domingo, 29 de outubro de 2017

Tascá em Modo Poético

Fotografia de Bruno Soares

O Outro Lado da Esperança

          "Posso viver sem o cinema, mas não posso viver sem árvores. Não consigo viver sem um beija-flor numa árvore. Enquanto houver um pássaro continua a haver esperança."
Aki Kaurismäki in Ìplson, Jornal Público, dia 27 de Outubro de 2017

sábado, 28 de outubro de 2017

Da Vida

“Fui para os bosques para viver deliberadamente,
Para sugar todo o tutano da vida.
Para aniquilar tudo o que não era vida,
E para quando morrer, não descobrir que não vivi.”

Thoreau

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Filme D´Outono: Match Point de Woody Allen

Chris: Acredito que em tudo na vida, é preciso sorte.
Chloe: Não acredito na sorte. Acredito no esforço e no trabalho.
Chris:  Oh, o esforço é necessário mas penso que as pessoas têm medo de reconhecer o quão importante é a sorte. Quero dizer, os cientistas dão cada vez mais crédito à ideia de que a nossa existência é produto do acaso. Nenhum propósito, nenhum desígnio.

Woody Allen in Match Point (Crime sem Castigo) Tradução: Luís Rodrigues

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Outubro no Cangalheiro sem antes uma Missiva de Janeiro...Alves!

Caro Doutor Mara,

          Estou ao corrente dos últimos acontecimentos insulares onde o meu caro amigo está sempre na première como protagonista de várias peças e peripécias, um fato asas de grilo que lhe assenta sem pregas nem vincos nessa sua morfologia burguesa, não fisionómica mas em aparência, dois conceitos que se assemelham, sendo porém quase antagónicos. Mas não observe nestas palavras qualquer toada crítica, ou ensejo satírico (muito menos deboche). Se o fizesse, estaria certamente a expor-me a idêntico trato, contrariedade a evitar devido a outras situações que tenho de resolver até ao natal. Ainda assim, e considerando até bela e instigante essa sua incursão pelo lado ilusoriamente iluminado da noite, espero que não ceda nas suas convicções, dada a exposição potencialmente infecciosa a fenómenos de populismo e inocuidade. Desejo manifestamente que o Doutor Mara se aguente firme, agarrando-se às pedras do cais para não ser levado pela onda.
            Por aqui, sou este espaço que ocupo. No sonho, um campo vasto com espécies exóticas e maciços montanhosos ao fundo. No corpo, apenas uma geografia confinada à velha secret ia ﷽﷽﷽﷽﷽﷽a secrethosos ao fundo. na secretde caminhos que nos conduzem ária deste covil. Os dias mal dormidos esvaem-se por entre os dedos que lutam escrevendo. Transformei-me num escaravelho metafórico de tamanho familiar, e quando penso movo as antenas. A cadeira já tem a forma do meu corpo. Nos meus extravagantes sapatos italianos crescem agora pequenas plantas artificiais, e já nem o ar que respiro se renova. A vida orgânica nesta sala adquiriu um estado geométrico, rígido. Apenas as antenas continuam a movimentar-se, e a mão a escrever. Compro tudo através do computador, que um escaravelho deste calibre não pode sair à rua! A ordem sai da minha cabeça, vai para o computador, passa para a internet, depois para a loja, o banco diz que sim, e já está. Depois é aguardar, enquanto puxo o lustro da minha carapaça castanha e abro mais uma garrafa de Macieira. Uma vida descansada e bem refastelada, dirá o Doutor Mara do alto dessa euforia insular… Mas olhe que não, Doutor… olhe que não. É certo que tenho a cabeça limpa e arrumada, com os assuntos devidamente catalogados, com índice remissivo e cronológico, arquivo morto, sala de estudo, e todo um departamento de novas ideias, onde actualmente se trabalham os conteúdos para as grandes “Conferências da Fajã”. Mas eu vivo dentro da minha cabeça, Doutor Mara, o que me causa bastante transtorno. Não imagina o transtorno que é esta ausência terrena.
            Mas enfim, perdoe-me este desabafo, pois nem sequer era a intenção desta carta. Escrevo-lhe para saber como está de finanças. Precisa de dinheiro emprestado? Sabe que pode sempre contar comigo, no que puder ajudar. Bom, provavelmente não precisará, pois sei que sustenta essa sua vida folgada com uma boa maquia que recebeu de herança familiar. Mas já que estamos a falar deste assunto, a mim até me dava jeito algum, sobretudo porque tenho a minha garrafeira praticamente extinta, o que constitui um cenário desolador. Por outro lado preciso de mandar arranjar o meu fato preto, pois tenho um tio quase a morrer. E se sobrar pilim, ainda queria comprar um ventilador de ideias em segunda mão. Poderá enviar o cheque por correio como de costume, ou se lhe der mais jeito, efectuar transferência bancária. Como forma de agradecimento prévio, seguiu já hoje por correio azul uma embalagem dos melhores filetes de peixe da capital. Para além da sua consistência admirável, poderá esgaravatar à vontade que não encontrará uma única espinha.
            Despeço-me por fim sem mais delongas, pois tenho de ir dar comida ao cágado. Deste seu velho amigo, também palhaço, desejos de enorme sucesso, e um abraço.

 Janeiro Alves 

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

"Ilusão" de Sofia Marques no Teatro Micaelense

Luís Miguel Cintra na Casa da Achada (Centro Mário Dionísio)
Luís Miguel Cintra vai estar em Ponta Delgada amanhã, quarta-feira, pelas 21h30, e, um dia depois, quinta-feira, numa sessão destinada às escolas. Ele vem com Sofia Marques apresentar o filme “Ilusão”, no Teatro Micaelense, que estreou no Doclisboa’14, na secção Heart Beat, e venceu o Prémio do Público para a melhor longa-metragem. 
A realizadora assistiu e filmou a construção do espectáculo “Ilusão”, encenado por Luís Miguel Cintra, com a participação de 59 não actores, amadores e estudantes  teatro, a partir de textos de Federico Garcia Lorca. Uma adenda: Luís Miguel Cintra é um dos nomes grandes do teatro português e um dos melhores leitores de poesia portuguesa – quem já o ouviu recitar o poema “Muriel” de Ruy Belo? Actor e Encenador da recém-extinta Cornucópia (43 anos de companhia teatral, com 120 trabalhos e uma centena de autores) e dono de uma técnica vocal e talento interpretativo irrepreensíveis. Será um orgulho e admiração poder estar presente e saber  que ainda é possível vê-lo e escutá-lo nestas paragens!

domingo, 22 de outubro de 2017

Flanilha

Fotografia de Carlos Olyveira

"Moçambique", da Mala Voadora no Teatro Micaelense

         
         
          A peça deu início com todos os actores em palco e onde um deles começa logo por dizer que nasceu em Moçambique. Esse actor é Jorge Andrade, o autor e encenador. Este veio para Portugal com apenas 4 anos, regressando agora a Moçambique para construir uma autobiografia como se tivesse passado lá a maior parte do tempo da sua vida. Enquanto narra a sua história pessoal mistura elementos biográficos com factos da vida moçambicana, sempre com o intuito de tornar credível o enredo. No final daquelas duas dinâmicas horas, o espectador é surpreendido com um tipo de teatro próximo do documental, onde a ficção interferiu no rumo dos acontecimentos e daquilo que se pretendia contar. Será isto a obsessão por um final feliz? 
     Assistiu-se, assim, a um caleidoscópio “concentrado” de cores e gestos, intenso, com quadros bem ritmados, cenários e figurinos irrepreensíveis e que tocou, não só os que conheceram ou não, a História recente de um país chamado Moçambique.

sábado, 21 de outubro de 2017

Sobre o Arrendamento...

             
 Fotografia de Carlos Olyveira
       

               "Na questão de Lisboa e Porto este processo está muito mais visível. Em Ponta Delgada consideramos que o processo está numa fase muito inicial e a ideia de trazer cá a caravana passa, também, por aprendermos om a experiência de outros locais. Ainda assim, a percepção que temos é que em Ponta Delgada  também está a tornar-se cada vez mais difícil arranjar casa para arrendar, porque a maior parte das casas que estão disponíveis são para alojamento loval, para turismo de muito curto prazo, ou mesmo para comprar, porque houve uma escalada dos preços das casas. Há vários factores que contribuem para isso: é o turismo, é a mudança da lei de arrendamento em 2012, que facultou os despejos e que contribuiu para uma liberalização do mercado e há a ideia que o uso das casas para aluguer de turistas é muito mais rentável do que para a residência ou para a fixação das populações locais."

Lídia Fernandes, da Caravana para o Direito à Habitação, 16 de Outubro in "Atlântico Expresso".

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Do Cinema

Desenho de Liv Ullmann
(Daniel Seabra Lopes)
          
            "Os filmes, a fuga da realidade, o mundo dos sonhos; experiência e pessoas que, segundo eu acreditava, iriam tornar-se parte do meu quotidiano, no futuro. Tragédias tão grandes que o nó continuava na garganta, muitas horas depois. Maravilhas imensas a ponto de meus pés tocarem o solo, quando eu voltava para casa.
        Milagre em  Milão, Luzes da Ribalta. Vi esses filmes dez ou vinte vezes, com o mesmo encantamento. Heróis e Heroínas. Criaturas que representavam o Bem ou o Mal. Quase nunca comuns e tediosas, como as pessoas que eu conhecia em Trondheim.
         E o amor.
     Ansiava por experimentá-lo, tal como o via na tela: abraçar um homem com camisa branca e um alvo sorriso, que me olhasse de cima, ternamente, e sussurrasse palavras sussurradas pelo Herói à Heroína.
       Escutar violinos, quando ele me beijasse.
     Ah, se eu pudesse crescer um pouco mais depressa. Eu lançava um olhar ansioso para os meus seios inexistentes." 

in Mutações, Liv Ullmann, edições Nova Nórdica, 1984.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

"Correspondência" de Paula Sousa Lima e Leonardo

A capa do livro (Fotografia de Carlos Olyveira)

"A Sonata de Outono" de Ingmar Bergman



        Bergman quis abordar a relação parental em “Sonata de Outono”, para isso juntou na tela duas das suas actrizes predilectas: Ingrid Bergman e Liv Ullmann. O filme mostra uma mãe, pianista de profissão com uma carreira ascendente, e uma filha à beira do precipício emocional. Quando se fecham os nossos próprios olhos e apenas se ouvem estes diálogos, esse sussurrar entre mãe e filha é audível o transtorno, sendo que é como se estivéssemos perante um ajuste de contas na idade adulta. Incomodados, pois, sentimo-nos ao observar esta arena familiar e que, à medida que o filme avança, vamos também percebendo que esta espiral é tal e qual o debulhar duma cebola, já que presenciamos várias camadas, isto é, o alumiar duma relação agitada marcada essencialmente pela ausência e por tudo aquilo que nos vai escapando em função de outras ambições menos terrenas, imersos que estamos na voragem invisível da passagem dos dias e das estações.
         Este filme convocou também e, pela primeiríssima vez, o encontro entre um realizador e a actriz conhecidos além fronteiras europeias, ambos oriundos de Estocolmo, mas com percursos e posições estéticas diferentes. Conta-se que o reencontro e as filmagens terão sido turbulentas e com direito a várias peripécias, narradas ainda hoje pela actriz norueguesa, Liv Ullmann. É certo que as salas de cinema já não comportam estas intimidades e espessura cinematográfica mas valeria bem a pena tentar.