segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Mapear a Amizade

      Recebi há dias, via email, uma fotografia com a imagem de um exemplar artesanal do "Cavalas e Chicharros" junto de um livro intitulado "Mar Branco", com capa e badana "a sério", em que não consigo descortinar o nome do autor. Gostei da combinação, vi que ambos se ajustam na composição, coincidem no propósito de "falarem" de mar ou sugestão de aventuras piscatórias. É também uma fotografia enviada por dois amigos para este seu amigo, como quem quer provocar uma reacção, um gesto, uma emoção. O email era oriundo do grupo central do arquipélago açoriano, sítio de memórias e de baías partilhadas, mergulhos tardios depois das canseiras, canções à lareira de outros Outonos idos. Mapa e geografia de territórios de pertença emocional. Irei, por isso, omitir o nome dos autores da fotografia, aliás, sei que compuseram a fotografia em conjunto, dado que eles sabem do que falam quando se refere o valor da amizade, isto é, essa cumplicidade prolongada de que somos depósito e memória. 
    Por fim, esclareço que "Cavalas e Chícharos" é um conjunto de poemas policopiados e distribuídos a amigos próximos no início do último Verão, entregue em mãos como súmula poética de um determinado período ou fase. Este foi o segundo após "Os Poetas Também Dançam", com cerca de três dezenas de exemplares sujeitos à boa vontade e desenho gráfico do Diogo Aguiar. Será que há duas sem três? E...a faina continua!

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Andar a Pé...

            "No meu passeio da tarde, gosto de esquecer completamente as tarefas que realizei de manhã e as obrigações sociais. Mas acontece. às vezes, não consegui sacudir de mim a civilização com facilidade. Os pensamentos à volta de algum trabalho correm na minha cabeça e não me encontro onde o meu corpo está - perco a consciência. Gostaria de voltar a estar presente. Que faço eu nos bosques, se a minha concentração foge para algo que não é o estar ali? Recrimino-me e não consigo evitar um arrepio quando me reconheço tão abstraído, mesmo se são nobres os motivos da abstração - o que, de facto, acontece com frequência."

Henry David Thoreau in Alma dos Livros.

"Vírus" de Inês Lourenço

Há uma tristeza inerme nos feriados,

um entrega do pulso das cidades

a um vírus insidioso 

habitante das janelas onde 

nada está para chegar 

ou para partir. Lá dentro cumpre-se o decálogo

dos cansaços. Cá fora perdemo-nos 

no planetário do asfalto, na vã arritmia

dos semáforos acesos. As fachadas 

transbordam de umbrais vazios

e as frontarias bancárias da Baixa 

semelham basílicas fechadas ao culto. À beira-mar 

grupos de catalépticos auditores da Bola 

oriundos de algum centro comercial 

passeiam filhos, esposas e animais de companhia

até às esplanadas da outra margem,

para regressos na fila de escapes do crepúsculo. 

in "Um Quarto com Cidades ao Fundo", Quasi edições, 2000.

"Curta Açores" na Ribeira Grande

       Primeiro dia do Curta Açores-Festival de Cinema da Ribeira Grande com um filme belo e surpreendente oriundo da Sérvia: "Moon Drops", do realizador  Yoram Ever-Hadani. Uma narrativa cinematográfica feita de engenho e amor, evidenciando aquilo que o cinema possui de mais fantasioso e imaginativo. O Festival abriu ainda com outra curta sintonizada com o tempo actual - "Lista", da brasileira Luciana Oliveira e com argumento de Gustavo Pinheiro. Uma curta sobre a solidão do tempo presente agravada por um vírus desconhecido e em que a esperança é a última a morrer. Um texto que vive da força  e representação da actriz  veterana com origens micaelenses, Lília Cabral. 

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Foguetório

Há uma violência feroz no ar e depois há o mar
diz a antena, o écran, talvez o radar
é tempo do sacrifício, ossos contínuos
do ofício, desafios, por fios silenciamos
anda ver arder em Agosto o nosso sol
como um desgosto todo o ano
ninguém ganha uma pátria por acaso
ninguém nasce aqui por engano
ter um país é ter uma casa e não
um acaso de que só agora acordamos
Os teus dedos dão o sinal
há uma mão que o teu cabelo penteia
o país do risco ao meio no mapa
pisa o chão e calcorreia sem limite
é esse o nosso único propósito
depositar esperanças no sol e no vento
correria louca dos santos e dos mártires
desperta em nós floração
Quem viu a semente ser lançada?
pequena lembrança de um gesto
um balão rebenta em cores
cavalo rosa move-se a planar
subirá, subirá, subirá
Há um miolo de festa na boca
coro entrelaçado de gente
cai no chão aquecido embrulhado
urgente despe-se à luz de um tecido
levanta-se o véu sem escarcéu
e teme esta secular resistência
defendendo o corpo a corpo
enérgico o toque do sono
dá toque a reboque e cresce
entrada tardia em cena
riso cândido não é derrota
é o carrossel da animação
há a rapidez ao rodar da estação
entrou o Outono terminou o verão
desce à tristeza vem à melancolia
caro contentamento do adeus, enfim,
vitória ao vento, bóias ao mar,
pintar o quadro romper o círculo
Como foi possível chegarmos aqui?
Trazemos duas tábuas nos braços
chove tanto em Penafiel
laço antigo guarda-chuva caído
janela entreaberta e espreitar
vestidos e cortinados à porta
um raio contínuo de luz que entra
o capacete barroco ilude a queda, a morte,
veloz tirania do tempo presente
impaciente volúpia que rasga
gradação incerta da luta
graciosidade humana da criação
explode em brilho até o foguete cair
Nós?
Existimos.

(texto escrito a 27 de Setembro de 2012, enquanto assistia ao espectáculo "Arraial" da companhia Circolando no Mosteiro São Bento da Vitória, com o sonoro apoio dos Dead Combo)

domingo, 5 de dezembro de 2021

Um Poema de Ana Paula Inácio

 A mesa é feia e baixa, a cozinha escura e alta.

E elas? São duas, mulheres, estranhamente longilíneas.

O tampo limpo. Os copos secos. A lâmpada mal enroscada.

A roupa a bater nos vidros.

Batem à porta. Deixa entrar. É só o vento. Deixa passar.

Amanhã é domingo.

in "Vago Pressentimento Azul por Cima", Setembro, 2020 (Porto, Ilhas).

sábado, 4 de dezembro de 2021

Obrigado, Pedro Gonçalves!

Neste Mar...

 Fontes hidrotermais                               
  28 espécies de mamíferos marinhos
  6 espécies de tartarugas marinhas
  560 espécies de peixes
  10 espécies de aves marinhas nidificantes 
 » 400 espécies de algas 
 »1000 de espécies de invertebrados 
                                               in Blue Azores 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

"notas sobre um naufrágio" de David Enia

"Alguém tentou remar, usando os braços por cima da borda. Alguém saltou para a água, tentando arrastar o bote a nado.
Um homem de quarenta anos aconselhou Bemnet a não se lançar ao mar, a não remar com os os braços, a ficar quieto, a poupar todas as suas energias, a não gastar forças.
Soou quase como uma ordem.
Bemnet decidiu dar-lhe ouvidos.
Alguém tinha a garganta tão seca que tossiu sangue.
Alguém, transtornado com sede, bebeu água do mar.
Verificaram-se as primeiras agonias, seguiram-se os primeiros vómitos, dentro e fora do bote.
Surgiram os primeiros casos de alucinação e os primeiros desmaios."

Edições Dom Quixote, 2021.

Série Novos Vizinhos: 4ªTemporada