Silva, os desenhos de Daniel Seabra Lopes e Isabel Lhano e vídeos de Aurora
Ribeiro. Além da história da actriz/realizadora/encenadora norueguesa, o texto desfiava as memórias de
um adolescente e a descoberta do cinema por este através da actividade dos cineclubes,
instituições que tiveram um papel preponderante na divulgação de grandes obras
cinematográficas.
acordar tarde
tocas as flores murchas que alguém
te ofereceu
quando o rio parou de correr e a
noite
foi tão luminosa quando a mota que
falhou
à curva – e o serviço postal não
funcionou
no dia seguinte
procuras ávido aquilo que o mar não
devorou
e passas a língua na cola dos selos
lambidos
por assassinos – e a tua mão
segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do
sangue contaminado
dos amantes ocasionais – nada a
fazer
irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se
entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso
simulando
a casa
onde me abrigo do mortal brilho do
meio-dia.
quinta-feira, 30 de junho de 2016
Uma Dezena de Filmes Portugueses
Certo dia, num
festival de cinema aqui perto, escutei um dos elementos do júri proferir à mesa duma refeição num restaurante que não havia uma mão cheia de
filmes portugueses que valesse a pena ver. De forma criativa, elenquei de imediato uma dezena deles e, ele, naturalmente, calou-se. Continua, no
entanto, a intrigar-me a ostracização e profundo desconhecimento pelo cinema realizado e produzido
por estas bandas bem como uma certa leviandade na forma como falamos da nossa
relação com a sétima arte feita por cá. Por isso, caso fosse programador de uma sala de cinema, isto é,
se eu tivesse um pequeno estúdio para mostrar filmes da minha preferência,
aproveitaria estes meses da estiva para dar a conhecer aos nativos bem como a todas as outras pessoas que
nos visitam, a cinematografia riquíssima de um país chamado Portugal. Começaria assim
pelo "Belarmino", de Fernando Lopes, 1964, "Jaime", de
António Reis, 1974, "Kilas, o Mau da Fita", de José Fonseca e Costa,
1976, "Sangue", de Pedro Costa, 1989; "Recordações da Casa
Amarela", de João César Monteiro, 1989, "Três Irmãos", de Teresa Villaverde, 1994, "Quando Troveja", de Manuel Mozos, 1998, “Respirar
Debaixo de Água”, de António Ferreira, 2000, "António, Um Rapaz de Lisboa", Jorge
Silva Melo, 2001, e "Alice", de Marco Martins, 2005. Uma dezena de filmes portugueses para (re)ver durante este verão e muitos tantos outros poderiam constar da lista. Por agora, está
bom, não?
quarta-feira, 29 de junho de 2016
Sala de Embarque: Anzóis e leitura de texto
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| Fotografia Carlos Olyveira |
Eis-me novamente em Santa Clara, freguesia de Ponta
Delgada, com 2971 habitantes, segundo os censos de 2011. O dia por aqui nasceu com humidade elevada e o “capacete” esteve instalado até ao princípio da tarde. No grande armazém onde
está a Galeria Arco 8, deparo-me com pescadores das Caxinas, homens do mar que
há muitos anos procuraram nas ilhas sorte e aventura nas artes da pesca. Estou perante verdadeiros caxineiros e outros caboverdianos a preparar os anzóis para a pesca à linha, esmerando-se
enquanto trabalhadores manuais atando os nós, esticando as linhas e seda
para as gamelas. Alguns deles trabalham na maior embarcação que se encontra no porto desta cidade insular.
Passemos, portanto, ao terceiro ensaio deste texto teatral intitulado “Sala de Embarque”. Uma ideia que foi sendo pensada e escrita com vontade de dar voz aos meus contemporâneos, gente que vive hoje nas ilhas e
continente. Gente de carne e osso, que possui olhar atento e não desarma, pessoas que vivem hoje aqui
connosco, que partilham as ruas e as praças, as lojas dos hipermercados ou do
centro de emprego, os sonhos e angustias de um tempo de crise que não quer descolar.
Uma sala de embarque, portanto, onde todos se encontram e desencontram, há aqueles que pretendem partir, levantar voo e
navegar ou então apenas uma viagem feita de nuvens e memórias. Este foi mais um ensaio para partilhamos novamente impressões
sobre as inflexões e ritmo do texto, a leitura permanente e descoberta das suas
possibilidades, no fundo, um processo de aprendizagem colectivo.
Sophia Loren em Portugal
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| Agnès Varda, Póvoa de Varzim, 1957 |
Um dia escrevi
um artigo para um jornal, creio que há treze anos, sobre uma fotografia da
Agnès Varda (versão postal) que na altura o meu amigo Daniel me tinha enviado
após ter visto "Os Respigadores e a Respigadora"(2001), um filme
dessa mais que interessante realizadora francesa. Ao que parece Agnés Varda
passou pela Póvoa de Varzim nos idos anos cinquenta e deparou-se com uma festa
popular, que consistia na dádiva de oferendas da população aos mais necessitados. A cineasta,
acompanhada pelo seu companheiro da altura, pediu a uma popular que
fosse com eles para uma rua deserta onde houvesse muita luminosidade para compor um retrato, tendo como pano de fundo um cartaz rasgado de uma grande
actriz italiana a publicitar um sabonete. Meio século depois, o neto da poveira da imagem telefonou para a redacção do jornal, tendo eu tratado de imediato em conhecer a senhora. Esta chegou a emocionar-se ao ver o postal com a sua imagem e só dizia:
“Estou tão bonita nesta foto!”. A
poveira fotografada dava pelo nome de Maria do Alívio, exercia a "profissão" de
lavadeira, tendo sido toda a sua vida
doméstica. Naquele postal vê-se também Sophia Loren, actriz italiana
que entrou em dezenas de filmes e vencedora de dois óscares de Hollywood. Há muito tempo atrás tive uma ideia mirabolante de reunir estas três mulheres naquele lugar mas agora, mesmo que quisesse, não iria conseguir. E tive pena.
terça-feira, 28 de junho de 2016
Sala de Embarque: ensaios em Santa Clara à Tardinha
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| Fotografia de Carlos Olyveira |
Retomámos
ontem os ensaios naquele barracão enorme bem pertinho do mar. A colaboração da
Galeria Arco 8 na pessoa do Pedro Bento, a disponibilidade do Diogo Fonseca, as
condições e possibilidades que este amplo espaço nos abre e possibilita.
Continuaremos assim no gerúndio: ensaiando. A zona de Santa Clara é tão bonita ao fim da
tarde, aquela luz coada e aquele azul intenso espelhado no mar chão, o colorido
divertido das casas em tão simpático ambiente marítimo em redor. Desta feita,
trabalharemos de forma persistente as marcações, as entradas em cenas de cada
actor, o ritmo e a entoação bem como a forma de encontrar o tom geral do texto.
O elenco está composto tal como a distribuição dos papéis: Henrique Santos (O Jovem), Margarida
Benevides (Mulher de Meia-Idade), Liliana
Janeiro (Rapariga Aluada) e João
Malaquias (O Velho). A composição sonora do espectáculo estará a cargo de Pedro Gaspar e os cenários e desenho de
palco sob a orientação de Miguel
Carvalho.
segunda-feira, 27 de junho de 2016
Do Sucesso
"Como as pessoas que começaram antes não conseguiram o sucesso dos que começaram depois, viram-se contra o sucesso destas pessoas. Isso é muito típico em todas as áreas. Não é só na literatura. As pessoas em vez de ficarem contentes com um sucesso que pode fazer alguma coisa pela leitura em Portugal, não, ficam chateadas porque gostariam de ter o mesmo sucesso e não tiveram."
Maria do Rosário Pedreira, in Revista Ler, verão de 2016.
Três Canções Estivais
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| Fotografia: Eduardo Brito |
Junho está quase no fim e nem sabor a santos
populares (fica a promessa de celebrar o São Pedro!). As noites tardam em aquecer e com o raiar da manhã surgem os garajaus sedentos de costa e
temperaturas quentes. Os dias são agora maiores e a luz chega para ficarmos até
mais tarde junto do mar e assistir a este espectáculo quotidiano das nuvens.
Este é o mês em que se anunciam todas as viagens e
que, por isso, serão acompanhadas pelas canções que dão brilho à estação. Recordo
aqui pelo menos três das canções que falam desse estio em crescendo ou mesmo a
cristalização desse sentimento estival. A começar a voz de Zeca Afonso, com o tema “Coro
da Primavera”, num refrão assumidamente cheio de esperança e vitalidade: “Ergue-te ó Sol de Verão/Somos nós os teus
cantores/Da matinal canção/Ouvem-se já os rumores/Ouvem-se já os
clamores/Ouvem-se já os tambores.” Segue-se a canção “Leãozinho”, expressa na
voz doce e dolente de Caetano Veloso: “Gosto
muito de te ver, leãozinho/Caminhando sob o sol/Gosto muito de você,
leãozinho/Para desentristecer, leãozinho/O meu coração tão só/Basta eu
encontrar você no caminho.” E, por fim, quando o verão se fecha e tudo terminar ou for a enterrar (se
possível, na areia!) deverá ser possível cantar "That Summer
Feeling", de Jonathan Richman: “When
there's things to do not because you gotta/When you run for love not because
you oughta/ When you trust your friends with no reason notta/The joy I've named
shall not be tamed/And that summer feeling is gonna haunt you one day in your
life.” O verão promete!
quinta-feira, 23 de junho de 2016
Os Melhores Anos da Minha Vida
Os melhores anos da minha vida
passaram comigo ausente, passaram
numa corrente subterrânea.
Não me apercebi de nada, distraído
com a queda das folhas,
a densa mistura de pão e desordem.
Estava tudo em aberto, mas eu não
sabia
senão de pequenas querelas,
e tímidos passos à toa, sempre à
espera
de não ter futuro. Sentado, como um
pobre,
sobre o poço de petróleo,
eu media com tesouras as semanas,
misturava-me com livros, ansiava
pelo dia em que deixasse de
sangrar.
Os melhores anos da minha vida
troquei-os por isto.
José Miguel
Silva in "Vista para um pátio seguido de Desordem".
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