quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Verónica Melo: Arte Salina!

O Festival de Artesanato “Prenda” iria fechar portas daí a instantes e Celina da Piedade ensaiava com a sua banda os temas musicais para as horas seguintes. E enquanto as pessoas passavam pelos expositores, os músicos afinavam ritmos e instrumentos de cordas. As oficinas decorriam a bom ritmo e por ali havia uma cadeira vaga para escutar o prenúncio das canções bem como distrair quem se encontrava concentrado a efectuar desenhos e linogravuras, sem ter noção do que se estava a passar. A oficina resultava em trabalhos finais e, Verónica, que ministrava a oficina pacientemente, ia incentivando quem chegava a participar, denotando uma facilidade em tornar as imagens úteis e funcionais para quem se encontrava em dificuldades ou sem grandes soluções criativas. A oficina terminou e Verónica não se ficou por ali, pois quis oferecer parte do trabalho a quem por lá estava, resultando deste modo a curiosidade. Quem é esta artista?
       Verónica Melo nasceu na Ilha de São Miguel, em 1990. A criatividade pertence-lhe e sabia que depois de terminar o seu curso na Faculdade de Belas Artes, na cidade do Porto, o mundo podia ser possível a meio do atlântico. Arriscou.Verónica gosta muito do mar e por isso de imediato se pôs a fazer ilustração científica, pois sabe que uma das riquezas das Ilhas dos Açores passa pelo fauna e flora existente. Sendo hoje exequível trabalhar e criar a partir das ilhas para todo o mundo e para isso basta ter as ferramentas e tecnologia ao seu alcance. Ela vai tendo, por isso, convites para trabalhos no exterior e continuar a desenvolver um trabalho constante para “Os Amigos dos Açores” e dar resposta ao que vai aparecendo pela ilha verde, caso do último Walk and Talk em que realizou uma "Oficina de Carimbos". Entretanto, a artista plástica esteve na Louvre Micaelense a dar mostras das suas gravuras tal como foi fazendo carimbos para “embrulhos” que vão brotando da suas mãos e imaginação. Uma pergunta impõe-se: o que virá a seguir?

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Fazendo 104

     


      O número 104 do Fazendo que acaba de sair em Dezembro já se encontra online: (https://issuu.com/fazendofazendo)
      A edição do boletim cultural, com sede no Faial e distribuição nas Ilhas Terceira, São Miguel e Pico, tem as capas do artista gráfico Gonçalo Cabaça e ainda muitas páginas dedicadas à actividade cultural e científica existente no arquipélago dos Açores. Boas leituras!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Ler e Conversar

      Está ali sempre sentada. Basta-lhe uma mesa livre e sossegada numa biblioteca pública sempre actualizada. Ela senta-se e, tal como numa silhueta próxima das “Meninas”, de Velasquez, fica quieta a ler. Quem a vê, julga que está perante uma imagem muito antiga, parece avistar uma pintura de um quadro de um século remoto, uma fisionomia singular ou parecença de um vulto de um outro tempo. Não que ela queira ser avistada, ou que use as leituras para se afirmar, mas sim porque aquelas leituras são o sinal da sua existência, a sua vitalidade enquanto ser pensante, existente. É como se ela estivesse ali a cumprir uma função, por vezes parece incumbida de uma missão ou no alcance de um desígnio maior para uma vida rica e sábia. Vê-la ali a ler é deveras um privilégio, pois são raras imagens com esta força, com esta subtil presença. Uma leitora ávida numa biblioteca, só pelo gosto, pelo prazer de ler. Não há bolsas para leitores mas, depois de vê-la tantas vezes a ler, bem que podiam muito bem existir e que ninguém levaria a mal se ela a tivesse, se ela pedisse. Ela lê mais que qualquer um de nós, ela já leu o que nós nem sonharíamos alguma vez ler e por isso devíamos ter orgulho nisso. Nós, pobres leitores. Esta leitora lê tudo: jornais, livros, revistas, boletins, anúncios e o que mais houver para ler. A esta leitora tudo lhe interessa e por isso a vida continua, mesmo que o tempo ou a juventude arrogante diga o contrário. Descobrir assim uma leitora é reviver o prazer inicial da leitura. A curiosidade não tem fim. Esta leitora lê em silêncio, a maior parte das vezes numa mesa sozinha, com os seus apontamentos, as suas notas, os seus provérbios, os seus pensamentos, a leitura em modo voraz. Tem nome de flor e os seus cabelos parecem ondas de mar revolto, agitado, num rosto cavo, frágil e umas feições que acusam o passar do tempo. As suas rugas contam muitas vidas, muitas histórias. Ela foi professora a vida inteira, daí que não possa perder tempo com minudências, com coisas sem importância. Ela diz mesmo: “O que eu gosto mesmo: ler e conversar”. Sem mais.

Mbye Ebrima: a Kora Inebriante!

      Acabou Novembro, findou musicalmente da melhor maneira. E com ele foi tanta música pelo espaço sideral embora, bastou por isso ver o músico gambiano, Mbye Ebrima, a tocar a sua Kora na Academia das Artes no Festival “O Mundo Aqui”, organizado pela AIPA. É bom, maravilhoso até, comer as comidas de países com gentes que vivem e trabalham por cá. É mesmo muito bom, desfrutar da cachupa, do sushi, da chamussa, beber um grogue, provar uma caipirinha, degustar uma sobremesa como o bolo de coco ou uma cocada, saborear tanta gastronomia variada. Sabe bem, sabe sim senhor. Apreciar a mistura, reconhecer a nossa história comum, as diferenças que ainda existem e que em estado harmónico progridem. Conceber, portanto, essa hipótese de um património conjunto. Ao mesmo tempo viajar com os maravilhosos sons extraídos da kora de Mbye Ebrima, sempre com o seu riso, a sua altura e figura esfíngica, os seus apelos à paz e ao amor, juntando com ele no final Alexandre Gualdino, músico cabo-verdiano, sabendo que aquele momento terá sido único, para mais tarde recordar, ainda que preparando o espaço e o tempo para a doçura cálida do canto de Vânia Dilac, com nova companhia e visual. Esta é a mistura que une, não a guerra, a música que é arte e que é fértil, que fecunda a esperança de um mundo outro, possível na sua diferença e diversidade, expressa por países e lugares tão distintos – Cabo Verde, Brasil, Moçambique, Portugal, Açores - enfim, a memória e a liberdade de um entendimento possível pelo canto e pela barriga. Assim seja. 

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Dario Fo pelo Teatro de Giz

       Um bairro que se revolta; uma casa de operários que desencolhe à medida que se expande a consciência colectiva dos seus moradores; uma comunidade que recusa a injustiça da pobreza e compreende a força da sua união.
          Uma sala de teatro pode ser palco de uma revolução? A interrogação pode ser o motor da mudança, sim, e é essa a proposta do Teatro de Giz neste seu regresso aos palcos. Luciano Amarelo, o encenador convidado para nos ajudar a construir esta nova produção, criou uma espécie de jogo de espelhos que reflectem (sobre) a realidade do nosso País, da Europa e do Mundo; uma realidade que vem da rua, que por sua vez invade o teatro, que por sua vez está também na rua. Não se Paga!, Não se Paga!, o texto original de Dario Fo a partir do qual nasce este novo trabalho do Teatro de Giz, mantém-se actualíssimo - apesar de ter sido escrito há mais de quarenta anos -, tanto na ambição de defender os mais frágeis da sociedade como na lucidez de o fazer através da comédia. Porque o riso, como disse o próprio Dario Fo, liberta o homem do medo.                                                                                   
                               Texto pelo Teatro de Giz, Ilha do Faial.

    "O riso. Sempre o riso. Quando uma criança nasce, os pais não descansam até conseguirem provocar-lhe o riso, fazendo-lhe caretas. Porquê? Porque o momento em que ela ri significa que a inteligência nasceu. Significa que ela soube distinguir o verdadeiro do falso, o real do imaginário, a careta da ameaça. Significa que ela soube ver para além da máscara. O riso liberta o homem do medo. Todos os obscurantismos, todos os sistemas ditatoriais se alicerçam no medo. Assim, toca a rir!" 
- Excerto da uma entrevista de Dario Fo ao L'Express, em 2006.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Sala de Embarque

Rapariga Aluada: Eu gosto tanto de olhar pelas janelas do avião. As nuvens parecem-me farrapos brancos a voar pelo céu.  E todas elas têm nomes curiosos, há a cumulus, a congestus, a Cumulonimbus, a Stratocumulus, a Nimbostratus, a Altocumulus, a Cirrus, a Cirrocumulus...

sábado, 14 de novembro de 2015

Resposta a Janeiro Alves no Mês das Castanhas

Caro Janeiro Alves,

Escrevo-lhe de uma nuvem de sonho em que estou imerso, por sinal de seu nome: Altocumulus. Ultimamente só frequento nuvens e, como é do seu conhecimento, chafaricas urbanas de grande nível. É por lá que me vou alimentando de sopas de alho francês e me dou ao trabalho de dar duas ou três de conversa antes de regressar novamente ao meu estado nefelibata.
Recebi a sua missiva com muito agrado e pertinência. Esta foi-me lida em voz alta pela minha mui amiga Miriam Manaia enquanto me amaciava os pés com água bem quente polvilhada pela erva-dormideira. Fico deveras admirado com tanta verborreia da sua parte que a meio da sua epístola encravei uma unha na frincha da bacia e tive de retirar o dedo mindinho com um alicate. Isto só possível após o relaxamento do músculo e da polpa do dedo dado ter ficado petrificado com o seu discurso. Tenho, sem dúvida, plena consciência que face ao momento crítico e caótico que estamos a atravessar são necessários homens rijos e valentes. No entanto, há muito que a comunidade de sábios da numerologia não conta comigo para decifrar os mistérios da alta finança e do bolo-rei. Tenho muita pena, portanto.
Permita-me que lhe demonstre a minha total disponibilidade para esse nosso encontro há muito aguardado, responsabilizando-me pelo transporte dos dossiers do célere e afamado Congresso da Fajã bem como levarei comigo moedas de um cêntimo para o crónico jogo da moeda. É possível que inicialmente não me consiga reconhecer pois faço questão de me apresentar de túnica helénica e de óculos de mergulho, já para não falar que irei com a cabeleira do Mancha. A palavra de código será – Darandina!
Saúdo, portanto, o meu caro amigo com um copo de tinto – palavra que em sânscrito significava amado – e revelo assim a minha sensação ilusória de felicidade momentânea que aguardo em breve podê-la partilhar consigo.
Com as respectivas saudações marianas,

Doutor Mara

(Embora Tenha o Sol...)

Embora tenha o sol para me alumiar
e a lua e as estrelas depois do sol se pôr 
sem a luz dos teus olhos negros
é sempre negra a noite em meu redor.

Bhartrhari, Índia, séc. V. d.c
(Tradução de Jorge Sousa Braga)

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O Beijo

Um rapaz beijou-me ontem à tarde
E o seu beijo era um vinho perfumado
Tão longamente bebi nesses lábios o vinho do amor
que ainda agora me sinto embriagado

Anónimo, Grécia, Séc. I a.c
Tradução de Jorge Sousa Braga. 

Rapariga Seduzida

Embalou-me - eu era tão inocente -
com vinho e palavras de amor

e todas as juras. Ao acordar
qual não foi a minha surpresa

A seda que cobria os meus seios e o ventre
desaparecera e com ela a minha pureza

Deusa lembra-te que estávamos sós
e ele era forte - e eu tão indefesa


Hedylos, Grécia, séc. II. A.C
Tradução de Jorge Sousa Braga. 

Da Poesia...


      "A poesia não oferece respostas, a poesia não pode apagar o sofrimento, a poesia não trará um ser amado de volta à vida, a poesia não protege do mal, a poesia não nos vinga as vítimas nem castiga os que as vitimam. Tudo o que a poesia pode fazer, e só quando as estrelas são caridosas, é emprestar palavras às nossas perguntas, ecoar o nosso sofrimento, ajuda-nos a recordar os mortos, nomear as obras do mal, ensina-nos a reflectir acerca das consequências da vingança e dos castigos, e também da bondade, mesmo quando essa bondade já não existe. Uma velha oração judaica recorda-nos humildemente: “Senhor, retira a pedra do meio do caminho, para que o ladrão não tropece durante a noite.” 

in Uma História da Curiosidade, Alberto Manguel, edições Tinta da China, 2015.

domingo, 8 de novembro de 2015

Escrever versos...

       Escrever versos é um acelerador extraordinário de consciência, do pensamento, da compreensão do universo. Quem experimentou uma vez essa aceleração, nunca mais será capaz de recusar a possibilidade de repetir essa experiência; torna-se dependente do processo, como outros se tornam dependentes da droga ou do álcool. Aquele que verifica que está dependente da língua é, creio, o que se chama um poeta."
Joseph Brodsky