quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Se Fosses Só Três Sílabas...

Flanzine 
(Dezembro de 2024)
Capa de Luís Silva 
 

2025: Adeus 2024!

         
      Regressar à rotina, à ilha, sem antes ter provado o fel dos atrasos aéreos, as longas e demoradas horas nos aeroportos. É, pois, normal que assim seja por alturas de dias invernais ou no momento de começo ou encerramento dos períodos festivos. Nada disso estraga ou corrompe a memória de um continente com dias de céu aberto e azulado, o frenesí e a azáfama das ruas e comércio, ainda que com noites muito friorentas. Pelo sul, aquando da passagem por Lisboa e Leiria, sente-se ambas as cidades acolhedoras e hospitaleiras como há muito não se via. Há também muitos imigrantes a conduzir autocarros, os restaurantes cheios de gente a falar diferentes línguas ou ainda a máxima surpresa pelo estado anómalo em que se encontra a estação de comboios de uma capital de distrito, refiro-me concretamente à cidade afamada pelo rio Lis. No norte, a mesma tenacidade e empenho nas tarefas, o encontro de tanta gente que não se cansa de agitar as águas, é o que acontece à Feira de edições Independentes no Centro de Estudo Anterianos promovida pela Associação Cabe Cave, na cidade de Vila do Conde.
         Entretanto, houve ainda tempo para assistir ao mais recente filme do mais conhecido cineasta espanhol da actualidade: Pedro Almodóvar. A película gira em torno de duas amigas que partilharam a mesma profissão na juventude enquanto jornalistas.Uma delas com o nome Martha (Tilda Swinton), o que  é sinónimo de proteção, isto é, de alguém que é dona de si própria e que luta para não sucumbir perante a adversidade. Há, pois, que terminar com a existência com a ajuda de um medicamento comprado no mercado negro. Pedro Almodóvar dá-nos a ver em "O Quarto do Lado" uma mulher guerreira,  destemida e, que perante a sentença de morte, socorreu-se da amizade para falar do que importa viver. Acompanha-a Ingrid (Julianne Moore), aqui no papel de escritora célebre e amiga cuidadora, com muito medo de morrer. Em contrponto, temos Damian, um activista climático que conta já com o fim do mundo para breve, mantendo o seu humor por instantes. Para além de tudo isso, o que não é pouco, uma bela e discreta banda sonora de Alberto Iglésias, mantendo os seus cenários habituais. 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Provérbio

Trinta dias tem Novembro 
Abril, Junho e Setembro
De vinte e oito há só um
E os mais de trinta e um  

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Ontem, escrito numa parede da cidade

 Somos burros que nesta estrada andamos

"Artistas na Fábrica" em Leiria

     “Os Artistas da Fábrica” é uma exposição conjunta de três artistas que, durante o contexto da segunda guerra mundial e afirmação do neorrealismo no contexto da arte plástica portuguesa, desenvolveram trabalho artístico na zona de Leiria, junto dos trabalhadores fabris.  Com a curadoria de Raquel Henrique Silva, assistimos a  uma variedade de obras pictóricas bem como fotografias dos autores, imagens de diversos documentos, ainda pequenos filmes e testemunhos orais relacionados com a obras de Tereza Arriaga, Manuel Filipe e Jorge Oliveira.
        Destaque-se, assim, os trinta desenhos a carvão dos “meninos do vidro” da artista Tereza Arriaga, todos eles relacionados com as crianças que, à altura, trabalhavam nas fábricas de vidro da Marinha Grande. Ela que seria professora de Artes Visuais mais de três  décadas no ensino secundário, uma das raras mulheres do seu tempo formada em Belas Artes. Depois, também podemos ver os trabalhos do seu companheiro, Jorge de Oliveira, com os seus desenhos de máquinas e engenhos na fábrica de cimento.Por fim, os notáveis desenhos negros de Manuel Filipe bem como o seu texto “A Explicação” na abertura da exposição: “A vida, meu presado visitante, não é só aquilo que as artes correntes te mostram, por via da regra. A vida tem também os seus aspectos escuros, que ensombram bastante dos seus setores. Peço-te desculpas se não vais ver aquilo que esperavas.
         Tudo isto acontece numa das salas do espaço do M(i)mo – Museu da Imagem em Movimento, em Leiria, e estará aberta ao público até ao final de Junho do próximo ano.

domingo, 22 de dezembro de 2024

2025: Cada Vez Mais Vida!

          O ano chega ao fim e com ele surgem as listas dos filmes, dos livros, dos discos, das viagens e das músicas que, supostamente, devíamos ter experienciado ou vivido. O diagnóstico é sempre o mesmo: tanta coisa ficou por fazer no ano de 2024.  E o que é verdade é que permanece sempre uma descomunal aflição pelo que não ouvimos, não lemos, ou sentimos, por tudo aquilo que, segundo os críticos, os especialistas, os influenciadores, sobretudo no que nos faltou viver, talvez, sentir. Podemos, é certo, falar mesmo numa bioansiedade, isto é, uma ansiedade por viver cada vez mais!
            No gira-discos caseiro, a agulha volta sempre ao princípio para ouvir o Leonard Cohen a tocar o “Famous Blue Raincoat” e, com ele, seguir a luz do horizonte e do cenário das araucárias com os versos: “It´s four in the morning, the end of December”. Há, por isso, qualquer coisa que parece estar sempre a faltar, uma inquietação interior que não se enquadra dentro de qualquer ordem ou substância material do universo. E…de repente temos a sensação que o mundo se encontra em falta, em declínio, a autodestruir-se. Ao mesmo tempo que olhamos em redor e sentimos de viva voz que o mundo está doente, que se encontra em retrocesso acelerado, uma regressão energética e civilizacional. Tornamo-nos, assim, insensíveis ao sofrimento do mundo, à queda das bombas, ao caos generalizado. O que fazer?
         Não falta quem nos diga que temos uma enormíssima crise climática pela frente, acompanhada por uma galopante inflação e demais guerras em marcha, conflitos sociais internos e externos e, para nossa desgraça, diminuição de investimento em políticas públicas – saúde, educação, cultura, habitação, transportes. Por parte da juventude, os sinais  bem que podiam ser de esperança, no entanto, surge a dúvida, já que à nossa frente existe uma comunidade que se abotoa ao sedentarismo, à lógica dos écrans e das redes, uma forte resistência à ilustração sem visão crítica do mundo. E, cúmulo dos cúmulos, há também muita juventude sedenta de autoritarismo, preconceito e visões securitárias dos estados democráticos em que vivemos. O mundo está muito perigoso, aliás, sempre esteve!

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Cinco de Paulo Ramalho

O destino de um poeta
é calar lentamente 
- a palavra cada vez mais pouca
Mas também pode
morrer de repente 
pelo céu da boca

in Órbitas Elípticas em Torno do Silêncio, Letras Lavadas, 2024

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Se Fosses Só Três Sílabas...

           
     Daqui a uma semana, se fosse vivo, Alexandre O´Neill faria 100 anos de idade. Era um grande poeta, um verdadeiro amante das letras, um real artesão no ofício de bem tratar e usar a língua portuguesa. Lembro-me na adolescência de transportar o seu livro de poesia, “No Reino da Dinamarca”, de 1958, para todo o lado. Lia-o nas estações de comboio, durante as viagens entre a Póvoa e o Porto, ou nos intervalos dos filmes dos cineclubes. Sabia, pois, de cor alguns dos seus slogans publicitários, sobretudo aquele relacionado com o Instituto de Socorros a Náufragos – “Há mar e mar, há ir e voltar”. Tinha, inclusive, amigos literatos que o consideravam um poeta menor, algo frívolo, por causa do seu lado mundano, excessivamente dado a coisas corriqueiras, o seu apego pelas minudências do quotidiano. E, obviamente, o seu interesse pelo disforme, o hediondo, o trágico – “Dai-nos, meu Deus, /um pequeno absurdo quotidiano que seja, /que o absurdo, mesmo em curtas doses, /defende da melancolia e nós somos tão propensos a ela!”.
             Mais tarde, já na universidade, o Alexandre O´Neill ocupou um lugar especial, dado que serviu muitas vezes de porta-estandarte para apontar falhas ou depreciar os destinos de um país que, por vezes, temos muitas dificuldades em seguir e aprovar, mais concretamente, "o país engravatado todo o ano e a assoar-se na gravata por engano”. Com outros companheiros das lides teatrais, ocupámos de versos e histórias pessoais  o Café Santa Cruz, na baixa de Coimbra, e assim deambulámos “No Reino de O´Neill”, numa sessão que julgamos memorável, até pela bicicleta, símbolo dos surrealistas contra a rotina, que principiou connosco aquele tributo.  
        O Alexandre O´Neill pretendia desimportantizar a linguagem e, pensava, inclusive, que o feio devia ser motivo de muita afinação e decantação, até forçar o aparecimento do belo. Estranhamente, este enorme poeta trabalhou a vida inteira enquanto publicitário e, tal como um adolescente, fartou-se de tropeçar de ternura!