terça-feira, 23 de abril de 2019

Tremor: Houve Festa na Ilha!

A festa do Tremor já passou, uma desbunda musical como vem sendo hábito. Durante uma semana a ilha de São Miguel, pois este não ano não foi possível repetir Santa Maria, foi palco de múltiplas e variadas propostas musicais oriundas de vários cantos do globo. Assim, surpreendente continua a ser o Tremor na Estufa, uma invenção que prima pela combinação dos espaços naturais ou monumentais da ilha com os diferentes géneros musicais que o festival abarca. Foi assim que ouvimos o David Bruno, curioso "hip-hoper" de Gaia, na Ribeira dos Caldeirões (Nordeste) ou as Despensas de Rabo de Peixe no exterior da Casa do Divino Espírito Santo da Bandeira da Beneficência, entre outros. Ainda a belíssima memória de João Peste no palco do Ateneu Comercial, com o braço direito na horizontal e o lamento repetido do seu verso: “La nostra feroce volontà d´amore”.Os mais que merecidos parabéns à organização!

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Um Verso de João Peste

La nostra feroce volontà d'amore

A Uma Criança que Dança no Vento

Dança aí junto do mar,
Que te importa
O rugido da água, o rugido do vento?
Sacode a tua cabeleira
Molhada de gotas de sal;
Tu que és tão jovem ignoras
O triunfo do néscio, não sabes
Que o amor mal se ganha e logo se perde,
Nem viste morrer o melhor operário
E todos os feixes por atar.
Por que hás-de temer
O terrível clamor dos ventos?

W.B.Yeats (1865-1939)

sábado, 20 de abril de 2019

Ontem, escrito numa parede da cidade

Uma simples avaliação do mundo implica a nossa participação política

Verso de Julia Jacklin

Now that I know you so well

Presságio de Fernando Pessoa

O amor, quando se revela,
 Não se sabe revelar.
 Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

 Quem quer dizer o que sente
 Não sabe o que há de dizer.
 Fala: parece que mente...
 Cala: parece esquecer...

 Ah, mas se ela adivinhasse,
 Se pudesse ouvir o olhar,
 E se um olhar lhe bastasse
 P'ra saber que a estão a amar!

 Mas quem sente muito, cala;
 Quem quer dizer quanto sente
 Fica sem alma nem fala,
 Fica só, inteiramente!

 Mas se isto puder contar-lhe
 O que não lhe ouso contar,
 Já não terei que falar-lhe
 Porque lhe estou a falar...

Compêndio da Folia (A)

Fotografia de Jorge Fontes 
(DOP - Departamento de Oceanografia e Pescas)

“Pode haver momentos em que um abecedário nos parece poético.”

Frederico Lopoldo de Hardenberg dito Novalis in “Fragmentos” – Tradução de Mário Cesariny.



Anthias anthias - Nome de peixe presente no mar dos Açores, também conhecido por folião ou canário do mar, bastante colorido por sinal. Habita nas águas atlânticas e, segundo os biólogos, avista-se a 20 metros de profundidade. É, pela sua constituição, parente do mero e sustenta-se à noite comendo caranguejos e outros tantos peixes pequenos. Desconfia-se, assim, e dado o seu perfil e coloração, que deve ser bom para a festa.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Sobre a Cultura nos Açores

CP: Como vai a cultura nos Açores?

Alexandre Pascoal: A cultura nos Açores precisa sair das ilhas. Este é um desafio de futuro, no qual o TM (Teatro Micaelense) tenta, modestamente, cumprir com o seu papel. Importa muita coisa mas, sobretudo, garantir meios e condições à criação e ao funcionamento (regular) das instituições culturais do arquipélago (que apenas em 2018 tiveram acesso aos apoios nacionais da DGArtes) e de circulação das suas peças (obras). Isto é válido tanto para as artes performativas, como para as artes plásticas (incluindo a fotografia e o cinema). Os condicionalismos inerentes à dispersão geográfica são um constrangimento que urge ultrapassar, por forma a quebrar com o isolamento e o confronto com outras plateias. O caminho é rumo à profissionalização. Estamos, é certo, a dar, ainda, os primeiros passos neste sentido.

Alexandre Pascoal in COFFEPASTE, 15 de Abril de 2019

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Do Bardo de Stratford-upon-Avon

Não tenhas medo; a ilha está cheia de ruídos,
Sons, doces melodias, que deleitam sem ferir.
Por vezes sons agudos de mil instrumentos
Zumbem aos meus ouvidos; outras vezes são vozes
Que me fazem adormecer mesmo quando desperto
Após um prolongado sono. E então, em sonhos,
Parece-me que as nuvens se abrem mostrando riquezas
Prestes a cair sobre mim, e, quando acordo,
Desespero por adormecer de novo.

William Shakespeare, in A Tempestade

sábado, 6 de abril de 2019

Abril: o TREMOR Voltou!

          Abril chegou e com ele regressa também o Tremor. Há por isso muita música para fruir ou ainda provocar a curiosidade, a maior parte dos sons pertencem a músicos que habitam na periferia das grandes produtoras musicais, gente que faz música em cidades como Ponta Delgada, Lisboa, Porto, Londres, Manchester, Maastricht, Barcelona, São Paulo, São Francisco, e outras tantas sonoridades oriundas de ilhas de antigos impérios.
A partir da próxima semana é música para ouvir sentado com uma chávena de chã ou um copo de tinto na mão, o Tremor é música para fundir a paisagem com o universo sonoro de cada banda ou intérprete, sempre sob o signo da água e do Atlântico, um festival que habituou os frequentadores a não ouvir a mesma banda duas vezes, já que se trata de uma montra alargada que todas os anos prima pela experiência e descoberta. Altura, por isso, para ouvirmos os WE SEA, esse grupo com nome de um trocadilho bem açoriano, apenas com quatro anos de idade, apareceram numa noite de celebração histórica da revolução dos cravos no espaço do Solar da Graça e ali despontaram com o seu teclado sobre uma tábua de passar a ferro e um vocalista pleno de garra e intensidade. Será muito interessante apreciar a prolixidade de Rui Rofino, que canta com alma e entrega na língua de Antero de Quental as suas letras de muito labor e apuro, ao mesmo tempo que teremos a oportunidade de ouvir a voz plástica e eclética de João Peste dos Pop Dell´Arte.  Quem tem acompanhado o Tremor, sabe muito bem que o certame é imprevisível, trazendo algo muito livre e arejado a cada edição, o que só  pode augurar uma semana musical deveras promissora.

FALTA nº2...a caminho!

(O nº 0 e 1 da FALTA)
Fotografia de Carlos Olyveira