domingo, 13 de janeiro de 2013

Incomoda não haver...

Uma das capas do disco
    Amigos terceirenses mostram-me a curiosa capa do disco "O Cantar Na M´ Incomoda" - disco de 1998, estranhamente esgotado! Extraordinário trabalho de Carlos Medeiros que há dois anos conheci na "sede" do Boletim Cultural
Fazendo(https://issuu.com/fazendofazendo), na Ilha do Faial. Há músicas que não se cansam de ser escutadas, como são as canções florentinas: "O Marujo", "Santiana" e "Rema", esta última tocada vezes sem conta pelo José Serpa no verão passado, em plena Fajã Grande, na Ilha das Flores, com a sua guitarra portuguesa. Músicas maravilhosas, como bem sabemos! E assim chegamos, contemporaneamente, ao Pedro Lucas e aos dois trabalhos do "O Experimentar na M´Incomoda", CD´s que homenageiam o trabalho do Carlos Medeiros e do José da Lata, mas que também não se encontram aqui à venda ou disponível ao público em nenhum local. Quando saiu recentemente o "2: Sagrado e o Profano", disco agraciado com as melhores críticas na imprensa continental - "Público" e "Expresso",  pensou-se que finalmente o(s) disco(s) se estenderiam às mais diferentes ilhas açorianas, o que não se veio a verificar. Por outro lado, continua a ser uma surpresa o silêncio da imprensa terceirense, omitindo até ao momento a existência do disco, não mencionando ou fazer qualquer referência a este trabalho. Gosto muito dos trabalhos e da voz do Carlos Medeiros, dos discos do Zeca Medeiros, da reinvenção do Pedro Lucas, mas à semelhança do Museu das Flores que fechou no mês de Agosto de passado, continuarei sem perceber por que é que os discos destes músicos não estão disponíveis em todas as ilhas em qualquer instituição pública açoriana. Os Açores são ilhas de bons e conceituados músicos - dizem que muito disso se deve às Filarmónicas -  mas continua, no entanto, a faltar qualquer coisa para uma distribuição efectiva dos autores açorianos. Qualquer forasteiro que aqui chegue devia poder encontrar mais qualquer coisa do que o folclore tradicional. 

sábado, 12 de janeiro de 2013

Óciologia


DM: Caro Doutor Mara,  boa tarde, sabemos que se encontra a preparar mais uma conferência de grande envergadura, certamente em mais um tema fracturante para a sociedade portuguesa. Será que nos pode levantar o véu daquilo que iremos ouvir muito em breve e que é motivo da sua total entrega, dispêndio de tempo e de energia?
Doutor Mara:  Sim, posso, sem qualquer problema. Não há aqui qualquer segredo, permitam-me que  vos diga, pois  ultimamente tenho tentado perceber como funciona o ócio na sociedade portuguesa e demais. A Conferência versa a inacção, isto é, o que é isso de ser improdutivo numa sociedade e num planeta que  já vimos  produzir de forma explosiva e excedentária e que caminha rapidamente para a sua extinção. No entanto, apesar da elevada produção, consumo, desperdício e extinção dos seus recursos naturais, reparem bem na quantidade de gente desempregada que estas sociedades geram e a angustia de todos aqueles que não encontram trabalho e consequentemente dinheiro para suprir as suas necessidades básicas do dia-dia. Com estas máquinas e toda a panóplia tecnológica existente, o "exército" da produção necessita  cada vez menos de "soldados". Há, portanto, perguntas que têm que ser feitas: O que fazer com o tempo livre que aí vem? O que fazer nas horas de ócio? Será que estão a pensar taxar a preguiça? O que pensam fazer com tanta gente que não possui dinheiro para comprar o ócio que lhes oferecem?
DM: Certo, Doutor Mara, compreendemos. Mesmo assim o que será do mundo e das nossas sociedades se não houver gente que produza e coloque alface fresca pela manhã no mercado municipal? 
Doutor Mara: Percebo a vossa inquietação, mas o meu estudo e, neste caso esta minha prelecção, vai irreversivelmente noutro sentido, pois interessa-me sobretudo estudar o lado ocioso, o "dolce fare niente" contemporâneo, o sector mesmo improdutivo das nossas sociedades. Interessa-me essencialmente esta gente que passa os dias recluso nas suas casas e quartos ou ainda parados nas praças e nos mercados sem nada para fazer, ainda que muitos deles com imensas histórias para contar. A conclusão a que eu chego é que a nossa sociedade já não sabe viver com o tempo livre que dispõe. É muito curiosa a expressão "tempo livre", não é? Tenho, por assim dizer, uma imensa ternura pelos vadios, boémios, marialvas, estoura-vergas, valdevinos e, demais criaturas e seres improdutivos que, sem prejudicar ou extorquir o próximo, conseguem encontrar o seu espaço nesta sociedade do deve e haver. Penso ainda assim que é preciso muito, mas mesmo muita imaginação para conseguir sobreviver, ainda que com alguns trocos, evidentemente.

DM: Curioso o que nos acaba de dizer, Doutor Mara. Será que podemos considerá-lo um defensor acérrimo do ócio criativo?
Doutor Mara: Eu gostaria mas nem sempre consigo tornar o meu próprio ócio criativo, o mesmo penso que  acontece  convosco, não é assim? Deixe que vos conte uma história: tenho um amigo que, em plena adolescência, a sua casa de banho mais parecia uma biblioteca pública, ainda que a maioria dos livros  fosse da Walt Disney e afins. Os pais pensavam que ele iria tornar-se um brilhante leitor e, posteriormente, num excelente estudante. No entanto, ele em vez de ter ficado viciado no Tio Patinhas desenvolveu uma enorme empatia com o Zé Carioca, encerrando-se nesse universo de ócio e preguiça do qual nunca mais se libertou. Curioso, não é? Hoje é dono de uma livraria com livros em segunda mão, aquilo a que se chama um Alfarrabista. É perito em raridades bibliográficas, "monos" e livros de bolso. Abre às seis da tarde e fecha às oito da noite, dependendo da clientela. Nunca o vi a dizer um palavrão.  

DM: As pessoas quando têm férias ou tempo disponível costumam viajar para paraísos turísticos, sítios exóticos, quanto mais excêntricos, melhor. O que é que o Doutor Mara que estuda com afinco estes assuntos tem a dizer sobre isto?
Doutor Mara: Muito pouco, ou quase nada, evidentemente. Ainda que conheça um indivíduo que gosta de passar férias em zonas de guerra ou conflito armado eminente. Já vi fotografias deste em situações de guerra, junto de carros armadilhados e bombas a explodir ou em ambientes hostis, a ferver de adrenalina e intensidade. Vi-o, inclusive, na selva da Rodésia a fugir de um leão faminto, tendo sido salvo pela trompa de um elefante que o ajudou a subir um muro. Há gostos para tudo, creio que nestes casos, é ter algo para contar e sair de um aborrecimento contínuo para uma ou duas semanas de aventura. Tudo isto talvez sejam consequências de uma sociedade impreparada para o verdadeiro ócio...para o usufruir verdadeiramente de um tempo livre em que os indivíduos é que devem ter a última palavra a dizer! Normalmente vão atrás da primeira frase que lhes dizem: o hotel em frente ao mar, a temperatura da água e as águas cristalinas, o gelado de seis sabores. A maior parte das vezes, aborrecem-se e apanham o avião de volta. Nada a fazer.   

DM: Conte-nos, Doutor Mara, como é que costuma ocupar os seus tempos livres?
Doutor Mara: Faço aquilo que o comum dos mortais normalmente faz: corto as unhas, lavo os dentes, dou um passeio pela cidade ou à beira-mar, escrevo cartas em folhas de papel branco, componho canções de inverno e veraneio, vagueio com livros pelos cafés da cidade, planto erva-doce e rúcula, participo no mercado de trocas e, sobretudo, durmo de papo para o ar e de boca aberta. Normalmente, entra mosca.  

DM: Uma pergunta bastante pessoal pois soubemos que o seu plasma ainda se encontra dentro de uma caixa de papelão. Onde é que vê televisão: fora de casa ou na Internet ?
Doutor Mara: É muito, muito raro mesmo ver essa caixa que de facto mudou o nosso mundo. Neste período de chuvas fortes, peço à vizinhança, dado não conseguir ver televisão sozinho. Incomoda-me imenso a chuva a cair com as bátegas de chuva a bater nas vidraças e eu ali a ver televisão, como se não houvesse mais nada para fazer. Tenho a sorte dessa família ser bastante numerosa e ocorrer passarmos serões a discutir a programação dos diferentes canais. Por vezes, dão-se debates muito interessantes que ninguém quer deixar de mandar a sua bicada, como se costuma dizer. Há dias discutimos sobre o que é isso do serviço público de televisão. Dei-lhes o exemplo do desaparecido TV Rural...um programa sobre o mundo rural feito na altura para citadinos...tinha bastante audiência.

DM: O que significa a palavra trabalho para si? 
Doutor Mara: Será que é que aquilo que fazemos por prazer ou obrigação? Não sei.Ando há dezenas de anos a tentar perceber se o trabalho liberta...custa muito acreditar neste premissa. (Toca o telefone). Desculpem, é trabalho, estão a pedir-me serviços, sentido de missão e sapiência...vou ter que voltar ao meu estudo, peço imensa desculpa!

DM: Para terminar, uma pergunta um pouco absurda, mesmo assim não podemos deixar de a fazer: o que é que espera estar a fazer daqui a dez anos?
Doutor Mara: Nada. Absolutamente nada!

DM: Muito obrigado, Doutor Mara! Um bom serão para si e esperamos vê-lo entretanto!

Longe a Longe

Longe a longe  
ler a  última página do jornal
acenar aos primeiros veleiros da manhã
fazer cócegas no pescoço da memória
evidenciar o azul celeste do oceano 
erguer a janela com o raiar da aurora 
reconhecer os lábios vermelhos da juventude
longe a longe  
apertar os botões do casaco um a um  
bater no peito como no tambor da infância
avistar golfinhos à distância de um pulmão
verter lágrima e o berro cristalizado 
despertar do sono e da tempestade 
começar a andar descalço até ficar sem chão.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Os jornais, os jornais...


            Há hábitos que não mudam, perduram inexoravelmente  ao longo do tempo e há qualquer coisa na rotina destes hábitos que que só um viciado em informação e notícias compreende. É verdade que hoje há internet e computadores por todo o lado, há jornais online de todo o mundo disponíveis num abrir e fechar de olhos, mas há  também hábitos  antigos que são difíceis de abandonar. Difícil será assim desistir desse velho costume diário de sair de casa para adquirir um jornal ou lê-lo em algum café ou esplanada,  essa compra implica a procura do seu local de venda em determinado lugar da cidade, essa rotina repetitiva de que só uma grande paixão abarca, e que obriga ao movimento e exercício de um determinado ritual que permanece e vai resistindo ao longo de tanto tempo. Dessa deslocação até ao local de compra, guarda-se o gesto de receber o jornal ainda com a tinta pela manhã, a cumplicidade de  pagar a respectiva quantia ao vendedor, receber o troco e ser reconhecido como sendo leitor de um determinado veículo de opinião, ainda constatar a facilidade em reconhecer outros companheiros dessa aventura quotidiana ou semanal. Os dias são perfeitos até que um dia na esplanada ou no interior do café se detecte a ausência do suplemento que devia constar no interior do jornal…até parece que o dia fica, irremediavelmente, perdido! Houve tempos em que o "Independente" e as tardes de sexta-feira eram sinónimo de enorme curiosidade, alegria, liberdade e discussão no antigo café Diana Bar, hoje Biblioteca de Praia. Ali eram tardes inteiras a estudar e a ler os jornais e seus suplementos com a janela virada para o mar. Sim, o "Independente"  era a garantia de uma tarde de leitura animada e bem passada junto do mar em conversa com os amigos que iam chegando com novidades até à hora do jantar. Havia, entretanto, outros momentos, só que mais esporádicos e ocasionais  desse contacto com outros órgãos da imprensa escrita mais politizada, e que eram à altura, também eles, instigadores de tertúlia e conversa à volta das mesas. Havia a Politika, criação do Miguel Portas enquanto andou pelo PCP, o Combate, mensário do PSR (Partido Socialista Revolucionário) onde se lia a Eduarda Dionísio e o João Martins Pereira  e, um pouco mais tarde, a revista , onde se lia e debatiam as crónicas apaixonadas e apaixonantes do Paulo Varela Gomes. O Público é hoje o reservatório dessa resistência de um jornalismo lido fora de portas, muito devido aos seus jornalistas e às crónicas da Alexandra Lucas Coelho, Paulo Varela Gomes (outra vez!) e  o Rui Cardoso Martins. É ainda através deste jornal que ficamos a saber sobre os novos temas ao piano do João Paulo Esteves da Silva, bem como do seu último concerto no CCB, ou que a animação "Kali, o Pequeno Vampiro", de Regina Pessoa, é candidato aos Annies Awards.

Abstenção de Cinema

  "Ando cumprindo mal meus deveres de cronista. Não está certo, não, Vinicius de Moraes. O público te paga para escrever, e você, em vez, fica a andar de bicicleta com o Rubem Braga pelas praias do Leblon ou a roer a sua solidão nos bares de Capacabana, ingerindo chopes, além de tudo uma coisa que não pode fazer bem à colite.  Você vai num mau caminho, rapaz. Você devia era entrar no cinema e ir ver Shirley Temple - mas como dói! Anteontem, passando em frente ao Rian, você teve mentalmente o seguinte comentário diante do cartaz: "Casei-me com um nazista". «Quem mandou...Nada disso está certo. Você é um rapaz de responsabilidade, com dois filhos, uma bela carreira na sua frente, talvez até com um ou mais um ou dois livros a escrever. Você devia acordar mais cedo, olhar a aurora nascer, encher os pulmões da salsa brisa atlântica, fazer uma hora de ginástica, tomar um banho frio e escrever um poema sobre a eugenia. Mas, não. Há uma semana que você não vai ao cinema. Olhe que você com essa sua abstenção pode ter feito mal a algum fiel leitor seu - esse desconhecido...que, por incauto, e sem a sua rija orientação cinematográfica, se deixasse seduzir  pela burrice dos cartazes, e...mais uma alma no inferno do cinema...
     O médico em você se rebela contra essas surtidas dos monstros, Vinicius de Moraes. Ouve a voz que te conclama ao sereno e imparcial  cumprimento do dever. Fecha os olhos, vai ao cinema. Ingere Shirley Temple e outras adolescências geniais como ingerias o teu óleo de rícino na infância, ministrado pela mão mussoliniana de tua tia. O público assim o quer. Deixa de hipocondrias. Sê cronista. Vence a sedução da máquina  e o canto da sereia de Rubem Braga. Atira-te à confecção de joias de bom gosto cinematográfico, pipocando em conceitos do mais alto interesse artístico, e larga essa mania de querer andar sem mãos e quem sabe  - ó sonho! - de costas para a frente, na bicicleta. Ainda domingo passado pagaste quarenta cruzeiros ao garagista. Está louco, rapaz, com o quilo de carne a três cruzeiros e sessenta centavos?
      Não está certo, não, Vinicius de Moraes. É preciso comer cenouras, tomar pelo menos meio litro de leite por dia - e não uma uma bagaceirinha ou outra, está ouvindo? - ir ao cinema e depois meditar uma boa crónica ante um chá  com waffle and mapple numa das cadeiras da Americana, entre senhoras abastadas - e não chope, está ouvindo?, que é uma coisa que encharca o estômago e não nutre nada...(Mas, afinal de contas, esse negócio de cevada é ou não é batata?)"

Vinicius de Moraes, in Manhã, 23 de Fevereiro de 1943

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Canela de Angra

Meninas de canela à mesa
a casa de bonecas insular povoam
assomam-se na presença da neblina e do salitre
ocultam a lava e a centelha
um vulcão guardado ao peito
enrolam açúcar na ventania
a palha fustigada a preceito
o deserto nocturno antecipam
nas zonas líquidas ali gravito

Os Bravos

meu bem
se te fores bravo
meu bem como dizem
que te vais
irei manso 
à terra dos bravos 
mais
mansamente no balanço
dos teus braços


esta terra diz
bravo meu bem que é brava
   de brandecer
a ira
        irarei com mansidão
         bravo meu bem e só 
            para a tua companhia
     pois que tu ah mô
 meu bem bravo
                                                                        me queres querer 

in "Ilhíada" de Vasco Pereira da Costa, edição da Secretaria Regional da Educação e Cultura 1981, Angra do Heroísmo. 

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Futurofagia

DM: Caro Doutor Mara,  soubemos que passou o ano no seu gabinete à espera das doze badaladas e só algum tempo depois é que abriu uma das janelas que dá para a rua. Alguma superstição?
Doutor Mara: Nada disso. A verdade é que desde pequeno que sou muito sensível ao barulho dos relógios de corda, julgo que aquele som remete a minha imaginação para a adorada e irrecuperável infância que eu tive. Nestas alturas da entrada de um novo ano, sinto sempre uma fina e doce aragem infantil que me invade a alma, deixando-me completamente letárgico, desassossegado e anestesiado, o que pode parecer contraditório. Julgo que foi o tempo suficiente para acender um puro e desfrutar do amável aroma das fábricas de tabaco da minha Havana querida. 

DM: Doutor Mara, compreendemos. Sinceramemente, diga-nos, o que espera de 2013?
Doutor Mara: Sinceramente, preferia entrar já em 2014. Como o próprio número indica, temos que ser cautelosos com o que aí vem. Sabem que não sou de dar palpites nem gosto de abusar de prognósticos, como devem calcular. Nós, latinos, somos dados ao pessimismo, o que por um lado é muito bom, mas há que ter em conta que nestes momentos é muito importante agir. Ainda que com uma boa dose de preguiça, pois claro. Sou, como se costuma dizer um "pugilista" dos novos tempos, portanto, quem tiver um quintal deve começar já a fazer a sua horta, quem tiver bicicletas deve levá-las ao mecânico, quem tiver relógios deve voltar a andar com eles no pulso, quem tiver uma enxada no sótão deve ir buscá-la, quem gostar de democracia deve comprar um guarda-chuva e quem for adepto do cinema iraniano deve comprar um viagem de avião para o Festival de Berlim. 

DM: Sente que a cultura em Portugal está ameaçada?
Doutor Mara: Creio que nunca deixou de estar. O meu avó, que não era propriamente um intelectual, dizia sempre que ainda havíamos de acabar todos a jogar matraquilhos. Estou confiante que as suas previsões vão chegar mais cedo do que o previsto. Tenho receio, no entanto, que esta crise irá, no entanto, agravar a variedade e diversidade de equipas em disputa. O Sporting se continuar a jogar assim no campeonato corre o risco de desaparecer do mundo dos matrecos, o que é uma autêntica desgraça, e o Sporting de Braga que substituirá o Sporting, muito provavelmente  terá que usar o seu equipamento alternativo para não ser confundido com o Sport Lisboa e Benfica. A ser assim, ficamos com mais um problema de economia real para os detentores destes jogos de sorte e azar espalhados pelo país e ilhas.  É caso para dizer: o que mais nos irá acontecer?

DM: Soubemos, no entanto, que ficou bastante desiludido com a escolha dos melhores livros, filmes e álbuns de 2012?
Doutor Mara: Talvez tenha havido aqui alguma fuga de informação. Não foi bem desilusão, é não chegar a perceber para quê que aquilo serve. É como aquelas estrelas que os críticos atribuem...uma coisa é expressar uma opinião a outra é atribuir bolinhas ou estrelas consoante a boa ou má disposição com que se acorda pela manhã. Um músico, um cineasta, um actor, um poeta ou um escritor não deviam ter este tipo de escrutínio redutor, simplista e faccioso. Todos os anos lá estão as listas, as bolinhas e as estrelas...eu prefiro as serpentinas, os cigarros de chocolate e os rebuçados do doutor Bayard para a tosse.

DM: Por pouco quase que tocava a sua irritação com o ranking anual das escolas?
Doutor Mara: Sim, é verdade, esta foi de raspão. São simplificações que servem uma determinada opinião pública e que visa tornar ainda maior o fosso entre as escolas públicas e as  escolas privadas. É uma espécie de  nouvelle cuisine...misturar alhos com bugalhos, lançar a confusão e depois  dizer que não tem nada a ver uma coisa com a outra e que as escolas saem beneficiadas deste tipo de julgamento e escrutínio. É típico da xico-espertice lusitana, pois todos sabemos que estamos a avaliar pessoas de contextos sociais, culturais e económicos diferenciados em contexto de exame.  Por outro lado, a maior parte de nós aprendeu na escola a não querer uma data de coisas que são hoje para nós bens essenciais à existência, tais como o direito à diferença, ler e aprender o que não está nos programas, sonhar com outro tipo de escolhas para lá daquela que a escola nos oferecia, enfim, coisas que escapam aos rankings e aos topes contemporâneos.  Ou será que alguém vai lançar o ranking das escolas com os melhores resultados na sua relação com o meio e relevância para a cultura de todo um povo? 

DM: Doutor, uma pergunta bastante pessoal: o que espera de Portugal em 2013 ?
Doutor Mara: Um barco e uma flor. 

DM: Um barco e uma flor???
Doutor Mara: Um dia explicar-vos-ei porquê. Um bom ano para todos vós e que não vos falte a voz! Um amplexo Doutor Mariano!

DM: Muito obrigado, doutor. Esperamos vê-lo pela cidade um destes dias...

Diários de Angra

        Não há aqui nada contra os automóveis. O que é um facto é que os carros não deviam ter mais direitos que os cidadãos ou prioridade  em relação aos peões e transeuntes, mas têm. Sabemos o quanto os carros  são úteis, demasiado até,  na forma como diminuem as distâncias e encurtam o espaço e o tempo de um sítio para o outro, tornando a vida e os dias mais aceitáveis com temperaturas aziagas e chuvas persistentes. No entanto, da mesma forma que as praias não deviam servir para colocar bares e restaurantes em cima do areal para não importunarem a vista e o desfrutar do areal e da paisagem de quem ali vive ou gostaria de ali estar, o que é verdade é que não é concebível o estacionamento dos carros em cima de passeios ou a invasão destes no centro histórico de cidades de pequena dimensão, impedindo o passeio e usufruto do espaço e da via pública por parte de quem ali vive e passa. Estacionar  carros em cima dos passeios não é, nem nunca será uma situação ideal, não é aceitável, o mesmo se pode dizer dos milhares de carros que invadem o centro  num abanar constante da terra e do barulho que torna possível a vivência e o usufruto do espaço citadino. Deste modo,  seria desejável que  as cidades fossem lugares prazenteiros de descoberta e fruição dos seus espaços arquitectónicos, lugar de  encontro com suaves e amenos passeios diurnos e nocturnos, dados à contemplação e observação do comércio, recheado de conversas sobre o passado e o presente, espaços entregues aos  passeantes e respectiva contemplação. Para quando? 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A Música Maior que a Vida?


          Uma vez para imitar o Miguel Esteves Cardoso e, em plena adolescência, proferi num programa de rádio que havia música preferível à vida. A adolescência dá-nos para isso e para muito mais assim como andar com a capa do disco dos Jesus And Mary Chain (creio que era o Psichocandy) pelas ruas da cidade horas a fio até que alguém perguntasse quem eram os "Jesus and Mary Chain". Satisfeita a curiosidade pouco ou nada religiosa, regressava a casa com o dever cumprido e com a capa do grupo do underground britânico pronta para ir para o lugar de onde não devia ter saído. À distância não é mais possível transmitir a forma  crua e fidedigna que a música ocupava para aquele grupo de adolescentes vestidos todos de preto e cabelos em pé, jovens lunáticos que acreditavam piamente na música como a arte que aglutinava todas as emoções à flor da pele. 
           A música era assim o elo de ligação que acorrentava e funcionava como o estandarte em que se jogava a batalha de diferenciação entre os diferentes grupos e se extremavam posições bem definidas na topografia do estabelecimento escolar ou cafés citadinos. Lembro-me de alguém dizer que tinha chorado a ouvir o álbum "LC" dos Durutti Column e o contágio estender-se aos restantes elementos do grupo  e que, por isso, tinham tentado, em pleno quarto fechado e luz apagada, repetir a façanha e o choro derramado. Com estima, recordo também o gesto de um professor de Geografia, também ele treinador da equipe de basquetebol, emprestar cem (ouviram!), uma centena de vinis para ouvir e gravar durante um mês até que as cassetes BASF ou TDK se esgotassem e se cansassem de tantas gravações. Ou ainda de contribuir com uns parcos cinco escudos para que um "jovem hippie" pudesse assistir ao concerto dos "Filhos do Presidente"...será que existiram?!? E o que existiu mesmo foi esse desejo de ter uma banda a qualquer custo, isto é, sem o mínimo de condições e dinheiro para a comprar instrumentos e equipamento de som e, mesmo assim, dar concertos, tocar e encher os lugares que julgaríamos ser coisa apenas de músicos com tarimba e com carreira profissional.  
        É certo e sabido que crescemos e que, ao avistarmos um bando de flamingos num sapal em Castro Marim, a vida passa a ser outra coisa.  Mas ainda assim sabemos que é improvável, mesmo impossível, viver sem música. Como viver então sem músicas, sem músicos ou estórias de músicas e músicos em redor? 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

2013

Corto Maltese, Hugo Pratt
  "Eu creio que a natureza humana é essencialmente boa e má e cada pessoa contém um solidário, um carrasco, um amigo, um amante mas também um torturador e um assassino. O desenvolvimento do melhor e do pior depende muito do meio circundante, do que alguém ouve, vê e respira cada dia. Os modos de vida dominantes e, portanto, os sistemas de poder dominantes no mundo, têm muito que ver com os estímulos que cada pessoa recebe desde que nasce até que morre."

Eduardo Galeano

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

A Estirpe do Sal

Domicílio de madeira coroada de sal
juntam-se cordas e homens-anzóis a levitar
profetas de sismos e trovões  
pancada espúria em dolente batida
humanos acordes vociferam clarões 
do mendaz grito no desenho de baía  
a fagulha eléctrica na voadora guitarra
dedos de sangue no círculo forjado 
fiéis apóstolos do musical magma
a negação do elo e da tradição
amanhã não mais celebraremos
ou cagarros da invernia inventados

Diários de Angra

        Ainda sob o efeito de "O Menino Mija", tradição que se prolongará até meados de Janeiro, passa-se à noite pelo Teatro Angrense e é de pasmar perante a beleza deste edifício considerado património de utilidade pública. Data do século XIX a sua construção, remetendo de imediato para o imaginário dos tempos áureos  da ópera italiana e do teatro romântico. Hoje a necessitar de obras urgentes de remodelação e recuperação, fala-se de uma verba de oitenta mil euros mas ainda sem data marcada para a sua execução. Imagine-se, portanto, as noites em que a população terceirense invade esta rua (Esperança de nome) e diminui a ventania nocturna que aqui se vive, insuflando vida e animação a este distinto lugar citadino, tão próximo da baixa e dos seus cafés. E quem já viu este teatro aberto, em forma de ferradura, exemplar único em Angra do Heroísmo e uma referência em todo o arquipélago, sabe como é necessária a sua abertura e actividade regular deste espaço para a vivência cultural da Ilha Terceira. É mais que sabido que a diversidade cultural irá diminuir em 2013 perante os cenários negros que se nos apresentam diariamente, basta verificar que os  Açores foram a região que mais reduziu o seu investimento na cultura (-23,6%), daí que este velhinho Teatro Angrense, belo e renovado, poderia ser um espaço de resistência e afirmação da cultura e identidade terceirense e açoriana.