sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Sonata do Outono

Ingmar Bergman (1979)

O Silêncio Habitado da Mente


"Há algo para além da nossa mente que habita em silêncio na nossa mente. É o supremo mistério que ultrapassa o pensamento. Apoiai a vossa mente e o vosso corpo subtil nesse algo, e não o apoiais em nenhuma outra coisa."

Api

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Uma Missiva na Queda de Novembro.


Caro Doutor Mara,
         
     Espero que esta carta o encontre no máximo das suas capacidades físicas e mentais, e na habitual desordem provocada do seu pensamento futurista. Espero igualmente que o preço dos filetes de peixe esteja mais acessível do que da última vez, pois sei que é um verdadeiro apreciador.
       Para além de notas soltas da minha diária contemplação do maciço dos Alpes, e da permanente observação de fenómenos extra-planetários, nada teria para lhe contar, não fora a circunstância inesperada de me ter encontrado com Vivaldo Manaia, o mais Italiano dos Manaias, e que surpreendentemente reside muito perto do meu humilde habitáculo. O doutor Mara não imagina, nem lhe consigo descrever por palavras, a satisfação que foi poder conhecer o mais profícuo dos Manaias de S. Miguel, o mais internacional e consagrado elemento do clã, no seu habitat artificial. Tudo aconteceu numa tarde em que fotografava fenómenos espontâneos de situações que acontecem simultaneamente, numa rua movimentada de Milão, quando me deparo com um homem;
Gordo, de olhos castanhos, carão rechonchudo,
Mal servido de pés, também em altura,
Estragado de facha, pior de figura,
Nariz gordo no meio, olhar sisudo
         
        Ali estava Vivaldo Manaia, a antítese viva de Bocage, a apanhar o eléctrico nº 14 para o Duomo, com três cães, um grande, um pequeno e um outro que não era grande nem pequeno, e nem sei se seria um cão. Reconheci-o à distância a que se reconhecem os grandes homens, sem que eles nos reconheçam a nós.  Apressei-me para apanhar o mesmo eléctrico, e engendrava uma forma de poder registar aquele momento e conseguir algumas palavras do grande mestre Manaia. Sentei-me à frente do cão maior, que me fitava enquanto mostrava lateralmente a sua potente cremalheira pronta a afiar em caso de necessidade. Mantive-me calmo. Já com os olhos postos no chão conspurcado da carruagem, desprovido de argumentação, oiço: “Você não é o Janeiro Alves?”. Imagine, doutor Mara!
        Disse-me que me conhecia, mas que não podia dizer de onde nem porquê. Saímos e fomos beber uma garrafa de vinho Lombardo a um botequim da cidade, e discutir assuntos mundanos. Mas eis que no meio de divagações de menor relevância, o nosso ilustre Manaia me comunica que pretendia desvendar-me as linhas gerais do seu plano magistral, assunto de extrema importância para Portugal, um projecto de uma amplitude paranormal que iria definitivamente alterar o cenário nacional. Um plano para a crise, e portanto, para dizimar, com ou sem aspas, o velcro governativo que nos dirige. E nós sabemos do que os Manaias são capazes, doutor Mara, nós sabemos... Mas porque há momentos em que sucedem coisas indetectáveis em tempo útil, eis que a meio de um brinde, e em profunda ansiedade de querer saber mais, o cão que não era pequeno nem grande se atira a mim e me provoca ferimentos de alguma gravidade. Fui transportado para o hospital de urgência. O médico que me acordou no dia seguinte, esclareceu-me tudo. Fui atacado por um papagalo, uma espécie da floresta negra alemã, cruzamento entre um cão, um furão e uma cabra, e conhecido naquela zona alemã por comer galos inteiros à dentada. E assim terminou o meu triste encontro com Vivaldo Manaia.
       Mas a razão desta carta guardo-a para o fim. No bolso do meu casaco verde de veludo, ainda marcado de sangue e dentes caninos, encontrei um bilhete. “Caro Janeiro Alves, peço-lhe desculpa pelo sucedido. Saberá a breve trecho todos os detalhes do meu plano por intermédio do Doutor Mara...”
 Um fraterno abraço,
Janeiro Alves

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Mergulho

Mergulhar talvez seja
um verbo aéreo, curvo, distraído,
ainda que com água no bico.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Da Pulcra Existência

          A faca que corta dá golpe sem dor…descobrir prováveis hipóteses e mesmo assim não detectar seja o que for. Ter o receptor pronto, iniciar o caminho das trevas, mover todos os propósitos e nada alcançar. Ter a sensibilidade pronta para captar a mais provável das suspeitas e admitir que o que vier a seguir é uma mera possibilidade. Esta é a circunstância de nada conseguir saber, ter a cabeça a prémio, juntar peça por peça e lentamente desconfiar do que foi feito. Vivemos ambos sobre ruínas e em breve também este tempo findará. Por isso há cada vez mais desmoronamentos, sobressaltos, mais devastação em redor. Reconhecemo-nos, no entanto, nessa dimensão da esperança, a tensão do encontro, a surpresa da coincidência ou da pulcritude simples. Convém, portanto, manter a curiosidade, a leveza e o desapego, desprovidos de cobiças e apegos vãos. Se no final de um dia, soubermos pronunciar as palavras que em nós pulsam com maior veemência, talvez encontremos aquilo que nos descerra e nos prende, aquilo que nos liga e deslaça, aquilo nos dá vida e nos mata.

Um olhar...

Marine Vacht actriz de "Jeune et Jolie" de
François Ozon (no papel de Isabelle).

Flor no Pântano, Luz nas Catacumbas.


         "Flor no pântano, luz nas catacumbas" escreveu Vitorino Nemésio sobre a obra de Raul Brandão. Curiosa expressão ouvida pelo boca do doutor Machado Pires, especialista na obra do escritor da foz do Douro e que não se importa, até concorda ser boa ideia, este ter escrito sempre o mesmo livro. Brandão e Nemésio viajaram - ainda que por motivos diferentes- tal como travaram conhecimento na viagem que deu origem ao livro "As Ilhas Desconhecidas". Brandão tinha 52 anos e Nemésio 22. Desconfia-se assim que o "Corsário das Ilhas" terá nascido dessa vontade diarística. O que é certo é que, tanto um como outro, escreveram essencialmente sobre a passagem do tempo. E o que escreveram é, ainda hoje, tão relevante de ler.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A Mão no Arado

Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará
Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua

 É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro
É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solitário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã
Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tuido isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente
Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente.


Ruy Belo

sábado, 9 de novembro de 2013

“Menina”- Márcia Santos e Samuel Úria


Imagem retirada daqui:www.som-directo.com 
É mais uma parceria luminosa e bem-aventurada esta de Márcia com Samuel Úria para a interpretação do tema “Menina”, segundo single do álbum “Casulo”(Maio de 2013). Os cantores assinam a composição da música e da letra desta canção que tem harmonia, melodia e uma alma que transborda, sobressaindo assim o texto da  letra que contém finura e um delicioso requinte poético, acrescentando-lhe a tensão necessária com a entrada em cena de Samuel Úria, numa exaltação de vozes aventureiras e apaixonadas, em tributo digno e verdadeiro à língua de Alexandre O´Neill. A pele musical de Márcia já vem desde os seus 13 anos e é de transporte para uma iminente dança imprevista e louca, numa luta sem medos, que esta cantora e Samuel Úria anunciam o desejo de querer dançar a quatro pernas e ventos, evidenciando uma vontade emancipatória de nos movermos, soltemos…sem receios ou complexos: “Desfaz o Nó/ destrava o pé/ desmancha a traça e avança./Chocalha o chão,/esquece os que estão,/rasga o marasmo em ti mesma./Vê corações,/ na cara que pões,/ vira do avesso esse enguiço./ Desamordaça a dança pra te convencer./O teu coração/ sem querer dispara/força e simpatia ao Ser que te vê dançar./O teu coração ainda pára,/ forçando a apatia p'lo medo de dançar.” Parabéns à dupla!

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O Regresso do Fazendo


Ilustração de Luís Silva para o Fazendo nº57
O Fazendo(https://issuu.com/fazendofazendo) é o jornal que eu adoraria ter  feito e fundado quando tinha vinte anos. Com essa proveta idade, aquilo que consegui foi editar um fanzine intitulado Espanta-Pardais e que, com a colaboração de vários amigos e amigas, fui também responsável pela maioria dos textos, grafismo e venda deste. A aventura persistiu durante dois anos e seis números, todos eles suportados pela algibeira piscícola da minha afável e inesquecível avó, que raramente viu cobrir este investimento financeiro ao seu neto dado às poesias, filmes e afins. O fanzine era vendido essencialmente de mão em mão e não me lembro de nenhum quiosque ou café recusar a venda do Espanta-Pardais, no entanto na minha mente não há qualquer recolha de qualquer verba dos fanzines lá deixados. Quando descobri um designer gráfico e a possibilidade de realizar um grafismo, mais cuidado e mais atractivo, decidi apelar a apoios públicos e ao Pelouro da Juventude local, mas este não viu qualquer interesse em custear aquele objecto editorial, provavelmente porque a sua tiragem rondava os cem exemplares. De qualquer modo, passadas duas décadas sobre tal desiderato, é com tamanho júbilo que olho para aquelas edições e aqueles nomes de pessoas das mais diversas áreas que escreveram e colaboraram naquela pequena façanha, reencontrando por ali o mesmo gosto, paixão, dedicação e a mesma generosidade que reencontro agora nas páginas deste jornal feito no gerúndio. À semelhança daqueles dias, também ninguém ganha qualquer euro por escrever ou paginar este boletim cultural que tem funcionado como barómetro e boletim cultural das ilhas do Triângulo, contando com os contributos de gente de todos os lados, credos ou classe social. Por isso, tenho a profunda convicção que os contributos particulares irão devolver o Fazendo ao espaço que este soube alegremente criar, isto é, à fruição e leitura de cada um: (https://issuu.com/fazendofazendo)




terça-feira, 5 de novembro de 2013

Varadouro

 "Varadouro", de Paulo Abreu e João da Ponte
    Quem viu o documentário “Adormecido” de 2012 - interessante e exaltante poema visual e sonoro à volta do vulcão dos capelinhos – sabia de antemão que alguma coisa de maior poderia estar em germinação. Por isso, assistir à sessão inicial de Novembro do cineclube de Ponta Delgada e, concretamente à apresentação pública de “Varadouro”, só podia confirmar os melhores augúrios. 
          “Varadouro” é o segundo filme de Paulo Abreu filmado em solo açoriano e novamente na Ilha do Faial, revelando desta feita uma descomunal sensibilidade na captação da pulcritude dos espaços insulares e dos sons da “natureza extrema” que habitam esta ilha e de que o arquipélago é pródigo. É claro que muitas das instigantes soluções videográficas do “Brel nos Açores”, espectáculo de Nuno Costa Santos, pertenciam já a Paulo Abreu, confirmando assim o seu sentido estético e desalmado gosto pela experimentação, para lá do risco que as paisagens e os barulhos insulares lhe sugerem. Este documento fílmico apresenta somente dez minutos de contemplação dessa piscina natural, desde o azul do atlântico até às suas profundezas, e, na verdade, é como se estivéssemos deleitados na capital de veraneio faialense, em plena costa ocidental, acompanhados por ilhéus a banhos, numa paisagem formada por rochas basálticas de lava incandescente e a memória de forasteiros de relevo que por ali passaram (Jacques Brel esteve lá em 1974, ou ainda sir Peter Ustinov e o escritor Mark Twain), acrescentando-lhe narrativas e ensejos pícaros com essa evocação. No fundo, tal como eles, é fácil deixar-se encantar por aquela fajã de clima ameno, quase tropical e dada a novos arrastamentos, à semelhança da vida do caracol, o popular tema musical açoriano cantado aqui pela excelsa voz do terceirense Carlinhos Medeiros. Este objecto cinematográfico contou ainda com a colaboração na realização de João da Ponte, conhecido cineclubista micaelense, tratando-se dum contributo desta dupla para o Doc´s Kigdom, seminário internacional sobre cinema documental realizado recentemente na Ilha do Faial. Por fim, “Varadouro” obteve os contributos solares e presenças mitológicas de Norberto Serpa, Tiago Afonso, Maria Emanuel Albergaria, Frederico Lobo, André Laranjinha, Sérgio Gregório, João Pedro Gomes, Tomás Melo e Aurora Ribeiro. E é bem provável que, com a ajuda dos cineclubes, este  postal do estio com sabor a documentário, seja exibido numa sala bem perto de si.

sábado, 2 de novembro de 2013

Há 30 anos...


Um arquipélago a meio do atlântico.

"Há três cidades à beira-naufrágio,/ e muitas outras sem rosto nem memória./E nomeavam: Horta, Angra, Ponta Delgada/e arregaçavam mais as calças, os pescadores de algas/ e silêncio.”                                                                                                                                                                                 Santos Barros
 Luís Brum na Rua de Lisboa
     Reencontrar uma outra ilha, avançar tantos anos depois com um nó na garganta, percorrer a sua periferia e a paisagem escutando a voz e o sorriso da Nelly Furtado cantar: “But the smile is bigger than the Atlantic sea/It happens to bring out the Atlantis in me/Island of wonder/Where do you come from?/Is it the way the sun hits my face/Or is it your memory which I cannot trace, I cannot trace.” Poucas vezes importou o lugar de onde vimos. O espectáculo de beleza do Outono tão pouco. Na chegada a São Miguel e, à entrada de Ponta Delgada, é impossível não dar conta  da presença de gigantescos cartazes do concerto de “O Experimentar” bem como dos mupis espalhados pelos diversos cantos da cidade. Finalmente, uma promoção de uma banda insular como deve ser. Será do cosmopolitismo dos seus elementos? O luminoso concerto deu-se no Teatro Micaelense, com o florentino “Rema” a ser tocado já sob o signo da confiança e da euforia pela nave açoriana que regressou aos palcos com gente de tantos lados e a retomar o concerto sob ovação de uma plateia fiel e rendida. À saída concerto e na descida da rua de São João há uma loja com os sumptuosos iogurtes da Ilha das Flores bem como na Rua de Lisboa há um desenho do terceirense Luís Brum na parede, o que reforça a ambicionada ideia de que estamos num arquipélago a meio do atlântico. E é tão estimulante que assim seja.