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| Clicar no cartaz do Gonçalo Cabaça |
quarta-feira, 30 de março de 2016
Acto Político
"A maior parte dos nossos gestos diários são políticos. O consumo, por exemplo, também pode ser um acto político."
Catarina Portas em entrevista a Carlos Vaz Marques, in Público, 27 de Março de 2016.
terça-feira, 29 de março de 2016
quinta-feira, 24 de março de 2016
Páscoa
"A Páscoa era a principal festa
religiosa dos judeus, instituída em comemoração da sua libertação do jugo
egípcio. De entre as diferentes celebrações memoriais avultam as de índole
alimentar. A ceia pascal obedecia a ementa obrigatória: o cordeiro ritual, sem
defeito, macho e de um ano (absque macula, masculus, annicullus - Éxodo,
XII,5), assado inteiro e sem quebradura de ossos, acompanhado de ervas amargas
e pão ázimo, simbolizando respectivamente, os primogénitos mortos, a amargura a
escravidão e a pressa (que nem deu tempo à fermentação) na saída do Egipto.
Complementados por caldos de maçãs, amêndoas, figos e outros frutos cozidos em
vinho, tudo alegórico ao éxodo, e comido de pé e de bordão em punho e atitude
de quem está para iniciar uma viagem.(...)"
José Quitério in Livro de Bem Comer Assírio & Alvim
3 x Novalis
-"A poesia é o real absoluto. Isto é o cerne da minha filosofia. Quanto mais poético, mais verdadeiro."
-"Todo o objecto amado é o centro de um paraíso."
-"O mar é uma essência líquida de rapariga."
terça-feira, 22 de março de 2016
Chegada
"Penso que o motivo por que nos interessamos
por determinadas pessoas ou por certos temas, e não por outros, é, muito
provavelmente, da ordem do inconsciente. Chegamos às coisas ou são as coisas
que chegam a nós?"
Ontem, escrito numa parede da cidade
O filósofo das sapatilhas não sabia como dominar o medo das alturas. Até que um dia adormeceu a pensar em nuvens.
segunda-feira, 21 de março de 2016
A Música Omnipresente do Terceiro Tremor
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| "Paus" no Coliseu Micaelense - Fotografia de Joana Camilo |
A festa da música começou com uma curta audição de
Luís Senra na Biblioteca da Escola Secundária Antero de Quental,
onde decorreu o Mini-Tremor, com muita pequenada presente entretida com os sons
do saxofone e os desenhos de Yves Decoster. O momento musical convidava no
entanto a partir para outras paragens sem antes apreciar a obra de
Tomás de Borba Vieira, presente na escadaria da respectiva escola. À chegada à
Rua d´Agoa 50, o ambiente começava a aquecer com os “Rapeciâz”, os músicos encontravam-se
no local e convidaram o público a entrar para a respectiva sala, cumprindo assim de forma
improvisada, dissonante e, por vezes, harmónica, os preparos sonoros desta actuação. A pulcritude daquela casa e o concerto do trio (acompanhados pelo “performer” João
Malaquias) proporcionaram uma viagem criativa e planante. Com regresso marcado ao planeta
terra, lá fomos à galeria Fonseca e Macedo, apreciar e sentir os
noruegueses “Sturle Dagsland” que, para além de uma performance intensa e
evocativa das florestas do norte da Europa, demonstraram um apetite voraz pelos kiwis
locais. Depois, partida para o auditório Luís de Camões para ouvir os
“Kobayan”, agrupamento possuidor de uma segurança e tranquilidade em palco, aquecendo
o público que se ia acumulando pelos diferentes abalos musicais
espalhados pela cidade. O dia estava
quente, pré-primaveril, e as ruas de Ponta Delgada enchiam-se de gente com pessoas
a acumularem-se na recepção do Louvre Michaelense, descobrindo assim a área do primeiro
andar e assim escutar a “Sara Fontán”, uma virtuosa do violino em pleno devaneio
intimo e auspicioso pelo mundo das bandas sonoras para filmes reais
ou inexistentes. Um pouco mais acima, na Rua de Pedro Homem, a Galeria/Editora
Miolo esperava por nós para assistirmos aos “Diários Visuais” do fotógrafo António
Júlio Duarte, pequenos registos livres de um festival que se realiza por entre
vacas a pastar, piscinas termais e a imponência do verde.
Entretanto, o Solar da Graça encontrava-se
deliciado a ouvir Julianna Barwick, com a madeira a servir de suporte e
vibração numa convocação de música etérea e sombria. Apertados com a escassez do tempo,
nova partida para a Igreja do Colégio, pois era lá que se encontrava em cena o
“Filho da Mãe”, um guitarrista exímio e merecedor de um espaço e assistência a
condizer, motivado com a solenidade devida daquele lugar. Sem dúvida, um momento propício
para escutarmos os temas deste autor seguidor da tradição musical portuguesa, ainda que, com variações e sonoridade nas cordas muito próximas da kora
africana. Foi, sem dúvida, um momento especial deste Tremor, não descurando a contemplação e a beleza da igreja.
A noite musical abriu com uma passagem pelo som dos
“HHY and Macumbas” que subiram ao palco do Ateneu Comercial, num concerto de música bem
animada e recheada de salero. Alguns metros à frente, novamente no bonito Solar
da Graça, o rock soou muito alto com
os decibéis no máximo, pois estavam em palco os
canadianos Black Mountain”. Seguir-se-ia os “Bitichin Bajas e Bonnie Prince
Billy”, no Auditório Camões, um concerto a abarrotar de gente, ainda que se
desconfie que deveria ter sido noutra ocasião o momento para escutar este narrador
contemporâneo e a sua desmesurada melancolia. “Keep on Keeping on” debitava o
cantor ao público que resistiu até ao final, e assim se prosseguiu em romaria, apaziguados e sedentos de mais música.
Por último, uma passagem pela Tascà onde se
encontrava o Dj Fábio "Quesadilla", animador que virou o Tremor do avesso, jorrando danças
e folias para dentro daquela antiga taberna, permitindo apenas um derradeiro
fulgor no Coliseu Micaelense. Na sala de espectáculos mais antiga do
arquipélago, esperava-nos os divertidos e festivos, “Capitão Fausto”, mas viria a ser a banda "Paus", o que de melhor se viu e ouviu durante a noite. Aquelas duas baterias,
sintetizador e guitarra, num cenário tribal e de bruma, levaram ao delírio a assistência
presente e, aquilo que viria a seguir, já só serviu para cumprir o programa anunciado,
o que, voltando à expressão inicial, seria de todo impossível ir a todas, ainda
que houvesse vontade. Passada a festa e o abalo musical e, sabendo agora que já estamos todos a ressacar, o que não é bom sinal, conviria deste modo agradecer à
organização e esperar que estas réplicas musicais se repetissem com mais frequência e se pudessem estender durante o ano
inteiro.
sábado, 19 de março de 2016
Luís Senra no Tremor
Luís Silva tem 27 anos de idade e é
saxofonista tenor. Nasceu e cresceu em Rabo de Peixe, na Ilha de São Miguel. O
seu percurso musical não começou nas filarmónicas como seria de esperar, mas
sim Orquestra de Iniciação ao Jazz da Academia de Rabo de Peixe, passou pela
Oi.Jazz, e Orquestra Regional Lira Açoriana. O seu saxofone já acompanhou os
Za!, Romeu Bairos, Lulu Monde, entre tantos outros. Este açoriano toca hoje à
tarde na Escola Secundária Antero de Quental, neste terceiro Tremor, às 15 horas.
quarta-feira, 16 de março de 2016
Tremor: O Regresso dos Príncipes da Atlântida
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| Medeiros/Lucas - Ilustração de Mário Roberto. |
No
dia em que saiu um tema single do seu segundo disco, “Terra do Corpo”,
intitulado “Sede”, com letra do escritor João Pedro Pedro Porto, a dupla
Medeiros/Lucas inaugurou de forma surpreendente a edição do Tremor de 2016, com
os seus já designados “concerto na
estufa”. O lugar escolhido pela organização para dar o mote à terceira edição
do festival foi o Oficina-Museu do Trabalho, em Capelas, contando com uma
centena de pessoas na assistência. A Oficina-Museu do Trabalho é uma singular
propriedade particular, uma casa típica do mundo de sonhos, capricho de alguém
que pretendeu fazer do passado espaço de nostalgia e múltiplos encantos ainda
que haja necessidade desse sítio vir a ser mais habitado, vivível e com marca de
presente. Ali estão "expostas" uma livraria, tipografia, sapateiro, loja de
fazendas, barbeiro, mercearia, ourivesaria, à semelhança da recriação de uma
pequena rua dos ofícios em miniatura.
Foi nesse ambiente peculiar
que a dupla Medeiros/Lucas escolheu a “Canção do Mar Aberto”, um tema navegante e derivante,
para encetar mais uma viagem em pleno mar alto, embalando e encantando uma
plateia oriunda de todo o país, ansiosa por música bem perto do mar. Esta é,
sem dúvida, uma canção que impõe consideração e aqui a consideração não é só
bonita como também é intensa. Pedro Lucas continuou a viajar com a sua guitarra
baloiçante, em jeito Marc Ribot delicodoce e com laivos de trovador,
aproveitando para cantar o “Asas” na companhia do Carlinhos Medeiros. Uma
canção que preenche na plenitude o copo vazio desse tempo ausente desde a saída
de “Mar Aberto”. Começava assim de forma aguçada a curiosidade para o novo “Terra
do Corpo”, que será apresentado no início do mês de Abril. Seguiu-se “Sina
Saudade” e depois “Marinheiro”, um
tema de Cervantes que Medeiros aproveita para reforçar as vagas revoltas dos
mares atlânticos e as paixões portuárias e ainda o enérgico e encadeado “Fado do Regresso”.
Ouviram-se ainda os temas novos “Sístole” e o curioso tema “Corpo Vazio”, num
jogo repetitivo de vozes e guitarra. E, claro, a finalização do espectáculo caberia
ao já emocionante “O Navio”, cantado sob a forma de hino açórico-universal que enaltece o cais enquanto ponto de todas as partidas e chegadas e que presume “vivas” de forma contagiante.
Para
concerto inaugural deste Tremor de 2016, a intensidade e o brilho desta dupla
não poderia ter sido melhor, tendo o alinhamento musical destes dois músicos
açorianos durado apenas trinta e cinco minutos, com direito ao encore “Rema”,
essa pequena pérola do cancioneiro tradicional, revisto aqui com paixão e
brilhantismo. Ainda que só tivéssemos tido a oportunidade de ouvir quatro temas,
“Terra do Corpo” promete ser um disco intenso e musicalmente bem composto,
preenchido por diversos instrumentos em pano de fundo, contando com dignos convidados, que vai desde o contrabaixista Carlos Barreto, aos
guitarristas Tó Trips e Filho da Mãe, os cantores Selma Uamusse e António
Costa, vocalista dos Ermo, não esquecendo nem desmerecendo, evidentemente, os restantes elementos
do grupo: Ian Carlo Mendonza e Augusto Macedo.
Por
fim, uma nota para o público que esteve bem atento e reagiu com entusiasmo às novas
investidas da dupla. Veremos agora como a banda se portará em palco após a
digressão dos concertos que se seguem. Enquanto nota final, conviria lembrar
que o primeiro concerto desta dupla, organizado pelo produtor João da Ponte,
foi na Tascà na rua de Lisboa, em Ponta Delgada, Ilha de São Miguel. O escriba
deste texto não pôde assistir mas quem lá esteve confirma que foi um concerto
intimo para duas dezenas de amigos, tendo servido para o despertar e alavancar este apaixonante projecto, que assim ficou marcado pela primeira audição pública de
temas que viriam mais tarde a fazer parte do disco “Mar Aberto”.
segunda-feira, 14 de março de 2016
Chegou a Primavera
(...) Chegou a Primavera. O vale de
lágrimas que se espraia à frente da minha janela volta ao verde e floresce. A
relva viçosa cobre o chão, esconde lixeiras e a geena tranforma-se no vale de
Saron onde crescem, além dos lírios, lilases, rubínias e paulownias.
Sinto uma tristeza de morte mas o
riso alegre das raparigas que brincam, invisíveis, debaixo das árvores, toca-me
o coração e desperta-me para a vida. E a vida corre, e a velhice aproxima-se;
mulher, filhos, lar, tudo foi devastado. Outono por dentro, Primavera por fora.
(...)
August Strindberg (1849-1912) in Inferno (tradução de Aníbal Fernandes)
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