sábado, 17 de agosto de 2024

Ainda Temos Amanhã de Paola Cortelesi

Ce Ancora Domani de Paola Cortelesi, 2023

           Ainda há surpresas, a certeza que o mundo do cinema continua a surpreender. Atente-se apenas ao cartaz e deparamo-nos com uma referência ao número de presenças nas salas de cinema, mas como se trata de cineclube tudo isso parecia passar ao lado. No final, perguntamo-nos pelo desconhecimento concreto deste filme, a tristeza relativa à ignorância deste objecto cinematográfico que muito circulou pela Europa. É, sem dúvida, um libelo poético pelo empoderamento e emancipação feminina, todo ele carregadinho de referências ao cinema italiano da reconstrução – a começar logo pela figura da Paola Cortelesi e as suas parecenças com a saudosa Ana Magnani. Agradecemos, por isso, o assombro, a ousadia e essa coisa italiana de tudo nos parecer sempre tão leve apesar de falarmos de coisas tão sérias. Este é, sem qualquer dúvida, o filme perfeito para ver e reflectir no mês de Agosto, pois ainda temos o amanhã.

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Da Pobreza

         "Gostava de salvar aquela ternura, a ternura com que a minha mãe me ajudava a fazer as malas quando partia de Barbastro para Saragoça naqueles anos, em 1980, em 1981, em 1982, as coisas que me punha dentro da mala, como me ajudava com a roupa, como me punha comida em frascos de vidro, e depois eu ficava a olhar para tudo aquilo e o desamparo vencia-me.
          Na realidade, tudo isto tem a ver com a pobreza. Era a pobreza - como éramos pobres - que me fazia tremer de medo. E deu-me para chamar ternura ao medo. 
        Se tivéssemos sido ricos, tudo teria corrido melhor, e essa é a verdade de todas as coisas.
         Se os meus pais tivessem tido dinheiro, tudo teria corrido melhor. Mas não tinham nada, absolutamente nada. A confissão da pobreza em Espanha parece uma imoralidade, algo repudiável, uma afronta. E, no entanto, é o que quase todos fomos.
         Fomos pobres, mas com pinta. 

Manuel Vilas, in "Em tudo havia Beleza - (Ordesa)", Alfaguara, 2018.

domingo, 11 de agosto de 2024

Best of 32ºCurtas: Sob o Olhar das Mulheres e Crianças!

          
That´s How I Love You, 2024
Mário Macedo
Agosto pode e deve ser o mês de esticar as toalhas e ler os livros guardados durante o ano para a canícula, no entanto é também o momento certo para ver ao ar livre o  Best of 32ºCurtas na Solar, Galeria Cinemática, em Vila do Conde. Sentados, em plena noite estival, com a previsão de 65 minutos, foram, assim, desfilando, em écran gigante, os filmes que obtiveram melhor acolhimento por parte do júri e do público presente nos idos da edição do Curta de Vila do Conde, em Julho.
      A sessão abriu com That´s How I Love You, uma curta-metragem com origem na Croácia e realizada pelo português, Mário Macedo, que narra a história das férias dum neto junto dos avós na aldeia onde estes vivem. O vencedor do grande prémio contém planos fixos bem definidos, personagens credíveis  e uma tensão narrativa permanente, a curta é terna e cativante até ao seu terminus. O mundo dos adultos e o seu legado é aqui visto sob o olhar de uma criança, os seus receios e a sua vontade de pertença, a pedir um crescimento atento, dialogante, ainda que sempre doloroso. Não terá sido sempre assim? Seguiu-se Rinha, curta-metragem de Rita M. Pestana, prémio de melhor filme, todo ele passado em Belo Horizonte, Minas Gerais. São vinte e três minutos mergulhados no submundo das lutas de galos e na vida de personagens desesperadas. Aqui é o cuidado e persistência associados ao feminino, sentimento explícito de  preservação e manutenção do mundo antigo a funcionar. Seguiu-se depois Percebes de Alexandra Ramirez, Laura Gonçalves, uma animação portuguesa (Prémio do Público), sob a forma de tributo ao crustáceo mais popular da região algarvia. O filme de grande investimento visual e gráfico é feito em forma de coral narrativo por todos os que apanham e vivem de tão importante iguaria. A sessão terminou com Blhec, prémio do público na competição internacional. Trata-se de uma animação divertida sobre o poder do beijo entre os humanos e a  curiosidade que este desponta nos mais novos, isto é, nas crianças que lidam com o desplante de pôr os lábios a brilhar, a cada investida que avistam. O filme de Loïc Espuche seria o mais leve e divertido nesta noite de cinema ao ar livre com lua nova. 

terça-feira, 6 de agosto de 2024

Solar: Cinema ao Ar Livre

Percebes de Alexandra Ramirez, Laura Gonçalves
Best of 32ºCurtas Solar - Galeria Cinemática
10 de Agosto, 21h30


quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Filmes para a Canícula

       O Verão é a estação ideal para ver cinema, tanto no interior como no exterior. São, por isso, muitas as propostas de associações, autarquias e instituições culturais que pretendem pôr em destaque a atualidade e diversidade cinematográfica. 
    Desta feita, o Cineclube Octopus apresenta, hoje, o filme "O Bêbado", de André Marques, com as participações dos atores principais Victor Roriz, Ina Esanu, contando ainda no elenco, Teresa Madruga, Jorge Vaz Gomes, David Pereira Bastos, para lá de uma banda sonora composta por A Winged Victory for the Sullen, ELM, Gareth Dickson, José PinhalHumanos.  Esta obra tem a duração de 120 minutos e foi rodado totalmente na cidade de Setúbal. 
      Uma outra novidade, mais lá para o final do mês, é a apresentação de "Três Haikais, Um Peixe Surfista e Uma Canção de Amor para o Areal", na edição do Fuso Lisboa, no espaço da Duplacena, no Regueirão dos Anjos. Após Ribeira Grande, Terceira, São Jorge, Corvo, Santa Maria, Póvoa de Varzim, chegou a vez da capital. Um bem haja a quem tem ajudado a circular este pequeno poema visual com origem em São Miguel, Açores.

Da Escola

      "Uma verdadeira escola é um lugar onde se treina a prestar atenção às coisas do mundo e aos outros."
Frei Bento Domingues, in Público, 28 de Julho de 2004.

quarta-feira, 24 de julho de 2024

Da Originalidade

      "Quando me tornei artista profissional, muitas vezes dava por mim a perguntar-me: "Porque é que os artistas no geral, têm tendência a copiar-se uns aos outros?" E na verdade é apenas porque a fórmula funciona. Se quiseres fazer algo único e original, tens de ganhar dinheiro. Por isso é que as editoras querem fazê-lo, porque é um grande risco. E quando tens um negócio, tens de pensar em termos de risco. Querer ser original é uma raridade, por isso tento tento ter uma  perspectiva exterior, para ver as coisas e pensar: " Ok, isto faz sentido". Enquanto pessoa acho estranho. E dou por mim a pensar que se os artistas se dedicassem a fazer algo único, a desenvolver a sua obra original, talvez mais facilmente eu fosse aceite. Ao mesmo tempo, compreendo que isso fica caro, por isso entendo perfeitamente."

Entrevista a Benjamim Clementine, por Lia Pereira, revista Expresso, 19 de Julho.