quinta-feira, 5 de abril de 2018

Tascà (ode à PSP - Palco dos Sonhos da Poesia)

No receituário extenso das madeiras
A contínua respiração exclusiva
Sobejam líquidos vertidos das arcadas
Em noctívago jorro que vela das canseiras

Escutam obsoletas vozes desavindas
Versos e rimas de bardos compulsivos
Secos frutos devoram apreensivos
Notando-se à distância o odor dos livros

Cigarros misturados de incertezas
À laia de brotar inspirações
Canceladas vagas de tristezas
Destilam por ali no temor das emoções

Despedem-se como velhos amigos
No cúmulo dos altares reluzentes
Abarcam contos e demais narrativas
Lembram-se das horas e dos poemas lidos.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Breve Léxico do Nosso Tempo

     “E uma nova civilização começou a erguer-se a uma velocidade inaudita diante de nós e penetrou bem dentro de nós. Com as redes, todas as regras do jogo político, sócio-económico e cultural foram profundamente afectadas ou mesmo desintegradas. Uma rede sem centros e sem diferenciação do espaço e do tempo constituiu um corte radical com todas as categorias da experiência anterior à reticulação do mundo. Mesmo aquelas que designamos como “redes sociais” nada têm a ver com aquilo com o que caracterizou até agora o social e, definidas por antigos critérios, poderíamos dizer anti-sociais. O imenso caudal de reflexões teóricas e análise de dados que têm como objecto a internet mostra que esta suscita visões contraditórias: por um lado, ela é portadora de um imaginário de emancipação e acesso livre generalizado ao saber e à informação; por outro, traz consigo o lado mais negro da barbárie tecnológica. Não basta dizer, utilizando a linguagem de Marcel Mauss, que a rede significou um facto antropológico total. É algo mais do que isso: a nossa condição de indivíduos constantemente conectados, determinou a viragem para uma antropologia do artificial e para uma condição pós-humana. Estar ligado à rede, em permanência, significa também ser continuamente interrompido e entrar no regime da comunicação desconexa e fragmentada. A economia e a ecologia da atenção tornaram-se, assim, questões maiores do nosso tempo. Mas as mais visíveis transformações operadas pela rede são as do próprio sistema capitalista: nas modificações das formas de trabalho, nas metamorfoses do poder (não apenas  o poder político, mas todo aquele que é hoje inerente a uma sociedade de controle) e, muito especialmente, num aumento colossal de mercadorias cada vez mais imateriais.”

António Guerreiro e João Oliveira Duarte in “Breve Léxico do nosso Tempo” – revista “Electra”, Março de 2018.

Pelas Sombras de Catarina Mourão na Galeria Arco 8

  Este filme foi realizado há oito anos pela Catarina Mourão e, à altura, ganhou o prémio do público no Indie Lisboa. São oitenta e três minutos a ver o mundo de Lourdes Castro, artista plástica oriunda da Madeira que viveu em Paris e em Berlim. A música do documentário é de Chopin e de Schubert. A realizadora, aquando da apresentação deste trabalho, referiu:"Um dia escrevi uma carta à Lourdes Castro porque gostava do trabalho dela e tinha uma enorme curiosidade pelo trabalho dela hoje". O filme é exibido às 21h30, na Galeria Arco 8, numa parceria entre o Museu Carlos Machado, 9500-Cineclube e o Arco 8. A sessão é gratuita ao público e conta com a presença da realizadora.

Galgar de Medeiros/Lucas

Rombos nas portas
Frinchas nos tectos
A brecha pela parede

Feito roto de acinte
Galga tudo de freio nos dentes,
Interessa pouco o que se ganhe
tampouco o que se enfrente

Bombos às portas
Ferros sem notas
Toada sem o revede

Feito pronto de ouvinte
Galga tudo aquilo que sente
Interessa pouco o que s´apanhe
Tampouco o que se tente

Nenhum pedinte de nada
Só desapego e galgada

Sente-se a leiva na veia
Sangue posto no peito

Tombos às sotas
Trotes querendo
Galope pela calada

Feito fogo urgente
Galga tudo aquilo que entende
Interessa pouco onde se chegue
Tampouco o que se pene

Rombo na porta
Um bombo sem nota
A brecha, o ferro e os trotes

Feito raio de acinte
Galga tudo de rédea ardente
Interessa pouco ou quase nada
Todo o que não se enfrente

Nenhum pedinte de nada
Só desapego e galgada

Sente-se a leiva na veia
Sangue posto no peito

Letra: João Pedro Porto

terça-feira, 3 de abril de 2018

A Arquitectura Urbana em Ponta Delgada – Finais do Século XIX começos do Século XX de António Eduardo Soares de Sousa

Fotografia de Carlos Olyveira
“No seu amplo interior, o Coliseu Micaelense teve a colaboração de dois grandes artistas micaelenses: o escultor Canto da Maia, no friso escultórico por cima do boca-de-cena, e Domingos Rebelo, que pintou o pano-de-boca. Mas, podemos ainda referir outros edifícios que foram construindo, como o destacado edifício dos Armazéns Cogumbreiro, mandado edificar em 1913 pelo Sr. José de Medeiros Cogumbreiro para o comércio de vários tipos, coisa absolutamente inovadora na cidade e à imagem dos armazéns da Metrópole.
           Serão de mencionar alguns dos edifícios que emolduram a praça do centro da cidade: o edifício do Banco de Portugal, o edifício que alberga a firma Azevedo e Companhia, o edifício do antigo Banco Micaelense e, na Rua dos Mercadores, um bem proporcionado edifício que o sr. Luís Maria Aguiar mandou construir, bem como outros edifícios dignos de menção em várias zonas do centro histórico da cidade. Destacaremos ainda o edifício da Sociedade Corretora, rua Hintze Ribeiro, que exibe uma fachada austera e de largas fenestrações, onde creio notarem-se influências da arquitectura industrial dos países do norte da Europa, para onde se exportavam os ananases que a firma comercializava.
Todos estes edifícios evidenciam uma arquitectura híbrida, com influências da arquitectura urbana do Continente português, em feição simplificada, todavia, com uma decoração curiosa e amaneirada, que transporta um gosto peculiar, nomeadamente nas molduras e ornamentos das fachadas.
As fachadas possuem amplas janelas e portadas com molduras em relevo, executadas quase sempre com reboco de cimento e barro, excluindo a tradicional pedra de basalto, tomando uma acentuada dimensão vertical, permitindo maior iluminação e ventilação para os aposentos.
Um outro aspeto muito curioso no detalhe construtivo das fachadas de alguns edifícios dessa época é o aparecimento de varandas concebidas em ferro forjado, que, ao que se sabe, foram produzidas na fundição da Calheta, um edifício fabril que ainda hoje e já abandonado ostenta uma grande chaminé da caldeira em forma de pirâmide octogonal, uma silhueta imponente ladeada por uma alta chaminé de pedra.
A estrutura e as guardas das varandas que ornamentam muitas das edificações habitacionais em Ponta Delgada apresentam desenhos trabalhados ao sabor do gosto da época, de elaborada composição decorativa.
Estas varandas, tão peculiares, existem mesmo em edifícios habitacionais modestos, mas também em outros de grande porte, como é o caso do edifício dos Marqueses da Praia, na Rua Marquês da Praia e Monfort.”

António Eduardo Soares de Sousa, in A Arquitectura Urbana em Ponta Delgada – Finais do Século XIX começos do Século XX, organização e revisão José Ferreira de Almeida.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

UM FIM

(Imitado de Christina Rossetti)

Morreu o amor forte como a morte
Anda, vamos enterrá-lo
Enterrei-o sozinho, estava vivo como a morte
Debaixo da pedra
Debaixo das flores
Vem, senta-te longe dos amores

Ardeu a serra durante o verão
Voltámos cobertos de cinza
Apaguei-te sozinho, estavas linda como o Verão
Debaixo das folhas
Debaixo das flores
Bem sentada longe dos amores

Cantámos tudo só com dois acordes
Sempre o mesmo tom menor
E uma praia sozinha, de areia batida pelas cordas
Debaixo das ondas
Debaixo das flores
Sinto-me bem longe dos amores

João Paulo Esteves da Silva in “Vertem-se Bíblias em Quimbundo”, edições Mia Soave, 2017.

sábado, 31 de março de 2018

Do Cinema Português

           
         "Não há dúvida que no cinema português dos anos 2000, alojado no coração da sua vitalidade produtiva e em alguns dos seus sucessos internacionais, vislumbramos os riscos de uma academismo daquilo que foi anteriormente, praticado por cineastas  muito conscientes do valor das exigências formais herdadas, hábeis no seu artesanato, e assim, portadores de um saber incontestável, também ele herdado. 
          No entanto, como o mostra o filme de Pedro Pinho A Fábrica do Nada, concluído na Primavera de 2017 e apoiado na inspiração e trabalho colectivo dos seus amigos da produtora TerraTreme, estas qualidades adquiridas (exigência formal, habilidade e saber de artesãos) podem ser convocadas por uma sinceridade criadora perante o risco de academismo, de modo a indicarem então a via de uma contra-tendência."


Jacques Lemière in  O Cinema Português em Écran Panorâmico, revista Electra, Março 2018.

quinta-feira, 29 de março de 2018

No teu amor por mim há uma rua que começa*

Fotografia de Carlos Olyveira
Vale a pena dessacralizar a poesia, mesmo quando é substituída pelos acordes do momento, acreditar que esta possa viajar em redor dos territórios mais inverosímeis da ilha, à semelhança do Tremor da passada semana, que é comentada, partilhada nos quartos, nos cafés, nas ruas, nas repartições, nas escolas, nos parlamentos e que é dita por cabeças pensantes, algumas tensas, outras esclarecidas e, até mesmo, as mais emotivas.
Houve, entretanto, na semana que passou, o Dia Mundial da Poesia com honras de poetas ditos e celebrados. Recentemente teve também lugar o Dia Mundial do Teatro e,  por aqui, houve quem  se atrevesse a encher a boca de baboseiras e continue a alimentar projectos megalómanos e afins, quando é tão raro vê-lo ou até mesmo fazê-lo. O Teatro é para ser feito! Não tem eco nem bandeira, os jornais e políticos pouco ou nada dão conta deste doloroso e apagado desinteresse. Por isso, relevante é continuar dizendo (e não declamando, que palavra horrorosa!) poemas nesta noite primaveril com a concentração sobre os livros pousados nas mesas de madeira desse pequeno estabelecimento com tradição de leitura poética. A rua onde isto se passa tem nome de antiga capital do reino, agora democracia europeia. Ou, então, soltar o ar do tempo nesta pausa pascal para simplesmente saber da vida, deleitar-se com as estrelas cadentes e fruir o esplendoroso luar de Março, pois o sol, sim esse astro luminoso, é garantidamente de Medeiros/Lucas.

*Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates".

quarta-feira, 28 de março de 2018

Tremor: Aguardemos 2019!


      Terminou a quinta edição do Tremor. E culminou no Arco 8 da melhor forma na alta madrugada de sábado o dia mais marcante deste acontecimento musical. Ao longo da semana já tinha havido os concertos surpresa do "Tremor na Estufa" e demais iniciativas espalhadas pelos mais variados lugares de Ponta Delgada e da Ilha de São Miguel. E o que nos apraz dizer deste evento? Os mais que merecidos parabéns e felicitações à organização e um desmedido obrigado aos músicos pelos concertos proporcionados. Ficam também outras propostas, tais como a exposição "Narcisismo das Pequenas Diferenças", de Pauliana Pimentel, o retrato duma juventude segundo a origem e o contexto social, ainda que sem pontes de contacto, a ver na Galeria Fonseca e Macedo ou ainda o filme “Levantados do Chão”, de Daniel Blaufucks, que nos comove pelo abandono do Hotel Monte Palace e o gesto soturno e delicado da Banda da Lira das Sete Cidades. Dos benignos e memoráveis momentos guardar-se-á tantos e diferenciados e, por isso, registe-se assim o concerto dos "10 mil russos" no Túnel das Sete Cidades, numa deriva sonora misturada  com a beleza da paisagem, ainda a cantora Baby Dee, na sua entrega solitária e encantatória, no Auditório Camões, ou os Snapped Ankles, num revivalismo electrónico e dançante, no belíssimo Teatro Ribeiragrandense. E...foi tão bom que custa pensar que só regressa no ano que vem.

sábado, 24 de março de 2018

sexta-feira, 23 de março de 2018

quarta-feira, 21 de março de 2018

Tremor: O Quinto já cá está!

Ontem começou o Tremor. É já a quinta edição. O primeiro dia teve lugar no Teatro Micaelense com a apresentação do festival pela organização, entidades públicas e demais promotores. A sala encontrava-se cheia de residentes e forasteiros para ver “Levantados do Chão”, esta primeira proposta realizou-se sob o signo do cinema e da música, onde vimos o fotógrafo Daniel Blaufucks juntar-se à Banda Lira das Sete Cidades para (des) alinhar a imagem mais o som na despedida do Hotel Monte Palace nas Sete Cidades. O autor não quis denominar de filme, ainda bem, pois as ditas “fotografias expandidas” valem pela ideia da ruína dum tempo em que só a natureza o altera. Os textos presentes nos créditos finais enunciam, portanto, uma visão do mundo que permanece e que, passados tantos séculos depois do povoamento, nada parece ter realmente mudado. As ruínas, a paisagem, o esmaecer das cores daquele edifício confirmam um "fazedor de imagens" de olhos bem abertos e ouvidos à escuta. Ali, sim, é a natureza que nos invade. No entanto, a duração deste propósito revelado pareceu-nos longo quanto à sua duração bem como a imagem assíncrona da banda com a imagem nem sempre resulte. Na parte de cima do teatro, retomar-se-ia a mistura com os músicos Rafael Carvalho, mestre na viola de dois corações, e Flip, amante dos sons electrónicos e experimentador, a esgrimir argumentos num diálogo sonoro imprevisto, evidenciando uma postura ambiciosa para uma proposta embrionária que ainda pode vir a dar frutos.
Por último, no já mítico Auditório Camões, o concerto dos regressados Três Tristes Tigres para dar conta do seu rock electrónico, com pendor na guitarra de Alexandre Soares (que garra e energia voltar a escutá-lo!) e a voz de Ana Deus, a relembrar temas de “Partes Sensíveis” (1993), “Guia Espiritual” (1996), "Comum" (1998) e "Visita de Estudo" (2001). Do álbum “Partes Sensíveis” recordaram-se canções como “Letra Morta” ou “Descapotável”, de “Comum” houve “Combat” ou “Motim” e ainda “Anormal”, “Kainever”, “Olho da Rua”, do álbum Guia Espiritual, onde não existiu lugar para o popular “Zap Canal”.
Hoje, quarta-feira, o tremor musical continuará, ao todo são cinco dias e trinta e nove concertos espalhados pelos sítios mais inusitados e inesperados desta ilha no meio do Atlântico.