sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Uma Janela para o Fim de Novembro

Fotografia Germana Eiriz
         De cabeça e corpo na brecha que dá para a cidade insular e, como tal, não há qualquer regresso possível às ruas da infância onde, por sinal, ainda há quem nos aguarde. A luz do tempo é serena. A acritude foi substituída pela esperança e, talvez por isso, é como se nunca tivesse havido partida para longe ou para sítio algum. A haver errância seria de resignação e permanência. O olhar pousa agora sobre o cinza da paisagem e dos telhados citadinos. Desta feita são as memórias que evitam que o desencanto se instale. Parte-se assim pelo interior dos dias adentro até à indagação de cantos e vozes deste tempo confuso, difuso, repleto de oportunidades por cumprir. Outro tempo é também  enviado pelo Alexandre, exímio guitarrista, que aprendi ouvir desde muito cedo, revelador de trilhos e veredas, que nos esclarece em suplemento de espectáculos  as vias com que agora se cose as malhas da sua criação: “Quanto mais avançamos no tempo, mais recuamos também, porque conseguimos ler melhor, descobrir mais informação sobre as coisas que já passaram há muito tempo, como se elas ficassem mais próximas.” Exagera-se, é certo, e assim talvez se acredite que é fora de portas que escutamos o clamor do mundo, que pressentimos esse coro inquieto de um universo criativo partilhado.
             Em suma, prometemos não recalcitrar do estado das coisas, incutiremos loas à encantadora  noite de sons e luzes que se avizinha. Promete-se ligar os sentidos, todos sem excepção. Respiraremos  mornas, prolongando sabor de cocadas e o verter do "quentão" e do "grogue" num auditório com nome de excelso poeta quinhentista. É testamento e herança de uma cultura que  se vive de forma misturada, alegre, intensa. A cidade, essa, vai descendo o seu cenário até ao mar. E anoitece...

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

domingo, 20 de novembro de 2016

La Voz a ti Debida

Para vivir no quiero
islas, palacios, torres.
¡Qué alegría más alta:
vivir en los pronombres!

Quítate ya los trajes,
las señas, los retratos;
yo no te quiero así,
disfrazada de otra,
hija siempre de algo.
Te quiero pura, libre,
irreductible: tú.
Sé que cuando te llame
entre todas las gentes
del mundo,
sólo tú serás tú.
Y cuando me preguntes
quién es el que te llama,
el que te quiere suya,
enterraré los nombres,
los rótulos, la historia.
Iré rompiendo todo
lo que encima me echaron
desde antes de nacer.
Y vuelto ya al anónimo
eterno del desnudo,
de la piedra, del mundo,
te diré:
«Yo te quiero, soy yo».

Pedro Salinas (1933)

sábado, 19 de novembro de 2016

Ontem, escrito numa parede da cidade

Ao desejo de partir soma-se uma resignada permanência

Morte ao Meio Dia

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

Que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer.


Ruy Belo                                                              

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Bilhete

Fui-me embora, não esperes por mim.
Se alguém der pela falta, diz apenas
que estou bem, continuo a fazer o mesmo
de sempre, trabalho, casa, trabalho, casa.

Só não mintas às filhas, diz-lhes que fui
procurar na distância outra forma de solidão,
talvez convencido de que longe de tudo
poderei vir a sentir falta do que já tenho.


Henrique Manuel Bento Fialho in Estação 2012

Oblak, oblak...

Fotografia de André Almeida

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

domingo, 13 de novembro de 2016

Citroën 2CV

Desenho a Bic por Luís Silva

Leonard Cohen: Dançar até ao Fim do Amor...

“Dance me to your beauty with a burning violin/Dance me through the panic till I'm gathered safely in/Touch me with your naked hand or touch me with your glove/Dance me to the end of love/Dance me to the end of love/Dance me to the end of love/Dance Me To The End Of Love”

sábado, 12 de novembro de 2016

Ama San de Cláudia Varejão

Ama San de Claudia Varejão
               É sábado em Rabo de Peixe e há sessão de cinema no Cine-Teatro Miramar. Nas ruas e soleiras das portas ali estão as mulheres e as crianças nos seus espaços de sociabilidade desta pequena freguesia micaelense. Hoje há filme de Claudia Varejão e são poucos os que dali se interessam ou ouviram falar do que iremos ver. As imagens do filme irão levar-nos para o Japão contemporâneo, pois numa ilha remota existem mulheres de diferentes faixas etárias que mergulham em apneia à procura de moluscos (abalones), vivendo as suas vidas aparentemente simples e harmoniosas, num contacto diário com a natureza.
Cláudia Varejão transporta-nos de forma delicada para uma tradição ancestral, ainda que patriarcal, mostrando-nos as relações laborais e quotidiano, o espaço doméstico, a diversão e a intimidade destas mulheres. São raros os momentos em que nos sentimos a invadir privacidade alheia, sendo cúmplices dessa rotina dura, austera e organizada e, talvez por isso, este filme é tão cheio de beleza e fortuna. Agradecidos à residência do Pico do Refúgio pela oportunidade e parabéns à cineasta pela partilha.