Miguel-Manso, in Santo Subito, Março de 2010.
terça-feira, 12 de maio de 2020
Da Imaginação
"Em momentos de crise, só a imaginação é mais importante que o conhecimento."
Albert Einstein (1789-1955)
segunda-feira, 11 de maio de 2020
Navio
No porto
deserto
Só́ há́ um navio
Já́ triste e
cansado
O resto é vazio
No velho
costado
O mar
escreveu
Com algas e búzios
O que ele
sofreu
O que ele
passou
Sulcando
oceanos
Cruéis
temporais
Por anos e
anos
Nas horas
sem fim
Por noites e
dias
Das rotas
distantes
E das
calmarias
Navio parado
Em frente do
mar
Que bom é
partir
Que triste
é ficar
Mistério de
longe
Chamando,
chamando
Adeus que me
vou
Deus sabe
até quando.
Armando Côrtes
Rodrigues
sábado, 9 de maio de 2020
Europa, Europa, Europa!
Para quem fez Erasmus na cidade
grega de Salónica há muitos anos, hoje é dia de celebrar a ideia da Europa. A
Europa é uma ideia instigante para comemorar e preparar o futuro. À altura, foi uma experiência única,
irrepetível e vivida de forma intensa que ultrapassou o espaço das
aprendizagens e trocas universitárias ou mesmo o programa de estudos ali existente,
pois houve saberes e competências subtis que não se cingiram à área de estudos académicos. Por isso,
aprenderam-se outras línguas, viajou-se bastante dentro e fora do país em que se
esteve, conheceram-se os hábitos, gostos e sabores alimentares de um país diferente
do nosso, contactou-se com a história e a cultura daquele país de acolhimento, a tal
ponto que se fizeram amizades que perduram ao longo da vida. O projecto
Erasmus pode ser dado como uma boa garantia do melhor que a União Europeia logrou e soube criar neste espaço comum a que todos temos direito. Passaram-se muitos anos e, há,
evidentemente, muitas dúvidas e perplexidades do rumo que está a ser traçado. A União Europeia nem sempre é
coesa, tolerante ou mesmo revele, por vezes, falhas na solidariedade e respeito por algumas das suas democracias ou até mesmo no ritmo de alguns membros da união. Por isso, evocar hoje o programa Erasmus é a garantia e apreço do que poderá ser a identidade
europeia no futuro: tolerante, aberta e
plural. Que haja sempre Europa!
Chamo-te porque tudo está ainda no princípio
Chamo-te porque tudo está
ainda no princípio
Sophia de Mello Breyner Andresen
E suportar é o tempo mais
comprido.
Peço-te que venhas e me
dês a liberdade,
Que um só dos teus
olhares me purifique e acabe.
Há muitas coisas que eu
quero ver.
Peço-te que sejas o
presente.
Peço-te que inundes tudo.
E que o teu reino antes
do tempo venha.
E se derrame sobre a
Terra
Em Primavera feroz precipitado.
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Morte da Água
“Um dos passeios que mais gosto de dar é ir
a Esposende ver desaguar o Cávado. Existe lá um bar apropriado para isso. Um
rio é a infância da água. As margens, o leito, tudo a protege. Na foz é que há
a aventura do mar largo. Acabou-se qualquer possível árvore genealógica,
visível no anel do dedo. Acabou-se mesmo qualquer passado. É o convívio com a
distância, com o incomensurável. É o anonimato. E a todo o momento há água que
se lança nessa aventura. Adeus margens verdejantes, adeus pontes, adeus peixes
conhecidos. Agora é o mar salgado, a aventura sem retorno, nem mesmo na maré
cheia. E é em Esposende que eu gosto de assistir, durante horas, a troco de uma
cerveja, à morte de um rio que envelheceu a romper pedras e plantas, que lutou,
que torneou obstáculos. Impossível voltar atrás. Agora é a morte. Ou a vida.”
Ruy Belo in “Todos os Poemas”, Assírio&Alvim.
Da Água
"Entrar na água, para mim, é como sentir um beijo em todo o corpo."
Jacques Yves Cousteau (1910-1997)
sexta-feira, 8 de maio de 2020
Maio Azul
![]() |
| Fotografia de Tânia Santos |
O
mês de Maio nos Açores é o momento do ano em que passa por aqui a baleia azul, o maior animal marinho existente nas profundezas do Atlântico. Os
biólogos marinhos asseveram que o fundo do mar das águas açorianas é usado
enquanto “estação de serviço”, benéfico para que as baleias se abasteçam, pouco
tempo antes de rumarem viagem até aos calotes polares. Quem teve um dia a
oportunidade de assistir a esta passagem, à superfície, é certo, e, pelo mais pequeno
instante que seja, sabe o quanto é difícil esquecer tamanho acontecimento e
contentamento visual, guardando para si memórias inolvidáveis.
Por
esta altura, os Açores seriam também a porta de entrada na Europa para milhares
de velejadores e aventureiros do mar. As marinas enchem-se todos os anos de
iates, veleiros, bem como de outro tipo de embarcações em trânsito. Alguns são
mesmo exemplares dignos na arte da construção naval hodierna, para lá das
réplicas de embarcações de séculos anteriores que aproveitam a Primavera para
navegar. Nas marinas avistavam-se marinheiros, iatistas, skippers, que, durante a sua
estadia ou visita, vão deixando pinturas das suas bandeiras nas amuradas ou
passeios, enquanto vão conhecendo os habitantes locais ou relatando as suas
façanhas e aventuras. Há também navios-escola carregados de juventude que
encontra no mar espaço de aprendizagem, ciência ou terapia…ou mesmo com muita esperança
no futuro, como o caso do célebre “Três Hombres”, que todos os anos regressa
para servir de exemplo em ações do comércio justo, mantendo-se fiel ao
transporte de mercadorias ao sabor do vento e das velas.
quinta-feira, 7 de maio de 2020
Do oceano trouxe o mito
do oceano trouxe o mito as tempestades
marés e vento ondinas e sereias
do oceano trouxe a intensa escuridão
da Atlântida diluída em minhas veias
do oceano trouxe garças e procelas
do poeta herdo a angústia que me acorda
do oceano trouxe o ritmo que regressa
sempre ao cais de onde parto a toda a hora
Madalena Férin, in "nove rumores do mar - antologia de poesia açoriana contemporânea", selecção de Eduardo Bettencourt Pinto, edição Institituto Camões Colecção Insularidades, 2000.
marés e vento ondinas e sereias
do oceano trouxe a intensa escuridão
da Atlântida diluída em minhas veias
do oceano trouxe garças e procelas
do poeta herdo a angústia que me acorda
do oceano trouxe o ritmo que regressa
sempre ao cais de onde parto a toda a hora
Madalena Férin, in "nove rumores do mar - antologia de poesia açoriana contemporânea", selecção de Eduardo Bettencourt Pinto, edição Institituto Camões Colecção Insularidades, 2000.
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