sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Soneto 5

As horas em terno ofício emolduraram
Essa face gentil onde o olhar se demora
Hão-de ser as tiranas de si mesmas, as horas,
Como da fealdade que a perfeição supera.
Pois não repousa o Tempo, antes guia o Verão
Ao temível Inverno, para aí lograr;
A seiva enregelada, as folhas sem fulgor,
Soterrada a beleza, e em vez, desolação.
Assim, não fora a essência do Verão conservada,
Líquida prisioneira entre vítreas paredes,
O fruto da beleza por ela era roubado
E nem memória havia de beleza que fosse.
   Mas a flor, no Inverno, perde só a aparência,
   Sobrevivendo, doce, o que lhe deu substância. 


William Shakespeare, “31 Sonetos”, Tradução de Ana Luísa Amaral, Relógio D´Água.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

2ºDIA


Arquiteturas Film Festival 2016

Penúmbria em São Miguel

Fotograma de Penúmbria de Eduardo Brito
      Penúmbria teve, ontem à noite, a sua apresentação junto do público de São Miguel, inserido no Arquiteturas Film Festival. Trata-se de um pequeno filme de nove minutos que nos devolve em imagens, música (Joana Gama) e palavras a magia do cinema. Eduardo Brito, conhecido enquanto fotógrafo e argumentista, transporta-nos, suavemente e sem mácula, para esse seu universo de imaginação e fantasia. O resultado é eficaz dado que há espetadores que acreditaram na verosimilhança daquele lugar. A curta insere-se assim nesse mosaico criativo do autor, essencialmente associado às “Terras Últimas” e demais "Finis Terras", que ultimamente lhe interessa explorar. Com uma narração firme, plena de humor negro, ainda que escorreita e sombria, este filme é, também ele, um gesto e propósito arquitetónico que nos sugere a possibilidade de habitá-lo.  

A famosa capa de chuva azul


"It's four in the morning, the end of December
I'm writing you now just to see if you're better
New York is cold, but I like where I'm living
There's music on Clinton Street all through the evening."
Leonard Cohen

in"Famous Blue Raincoat" que se encontra no disco "Songs of Love and Hate", gravado no ano de 1970 durante os meses de Agosto e Setembro, editado apenas na Primavera do ano seguinte. Trata-se portanto do terceiro álbum de originais do cantor canadiano recentemente falecido.



segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Andar de Cima

De vez em quando as coisas acontecem,
subimos as escadas do prédio
e às vezes tropeçamos, deixamos
cair o saco das compras e as tangerinas 
rolam pelas escadas a baixo,
ou rolamos nós pelas escadas a baixo
e quando paramos estamos no meio da rua,
fora da ternura, fora do tecto.

in "Casas" de Miguel Castro Caldas, Livrinhos de Teatro, Artistas Unidos, edições Cotovia.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Livros Sobre a Mesa de um País por Desvendar

Fotografia de Carlos Olyveira
Livros sobre a mesa: “ensaios” e “dissertações” de contemporâneos curiosos e atentos ao que se passa em seu redor. Letras lidas por entre cafés e dois dedos de conversa, desse prazer da leitura renovado e, talvez por isso, também acessível à(s) carteira(s).  Neste “Movimento Perpétuo – História das Migrações Portuguesas”, Ana Cristina Pereira acrescenta informação e dá achegas curiosas para esse retrato infindável de um povo viajante em tão redundante constação: “Em Portugal aprende-se depressa que as pessoas não são árvores. Não têm raízes como os plátanos ou as tulipeiras. Aquilo a que se chama território nacional é uma multiplicação de pontos de partida e de chegada. Há dez milhões de pessoas dentro e 2,3 milhões de pessoas fora. Um mapa múndi que se desenha amiúde, por força da necessidade feita vontade”. Será que é mesmo assim? Continuamos a ser empurrados para fora, como se não houvesse alternativa? E, mesmo assim, há que continuar a ler sobre o mar, ou então sobre os nossos pescadores, essa “raça” essencial de um povo, entender porque fazemos parte deste processo misterioso de estar vivo, na esteira de Raul Brandão. Escreve Filipa Melo, numa das páginas de “Os Últimos Marinheiros”: “Os tempos e os homens mudam, mas o fôlego cego e vivo do mar, não. Percebemo-lo à proa, quando ainda no escuro o hálito salgadiço no envolve e o vento, cúmplice, parece puxar-nos para dentro da boca vasta da água em volta. Ali, na ponta do vante, no topo da proa, seguiam, nos navios antigos, as carrancas e os leões da barca. Homens, mulheres, animais ou deuses, esculpidos em madeira maciça, cravados pela cintura no navio. Cortavam com alento o bafo salgado, como se desafiassem o desconhecido”. São leituras como estas que ajudam a compreender esse mosaico de um país que sabemos ainda por desvendar. Precisaríamos de saber ainda muito mais sobre a comunidade cultural e histórica onde vivemos. Estes livrinhos soltos, desempoeirados, pequenos fragmentos sobre o estado das coisas trazem a chancela da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Ainda bem, agradecidos pela leitura e pela beleza de nos sabermos atentos e, por sinal, bem  vivos. 

Ontem, escrito numa parede da cidade

-Esta música eu já conseguiria dançar...

Dezembro à Beira Mar

Fotografia Carlos Olyveira

sábado, 3 de dezembro de 2016

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Penúmbria no Teatro Micaelense

Fotograma de Penúmbria de Eduardo Brito
Penúmbria venceu a edição deste ano do Arquitecturas Film Festival. O filme de Eduardo Brito será exibido, dia 7 de Dezembro, às 21h30, no Teatro Micaelense. Escolhemos o fim de Novembro para conversar com o autor do filme antes da tão aguardada exibição.
Douta Melancolia: No início escutamos na narração: “A verdade é que Penúmbria sempre fora um fim de terra desde a sua fundação, há cerca de duzentos anos. O lugar ficou a dever o nome à sombra permanente, provocada por uma montanha alta e circundante no seu extremo sul.” Que sombra é esta que poderá habitar no espectador deste teu filme?
Eduardo Brito: É a sombra de um local que foi um erro. Ou seja, de Penúmbria, uma cidade imaginada como muito triste: má localização, atmosfera e clima; mas também cidade onde nada floresce. Daí que - premissa inicial do filme - a sua comunidade decide ir-se embora dali, assinalando o lugar como uma distopia. Noutro plano, talvez esta sombra seja o desafio do espaço e da sua leitura - de uma das suas possíveis leituras: como falhanço histórico, antropológico, arquitectónico.
DM:Acabaste de receber o Mikeldi de Oro para melhor ficção no 58º Zinebi  de Bilbao...como foi que tudo isto aconteceu?
E.B: Receber esta distinção é uma grande honra: pelo facto de acontecer logo na estreia internacional do filme, por acontecer num festival mítico como o Zinebi e, claro, pela inegável qualidade de outros filmes a concurso. Dá-me muito alento: o reconhecimento do trabalho é também uma forma de continuarmos a crer no que fazemos - neste caso, a crer em imaginações de cidades.
DM:É sabido que tens vindo com regularidade aos Açores, sobretudo a São Miguel. O que tens andado a fazer por estas paragens? E o que esperas desta projecção?
E.B: Como argumentista, a trabalhar num projecto chamado Hálito Azul, do realizador Rodrigo Areias que tem como ponto de partida Os Pescadores, de Raul Brandão e que decorre na Ribeira Quente. Da projecção, espero que corra bem em termos de som e imagem e que quem a veja, disfrute e compreenda a cidade imaginária de Penúmbria, pese embora a sua tristeza.
DM:Até onde pode ir este filme?
E.B: A proposta de Penúmbria passa, antes de tudo, pela imaginação de um lugar - de uma finisterra. Cria-se-lhe a geografia, a história e as histórias, o som, a arquitectura e a memória. As finisterras são um tema que tenho trabalhado e imaginado muito, seja na escrita, com As Orcadianas, na fotografia, com Passing Place, Sob A Luz Quase Igual e Terras Últimas e agora no cinema. Com Penúmbria quis também debruçar-me também sobre a relação entre texto (narração) e imagem. Mas no início e no fim de tudo está sempre o gosto por uma história, o gosto pela ilusão do cinema.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Uma Janela para o Fim de Novembro

Fotografia Germana Eiriz
         De cabeça e corpo na brecha que dá para a cidade insular e, como tal, não há qualquer regresso possível às ruas da infância onde, por sinal, ainda há quem nos aguarde. A luz do tempo é serena. A acritude foi substituída pela esperança e, talvez por isso, é como se nunca tivesse havido partida para longe ou para sítio algum. A haver errância seria de resignação e permanência. O olhar pousa agora sobre o cinza da paisagem e dos telhados citadinos. Desta feita são as memórias que evitam que o desencanto se instale. Parte-se assim pelo interior dos dias adentro até à indagação de cantos e vozes deste tempo confuso, difuso, repleto de oportunidades por cumprir. Outro tempo é também  enviado pelo Alexandre, exímio guitarrista, que aprendi ouvir desde muito cedo, revelador de trilhos e veredas, que nos esclarece em suplemento de espectáculos  as vias com que agora se cose as malhas da sua criação: “Quanto mais avançamos no tempo, mais recuamos também, porque conseguimos ler melhor, descobrir mais informação sobre as coisas que já passaram há muito tempo, como se elas ficassem mais próximas.” Exagera-se, é certo, e assim talvez se acredite que é fora de portas que escutamos o clamor do mundo, que pressentimos esse coro inquieto de um universo criativo partilhado.
             Em suma, prometemos não recalcitrar do estado das coisas, incutiremos loas à encantadora  noite de sons e luzes que se avizinha. Promete-se ligar os sentidos, todos sem excepção. Respiraremos  mornas, prolongando sabor de cocadas e o verter do "quentão" e do "grogue" num auditório com nome de excelso poeta quinhentista. É testamento e herança de uma cultura que  se vive de forma misturada, alegre, intensa. A cidade, essa, vai descendo o seu cenário até ao mar. E anoitece...

segunda-feira, 21 de novembro de 2016