terça-feira, 30 de setembro de 2025

Por Onde Anda a Alma da Cidade?

            "(...) O que falta a esta cidade de escassas duas centenas de milhar de habitantes e um número indeterminado de população flutuante? (cálculo da polução residente nas freguesias urbanas segundo o censo de 2021). Falta-lhe visão e planeamento urbano. Falta-lhe vida económica e cívica. Falta-lhe habitação a custos acessíveis. Falta-lhe uma política cultural que ultrapasse o mero entretenimento, projectada para a criação artística e para a valorização do património. Falta-lhes espaços verdes de proximidade. Falta-lhe educação, participação democrática, bem estar e desenvolvimento ético como única via para "curar" a cidade por meio da "alma" dos seus cidadãos." 

Isabel Soares de Albergaria in Avenida Marginal:Re(imaginar) Ponta Delgada, Artes e Letras Editora, Agosto de 2025

Avenida Marginal: (Re) Imaginar Ponta Delgada

        O nº6 da revista Avenida Marginal é, toda ela, dedicada a Re(Imaginar Ponta Delgada, e acaba de ser apresentada em Setembro com um conjunto de ensaios sobre a maior cidade insular. Esta súmula de textos/ensaios, para além das fotografias de Andrea Santolaya (capa) e Paulo Bettencourt (interior), permite-nos uma longa reflexão e perspetivas várias, umas esperançosas, outras nem tanto. 
       São, portanto, várias as visões, sobre esta cidade que reflecte tensões antigas sobre a sua identidade bem como conflitos e anseios criados pela nova economia gerada pelo turismo. Os autores dos textos são: Francisco Monteiro da Silva, Isabel Soares de Albergaria, Jesse James, Joana Borges Coutinho, João de Melo, João Mendes Coelho, Maria Emanuel Albergaria, Nuno Costa Santos, Paula Cabral, Pedro Arruda e Rui Pedro Paiva. O seu preço de capa é 15 euros. 

Claudia Cardinale (1938-2025)

A Rapariga da Mala de Valerio Zurlini 
Daqui: wikimedia Commons
 

terça-feira, 16 de setembro de 2025

CAC: Um Sábado na Criação!

Lourdes Castro: Existe Luz na Sombra

       Os sábados são propícios à conversa, à escuta, e é Denise Pollini que vai soltando exemplos de projetos artísticos com participação pública, tais como os “Domingos da Criação”, em plena ditadura militar brasileira no final dos anos 60, por Frederico Morais, à altura crítico e curador do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Fomos também passando os olhos pelo trabalho de Elvira Leite nos idos anos 70, no largo de Pena Ventosa, no Bairro da Sé, no Porto, com fotografias de crianças e jovens a desenhar e pintar nas ruas ou construir carrinhos de rolamentos ou ainda a performance The Crystal Quilt (1985-1987), da artista Suzanne Lacy, para nos lembrar que os idosos existem e que nem sempre a arte foi tão institucional. Ela trouxe, por isso, o conceito de Comuns, em que fala da partilha de recursos e da criação colaborativa de conhecimento, tão necessária nos dias que correm.
      Uma manhã que logo daria lugar à tarde com a inauguração, nos vários espaços do Arquipélago, Centro de Artes Contemporâneas, da exposição “Lourdes Castro: Existe luz na Sombra”, com a curadoria de Márcia de Sousa. É uma mostra extensa da artista madeirense que nos deixou em Janeiro de 2022, não faltando ali praticamente nada sobre a vida e obra de uma mulher talentosa que marcaria de forma indelével a arte portuguesa do século XX. É uma exposição vibrante – como são belas as capas da revista KWY ou as serigrafias do seu herbário! – ou ainda todas as suas frases e bolbos espalhados pelas celas daquele espaço. Certamente que um dia não chegará para nos abrigar de tanta sombra!


domingo, 14 de setembro de 2025

Yuzín: Setembro está aí!


      O mês já vai a meio mas é sempre bom tê-la por perto. A Yuzín éuma agenda dos eventos culturais que se acontencem em São Miguel e em Santa Maria, destacando também figuras da cultura regional. Como não seria de esperar outra coisa, deu destaque à inauguração da exposição "Existe Luz na Sombra", no Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas, na Ribeira Grande, dedicada à artista madeirense Lourdes Castro, bem como, lá para o fim do mês, à Bienal do Walk and Talk, este ano sob o tema de "Gestos de Abundância". 

Os Transportes....

       "A pesquisa foi realizada entre Maio e Setembro de 2024 e contou com 833 respostas válidas, abrangendo as Ilhas de São Miguel, Terceira e Faial.
  Em São Miguel, que representa 35,8% das respostas, as principais preocupações dos inquiridos em relação ao turismo prendem-se com a necessidade de melhorar a rede de transportes públicos, reduzindo a dependência do aluguer de automóveis, e de limitar o acesso de não residentes a determinadas zonas balneares, como a Ferraria. (...)
    Na Terceira, que representa 32,8% das respostas, os residentes destacam também como prioridades a melhoria da rede de transportes públicos, com mais rotas e horários, e a necessidade de supervisionar o desenvolvimento turístico da ilha(...)
     Já no Faial, que corresponde a 31,8% das respostas, as maiores  preocupações prendem-se com a melhoria da rede de transportes públicos e a supervisão do desenvolvimento turístico da ilha, a limitação do número de turistas na época alta  com a promoção da época baixa e com a formação de profissionais do sector (...)"

                             in Açoriano Oriental, 10 de Setembro de 2025

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

24 Hour Party People: Saudades de Manchester!

     Num lugar público que passei a frequentar, encontro o DVD de "24 Hour Party People", de Michael Winterbottom, editado em 2002. Aparentemente intacto, envolto num plástico, com um aviso na parede - "Pode levar, 0 euros". Ao pensar em rever o filme, penso na forma de convertê-lo em ficheiro sem ter que recorrer a Compact Disc, pois já não o possuo. Dou por mim a pensar na emoção registada aquando de ter visto o filme pela primeira vez e na sensação de ter, à distância, imaginado a festa que foi o aparecimento deste movimento musical de Manchester. "Madchester" caracterizou-se pela mistura de vários estilos musicais que ia do rock alternativo à dance music, com laivos de indie rock e psicodelia, tudo servia para celebrar esses anos loucos que durariam cerca de duas décadas. Tony Wilson, aqui representado por Steve Cogan, é o impulsionador deste foguete de largo espectro que revolucionaria a música pop e a edição (que saudades da Factory!!!), no fundo Wilson foi um visionário, um sinalizador ou caçador de de talentos que colocaria para sempre a cidade de Manchester no mapa da cena musical. O filme acabaria por retratar essa efervescência - vivida e sentida no Club Hacienda - mostrando o ambiente divertido e frenético dessa aventura. Passados tantos anos, ainda hoje há ecos dos Joy Division, New Order, Clash, Buzzcocks, Durutti Column ou mesmo dos Certain Ratio. Vamos já ouvi-los! 

Ontem, escrito numa parede da cidade

 Andes por onde andares virás sempre morrer à quebrada 

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Misericórdia de Lídia Jorge

       Misericórdia retrata o diário do último ano de vida de uma mulher idosa num lar, de seu nome "Hotel Paraíso". Lídia Jorge escreve sobre esta mulher sem grande mobilidade física e os detalhes  das existências em redor. A escritora tece, assim, um testemunho sobre a velhice e a experiência humana de quem já só pode contemplar o mundo a partir de uma morada inventada, pois tal como diz a narradora: "Exílio. Não há mais nada que seja só meu, nem o meu corpo, nem o meu espírito."

O Jornal de Rui Frias

Fotografia de Mário Cruz, Lusa. 

   «Bob Woosward e Carl Bernstein impactaram os jornalismo como Pelé o futebol, os Beatles a música. É deles o gol de placa dos jornais, a mais famosa investigação jornalística da história. O Watergate tornou-os «mais populares do que Jesus Cristo» (tal como se sentia John Lennon no auge da Beatlemania) entre os aspirantes a jornalistas. E serviu para cristalizar a ideia de uma profissão capaz de fazer cair até o presidente da mais poderosa nação do mundo.»

in O Jornal, de Rui Frias, Retratos da Fundação, Fevereiro de 2025

No Jornal Público de hoje...

 

domingo, 31 de agosto de 2025

Burning Summer: África Minha!

     
     A pergunta impunha-se: como chegar a Porto Formoso? Tudo começa com um autocarro da CRP que faz a carreira diária que nos deixa mesmo à entrada da freguesia. A partir daí estamos entregues à natureza e à música, num cartaz que se mantém maioritariamente africano. 
Destaque-se no primeiro dia, dia 29, os concertos do agrupamento caboverdiano Mário Lúcio and The Pan African Band e dos Santrofi, oriundos de Acra, no Gana. O antigo ministro da cultura de Cabo Verde, sempre vestido de branco, provou que continua aí para as curvas. Mário Lúcio tem um crioulo bonito tal como a sua música é uma balança carregada de ondas, ora batem com agitação ora acalmam águas profundas. Os Santrofi trouxeram de forma competente ecos na nova cena musical da capital ganesa. No segundo dia, 30, assistimos ao concerto memorável de Dino Santiago & Os Tubarões, bem como de Bonga, que continua irrepreensível com o seu semba, nada falha, mesmo com a sua longeva idade. Por último, a cantora guineense Fattu Diakité que impressionou pela imponência da sua voz e uma presença magnética em palco. 
        Onze anos depois, o Burning Summer continua mais valioso que nunca, não só pela sua diversidade musical como também pelo enfoque especial que é dado à música de Cabo Verde, país onde brotam músicos e músicas em cada esquina do arquipélago.
       Uma referência, por fim, à utilização das casas de banho no interior do recinto dada a inutilidade da sua diferenciação entre os sexos, pois já não faz sentido a filas sem fim no que toca ao acesso feminino, ou já para não falar das senhas que ficam por consumir por falta de aviso do fecho do bar.