sexta-feira, 15 de julho de 2016

Hoje à noite, Galeria Arco 8

Wave Jazz Ensemble

Outros Românticos

Eram os outros românticos, no escuro
Cultuavam outra idade média, situada no futuro
Não no passado
Sendo incapazes de acompanhar
A baba Babel de economias
As mil teorias da economia
Recitadas na televisão
Tais irredutíveis ateus
Simularam uma religião
E o espírito era o sexo de Pixote, então
Na voz de algum cantor de rock alemão
Com o ódio aos que mataram Pixote à mão
Nutriam a rebeldia e a revolução

E os trinta milhões de meninos abandonados do Brasil
Com seus peitos crescendo, seus paus crescendo
E os primeiros mênstruos
Compunham as visões dos seus vitrais
E seus apocalipses mais totais
E suas utopias radicais

Anjos sobre Berlim
"O mundo desde o fim"
E no entanto era um SIM
E foi e era e é e será sim

Caetano Veloso

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Walk and Talk: até ao fim do mês de Julho!

Walk and Talk 2016
Ponta Delgada é uma pequena cidade no meio do Atlântico e o WalK and Talk é um festival de arte urbana que apela à participação dos artistas e mobilização das populações para a sua programação, exige pensamento crítico, estimula as associações, conta com voluntariado e promove a formação dos membros e dos agentes culturais no terreno, etc.
Se esquecermos a letargia existente e a inveja que nos é tão cara, estamos perante um momento de cosmopolitismo e liberdade criativa. Desta feita, e até ao fim do mês de Julho, seremos espectadores ocasionais de bens culturais: exposições, performances, filmes, animação, intervenções públicas, teatro e ilustração. É tempo de andar e falar…sobre os caminhos da arte!

Houve uma Ilha em Ti

Houve uma ilha em ti que eu conquistei.
Uma ilha num mar de solidão.
Tinha um nome a ilha onde morei.
Chamava-se essa ilha Coração.

Que saudades do tempo que passei.
Nenhum desses momentos foi em vão.
Do teu corpo, de ti, já nada sei.
Também não sei da ilha, não sei, não.

Só sei de mim, coberto de raízes.
Enterrei os momentos mais felizes.
Vivo agora na sombra a recordar.

A ilha que eu amei já não existe.
Agora amo o céu quando estou triste
por não saber do coração do mar.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Sala de Embarque: Oitavo Ensaio

Fotografia de Carlos Olyveira
Estamos diariamente gratos ao Pedro Bento da Galeria Arco Oito, pela disponibilidade com que nos cede este barracão para preparar este espectáculo que pretendemos levar ao público em Agosto. E acontece que enquanto ensaiamos há pessoas que entram para espreitar e ver o que se passa por ali ou, simplesmente, fazer perguntas. Há dias, foi o caso do simpático irlandês, Steve, professor de inglês em Estocolmo (Suécia) e que veio interrogar-nos se podia beber um mojito antes do jantar. Após conversar connosco, revelou-nos que tinha lido a sugestão num artigo no jornal britânco “The Guardian”. Ele não sabia que a Galeria Arco 8 existia há trinta anos, há dez naquela freguesia de Santa Clara, e que pautou o seu encontro com o público pela surpresa, pela criatividade e originalidade. À altura da sua criação começou por ser um espaço dedicado artes plásticas mas logo se abriu a diferentes artes, sensibilidades e público. Hoje é um nome incontornável na oferta cultural e nas noites alternativas da ilha.
E no oitavo ensaio o texto fluiu…soltou-se, ninguém estava à espera, tal a surpresa, nenhum de nós queria acreditar que esta nossa empreitada cresce, levanta voo, entra em velocidade de cruzeiro. Ganha vida, autonomia. Aqui encontramos Liliana Janeiro, incansável, alinhando as notas, apresentando sugestões ao grupo, insistindo nas repetições das cenas e marcações.Aqui constatamos a proximidade entre o que chamamos vida e o teatro, isto é a vida que entra nas artes do palco e aquilo que há de “teatral” na vida. Todos nós sentimos que o teatro existe no presente ou não existe. Agora já não podemos voltar atrás. Ontem, vimos  os primeiros frutos do trabalho efectuado, os resultados começam agora aparecer. E terminámos o ensaio satisfeitos.

As Amoras de Sophia de Mello Breyner Andresen

O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul

Sophia de Melo Breyner Andresen

Festival de Balões de Ar Quente da Ribeira Grande

Fotografia de Carlos Olyveira

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Doc d´Estio

          
          O documentário mete-se pelo meio das castas, agradece a Baco, elogia a terra que produz a vinha e de forma surpreendente interroga a padronização que ameaça o mercado do vinho. À altura, numa entrevista ao realizador, deu para ficar atento às palavras de Jonathan Nossiter:“Sou optimista. Acredito muito no ser humano, no amor. E o vinho é uma expressão de amor. Amor pela cultura, pela civilização. Acredito que o Brasil e a Europa terão cada vez mais gente a bate-se pela sua expressão e identidade e também pela sua cultura.” "Mondovino" é um documentário que faz a apologia da diversidade, um libelo ético que pretende reforçar a identidade cultural de quem produz vinho com quem gosta de viver neste mundo, respeita  o outro...a diferença! Brindemos, portanto!

Dizias que Gostavas

Dizias que gostavas de poemas.
Escrevi-te, numa tarde, mais de cinco.
São muito bonitos, disseste,
hei-de mostrá-los ao meu namorado.
Nunca mais confiei nos versos
nem no gosto feminil.

José Miguel Silva, in "Vista de Um Pátio seguido de Desordem", Relógio d'Água, Lisboa, 2003.

domingo, 10 de julho de 2016

Sala de Embarque: Sétimo Ensaio

Fotografia de Carlos Olyveira
Começamos a habituar-nos a Santa Clara, que belo cenário temos perante nós. Sortudos, pois claro. Quando o tempo proporciona aproveitamos para ir a pé, caminhando lentamente até à Galeria Arco 8 para assim absorver e aproximar-nos desta freguesia situada na costa sul do concelho. É também uma forma simpática de cortejar o mar e a paisagem circundante de tão colorida que é. É de facto um belo cenário este com o casario novo e antigo feito à escala humana.
E agora, que já nos encontramos a preparar cena a cena, a reescrever cada alteração e marcação, quem sabe um dia não promoveremos com os habitantes desta freguesia ensaios assistidos. Pode ser mais lá para a frente, perto da estreia e que consigamos reunir gente deste lugar para assistir e trocarmos impressões com elas sobre aquilo que se está a passar em palco. Neste ensaio de hoje demos conta que estamos na presença de um texto teatral longo, o cronómetro aponta para uma hora e vinte, por essa razão debatemos em conjunto sobre as possibilidades de encurtar alguns momentos.
Por fim, temos tido a necessidade de discutir todo o processo e, por isso, o texto em causa mais parece um trabalho contínuo. Sobretudo, porque este é deveras partilhado colectivamente, essencial para encontrar o tom e o ritmo dos diálogos entre as personagens. O ensaio termina com a atenção focada nas reais intenções contidas na personagem da actriz Margarida Benevides (Mulher de Meia-Idade), que agora tem de encarnar uma mulher despojada de sonhos, dura, marcada por uma vida complicada e difícil. Por esse motivo, ela repete o texto exaustivamente e verifica a intencionalidade das suas falas. Há, portanto, que manter a chama do texto aceso, há que tornar cúmplices as pessoas que partilharão daquele momento. O que pensarão as pessoas que assistem a esta cena intrigante? Citando novamente David Ball: “Nenhum strip-teaser ignora que o que mais excita o público não é a nudez em si mesma, mas a promessa da nudez. A metade do prazer está na antecipação”. E, porventura, é verdade!

Benjamin Clementine: "I Won´t Complain"



“But I won't complain
No I won't complain
Though my good days are far gone
They will surely come back one morn
So I won't complain, no, no.”



Benjamin Clementine

Porto Formoso: Maré Cheia

Os sábados são dias especiais, sabem fazer parte da galeria secreta de momentos incondicionais. Por isso é que há sábados em que de repente o inesperado toma conta de nós e passa a ser tudo muito mais intenso. Mergulho na Praia dos Moinhos? Por que não? Com o dia enevoado, sem alterações há já algumas semanas em Ponta Delgada, surgiu essa hipótese com bons augúrios de visitar essa praia em Porto Formoso. E quando se trata da primeira vez de qualquer coisa é sempre peculiar e há que manter as expectativas bem altas.
A Praia dos Moinhos conhecida pelas suas areias finas situa-se numa escarpa, sendo necessário descer até ao areal para desfrutar de uma extensão espaçosa ainda que não conviria a presença de multidões. A temperatura de água quase nos 20º, num céu limpo de nuvens deixa espaço para uma demorada presença dentro de água. De seguida, esperava-nos uma sopa de peixe rica e variada, tal era a vontade de continuar a engolir o mar. Na realidade são longos pedaços de peixe numa sopa equilibrada com os elementos a condizer (cebola, pimento e alguns coentros e massa). A adesão à sopa foi logo na primeira degustação. Esperançosos de continuar a saborear as delícias oriundas do fundo do mar, com o pão sempre por perto, é assim que vão chegando as cracas – preço em conta e recheadas desse líquido marinho – para logo a seguir surgirem as lapas que não alcançam o ponto elevado da primeira iguaria mas ficaram registadas na memória. A refeição foi assim completa numa solidariedade salina nunca vista. O dono daquele bar/restaurante já tinha avisado, aqueles ingredientes são imbatíveis, e se não fosse tão longe, seria semanalmente imperdível. E o que é mais surpreendente é mais uma vez a simpatia, o cuidado, o acolhimento e a hospitalidade destas pessoas de Porto Formoso. Que lugar mágico, quase entramos no reino do indizível.
Permanecemos, é certo, prontos para recusar alguma coisa a não ser somente um café para despertar. Não vá a maré encher…

Do Desejo...

"Quando desejamos, pomo-nos à disposição de quem esperamos."
La Fontaine

sábado, 9 de julho de 2016

Fitando a Proibida Azul Distância

Que guarde o mar o silêncio acerca dos filhos do meu nome à
frialdade das vagas convertidos
e que me deixe na ilha a limitar o tempo longo
a sonhar fracassos sombrias vidas e obscuridades.´

João Miguel Fernandes Jorge, in Antologia Açoriana, edição da Biblioteca Pública e Arquivo de Ponta Delgada, 2011.