As horas em terno ofício emolduraram
Essa face gentil onde o olhar se demora
Hão-de ser as tiranas de si mesmas, as horas,
Como da fealdade que a perfeição supera.
Pois não repousa o Tempo, antes guia o Verão
Ao temível Inverno, para aí lograr;
A seiva enregelada, as folhas sem fulgor,
Soterrada a beleza, e em vez, desolação.
Assim, não fora a essência do Verão conservada,
Líquida prisioneira entre vítreas paredes,
O fruto da beleza por ela era roubado
E nem memória havia de beleza que fosse.
Mas a flor, no Inverno, perde só a aparência,
Sobrevivendo, doce, o que lhe deu substância.
William Shakespeare, “31 Sonetos”, Tradução de Ana Luísa Amaral, Relógio D´Água.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
Penúmbria em São Miguel
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| Fotograma de Penúmbria de Eduardo Brito |
A famosa capa de chuva azul
I'm writing you now just to see if
you're better
New York is cold, but I like where
I'm living
There's music on Clinton Street all
through the evening."
Leonard Cohen
in"Famous Blue Raincoat" que se encontra no disco
"Songs of Love and Hate", gravado no ano de 1970 durante os meses de Agosto
e Setembro, editado apenas na Primavera do ano seguinte. Trata-se portanto do terceiro álbum de
originais do cantor canadiano recentemente falecido.
terça-feira, 6 de dezembro de 2016
segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
Andar de Cima
De vez em quando as coisas acontecem,
subimos as escadas do prédio
e às vezes tropeçamos, deixamos
cair o saco das compras e as tangerinas
rolam pelas escadas a baixo,
ou rolamos nós pelas escadas a baixo
e quando paramos estamos no meio da rua,
fora da ternura, fora do tecto.
in "Casas" de Miguel Castro Caldas, Livrinhos de Teatro, Artistas Unidos, edições Cotovia.
subimos as escadas do prédio
e às vezes tropeçamos, deixamos
cair o saco das compras e as tangerinas
rolam pelas escadas a baixo,
ou rolamos nós pelas escadas a baixo
e quando paramos estamos no meio da rua,
fora da ternura, fora do tecto.
in "Casas" de Miguel Castro Caldas, Livrinhos de Teatro, Artistas Unidos, edições Cotovia.
domingo, 4 de dezembro de 2016
Livros Sobre a Mesa de um País por Desvendar
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| Fotografia de Carlos Olyveira |
Livros sobre a
mesa: “ensaios” e “dissertações” de contemporâneos curiosos e atentos ao que se passa em seu redor. Letras lidas por entre cafés e dois dedos de conversa, desse prazer da
leitura renovado e, talvez por isso, também acessível à(s) carteira(s). Neste “Movimento Perpétuo – História das
Migrações Portuguesas”, Ana Cristina Pereira acrescenta informação e dá achegas curiosas para esse retrato
infindável de um povo viajante em tão redundante constação: “Em
Portugal aprende-se depressa que as pessoas não são árvores. Não têm raízes
como os plátanos ou as tulipeiras. Aquilo a que se chama território nacional é
uma multiplicação de pontos de partida e de chegada. Há dez milhões de pessoas
dentro e 2,3 milhões de pessoas fora. Um mapa múndi que se desenha amiúde, por
força da necessidade feita vontade”. Será que é mesmo assim? Continuamos a ser empurrados
para fora, como se não houvesse alternativa? E, mesmo assim, há que continuar a
ler sobre o mar, ou então sobre os nossos pescadores, essa “raça” essencial de um povo, entender
porque fazemos parte deste processo misterioso de estar vivo, na esteira de Raul
Brandão. Escreve Filipa Melo, numa das páginas de “Os Últimos Marinheiros”: “Os tempos e os homens mudam, mas o fôlego cego e vivo do mar, não.
Percebemo-lo à proa, quando ainda no escuro o hálito salgadiço no envolve e o
vento, cúmplice, parece puxar-nos para dentro da boca vasta da água em volta.
Ali, na ponta do vante, no topo da proa, seguiam, nos navios antigos, as
carrancas e os leões da barca. Homens, mulheres, animais ou deuses, esculpidos
em madeira maciça, cravados pela cintura no navio. Cortavam com alento o bafo
salgado, como se desafiassem o desconhecido”. São leituras como estas que ajudam
a compreender esse mosaico de um país que sabemos ainda por desvendar. Precisaríamos
de saber ainda muito mais sobre a comunidade cultural e histórica onde vivemos.
Estes livrinhos soltos, desempoeirados, pequenos fragmentos sobre o estado das coisas trazem a chancela da Fundação
Francisco Manuel dos Santos. Ainda bem, agradecidos pela leitura e pela beleza
de nos sabermos atentos e, por sinal, bem vivos.
sábado, 3 de dezembro de 2016
terça-feira, 29 de novembro de 2016
Penúmbria no Teatro Micaelense
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| Fotograma de Penúmbria de Eduardo Brito |
Penúmbria
venceu a edição deste ano do Arquitecturas Film Festival. O filme de
Eduardo Brito será exibido, dia 7 de Dezembro, às 21h30, no Teatro Micaelense.
Escolhemos o fim de Novembro para conversar com o autor do filme antes da tão
aguardada exibição.
Douta
Melancolia: No início escutamos na narração: “A
verdade é que Penúmbria sempre fora um fim de terra desde a sua fundação, há
cerca de duzentos anos. O lugar ficou a dever o nome à sombra permanente,
provocada por uma montanha alta e circundante no seu extremo sul.” Que sombra é
esta que poderá habitar no espectador deste teu filme?
Eduardo
Brito: É a sombra
de um local que foi um erro. Ou seja, de Penúmbria, uma cidade imaginada como
muito triste: má localização, atmosfera e clima; mas também cidade onde nada
floresce. Daí que - premissa inicial do filme - a sua comunidade decide ir-se
embora dali, assinalando o lugar como uma distopia. Noutro plano, talvez esta
sombra seja o desafio do espaço e da sua leitura - de uma das suas possíveis
leituras: como falhanço histórico, antropológico, arquitectónico.
DM:Acabaste
de receber o Mikeldi de Oro para melhor ficção no 58º Zinebi de Bilbao...como foi que tudo isto aconteceu?
E.B: Receber esta
distinção é uma grande honra: pelo facto de acontecer logo na estreia
internacional do filme, por acontecer num festival mítico como o Zinebi e,
claro, pela inegável qualidade de outros filmes a concurso. Dá-me muito alento:
o reconhecimento do trabalho é também uma forma de continuarmos a crer no que fazemos
- neste caso, a crer em imaginações de cidades.
DM:É sabido que tens vindo com regularidade aos Açores, sobretudo a São Miguel. O que tens andado a fazer por estas paragens? E o que esperas desta projecção?
E.B: Como argumentista, a trabalhar num projecto chamado Hálito Azul, do realizador Rodrigo Areias que tem como ponto de partida Os Pescadores, de Raul Brandão e que decorre na Ribeira Quente. Da projecção, espero que corra bem em termos de som e imagem e que quem a veja, disfrute e compreenda a cidade imaginária de Penúmbria, pese embora a sua tristeza.
DM:Até
onde pode ir este filme?
E.B: A proposta de Penúmbria passa,
antes de tudo, pela imaginação de um lugar - de uma finisterra. Cria-se-lhe a
geografia, a história e as histórias, o som, a arquitectura e a memória. As
finisterras são um tema que tenho trabalhado e imaginado muito, seja na
escrita, com As Orcadianas, na fotografia, com Passing Place, Sob A Luz Quase
Igual e Terras Últimas e agora no cinema. Com Penúmbria quis também debruçar-me
também sobre a relação entre texto (narração) e imagem. Mas no início e no fim
de tudo está sempre o gosto por uma história, o gosto pela ilusão do cinema.
segunda-feira, 28 de novembro de 2016
sexta-feira, 25 de novembro de 2016
Uma Janela para o Fim de Novembro
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| Fotografia Germana Eiriz |
De cabeça e corpo na brecha que dá para a cidade
insular e, como tal, não há qualquer regresso possível às ruas da infância onde,
por sinal, ainda há quem nos aguarde. A luz do tempo é serena. A acritude foi substituída pela
esperança e, talvez por isso, é como se nunca tivesse havido partida para longe
ou para sítio algum. A haver errância seria de resignação e permanência. O olhar
pousa agora sobre o cinza da paisagem e dos telhados citadinos. Desta feita são as
memórias que evitam que o desencanto se instale. Parte-se assim pelo interior dos dias adentro até à indagação de cantos e vozes deste tempo confuso, difuso, repleto de
oportunidades por cumprir. Outro tempo é também enviado pelo Alexandre, exímio
guitarrista, que aprendi ouvir desde muito cedo, revelador de trilhos e veredas, que
nos esclarece em suplemento de espectáculos as vias com que agora se cose
as malhas da sua criação: “Quanto mais
avançamos no tempo, mais recuamos também, porque conseguimos ler melhor,
descobrir mais informação sobre as coisas que já passaram há muito tempo, como
se elas ficassem mais próximas.” Exagera-se, é certo, e assim talvez se acredite que é fora
de portas que escutamos o clamor do mundo, que pressentimos esse coro inquieto
de um universo criativo partilhado.
Em suma, prometemos não recalcitrar do estado
das coisas, incutiremos loas à encantadora noite de sons e luzes que se avizinha. Promete-se ligar os sentidos, todos sem excepção. Respiraremos mornas, prolongando sabor de cocadas e o verter do "quentão" e do "grogue" num
auditório com nome de excelso poeta quinhentista. É testamento e herança de uma cultura
que se vive de forma misturada, alegre, intensa. A cidade, essa, vai descendo o seu cenário até
ao mar. E anoitece...
segunda-feira, 21 de novembro de 2016
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