sábado, 19 de novembro de 2016
Morte ao Meio Dia
No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça
Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul
Que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol
No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente
E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol
Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?
Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento
O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia
A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer.
Ruy Belo
sexta-feira, 18 de novembro de 2016
quinta-feira, 17 de novembro de 2016
terça-feira, 15 de novembro de 2016
Bilhete
Fui-me embora, não esperes por
mim.
Se alguém der pela falta, diz
apenas
que estou bem, continuo a fazer o
mesmo
de sempre, trabalho, casa,
trabalho, casa.
Só não mintas às filhas, diz-lhes
que fui
procurar na distância outra forma
de solidão,
talvez convencido de que longe de
tudo
poderei vir a sentir falta do que
já tenho.
Henrique Manuel Bento Fialho in Estação 2012
segunda-feira, 14 de novembro de 2016
domingo, 13 de novembro de 2016
Leonard Cohen: Dançar até ao Fim do Amor...
“Dance me to your beauty with a
burning violin/Dance me through the panic till I'm gathered safely in/Touch me
with your naked hand or touch me with your glove/Dance me to the end of
love/Dance me to the end of love/Dance me to the end of love/Dance Me To The
End Of Love”
sábado, 12 de novembro de 2016
Ama San de Cláudia Varejão
![]() |
| Ama San de Claudia Varejão |
É sábado em Rabo de Peixe e há
sessão de cinema no Cine-Teatro Miramar. Nas ruas e soleiras das portas ali estão as mulheres
e as crianças nos seus espaços de sociabilidade desta pequena freguesia
micaelense. Hoje há filme de Claudia Varejão e são poucos os que dali se
interessam ou ouviram falar do que iremos ver. As imagens do filme irão
levar-nos para o Japão contemporâneo, pois numa ilha remota existem mulheres de
diferentes faixas etárias que mergulham em apneia à procura de moluscos (abalones),
vivendo as suas vidas aparentemente simples e harmoniosas, num contacto diário
com a natureza.
Cláudia
Varejão transporta-nos de forma delicada para uma tradição ancestral, ainda que
patriarcal, mostrando-nos as relações laborais e quotidiano, o espaço doméstico, a diversão
e a intimidade destas mulheres. São raros os momentos em que nos sentimos a invadir privacidade alheia, sendo cúmplices dessa rotina dura, austera e organizada e, talvez por isso, este filme é tão cheio de beleza e
fortuna. Agradecidos à residência do Pico do Refúgio pela oportunidade e
parabéns à cineasta pela partilha.
sexta-feira, 11 de novembro de 2016
quarta-feira, 9 de novembro de 2016
Down By Law : 30 anos.
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| "Vencidos pela Lei" filme de Jim Jarmush |
Podia parecer uma homenagem aos
Irmãos Marx, podia, mas não é, anda lá perto. Antes deste filme, já se tinha avistado no
cineclube Octopus o filme “Para além do Paraíso”, a recordação duma pequena audiência
extasiada e uma outra contida na afirmação do entusiasmo. Para lá do John Lurie,
Tom Waits e Roberto Begnini havia também a estranheza, a escuridão, a música e
a melancolia. Ninguém ficou indiferente ao ambiente sujo e negro de uma
América por descobrir. Jarmusch só ele sabia como ironizar com a natureza humana em “Down By Law” e
apercebemo-nos que não há injustiça sem humor, ainda que nos doa. A raiva e a incompreensão podem e devem ser contidas, diz-nos, dado que há sempre uma escapadela ou outras formas "imaginárias" de contornar a lei e a iniquidade de tratamento. Um filme para rever se a chuva voltar.
segunda-feira, 7 de novembro de 2016
Rabo de Peixe – Viver de “costas voltadas para o mar”
![]() |
| (retirado do sítio da FAUP) |
Muitas das habitações sociais
construídas não tiveram em conta os hábitos dos seus moradores e mesmo a
estrutura dos seus agregados, muitos deles famílias numerosas, e o edificado
acaba por ser modificado pelos próprios, numa tentativa de o adaptar a
necessidades como, por exemplo, a de áreas para arrumo de apetrechos de pesca,
explica Inês Rodrigues. E as ruas, na parte mais densa da localidade, continuam
essencialmente a servir essas ligações locais, fechando esta zona da vila, e os
respectivos moradores, sobre si próprios, numa guetização assumida no próprio
nome do projecto financiado pelos fundos do EEE – Velhos Guetos, Novas
Centralidades – que, na perspectiva da arquitecta, não chegou a ser resolvida.”
Abel Coentrão, in Jornal Público, 6 de
Novembro, a propósito do livro “Rabo de
Peixe – Sociedade e Forma Humana”, de Inês Vieira Rodrigues.
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