terça-feira, 24 de maio de 2016

Amanhã, na Galeria Miolo, pelas 21 horas

Fotografia de Carlos Olyveira

        Depois de uma primeira apresentação em que não coube mais ninguém, chegamos, inclusive, a pensar repetir no próprio dia, iremos voltar à Galeria Miolo na noite de amanhã, quarta-feira, dia 25 de Maio, pelas 21 horas. O João Malaquias vai assim afinando o texto e repetindo de forma sistemática as suas repetidas derivações: “Será que podes controlar o que os outros pensam de ti? Não. Não podes controlar o que os outros pensam de ti. Não podes. Podes é parar de pensar sobre isso, pois podes. À tua frente, um espelho para olhar. Fixas o teu olhar no espelho. Espelho que em latim se diz speculum. Eis o teu reflexo nesta distância que vai de ti aos outros. Devolve-te agora uma imagem que julgas ser autêntica, verdadeira, real. Um espelho inclemente que te diz que vais envelhecendo a cada dia que passa.” Ao Vitor Marques e Mário Roberto, responsáveis pela Galeria/Editora Miolo, e  ao público e restantes pessoas que têm acarinhado e apoiado este monólogo, produzido enquanto espectáculo por apenas seis euros, champanhe incluído, o nosso mui obrigado!

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Missiva de Janeiro Alves neste Maio Maduro

Caro Dr. Mara,

À excepção do envio dos inevitáveis filetes de peixe, todo o conteúdo da última carta que lhe remeti no dia 1 de Abril não passou de um mero exercício de ficção, em nada correspondendo à verdade. Espero que tenha apreciado.
Gostaria de lhe dar uma explicação sobre o quadro subtraído da exposição da nossa amiga Miriam Manaia. Tratou-se de uma cabala, meu caro. Foi recolhido por um indivíduo que se fez passar por Janeiro Alves, mas que na realidade fazia parte de uma ala extremista da Máfia Russa sedeada em Volgogrado. Os meus capatazes puseram-me em contacto com o cabecilha, com quem encetei complexas negociações. Naquela mesma semana viajei para a Rússia com o objectivo de resgatar a obra de mãos criminosas, e a missão foi um sucesso. Não consegui trazer o quadro, mas fiz muitos amigos e diverti-me bastante por lá. Fui muito bem tratado, e no final ainda fui presenteado com um conjunto de bonecas russas em porcelana e duas garrafas de vodka.
Esclarecido este ponto, queria partilhar consigo o facto de me encontrar agora num período de reflexão, e de ter regressado à jardinagem. A complexa e fascinante geometria das plantas fornece-me concisas indicações de conduta, e alegres ilusões de beleza e proporção. No final, a frescura da erva cortada e dos ramos podados cintila no ar, e a passarada precipita-se harmoniosamente pelo jardim, comemorando uma espécie de libertação das trevas. Acredite Dr. Mara que este retiro me tem fornecido o vigor mental necessário para regressar com toda a pujança ao implacável relógio suiço que é a cidade onde vivo.
Mas deixemos para trás os pequenos trechos de quotidiano que salpicam a trajectória disforme da minha luta, e foquemo-nos em aspectos mais relevantes, e que têm a ver com a sua individualidade. Dir-lhe-ei desde já que me chateia, já para não dizer que me aborrece, o facto de saber de si sempre por interposta pessoa. Sei tudo sobre si, Dr. Mara, pese embora o facto de pouco me contar. Sei que anda muito ocupado na escrita, que escreve para cinema, para teatro e mais além, para si ou para alguém, de noite e de dia, à excepção de comer e beber, já não pára de escrever. Dizem-me que o vêem de vez em quando a passar meio apressado, com a barba por fazer, e com papéis a esvoaçar dos bolsos do seu casaco. Este seu invejável fulgor na escrita seria para mim motivo de regozijo em toda a plenitude do termo, não fosse a preocupante circunstância de o terem visto a entrar no consultório de um psiquiatra. O que se passa consigo Doutor Mara?

Com a mais profunda amizade,

Janeiro Alves

sábado, 21 de maio de 2016

Mar

Faz-se chamas com a fúria cava
de uma onda ou a táctil cobertura
de uma espuma

Começa em silêncio, embalando
uma canção de dentro, chamando
para a distância a promessa do reverso
afundado do mundo

Se digo mar
falo do homens que não passam
de sobras esquecidas para quem o destino
ilude, com um mais do que desesperado brilho
o recorte de um pesadelo
E acabam
com os corações
pescados ao largo de Lampedusa.

E não sei – nem sabem estes versos -,
como deixar que não seja o mar,
com o mesmo som sem lamento e sem delírio,
que traga mais ruína
à memória com que ainda se escreve Europa
enquanto regressa e acentua
a diferença entre tempo e eternidade
e me encontra à espera da manhã
a sua superfície em frente,
como se olhasse através do fim.

Rui Miguel Ribeiro, in “Mar”, livro de fotografia de Tiago Miranda.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

“Podemos Controlar o que os Outros Pensam de Nós?” na Galeria Miolo

João Malaquias por Carlos de Olyveira
Sete anos após aqui amarar, o texto “Podemos Controlar o que os Outros Pensam de Nós?” foi a terceira proposta teatral, ou leitura encenada, se assim lhe quisermos chamar, realizada nestas andanças pelo arquipélago dos Açores. Decorria o ano de 2011, quando se deu a dramatização do texto poético intitulado “O Olhar de Uma Inatingível Ternura”, contando, à altura, com os gestos e as vozes de Ana Sequeira e Tiago Silva, a interpretação e criatividade musical de João Silva, os desenhos de Daniel Seabra Lopes e Isabel Lhano, ainda os vídeos de Aurora Ribeiro. A representação/ evocação do texto punha em cena a relação imaginária e afectiva entre um expectador e a actriz fetiche de Ingmar Bergman: Liv Ulmann. Este texto foi apresentado por duas vezes, uma na Biblioteca da Horta e outra na Fábrica da Baleia. Enquanto curiosidade, este texto seria mais tarde traduzido para norueguês pela Kristina Kvile, ainda que nunca tivesse sido lido pela actriz norueguesa. A segunda dramatização de novo texto ocorreu em Fevereiro de 2014, na Travessa dos Artistas, com a representação do capítulo “Futurofagia”, a partir da súmula das “Charlas Quotidianas do Doutor Mara”, que contou com as participações dos actores João Malaquias e Judite Fernandes bem como as ilustrações do artista plástico Luís Brum. Muito embora a mudança de ilha, três novos capítulos das “Charlas Quotidianas do Doutor Mara”-"Ginecomagia","Tarantorerapia" e "Enomátria"- foram postos nas tábuas do palco, desta feita no Auditório ao Ar Livre da Biblioteca Municipal da Horta, com as interpretações de Tiago Vouga e Aurora Ribeiro, replicando a representação por mais duas vezes e para uma audiência de 150 pessoas nas diferentes actuações. Este espectáculo chegaria, entretanto, à cidade de Ponta Delgada em Janeiro deste ano, para somente uma apresentação na Galeria Arco 8. Uma noite de sala cheia e boas memórias. Desta feita, ontem, na Galeria Miolo, no centro histórico de Ponta Delgada, com a interpretação de João Malaquias, foi a vez de apresentar o monólogo teatral“Podemos Controlar o que os Outros Pensam de Nós?”

Daqui a instantes...


segunda-feira, 16 de maio de 2016

"Pulsos Fistréticos - Contos Maléficos" de João Habitualmente

Companhia das Ilhas, 2016.
São várias as histórias/contos que povoam este universo de João Habitualmente, editado agora pela Companhia das Ilhas. Os títulos deste “Pulsos Fistréticos - Contos Maléficos” anunciam várias narrativas: “Leocádia, a Streaper Rural”, “Desidério, o Filósofo do Planalto”, “Antenor, o Combatente da Esperança”, “Oleksiy, o Trapezista do Betão”, “Depois dos Diálogos com o Musgo”, “Train Trip”, “Do Outro Mundo”, “Últimas Palavras”. São 160 páginas de puro deleite narrativo e prazer da leitura, tal como se pode ler em “Oleksiy, o Trapezista do Betão”: “Às quatro em ponto parou para beber água. Miríades de gotículas formavam um diadema aquoso por toda a testa. Descontraiu-se, expandiu o olhar pelos campos em redor. Daquela altura podia vê-los a desdobrarem-se em tons amarelados até à linha da costa. Em paz contemplativa, espraiou-se no andaime como quando, nas noites de friagem de Zaropigia, se reclinava no sofá a aquecer a vodka na crepitação da lareira. Da carcaça do edifício brotava agora a dolência melancólica dum fado, bruscamente interrompido pelo sinal horário. «São 16 horas no continente e na Madeira, 15 nos Açores». Onde seriam os Açores?”. Boa malha!

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Una Donna...

Una Donna in Vacanza è bella

Una donna in vacanza è bella
Porta il calendario incerto della bellezza
E i principi disciplinati della passione
A volte a mezzogiorno sulla sabbia si risveglia
L'orologio biologico delle frasi calcolate

Una donna in vacanza è bella
Una donna in vacanza è troppo bella
Racconta storie incredibili, improbabili
Nasconde la schiuma come onde all'alba
E, infine, conserva la cera che brucia durante gli addii.

Una Donna Arrabbiata è Bella

Una donna arrabbiata è bella
Assorbe fiele come onde agitate
Nasconde scatti di luminosità e di calma
Riconosce il piccolo dolore e il grido
Accumula incisioni e forte riluttanza
Incoraggia l'esistenza senza paura
la casa accesa e la fortuna dovuta

Una donna arrabbiata  è bella
Una donna arrabbiata è troppo bella
Impaziente conserva nella memoria le risate
Rischia dall'alto della luce sovrastante
Si prende cura della paura senza rivelare la storia
Dialogo continuo tutta la notte  
E si rafforza nei sogni reticenti
allontanandosi dall'eccessivo  trambusto.

-Versões de "Uma Mulher em Férias é Bonita" e "Uma Mulher em Fúria é Bonita" vertidas para a língua de Dante com a colaboração de Eva Giacomello. 

Regras do Jornalismo

    “Se fizesse ideia da relação pecuniária entre Carlos Santos Silva e José Sócrates teria feito perguntas por considerar a situação, no mínimo, eticamente reprovável. Mas nunca, desde novembro de 2014, fui questionada, por qualquer dos media que, aos longo de quase ano e meio, me tentaram implicar no caso, sobre o que eu sabia. Nem um pedido de esclarecimento, de entrevista, um questionário. Nada. Como interpretar isto? As regras do Jornalismo (se quisermos fingir que achamos que certos órgãos praticam jornalismo) são claras quanto à obrigatoriedade de ouvir as partes interessadas.”

Fernanda Câncio, revista Visão, 9 de Maio de 2016

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Jorge Kol na Galeria Miolo

exposição de fotografia "Uma Mancheia de Circunstâncias de Independência",  de Jorge Kol de Carvalho, abre hoje ao público, quinta-feira, pelas 18 horas, na Galeria/Editora Miolo, na cidade de Ponta Delgada, Ilha de São Miguel. Trata-se de um conjunto fotografias que tem como referência uma parte recente da História dos Açores, mais concretamente os movimentos autonomistas e independentistas que se lhe seguiram, essencialmente no pós-25 de Abril de 1974. As fotografias, todas elas com a presença de um busto de um homem com a mão ao alto, sob o signo do discurso de independência, mostram essa imagem espalhada por vários lugares: paredes de casas, edifícios oficiais, casas particulares, muros brancos, materiais públicos, etc. O fotógrafo interroga de forma apelativa e estética o discurso revolucionário contido na imagem principal bem como os códigos citadinos associados associados à sua representação. Jorge Kol apresenta-nos uma crítica mordaz e irónica e, por isso, dialoga muito bem e de forma bastante inteligente, com os lugares de todos os dias, evidenciando um campo aberto de perspectivas e sentidos para nos re(vermos) e pensar (mos). A ver e visitar até dia 3 de Junho.

"Fome de Vento" de Medeiros/Lucas (com Tó Trips e Filho da Mãe)

Primeiro tudo é boca
E dela o trago sorvido

Depois o mundo cresce
E nasce o sonho vivido

De pés e mãos andantes
O corpo quer ser vivido

Depois do ventre o norte
E vontade do sentido

Desde o fundo do tempo
O Homem vê-se sofrido

Depois o peito embate
E tudo se faz cumprido

No fim silêncio ouvido
E nele o jogo vencido.

Letra de João Pedro Porto