quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Sala de Embarque: Primeiro Ensaio de 2017



Fotografia de Carlos Olyveira
Regressamos aos ensaios, desta feita num anexo da Pousada da Juventude.  Agradecidos pela generosidade, o cuidado, a abertura. A partir de agora é nossa vontade ensaiar cada vez mais - melhorar, exercitar, procurar as personagens, encontrar a real envolvência das cenas. Esta proposta teatral irá ser construída a partir das possibilidades que o texto e as circunstâncias permitirem. Necessitamos, por isso, de discutir novamente o processo e continuar este labor partilhado e colaborativo. Com o novo elenco é essencial encontrar o tom, o ritmo e os diálogos entre as personagens. Mais tarde, lá para o fim do mês, contaremos com o apoio da encenadora Lígia Soares. Hoje, também fomos visitados pelo Carlos Olyveira, fotógrafo de cena e colaborador habitual, veio dar conta e imagem do início das “hostilidades”, este recomeçar da leitura, o encetar de uma nova aventura.  Assim possamos e desejamos chegar a bom porto.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Dois poemas de Ana Paula Inácio

...

os corpos sabem os caminhos
nós
o desejo


habitamos a ternura
como a espada
a traqueia
fecunda
é a ferida
que nos abre

Ana Paula Inácio, in ANÓNIMOS DO SÉCULO XXI, Averno, 2016.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Isto não é um poema sobre o verde

Isto não é um poema sobre o verde
dos campos do meu avó por onde
correu a minha infância.
Isto não é um poema sobre o amor
da minha mãe. Um amor tão grande
que lhe deu forças para me levar
em braços para o hospital só para eu não
morrer daquela vez.
-E morremos tantas vezes nesta vida!
Isto não é um poema sobre a língua do
animal que me lambe as feridas nem sobre
as mãos do homem que me sustenta o coração.
Isto não é um poema sobre o mar grande
que rodeia a ilha nem sobre os peixes
os corais as baleias e os barcos que
habitam esse mar.
Isto não é um poema sobre danças
insanas movidas a raiva e etanol.
Isto não é um poema sobre o arrepio
das canções do Jeff nem sobre a luz
de “Laughing Heart” de Bukowski.
Isto não é um poema sobre as veredas
que atravessei ladeadas por cardos
que castigam as pernas nuas e
nos enchem a boca de palavrões.
-Às vezes é preciso dizer porra!
Isto não é um poema sobre o meu medo
o medo do lobo mau o medo de Al Berto
o medo de Rosselini e o medo de Martins Garcia
Isto não é um poema sobre o palito na boca
do Ryan Gosling nem sobre o sorriso sádico
da esteticista a arrancar bandas de cera.
Isto não é um poema sobre a alegria concreta
de um prato de chicharros fritos com
batata doce para o almoço.
Isto não é um poema sobre o sossego do gato 
que dorme em cima das minhas coxas
nem sobre as inquietações do funcionário da repartição.
Isto não é um poema sobre a vaca sagrada
da ilha nem sobre a vaca profana do Caetano.
Isto não é um poema sobre jardins marinhos
nem sobre o brilho de prata de água pura.
Isto não é um poema sobre a pomba do
Espírito Santo nem sobre a fé mal amanhada
dos homens.
Isto não é um poema com foguetes e roqueiras
e fogo de artificio no final
Isto não é um poema. Mas podia ser.

Gina Ávila Macedo, in Grotta-arquipélago de escritores, Letras Lavadas, 2015.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Uma Missiva de Janeiro Alves Mesmo no Cair do Pano

Caro Doutor Mara,

         Estava eu nos preparos para a passagem de ano, a abrir uma garrafa de Macieira reserva e a separar as passas para a meia noite, quando me bateram à porta para me entregarem a sua carta. Dei-me ao trabalho de a ler, apesar de me ter causado algum transtorno em plena preparação do fim de ano. E deixe-me que lhe diga - o Doutor Mara diverte-me. Mas falo de uma diversão constrangedora, num sorriso flácido que produzi com o canto da boca, ao mesmo tempo que revirava os olhos. A forma leviana como me insulta é de uma pobre, insípida e desprovida de qualidade literária. Chamou-me burguês, inchado, bonacheirão, insensato, o “maior”, doidivanas, artolas, e por fim linguista sensaborão. É caso  para perguntar “está aí alguém?”. Alô! acorde, Doutor Mara! Estamos no século vinte e um! É que se me quer importunar, pelo menos faça-o com classe!
         Enquanto não chega a meia noite, e pelo respeito que tenho por si (sobretudo pelo seu passado pois o seu presente é uma nuvem negra), envio-lhe algumas sugestões para que me possa insultar categoricamente em 2017 sem que eu tenha de o desprezar. Pois fique sabendo que eu sou um ser irascível! Há quem diga que sou a alma dos bórgias a penar, um excremento de animal na via pública pisado por uma dondoca da linha, sou o bicho de estimação de um rafeiro que me deixou no canil municipal, tenho a impotência da criação e o dom da malcriação, sou parasita social e atrasado mental. Sou mesmo um mentecapto profissional, salafrário velhaco e safardana. Sou um saloio pote de banhas e caixa de óculos, com boca de charroco e orelhas de abano. Não passo de um reles bebedolas, mas ao mesmo tempo copo de leite e menino da mamã. Eu sou a praga do século vinte e um a alastrar, um farsola macarongo e obnóxio. Enfim, um verme asqueroso, azeiteiro e lambe-botas. Percebeu?
         Espero que o ano de 2017 estanque de forma definitiva esta sua decadente caminhada para o abismo, e lhe devolva a glória dos anos cada vez mais distantes do seu fulgor de juventude. Espero que acorde para a vida, abrace o futuro, e pare de viver de recordações do passado. Também lhe assentaria bem uma vontade de trabalhar, e um corte definitivo com esse dolce fare niente alimentado por heranças e outras benesses familiares. Talvez assim, quem sabe, se tornasse efectivamente útil à sociedade (e não falo da sociedade nocturna que frequenta).

         Em espírito de missão na reparação intelectual da sua pessoa, e apesar de tudo com estima e consideração, desejo-lhe um bom Janeiro.

Janeiro Alves em Penedono, no 31 de Dezembro de 2016

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Das Pessoas

"Descobri que não se deve adiar uma palavra, um sorriso, um olhar, uma carícia. Como me doía não ter dito(...) tudo, não ter feito confissões extremas. Eu percebia, ali, que nós olhamos tão pouco as pessoas amadas."
Nelson Rodrigues

sábado, 24 de dezembro de 2016

Resposta a Janeiro Alves Poucochinho antes das Festas

Caro amigo Janeiro Alves,

Espero que já se encontre no seu retiro de Penedono, no nordeste do distrito de Viseu, essa incrível aldeia histórica onde passa tranquilamente e de forma solitária esta quadra natalícia.
Sinceramente e, perdoe-me a franqueza, mas deparei na sua última missiva tiques típicos de um burguês nada arrazoado, lamúrias correspondentes a um indivíduo todo inchado, bonacheirão e pouco sensato. Como é possível, meu caro amigo, proferir que lhe correu bem o ano!? Está a brincar? É necessário acalmar-se, amigo Janeiro, pois qualquer dia já ninguém o consegue ouvir com a mania que é o maior, que ninguém está ao seu nível, o autoelogio recorrente e constante dos seus feitos, enfim, essas taras e manias de um doidivanas qualquer. Quem é que você julga que é? Certamente, por tudo aquilo que nos foi dado a ler, você é um artolas de primeira água e um linguista sensaborão ou irá dizer-nos que afinal era tudo a fingir e que apenas queria pôr um ponto final no top da brutalidade!
Escrevo-lhe deitado numa espreguiçadeira num apartamento de quatro assoalhadas junto do aeroporto. Descobri recentemente que este mesmo me tinha sido doado em herança pelo meu tio de Florença, Pietro Marentini, aquando do seu divórcio com a famosa hospedeira de bordo da Scandinavian LineAir: Vicky Malastrom. Julga-se que este terá passado os últimos dias da sua vida com cenários de aviões que chegam e partem de forma a sossegar a sua dor, entrando numa fase de metal e melancolia que nunca foi capaz de recompor-se. Encontrei fotografias e objectos da sua amada espalhados pelos vários recantos da casa, uma mulher, por sinal, muito bela de rosto redondo e maçã no queixo, digna de actriz de cinema nórdico. Chamou-me também a atenção uma manta de linho em forma de V, promotora de bastante calor, onde se depreende toda a paixão existente entre o casal. De qualquer modo,Vicky, creio, nunca suportou aquele sedentarismo crónico do meu tio…
E agora, conte-nos novidades, que tal o tempo por aí? Soube pelo carteiro que o ano passado houve muita neve e que as comunicações estiveram cortadas. Talvez, por isso mesmo, sugeri para que lhe entregassem em mãos esta missiva. Soube, inclusive, que o amigo Janeiro teve de improvisar na cozinha com comida vinda fora de portas, onde encomenda telepizza. Será verdade?

Com os respectivos votos de boas festas, seu admirador

Doutor Mara

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Uma Carta TOP de Janeiro Alves a fechar 2016

Caro Dr. Mara,
          
          Antes de ir directo ao assunto, deveria por precaução certificar-me que o meu amigo goza de uma saúde impenetrável neste mês de Dezembro, e que consegue focar ao longe sem necessitar de lentes, metaforicamente falando. Não sendo possível, parto do princípio que mesmo não estando no auge das suas faculdades físicas e intelectuais, também poderia estar pior, estando portanto reunidas condições para a boa recepção do conteúdo desta carta.
Neste mês que capitula o ano de 2016, que teve tanto de bom como de devastador, à semelhança de todos os outros com excepção de alguns, ando na rua a observar as pessoas e a ouvir as suas conversas, e à noite ligo a televisão generalista no horário nobre, das salsichas. É uma prática ancestral dos grandes pensadores, que assim recolhem como que “fruta fresca” para as suas teorias. Aprende-se muito na observação das massas ondulantes à bolina dos ventos natalícios, como sabe. Hoje trago-lhe algumas actualidades da língua, da melhor língua nacional – a língua portuguesa.
É sabido que a nossa língua já conheceu dias de glória, mas actualmente é desdenhada pela maioria dos nossos conterrâneos. E que sorte é a dum povo que não sabe usar a sua própria língua? “Quando o pensamento é pobre e a língua não ajuda, mais vale uma pessoa ficar muda” – Um provérbio que inventei ontem à noite, e que se tudo correr dentro da normalidade, um dia entrará para o “Grande Livro dos Provérbios”.
Para além de se falar e escrever genericamente mal, surgem por vezes fenómenos populares ou modas temporárias muito curiosas. Este ano há algumas que registei no meu caderno.
A primeira é o uso excessivo da palavra “brutal”. Quase tudo é brutal. Um gajo bêbado a vomitar na estrada é brutal, mas a mulher vistosa a passar na rua também é brutal. Está um dia brutal. A miúda a cantar é brutal. Esta cena é brutal. Que cena brutal! O que dizer então de um assassinato violento, de um acidente em cadeia, de um massacre de guerra, da imponência das montanhas e desfiladeiros, quando uma simples “cena” quotidiana é brutal? O que dizer da expressão “atirai-vos independentes prá sublime brutalidade da vida” do Ultimatum Futurista de Almada? Actualizando a expressão aos nossos dias, teríamos provavelmente: “saiam da vossa zona de conforto”. Brutal!
A segunda moda, algo embaraçante, é o uso da expressão “top”, um estrangeirismo foleiro que segundo algumas fontes nasceu em ginásios lisboetas onde se pratica Cross Fit, Body Jump, Stretching e Core. O que não é brutal, é top, pois convencionou-se a supressão de alternativas. O cúmulo da expressão é dizer-se “este topo de gama é mesmo top”.
Na escrita, assistimos a uma nova tendência de pontuação – os consecutivos pontos de exclamação!!!!! Uma cena brutal cheia de pontos de exclamação é algo do outro mundo. É top!!!
Por sua vez, a comunicação social também marca a sua diferença ao inovar na construção frásica. A tendência 2016 e com provável arrastamento a 2017 é começar uma frase com o verbo: “Dizer também que Mário Soares já respira outra vez”; “Dizer ainda que o tempo se manterá cinzento e encoberto, tal como o meu cérebro de rato”; “Dizer por fim que copio as tendências dos meus colegas que inventam formas parvas de falar porque sou um jornalista top, apesar de desprovido de pensamento crítico”. Doutor Mara, isto é Brutal!!! Mas brutal de bruto, de abrutalhado, de brutamontes se quiser.
E como a carta já vai longa e tenho de ir ali para o Natal, dizer por fim ao doutor Mara que lhe desejo umas festas brutais, cheias de presentes top!!!!!
 Janeiro Alves Top

O Adeus da Cornucópia



           Em Novembro de 2005, pude assistir à  Companhia de Teatro da Cornucópia no Teatro Municipal de Faro. À altura, foi grande o espanto ver uma peça da Cornucópia fora de Lisboa bem como da descoberta de um autor, António José da Silva, com a peça “Esopaida ou a Vida de Esopo”, numa comédia exigente, bem elaborada e difícil e que instigava momentos de riso e até mesmo gargalhadas. Ao mesmo tempo que assistíamos em palco a um actor no máximo da técnica vocal e interpretativa: Luís Miguel Cintra. A Cornucópia sabe-se, entretanto, que irá fechar portas muito em breve, isto é, dar por concluída a sua actividade. Desculpem, será que podem repetir?

Da Filosofia

"Sou mestre em Filosofia o mesmo será dizer que sou mestre em alhos"

Esopo

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Zeca Medeiros: palavras para este tempo


Zeca Medeiros (Fotografia Tiago Rodrigues)
        José Medeiros, realizador, músico e compositor, é responsável por muita da música açoriana de referência que podemos ouvir e que, por isso mesmo, permanecerá para sempre na nossa memória colectiva. As suas letras e músicas foram gravadas para programas musicais e séries televisivas: "Mau Tempo no Canal", "Xailes Negros", "Gente Feliz com Lágrimas", "Balada do Atlântico", "O Barco e o Sonho", "O Feiticeiro do Vento", "A Ilha de Arlequim", ou ainda as mais recentes, "O Sorriso da Lua nas Criptomérias" ou “As Sete Viagens de Jeremias Garajau”. Os temas e as canções de Zeca Medeiros encontraram vozes diferentes em intérpretes: Minela, Susana Coelho, Vera Quintanilha, Mariana Abrunheiro, Vânia Dilac, entre tantas outras. Curiosamente é na voz dele que agora apetece escutar os versos finais de “Torna Viagem”: “Se as palavras se cansam no tempo/Este fogo não deixa de arder/Se as canções incendeiam a praia/ Esta noite não hei-de morrer”.

Ontem, escrito numa parede da cidade

Ele não quer nada no castanho

El Mar

Antes que el sueño (o el terror) tejiera 
mitologías y cosmogonías, 
antes que el tiempo se acuñara en días,
el mar, el siempre mar, ya estaba y era.
¿Quién es el mar?¿Quién es aquel violento
y antiguo ser que roe los pilares
de la tierra y es uno y muchos mares
y abismo y resplandor y azar y viento?
Quien lo mira lo ve por vez primera,
siempre. Con el asombro que las cosas
elementales dejan, las hermosas
tardes, la luna, el fuego de una hoguera.
¿Quién es el mar, quién soy? Lo sabré el día
ulterior que sucede a la agonía. 

Jorge Luis Borges, in Obra Poética, 2 (1960-1972), Biblioteca Borges, Alianza Editorial.

domingo, 18 de dezembro de 2016

"Menina" em estreia no Teatro Micaelense

"Menina" é o novo álbum de
Cristina Branco
            Um disco acabadinho de chegar aos escaparates e ali está, Cristina Branco, mais a sua banda, em palco no Teatro Micaelense. “E às vezes dou por mim”, com  letra de André Henriques (Linda Martini), inicia a ponte para uma grande noite, já que atente-se nos versos da canção que abre o mais recente álbum “Menina”: “E às vezes dou por mim/Quando ninguém está a ver/Ser que é por tanto crer/Que ninguém me quer/Sozinha na moldura/Na casa dos meus pais/Dizem que estou madura/E eu não quero esperar mais”. Como pano de fundo, discreta e imponente, a guitarra portuguesa, aqui tocada exemplarmente por Bernardo Couto. Seguiu-se uma hora e meia de espectáculo musical com muitas e bonitas palavras, ainda a intensidade da partilha. No final, desfeito o gelo, os músicos voltaram ao palco para encher de novo o coração de lindas melodias, frases e versos controversos de  gente cheia de alma. Certo é que foi um belo serão musical. Estamos, sem qualquer dúvida, na presença de um disco orelhudo que merece a repetição da escuta.