segunda-feira, 28 de novembro de 2016
sexta-feira, 25 de novembro de 2016
Uma Janela para o Fim de Novembro
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| Fotografia Germana Eiriz |
De cabeça e corpo na brecha que dá para a cidade
insular e, como tal, não há qualquer regresso possível às ruas da infância onde,
por sinal, ainda há quem nos aguarde. A luz do tempo é serena. A acritude foi substituída pela
esperança e, talvez por isso, é como se nunca tivesse havido partida para longe
ou para sítio algum. A haver errância seria de resignação e permanência. O olhar
pousa agora sobre o cinza da paisagem e dos telhados citadinos. Desta feita são as
memórias que evitam que o desencanto se instale. Parte-se assim pelo interior dos dias adentro até à indagação de cantos e vozes deste tempo confuso, difuso, repleto de
oportunidades por cumprir. Outro tempo é também enviado pelo Alexandre, exímio
guitarrista, que aprendi ouvir desde muito cedo, revelador de trilhos e veredas, que
nos esclarece em suplemento de espectáculos as vias com que agora se cose
as malhas da sua criação: “Quanto mais
avançamos no tempo, mais recuamos também, porque conseguimos ler melhor,
descobrir mais informação sobre as coisas que já passaram há muito tempo, como
se elas ficassem mais próximas.” Exagera-se, é certo, e assim talvez se acredite que é fora
de portas que escutamos o clamor do mundo, que pressentimos esse coro inquieto
de um universo criativo partilhado.
Em suma, prometemos não recalcitrar do estado
das coisas, incutiremos loas à encantadora noite de sons e luzes que se avizinha. Promete-se ligar os sentidos, todos sem excepção. Respiraremos mornas, prolongando sabor de cocadas e o verter do "quentão" e do "grogue" num
auditório com nome de excelso poeta quinhentista. É testamento e herança de uma cultura
que se vive de forma misturada, alegre, intensa. A cidade, essa, vai descendo o seu cenário até
ao mar. E anoitece...
segunda-feira, 21 de novembro de 2016
domingo, 20 de novembro de 2016
La Voz a ti Debida
Para vivir
no quiero
islas,
palacios, torres.
¡Qué alegría
más alta:
vivir en los
pronombres!
Quítate ya
los trajes,
las señas,
los retratos;
yo no te
quiero así,
disfrazada
de otra,
hija siempre
de algo.
Te quiero
pura, libre,
irreductible:
tú.
Sé que
cuando te llame
entre todas
las gentes
del mundo,
sólo tú
serás tú.
Y cuando me
preguntes
quién es el
que te llama,
el que te
quiere suya,
enterraré
los nombres,
los rótulos,
la historia.
Iré
rompiendo todo
lo que
encima me echaron
desde antes
de nacer.
Y vuelto ya
al anónimo
eterno del
desnudo,
de la
piedra, del mundo,
te diré:
«Yo te
quiero, soy yo».
Pedro Salinas (1933)
sábado, 19 de novembro de 2016
Morte ao Meio Dia
No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça
Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul
Que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol
No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente
E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol
Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?
Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento
O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia
A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer.
Ruy Belo
sexta-feira, 18 de novembro de 2016
quinta-feira, 17 de novembro de 2016
terça-feira, 15 de novembro de 2016
Bilhete
Fui-me embora, não esperes por
mim.
Se alguém der pela falta, diz
apenas
que estou bem, continuo a fazer o
mesmo
de sempre, trabalho, casa,
trabalho, casa.
Só não mintas às filhas, diz-lhes
que fui
procurar na distância outra forma
de solidão,
talvez convencido de que longe de
tudo
poderei vir a sentir falta do que
já tenho.
Henrique Manuel Bento Fialho in Estação 2012
segunda-feira, 14 de novembro de 2016
domingo, 13 de novembro de 2016
Leonard Cohen: Dançar até ao Fim do Amor...
“Dance me to your beauty with a
burning violin/Dance me through the panic till I'm gathered safely in/Touch me
with your naked hand or touch me with your glove/Dance me to the end of
love/Dance me to the end of love/Dance me to the end of love/Dance Me To The
End Of Love”
sábado, 12 de novembro de 2016
Ama San de Cláudia Varejão
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| Ama San de Claudia Varejão |
É sábado em Rabo de Peixe e há
sessão de cinema no Cine-Teatro Miramar. Nas ruas e soleiras das portas ali estão as mulheres
e as crianças nos seus espaços de sociabilidade desta pequena freguesia
micaelense. Hoje há filme de Claudia Varejão e são poucos os que dali se
interessam ou ouviram falar do que iremos ver. As imagens do filme irão
levar-nos para o Japão contemporâneo, pois numa ilha remota existem mulheres de
diferentes faixas etárias que mergulham em apneia à procura de moluscos (abalones),
vivendo as suas vidas aparentemente simples e harmoniosas, num contacto diário
com a natureza.
Cláudia
Varejão transporta-nos de forma delicada para uma tradição ancestral, ainda que
patriarcal, mostrando-nos as relações laborais e quotidiano, o espaço doméstico, a diversão
e a intimidade destas mulheres. São raros os momentos em que nos sentimos a invadir privacidade alheia, sendo cúmplices dessa rotina dura, austera e organizada e, talvez por isso, este filme é tão cheio de beleza e
fortuna. Agradecidos à residência do Pico do Refúgio pela oportunidade e
parabéns à cineasta pela partilha.
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