domingo, 19 de abril de 2020

Pequenos Trabalhos de Domingo

não saio antes
que tudo esteja pronto

a loiça a escorrer na cozinha
o aspirador cheio
a varanda lavada pelo dia
o rádio em off

nessa hora em que 
a noite se aproxima devagar
do meu rosto
escrevo poema nenhum
falta-me língua

sento-me num banco do jardim 
mais próximo
onde (que perfeição)

nada acontece

Miguel-Manso, in "Santo Subito", 2010.

Crepúsculo

Já ninguém percorre este caminho
a não ser dois petroleiros
com os porões vazios

Jorge Sousa Braga in"O Poeta Nu" (Poesia Reunida), Assírio&Alvim, 2007.

"Vidas Íntimas" de Noël Coward pelos Artistas Unidos

      
Vidas Íntimas de Noël Coward
          "Ora, a longo prazo, não há ninguém que não diga senão disparates. Temos de ser superficiais, e ter piedade dos pobres filósofos. Vamos mas é soprar trombetas e apitos e gozar  a festa ao máximo que pudermos, como se fôssemos crianças da escola. Vamos apreciar o gozo do momento. Venha cá beijar-me, querida, antes que o seu corpo apodreça e os vermes saltem das suas cavidades oculares."

Elyot in "Vidas Íntimas", de Noël Coward, 1930, trad. Miguel Esteves Cardoso, Livrinhos de Teatro, Artistas Unidos, 2019.

sábado, 18 de abril de 2020

No teu amor por mim há uma rua que começa*

*Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates".

Canção do Crepúsculo

O dia anuncia o seu fim, a derradeira luz cai, o azul celeste vai desaparecer e sobra muito pouco tempo para contemplar o céu e duas pequenas nuvens, estas concebidas como farrapos, parecendo imóveis. Assim como se tratasse de uma viagem interrompida, lograsse também tudo isto findar, acaso sossegar os créditos dessa dor. Comprometidos ficariam apenas uns versos simples e compreensíveis tal e qual a tua presença fugaz, ainda que atribulada por aqui.
Pus-me, entretanto, a imaginar que se ainda vivêssemos naquela rua sem gente à janela, talvez possuíssemos coragem para evocar a liquidez de outrora, esqueceríamos a distância assídua dos mapas, o medo que agora nos impede os movimentos ou os segredos virtuais conservados pelas biografias. Certo que desceríamos aquela calçada robusta para alçar aquela bandeira com uma folha de bordo em teu clamor.
A nuvem vai agora desaparecer, juntando-se em circulo rodeando a lua, parece suplicar um leve aconchego, embrulhando dedos delicados em seu redor. Por instantes, ouve-se ao de leve uma canção de um autor conhecido. Qual de nós é que se esqueceu de acender a luz?
Atravessaremos a noite como quem persegue a linha do horizonte. Quem chegar primeiro, avisa.  

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Física Inexplicavelmente Platónica

O nosso amor
é igual à coluna de sorriso
que nos une
dois traços encarnados de união
no ar.

Rui Duarte Rodrigues, in "Os Meninos Morrem Dentro dos Homens", 1970

O que o viajante vê nas bicicletas da Holanda?

   “Os outros povos do planeta consideram a bicicleta um aparelho destinado ao jogo e ao desporto. Permite uma velocidade extraordinária com meios simples, exige algum esforço e, ao mesmo tempo, o seu uso implica um certo risco. Todas estas características confinam o velocípede ao âmbito das actividades desportivas e, entre elas, às que requerem juventude.
            Apesar disso, verificamos que por todo o lado aumenta o seu uso em serviços meramente úteis. O operário que vive em distantes subúrbios vai para o trabalho e regressa dele de bicicleta. O distribuidor de certo tipo de mercadorias e o estafeta também recorrem a ela. Mas é precisamente esta generalização utilitária, que por todo o lado se verifica, que sublinha a consciência predominante de que não é esse o adequado objectivo da bicicleta, mas outro. Isso é sublinhado pelo facto de este aproveitamento secundário está reduzido ao estritamente inevitável: só a ele se recorre quando não há outro remédio ou quando a hulmidade dos meios económicos o impõe como uma triste necessidade. É por isso que não estranhamos: o operário mal vestido que pedala para ir para casa proclama tacitamente que preferia outro meio transporte e que usa esse precisamente não por ser o desejável mas por uma triste imposição. E com isso fica resolvida a incongruência, vemo-la explicada e não sentimos estranheza.
            Mas na Holanda toda a gente anda de bicicleta, qualquer que seja a sua idade, sexo, volume, posses. E agita as pernas sobre pedais, ia dizer que cinicamente, isto é, como se fosse a coisa mais natural do mundo, como se fosse o que é preciso fazer. Pois bem, é isso que irrita o viajante, que causa estranheza e incompreensão: considerar-se natural e perfeito o que lhe parece inadequado e erróneo.
            Ao chegar aqui, o nosso intelecto, lutando dialecticamente consigo mesmo, faz a seguinte objecção: não será que considero natural e correcto simplesmente o que me é habitual, o que vi noutros povos? Porque não há-de ser a Holanda o povo eleito pelo deus das bicicletas, aquele a quem foi revelado o seu mais autêntico destino.”

Ortega y Gasset in “De Bicicleta – Antologia de Textos”, Relógio D´Água, 2018.

Avec le temps

Via em volta como
os melhores da sua época 
se iam corrompendo num conservadorismo
sem consciência. Confundiam a crítica com 
a desilusão e mediam o mundo com os critérios
da geração anterior.
Dariam por eles, se ainda lhes restasse lucidez,
apontados a dedo pela geração seguinte.
Esta, nem melhor nem pior,
era apenas diferente, ajustada a um tempo
que era sempre outro e a submergia,
enquanto esbracejava para sobreviver.
Demoraria ainda 
até que ela 
medisse o mundo
com os critérios da geração anterior.

Madalena de Castro Campos, in"A Gun in the Garland", Companhia das Ilhas, 2019.

Um Verso de Marianne Faithfull

I'm known by many different names

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Quatro Poemas de Jorge Sousa Braga

O Último Girassol

Hoje  vomitei um líquido esverdeado
Eram as primeiras  folhas 
Estou prestes a florir

Sono de Primavera

Adormeço sempre com o teu mamilo
entre os dedos da minha mão
E o meu sono é tranquilo
como o das rosas.

Strip-Tease

Quanto mais me dispo

menos nu 
me sinto

Post-Scriptum

Estou mesmo a precisar 

de uma injecção
de essências de rosas 

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Ontem, escrito numa parede da cidade

Quem está à beira do lume sempre se aquece

Potro

Existe já em ti
aquilo que tudo há de ser:

um cavalo a arfar, um potro a nascer.

 João Habitualmente, in "Um dia tudo isto será meu (uma antologia)", Porto Editora, 2019.

"Tarrafal": documentário de Pedro Neves


             Todos nós sabemos que o género de documental não é potenciador de grandes audiências em salas de cinema. Aliás, o seu interesse e curiosidade em vê-los em sala resulta do imenso trabalho e muita persistência dos festivais de cinema que trouxeram este género cinematográfico de novo para a ribalta. Em Portugal, a situação não é muito diferente, ainda que cada vez haja mais documentários a estrear e alguns chegam mesmo a permanecer uma ou duas semanas em exibição. Dado esse crescente interesse, há, por isso, um aumento da produção de documentários bem como o interesse demonstrado por jovens cineastas em aproximar-se deste tipo de trabalhos. Daí que o documentário português tem sabido criar o seu espaço e fidelizar uma nova franja do público interessada no conhecimento da realidade portuguesa. 
Por isso, quem quiser ainda pode assistir a “Tarrafal”, documentário do portuense Pedro Neves, que está disponível na RTP2 Play. Para quem nada sabia do trabalho anterior do cineasta, digamos que se trata de uma inusitada e, por que não afirmá-lo, de uma entusiasmante descoberta! Pedro Neves sabe filmar os corpos, os esquecidos, melhor, os deserdados deste mundo! Há por aqui muito trabalho, muita dedicação e grande energia em filmar a vida e o que resta dela. É um cinema em estado puro, inteligente e indomável!

Verso de J.P.Simões

Em casa tenho amor, à noite canto o mar