sexta-feira, 24 de abril de 2020
quarta-feira, 22 de abril de 2020
"Roma, Cidade Aberta" de Roberto Rosselini
Aldo Fabrizi, Marcello Pagliero e Ana Magnani são alguns dos atores que fazem parte do elenco do filme "Roma, Cidade Aberta", de Roberto Rossellini. Este filme, obra debutante do neorealismo italiano, trata a ocupação durante nove meses da Itália pela Alemanha nazi durante a Segunda Guerra Mundial. A película retrata a vida italiana, pobre e desesperada, unida contra o invasor, criando redes de solidariedade social e disseminando a luta clandestina, envolvendo tipógrafos, padres e activistas políticos. Ana Magnani (Pina) é uma mulher solitária, que se descobre grávida, e que morre no dia do seu próprio casamento. A revolta alastra, no entanto as perseguições e o cerco vai aumentando a repressão.
"Roma, Cidade Aberta" esteve disponível nesta quarentena pela Medeia Filmes, possibilitando acesso a uma obra imprescindível e fundamental do cinema mundial.
"Roma, Cidade Aberta" esteve disponível nesta quarentena pela Medeia Filmes, possibilitando acesso a uma obra imprescindível e fundamental do cinema mundial.
Terra
“Quando
eu me encontrava preso
Na
cela de uma cadeia
Foi
que vi pela primeira vez
As
tais fotografias
Em
que apareces inteira
Porém
lá não estavas nua
E
sim coberta de nuvens...
Terra!
Terra!
Por
mais distante
O
errante navegante
Quem
jamais te esqueceria? (…).”
“Terra” de Caetano Veloso
segunda-feira, 20 de abril de 2020
Ilha Revisitada
Perto do mar
de novo estou perto de mimfecha-se o cerco o lugar
retoma o princípio e o fim
brisa de infância
ao cair da tarde assim
se encurta a distância
entre o que sou e mim
Desejado vai-vem discreto
das marés ritmo secreto
do tempo sem tempo livremente
espelho d´água imagem
solidária companheira de viagem
rumo à ilha novamente
Artur Goulart, in "nove rumores do mar- antologia de poesia açoriana contemporânea", organização de Eduardo Bettencourt Pinto.
domingo, 19 de abril de 2020
Pequenos Trabalhos de Domingo
não saio antes
que tudo esteja pronto
a loiça a escorrer na cozinha
o aspirador cheio
a varanda lavada pelo dia
o rádio em off
nessa hora em que
a noite se aproxima devagar
do meu rosto
escrevo poema nenhum
falta-me língua
sento-me num banco do jardim
mais próximo
onde (que perfeição)
nada acontece
que tudo esteja pronto
a loiça a escorrer na cozinha
o aspirador cheio
a varanda lavada pelo dia
o rádio em off
nessa hora em que
a noite se aproxima devagar
do meu rosto
escrevo poema nenhum
falta-me língua
sento-me num banco do jardim
mais próximo
onde (que perfeição)
nada acontece
Miguel-Manso, in "Santo Subito", 2010.
Crepúsculo
Já ninguém percorre este caminho
a não ser dois petroleiros
com os porões vazios
Jorge Sousa Braga in"O Poeta Nu" (Poesia Reunida), Assírio&Alvim, 2007.
a não ser dois petroleiros
com os porões vazios
Jorge Sousa Braga in"O Poeta Nu" (Poesia Reunida), Assírio&Alvim, 2007.
"Vidas Íntimas" de Noël Coward pelos Artistas Unidos
![]() |
| Vidas Íntimas de Noël Coward |
Elyot in "Vidas Íntimas", de Noël Coward, 1930, trad. Miguel Esteves Cardoso, Livrinhos de Teatro, Artistas Unidos, 2019.
sábado, 18 de abril de 2020
Canção do Crepúsculo
O dia anuncia o seu fim, a derradeira luz
cai, o azul celeste vai desaparecer e sobra muito pouco tempo para contemplar o
céu e duas pequenas nuvens, estas concebidas como farrapos, parecendo imóveis. Assim como
se tratasse de uma viagem interrompida, lograsse também tudo isto findar, acaso sossegar os créditos dessa dor. Comprometidos ficariam apenas uns versos simples
e compreensíveis tal e qual a tua presença fugaz, ainda que atribulada por
aqui.
Pus-me, entretanto, a imaginar que se ainda
vivêssemos naquela rua sem gente à janela, talvez possuíssemos coragem para
evocar a liquidez de outrora, esqueceríamos a distância assídua dos mapas, o
medo que agora nos impede os movimentos ou os segredos virtuais conservados
pelas biografias. Certo que desceríamos aquela calçada robusta para alçar aquela
bandeira com uma folha de bordo em teu clamor.
A nuvem vai agora desaparecer, juntando-se
em circulo rodeando a lua, parece suplicar um leve aconchego, embrulhando dedos delicados em seu redor. Por instantes, ouve-se ao de leve uma canção de um autor conhecido. Qual de
nós é que se esqueceu de acender a luz?
Atravessaremos a noite como quem persegue
a linha do horizonte. Quem chegar primeiro, avisa.
sexta-feira, 17 de abril de 2020
Física Inexplicavelmente Platónica
O nosso amor
é igual à coluna de sorriso
que nos une
dois traços encarnados de união
no ar.
Rui Duarte Rodrigues, in "Os Meninos Morrem Dentro dos Homens", 1970
O que o viajante vê nas bicicletas da Holanda?
“Os
outros povos do planeta consideram a bicicleta um aparelho destinado ao jogo e
ao desporto. Permite uma velocidade extraordinária com meios simples, exige
algum esforço e, ao mesmo tempo, o seu uso implica um certo risco. Todas estas
características confinam o velocípede ao âmbito das actividades desportivas e,
entre elas, às que requerem juventude. Apesar disso, verificamos que por todo o lado aumenta o
seu uso em serviços meramente úteis. O operário que vive em distantes subúrbios
vai para o trabalho e regressa dele de bicicleta. O distribuidor de certo tipo
de mercadorias e o estafeta também recorrem a ela. Mas é precisamente esta
generalização utilitária, que por todo o lado se verifica, que sublinha a
consciência predominante de que não é esse o adequado objectivo da bicicleta,
mas outro. Isso é sublinhado pelo facto de este aproveitamento secundário está
reduzido ao estritamente inevitável: só a ele se recorre quando não há outro
remédio ou quando a hulmidade dos meios económicos o impõe como uma triste
necessidade. É por isso que não estranhamos: o operário mal vestido que pedala
para ir para casa proclama tacitamente que preferia outro meio transporte e que
usa esse precisamente não por ser o desejável mas por uma triste imposição. E
com isso fica resolvida a incongruência, vemo-la explicada e não sentimos
estranheza.
Mas na Holanda toda a gente anda de bicicleta, qualquer
que seja a sua idade, sexo, volume, posses. E agita as pernas sobre pedais, ia
dizer que cinicamente, isto é, como se fosse a coisa mais natural do mundo,
como se fosse o que é preciso fazer. Pois bem, é isso que irrita o viajante,
que causa estranheza e incompreensão: considerar-se natural e perfeito o que
lhe parece inadequado e erróneo.
Ao chegar aqui, o nosso intelecto, lutando
dialecticamente consigo mesmo, faz a seguinte objecção: não será que considero
natural e correcto simplesmente o que me é habitual, o que vi noutros povos?
Porque não há-de ser a Holanda o povo eleito pelo deus das bicicletas, aquele a
quem foi revelado o seu mais autêntico destino.”
Ortega y Gasset in
“De Bicicleta – Antologia de Textos”, Relógio D´Água, 2018.
Avec le temps
Via em volta como
os melhores da sua época
se iam corrompendo num conservadorismo
sem consciência. Confundiam a crítica com
a desilusão e mediam o mundo com os critérios
da geração anterior.
Dariam por eles, se ainda lhes restasse lucidez,
apontados a dedo pela geração seguinte.
Esta, nem melhor nem pior,
era apenas diferente, ajustada a um tempo
que era sempre outro e a submergia,
enquanto esbracejava para sobreviver.
Demoraria ainda
até que ela
medisse o mundo
com os critérios da geração anterior.
Madalena de Castro Campos, in"A Gun in the Garland", Companhia das Ilhas, 2019.
os melhores da sua época
se iam corrompendo num conservadorismo
sem consciência. Confundiam a crítica com
a desilusão e mediam o mundo com os critérios
da geração anterior.
Dariam por eles, se ainda lhes restasse lucidez,
apontados a dedo pela geração seguinte.
Esta, nem melhor nem pior,
era apenas diferente, ajustada a um tempo
que era sempre outro e a submergia,
enquanto esbracejava para sobreviver.
Demoraria ainda
até que ela
medisse o mundo
com os critérios da geração anterior.
Madalena de Castro Campos, in"A Gun in the Garland", Companhia das Ilhas, 2019.
quinta-feira, 16 de abril de 2020
Quatro Poemas de Jorge Sousa Braga
O Último Girassol
Hoje vomitei um líquido esverdeado
Eram as primeiras folhas
Estou prestes a florir
Sono de Primavera
Adormeço sempre com o teu mamilo
entre os dedos da minha mão
E o meu sono é tranquilo
como o das rosas.
Strip-Tease
Quanto mais me dispo
menos nu
me sinto
Post-Scriptum
Estou mesmo a precisar
de uma injecção
de essências de rosas
Hoje vomitei um líquido esverdeado
Eram as primeiras folhas
Estou prestes a florir
Sono de Primavera
Adormeço sempre com o teu mamilo
entre os dedos da minha mão
E o meu sono é tranquilo
como o das rosas.
Strip-Tease
Quanto mais me dispo
menos nu
me sinto
Post-Scriptum
Estou mesmo a precisar
de uma injecção
de essências de rosas
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