domingo, 22 de outubro de 2017

Flanilha

Fotografia de Carlos Olyveira

"Moçambique", da Mala Voadora no Teatro Micaelense

         
         
          A peça deu início com todos os actores em palco e onde um deles começa logo por dizer que nasceu em Moçambique. Esse actor é Jorge Andrade, o autor e encenador. Este veio para Portugal com apenas 4 anos, regressando agora a Moçambique para construir uma autobiografia como se tivesse passado lá a maior parte do tempo da sua vida. Enquanto narra a sua história pessoal mistura elementos biográficos com factos da vida moçambicana, sempre com o intuito de tornar credível o enredo. No final daquelas duas dinâmicas horas, o espectador é surpreendido com um tipo de teatro próximo do documental, onde a ficção interferiu no rumo dos acontecimentos e daquilo que se pretendia contar. Será isto a obsessão por um final feliz? 
     Assistiu-se, assim, a um caleidoscópio “concentrado” de cores e gestos, intenso, com quadros bem ritmados, cenários e figurinos irrepreensíveis e que tocou, não só os que conheceram ou não, a História recente de um país chamado Moçambique.

sábado, 21 de outubro de 2017

Sobre o Arrendamento...

             
 Fotografia de Carlos Olyveira
       

               "Na questão de Lisboa e Porto este processo está muito mais visível. Em Ponta Delgada consideramos que o processo está numa fase muito inicial e a ideia de trazer cá a caravana passa, também, por aprendermos om a experiência de outros locais. Ainda assim, a percepção que temos é que em Ponta Delgada  também está a tornar-se cada vez mais difícil arranjar casa para arrendar, porque a maior parte das casas que estão disponíveis são para alojamento loval, para turismo de muito curto prazo, ou mesmo para comprar, porque houve uma escalada dos preços das casas. Há vários factores que contribuem para isso: é o turismo, é a mudança da lei de arrendamento em 2012, que facultou os despejos e que contribuiu para uma liberalização do mercado e há a ideia que o uso das casas para aluguer de turistas é muito mais rentável do que para a residência ou para a fixação das populações locais."

Lídia Fernandes, da Caravana para o Direito à Habitação, 16 de Outubro in "Atlântico Expresso".

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Do Cinema

Desenho de Liv Ullmann
(Daniel Seabra Lopes)
          
            "Os filmes, a fuga da realidade, o mundo dos sonhos; experiência e pessoas que, segundo eu acreditava, iriam tornar-se parte do meu quotidiano, no futuro. Tragédias tão grandes que o nó continuava na garganta, muitas horas depois. Maravilhas imensas a ponto de meus pés tocarem o solo, quando eu voltava para casa.
        Milagre em  Milão, Luzes da Ribalta. Vi esses filmes dez ou vinte vezes, com o mesmo encantamento. Heróis e Heroínas. Criaturas que representavam o Bem ou o Mal. Quase nunca comuns e tediosas, como as pessoas que eu conhecia em Trondheim.
         E o amor.
     Ansiava por experimentá-lo, tal como o via na tela: abraçar um homem com camisa branca e um alvo sorriso, que me olhasse de cima, ternamente, e sussurrasse palavras sussurradas pelo Herói à Heroína.
       Escutar violinos, quando ele me beijasse.
     Ah, se eu pudesse crescer um pouco mais depressa. Eu lançava um olhar ansioso para os meus seios inexistentes." 

in Mutações, Liv Ullmann, edições Nova Nórdica, 1984.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

"Correspondência" de Paula Sousa Lima e Leonardo

A capa do livro (Fotografia de Carlos Olyveira)

"A Sonata de Outono" de Ingmar Bergman



        Bergman quis abordar a relação parental em “Sonata de Outono”, para isso juntou na tela duas das suas actrizes predilectas: Ingrid Bergman e Liv Ullmann. O filme mostra uma mãe, pianista de profissão com uma carreira ascendente, e uma filha à beira do precipício emocional. Quando se fecham os nossos próprios olhos e apenas se ouvem estes diálogos, esse sussurrar entre mãe e filha é audível o transtorno, sendo que é como se estivéssemos perante um ajuste de contas na idade adulta. Incomodados, pois, sentimo-nos ao observar esta arena familiar e que, à medida que o filme avança, vamos também percebendo que esta espiral é tal e qual o debulhar duma cebola, já que presenciamos várias camadas, isto é, o alumiar duma relação agitada marcada essencialmente pela ausência e por tudo aquilo que nos vai escapando em função de outras ambições menos terrenas, imersos que estamos na voragem invisível da passagem dos dias e das estações.
         Este filme convocou também e, pela primeiríssima vez, o encontro entre um realizador e a actriz conhecidos além fronteiras europeias, ambos oriundos de Estocolmo, mas com percursos e posições estéticas diferentes. Conta-se que o reencontro e as filmagens terão sido turbulentas e com direito a várias peripécias, narradas ainda hoje pela actriz norueguesa, Liv Ullmann. É certo que as salas de cinema já não comportam estas intimidades e espessura cinematográfica mas valeria bem a pena tentar. 

domingo, 15 de outubro de 2017

A Ophelia, os Lumière e Correspondência

Fotografia de Carlos Olyveira 
 Fernando Pessoa escreveu cartas apaixonadas para o seu amor Ophelia (ao todo julga-se que terão sido 48 cartas e que só seriam publicadas em 1978) e onde principiava sempre com “Meu querido amorzinho” ou  "Meu Bébézinho". Hoje também podíamos ter escrito a Ophelia, sobretudo a esta que por aqui se atravessou em forma de furacão. Escrever também de forma superlativa, essencialmente, para agradecer mais este dia de sol, esta lazeira canicular em que se tornou Outubro e que prolonga a dita estação estival para calendas insuspeitáveis. O Verão vai, por isso, dilatando já que o calor ainda  não declinou. Ontem, no Teatro Micaelense, Stanley Kubrick envolveu e revolveu as consciências (e de que maneira!) com o seu filme do início da década de 70: “Laranja Mecânica”. Tantos anos depois ainda se retiram lições para compreender o ciclo vicioso da violência e as estratégias da sua dissolução e promoção por parte das estruturas do poder. O suplemento Ípsilon, do Jornal Público, fala também dos homens que inventaram o cinema com o filme “La Sortie de l´Usine Lumière à Lyon”. Dez páginas para evocar o nascimento da sétima arte que, segundo Thierry Frémaux, estes inventaram  três vezes: “a técnica, a arte e a sala.” Saúde-se, por último, também o regresso do poeta micaelense Leonardo à edição de poesia, desta feita acompanhado por Paula Sousa Lima, num título epistolar denominado de “Correspondência”. A edição é das Letras Lavadas. 

sábado, 14 de outubro de 2017

"Prece Geral" de Daniel Blaufucks no Museu de Arte Sacra em PDL

A Exposição está patente até ao 31 de Janeiro de 2018
Aprendi a ver as suas fotografias em silêncio, circunspecto, na altura junto dum café desmedido com umas janelas em que se avistava o azul atlântico daquele mar. Sozinho, ainda muito jovem, fixava o seu apelido algo alienígena e apreciava o que de melhor podia conter a palavra respeito perante tamanhas imagens enigmáticas. Isso e também beleza. Recordo, por isso, as páginas dos Cadernos e suplementos do jornal “O Independente” em que este chegou a colaborar com regularidade. Alguns dos seus trabalhos, de tão sombrios e austeros, perturbavam e interrogavam, à altura, os dias de euforia pós entrada na união europeia. Tantos anos depois, regresso novamente às suas fotografias para agradecer-lhe o gesto, louvar este seu mergulho no mistério e na oração. Estas chapas são sobre o Mosteiro de Santa Maria Scala Coeli, a ‘Cartuxa de Évora', e revelam-nos o interior da fé e da dedicação bem como o que resta desse altar de prece e de reflexão. 

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Uma Noite de Poesia na Tascá

Fotografia de Luís Andrade 
          Talvez em Copenhaga ou em Aarhus isto também fosse possível, não se sabe. O casal de dinamarqueses pensa na eventualidade e no interesse pelas palavras, das rimas e dos versos nos tempos que correm. E riem-se com o nome Bodega, nomenclatura usada no país deles para descrever espaços como este. E, quem sabe, ou talvez seja mesmo impossível, apelidá-lo com esse título neste nosso país do sul. A conversa gira, portanto, à volta do interesse dos nossos contemporâneos pelos versos, metáforas, alegorias, aliterações e, talvez por isso, termine pousada sobre a oferta cultural nas grandes cidades e na periferia. No entanto, por aqui vai-se afiançando que não, há quem diga mesmo que a poesia anda à solta pelos territórios mais improváveis da  ilha, comentam que é partilhada por instantes nos quartos, nos cafés e nas ruas, dita por cabeças mais ou menos pensantes, algumas bastante tensas, outras esclarecidas e até mesmo emotivas. Há mesmo um Encontro Internacional de Poesia a decorrer esta semana. Desta feita, nesta noite de Outubro, a poesia concentra-se sobre as mesas de madeira deste pequeno estabelecimento denominado de Tascá, contida no interior dos livros espalhados ou amontoados, sendo dita e redita enquanto se bebem copos de vinho tinto ou cerveja, por vezes em bancos corridos  ou com os corpos encostados às portas abertas, porventura, para soltar o ar do tempo. Há também pausas para saber da vida, saborear as estrelas cadentes e o luar, espreitar o movimento dos carros e cantar loas às madrugadas vividas em território ilhéu. Tudo isto se passa numa rua com nome de antiga capital do reino, entretanto agora democracia. Uma coisa é certa: precisamos de poesia como pão para boca e por isso nem sempre à noite todos os gatos são pardos. 

Aranhas e Visigodos


Josué: Papá, por que é que os cães e judeus não podem entrar naquela loja?
Guido: Porque os judeus e os cães não querem. Todos devem poder fazer aquilo que lhes parece melhor, não te parece? Ali à frente há uma loja, não há? Ali, por exemplo, não é permitida a entrada a espanhóis e cavalos e... mais à frente, há também um farmacêutico, não há? Ontem, estava eu com um amigo meu, um chinês, que por acaso tem um canguru e eu perguntei: "Podemos entrar?", e alguém lá de dentro respondeu: "Não, aqui chineses e cangurus não entram". Sabes, fiquei bastante desagradado com toda aquela situação. O que é que eu posso fazer?
Josué: Mas na nossa livraria toda a gente pode entrar...
Guido: Não, a partir de amanhã também nós iremos escrever um letreiro para colocar na porta. Quem é que tu consideras enfadonho?
Josué: As aranhas. E para o papá?
Guido: Para mim...os visigodos! Então amanhã iremos escrever um letreiro com o seguinte: "Proibida a entrada a aranhas e visigodos!". É quase certo  que o visigodos irão quebrar esse letreiro. Por isso, chega!

 in “A Vida é Bela”, filme de Roberto Begnini, 1998 (Tradução Livre)