segunda-feira, 16 de maio de 2016

"Pulsos Fistréticos - Contos Maléficos" de João Habitualmente

Companhia das Ilhas, 2016.
São várias as histórias/contos que povoam este universo de João Habitualmente, editado agora pela Companhia das Ilhas. Os títulos deste “Pulsos Fistréticos - Contos Maléficos” anunciam várias narrativas: “Leocádia, a Streaper Rural”, “Desidério, o Filósofo do Planalto”, “Antenor, o Combatente da Esperança”, “Oleksiy, o Trapezista do Betão”, “Depois dos Diálogos com o Musgo”, “Train Trip”, “Do Outro Mundo”, “Últimas Palavras”. São 160 páginas de puro deleite narrativo e prazer da leitura, tal como se pode ler em “Oleksiy, o Trapezista do Betão”: “Às quatro em ponto parou para beber água. Miríades de gotículas formavam um diadema aquoso por toda a testa. Descontraiu-se, expandiu o olhar pelos campos em redor. Daquela altura podia vê-los a desdobrarem-se em tons amarelados até à linha da costa. Em paz contemplativa, espraiou-se no andaime como quando, nas noites de friagem de Zaropigia, se reclinava no sofá a aquecer a vodka na crepitação da lareira. Da carcaça do edifício brotava agora a dolência melancólica dum fado, bruscamente interrompido pelo sinal horário. «São 16 horas no continente e na Madeira, 15 nos Açores». Onde seriam os Açores?”. Boa malha!

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Una Donna...

Una Donna in Vacanza è bella

Una donna in vacanza è bella
Porta il calendario incerto della bellezza
E i principi disciplinati della passione
A volte a mezzogiorno sulla sabbia si risveglia
L'orologio biologico delle frasi calcolate

Una donna in vacanza è bella
Una donna in vacanza è troppo bella
Racconta storie incredibili, improbabili
Nasconde la schiuma come onde all'alba
E, infine, conserva la cera che brucia durante gli addii.

Una Donna Arrabbiata è Bella

Una donna arrabbiata è bella
Assorbe fiele come onde agitate
Nasconde scatti di luminosità e di calma
Riconosce il piccolo dolore e il grido
Accumula incisioni e forte riluttanza
Incoraggia l'esistenza senza paura
la casa accesa e la fortuna dovuta

Una donna arrabbiata  è bella
Una donna arrabbiata è troppo bella
Impaziente conserva nella memoria le risate
Rischia dall'alto della luce sovrastante
Si prende cura della paura senza rivelare la storia
Dialogo continuo tutta la notte  
E si rafforza nei sogni reticenti
allontanandosi dall'eccessivo  trambusto.

-Versões de "Uma Mulher em Férias é Bonita" e "Uma Mulher em Fúria é Bonita" vertidas para a língua de Dante com a colaboração de Eva Giacomello. 

Regras do Jornalismo

    “Se fizesse ideia da relação pecuniária entre Carlos Santos Silva e José Sócrates teria feito perguntas por considerar a situação, no mínimo, eticamente reprovável. Mas nunca, desde novembro de 2014, fui questionada, por qualquer dos media que, aos longo de quase ano e meio, me tentaram implicar no caso, sobre o que eu sabia. Nem um pedido de esclarecimento, de entrevista, um questionário. Nada. Como interpretar isto? As regras do Jornalismo (se quisermos fingir que achamos que certos órgãos praticam jornalismo) são claras quanto à obrigatoriedade de ouvir as partes interessadas.”

Fernanda Câncio, revista Visão, 9 de Maio de 2016

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Jorge Kol na Galeria Miolo

exposição de fotografia "Uma Mancheia de Circunstâncias de Independência",  de Jorge Kol de Carvalho, abre hoje ao público, quinta-feira, pelas 18 horas, na Galeria/Editora Miolo, na cidade de Ponta Delgada, Ilha de São Miguel. Trata-se de um conjunto fotografias que tem como referência uma parte recente da História dos Açores, mais concretamente os movimentos autonomistas e independentistas que se lhe seguiram, essencialmente no pós-25 de Abril de 1974. As fotografias, todas elas com a presença de um busto de um homem com a mão ao alto, sob o signo do discurso de independência, mostram essa imagem espalhada por vários lugares: paredes de casas, edifícios oficiais, casas particulares, muros brancos, materiais públicos, etc. O fotógrafo interroga de forma apelativa e estética o discurso revolucionário contido na imagem principal bem como os códigos citadinos associados associados à sua representação. Jorge Kol apresenta-nos uma crítica mordaz e irónica e, por isso, dialoga muito bem e de forma bastante inteligente, com os lugares de todos os dias, evidenciando um campo aberto de perspectivas e sentidos para nos re(vermos) e pensar (mos). A ver e visitar até dia 3 de Junho.

"Fome de Vento" de Medeiros/Lucas (com Tó Trips e Filho da Mãe)

Primeiro tudo é boca
E dela o trago sorvido

Depois o mundo cresce
E nasce o sonho vivido

De pés e mãos andantes
O corpo quer ser vivido

Depois do ventre o norte
E vontade do sentido

Desde o fundo do tempo
O Homem vê-se sofrido

Depois o peito embate
E tudo se faz cumprido

No fim silêncio ouvido
E nele o jogo vencido.

Letra de João Pedro Porto

quarta-feira, 11 de maio de 2016

segunda-feira, 9 de maio de 2016

"Maio" de Raul Brandão

      "Já rebentaram as fontes. Toda a terra se agita, viva, dentando cá fora o seu sonho. Dir-se-ia que sob o chão que pisamos correm rios de tinta que transbordam, subindo nos troncos, cobrindo-os de roxo, de branco, de púrpura e verde…. Vai por esse mundo um deboche de cor. As plantas aparecem-nos na mais linda toilette, os bichos vestem as suas roupas mais ricas. Não há princesa na terra que possua tão maravilhosos tecidos, sedas, oirescências, desenhos, aplicações de igual beleza e juntamente de fragilidade tamanha…. Vi ontem uma vespa a passear numa pétala de rosa…. Tinha caído um desses aguaceiros de Primavera rápidos e precipitados – mas logo o céu correu a jorros, dourando a terra.
(…) O português, que é sempre um poeta, tem esta falha – não ama as flores. Em qualquer canteiro se podem criar obras de prodígio; a mais mesquinha terra é fácil de converter-se em sonho. Pois vê-la-eis estéril e abandonada. Há neste doce país o desprezo da flor – a não ser que ela se possa trocar em moeda corrente. Não é raro vermos numa praça pública abater-se sem protesto uma árvore. É até vulgar!.... Quando uma árvore começa a ser bela, esgalhada e enorme, cheia de ruídos e de sombra, surge o vereador e corta-a, sem imaginar, sequer, que mais vale um simples e humilde plátano do que um conselheiro de Estado. O político é inútil…. Faz mais diferença à natureza o assassinato de uma grande árvore, que dá sombra e frescura, que a alta missão de purificar a atmosfera, do que a morte de meia dúzia de conselheiros de Estado gravíssimos e calvos. Perdoem-me!...
Ah sim! Maio, não era? Era de Maio que eu vinha falando?.... Já rebentaram novas fontes e não há valado, carreiro de aldeia onde não cresçam lírios selvagens, lindas florinhas graciosas e humilíssimas…. As raparigas cortam-nas, enfeitam com elas os cabelos e os seios – e riem, coram, se as olhamos. Só na cidade não há flores. Ontem, ao entardecer, deparei na rua com este caso enternecedor e banal. Nem já se diferenciavam as ressequidas. Uma triste rapariguinha que passava, descalça, de saia rota e cabelos ao vento, apanhou-as da poeira. Sacudiu-as e pondo-as no peito, partiu a cantar numa satisfação imensa, alegre como um pássaro.
Era decerto condão das flores – mas também de Maio que chegou, com a sua magia e o seu sonho. Rebentaram novas fontes, e a terra di-la-eis agitada e viva. Sob o chão que calcamos correm rios de tintas que transbordam e cobrem de árvores de roxo, de púrpura, de verde."

in Brasil-Portugal, Lisboa, 16 de Maio de 1901, pp.125-126- Tb. In Vimaranense, Guimarães, 5 de Maio de 1917, p.1. Retirado do livro A Pedra ainda espera dar flor, dispersos. Raul Brandão (Organização Vasco Rosa).

Sonhos

Dreams de Sten Erland Hermundstad
(imagem You Tube)
          Quanto vale um sonho? Quando custa perder um sonho? E os sonhos todos juntos quanto valem? E perdê-los todos num só dia? E abrir mão deles podemos? Há dias em que podíamos muito bem construir todo um universo à volta deles?A música contribui para esse edifício onírico à volta dos sonhos de olhos abertos.Sonhos que permitem que absorvemos o ar todo do mundo, a respiração dos pequenos gestos quotidianos, o esplendor da vida que ao nosso lado se agita. Por isso quando sonhamos sabemos que há sonhos que são unicamente nossos, que nada nem ninguém nos consegue tirar...

sábado, 7 de maio de 2016

Chet Baker

Amarga coincidência essa de te fotografarem
sentado no peitoril de uma janela tocando
trompete e o modo como morreste. A toada

limpa e morna que se ouvisse se tocavas para alguém
para a cidade ou apenas para a noite são perguntas
com tanto de inútil como de impossível de responder.

Permanece o forte tempero de ironia de que
o jazz é composto esse sorriso à dor uma forma
de unir tudo o que na vida é fuga.
Agora só essa toada de bicho nocturno confirma isso

a ironia a fotografia a forma como morreste e quem sabe
um engano que levasse o tempo de uma queda

de um corpo da janela ao chão da rua.

António Amaral Tavares

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Fazendo 106

      Saiu a edição nº106 do boletim cultural FAZENDO(https://issuu.com/fazendofazendo), mais uma vez em formato online e versão impressa. Ao todo são quinhentos exemplares impressos na Tipografia Telégrafo, na cidade da Horta, Ilha do Faial. Em oito anos de publicação, já lá vão 106 números distribuídos e espalhados pelas mesas e lares das ilhas açorianas. Nos últimos tempos chega com sucesso (e de forma aérea e voluntária!) a cinco ilhas: Faial, Pico, Terceira, São Miguel e Santa Maria. É, desde o primeiro número, livre, gratuito, independente e comunitário. É a experiência participada, informativa, livre e autónoma mais bem sucedida nos tempos mais recentes em todo o arquipélago açoriano. A direcção deste boletim cultural é pertença do Tomás Melo e da Aurora Ribeiro. E todos os anos a revista altera o seu grafismo, renova a constituição dos seus conteúdos, não incluindo qualquer forma de publicidade comercial. Não há memória de nada assim ousada e tão longeva, essencialmente com estas particularidades na história das revistas/jornais nos Açores. Curioso também é o facto de não estar sob a alçada de qualquer instituição governamental ou poder político. 
A edição de Maio do FAZENDO traz consigo a capa do fotógrafo Jorge Barros que continua a fotografar as ilhas e os açorianos de forma sensível e irrepreensível. Caso mesmo para dizer: “Baleias de Barbas e Baleeiros de Bigode”. Há, portanto, no seu interior muitos artigos para ler e fruir nesta Primavera com muito pólen no ar e muitas águas vivas a chegar. Boas leituras! Eis a edição online:https://issuu.com/fazendofazendo/docs/106_zen_impress__o/1

Satie 150 no Teatro Micaelense

Joana Gama por Eduardo Brito
Erik Satie“Sonneries de la Rose + Croix (Air du Grand Prieur)
John Adams“China Gates”
Erik Satie“Gnossienne n.º1”
Carlos Marrecos“Três Prelúdios Sobre o Mar”
Erik Satie“Gymnopédie n.º1”
Arvo Pärt“Für Alina”
Erik Satie“Embryons Desséchés”
John Cage“Dream”
Erik Satie“Sonatine Bureaucratique”
Alexander Scriabin“Vers la Flamme”
Erik Satie“Cinéma