quarta-feira, 17 de julho de 2013

A carência

“Aprendi muito cedo que se está nesta busca permanente do que não se tem”

Dulce Maria Cardoso

terça-feira, 16 de julho de 2013

Os Amigos

          Os amigos são a única certeza que temos na vida, disse um dia um poeta açoriano. Os verdadeiros amigos são aqueles que ficam para o fim da festa quando já toda a gente se foi embora. Reconhecem-se à distância e mesmo quando estão longe sabemos desde sempre que estão próximos. Os amigos, ao contrário dos pais e irmãos, são necessariamente escolhas nossas. Por isso, uma boa amizade requer, na maioria das vezes, tempo para ser construída, exigindo encontros e interesse constantes, atenção, muita partilha e risco e, se possível, intimidade. Tal como o amor, a amizade nem sempre corre bem e, por isso há zangas, conflitos - muitas vezes violentos - amuos sistemáticos, separações, cortes abruptos e demoradas reconciliações. Muitas vezes não damos o devido valor nem significado merecido às coisas raras que temos diante de nós. Agora que voltei a falar com um grande amigo e penso em tudo o que não lhe disse, penso no tempo que perdemos quando nos afastamos, os momentos que não partilhámos, mas que, até que por enfim, nos reconciliamos. É porque também acredito, à semelhança do que disse o poeta Rui Machado, os amigos moram no coração.

Três Poemas de Emanuel Félix

POÉTICA

Nada digo por hábito
tudo de novo vem de ti
nasce de novo

Nada digo de novo
sobrevoo
o deserto movente das palavras
em busca de um sinal
exacto e comovente do teu corpo

SINAL

Ergo nas mãos em concha
uma lembrança de água
oh presença subtil no deserto de um livro
a que uma folha dura

E que frágeis os trincos da memória
do que era teu e meu
a invisível tesoura
com que cortar os sonhos pela cintura

TRISTES NAVIOS QUE PASSAM

Tristes navios que passam
na hora da nossa vida
na hora da nossa morte

escuros vasos de guerra
cargueiros tanques paquetes
brancos navios de vela

levam óleo levam ódio
luxo lixo das cidades
levam gente gente gente

deixam ficar nostalgia

tristes navios que passam
na hora da nossa morte
na hora da nossa vida

Emanuel Félix (Angra do Heroísmo 1936 –2004) 

segunda-feira, 15 de julho de 2013

E o verão não é miragem

Esconde segredos e encontros
Tem o jorro sensitivo deslocado
Espera transbordante de virtude
Blandícia duradoura no círculo da nuvem
Ainda que o passado se intrometa
Sabe ser mistério ou imprevisto
Instante retomar das searas
Leve paisagem por descortinar
E o verão não é miragem 

July, Café Central


Four girls eat ice cream
giggling, three with blue hair,
identical specs, ankles thick
with age, schoolkids

Next time I turn round
they´re air, gone
grandmothers, women
of substance, melted.

Stuart Blazer


quinta-feira, 11 de julho de 2013

Estivalística

Um milagre tecnológico está prestes a acontecer…conseguimos uma charla com o Doutor Mara via skype. Como é que tudo isto foi possível, perguntará alguém de direito, mas hoje de facto tudo se tornou possível com estas novas tecnologias ao dispor de um clique. Aconteceu quando um fotógrafo subaquático, em fase de mergulho com jamantas no atlântico, se deparou com o doutor Mara em cima de uma rocha com a sua Olivetti Linea 103 a bater texto como há muito não se via. Admirado com semelhante atitude radical, bastante fora do que é usual, diga-se de passagem, o fotógrafo decidiu oferecer a Doutor Mara a sua tablet da quarta geração e, como contrapartida, este somente teria de encetar connosco mais uma magnífica, para não dizer estonteante charla sobre a beleza da vida e do mundo e, muito naturalmente, sobre o verão, as praias, a melancia, a soberania de Eros e da sardinha no pão.   

DM: Doutor Mara é verdade que se encontrava em cima de uma rocha a bater texto com grande intensidade? E, já agora, podemos ficar a saber o que é que se encontrava a escrever?
Doutor Mara: Meus caros amigos, vocês sabem que as rochas podem ser sítios de evasão e de fuga e…para quem como eu que escreve muita coisa que pode ser má, as rochas podem ser um excelente sítio para evacuar. E como passo o tempo a deitar tudo cá para fora, vou escrevendo cada vez mais, guardo muita coisa, é um facto, ao mesmo tempo que vou escrevendo mais e mais, volto a guardar, e escrevo mais e muitas mais vezes e não sei o que guardar. Sofro do drama da folha escrita que é o contrário da folha vazia. Recordo aqui, o meu amigo Pietro Tarantini, cozinheiro de sons, que, quando pensou que escrevia alguma coisa de jeito, enviou-me uma carta com o seguinte conteúdo:Sei que tudo o que escrevo é uma merda, mas continuo a escrever, porque se não escrever rebento e se rebentar é merda por todo o lado". Apesar de se encontrar em auspicioso exílio musical, P. Tarantini continua a escrever numa espreguiçadeira como um desalmado…há quem diga que adormece com a caneta na mão…já vi coisas bem piores.

DM: Como por exemplo?
Doutor Mara: Gente que escreve em cima de árvores, outros em cima de telhados, outros no quarto dos fundos e há quem sonha que escreve alguma coisa. No entanto, conheço um escritor que escreve de pé, entre a casa e o trabalho. O seu primeiro livro obteve o curioso título de “O Palmilhador”. Ele colocou inclusive a imagem dos seus sapatos na capa, com as palmilhas muito gastas, por sinal.

DM: Desconfiamos que deve ter sido um sucesso, não?
Doutor Mara: Por acaso não, saiu das montras das livrarias logo na primeira semana. A imagem da capa é usada muitas vezes pelas empresas de calçado junto dos funcionários como um mau exemplo do uso da palmilha.

DM: Doutor, temos uma pergunta engatilhada para si: o escritor-filósofo alemão Johann Wolfgang von Goethe afirmou um dia que “Só o verão vale a pena”. Acredita realmente nisso?
Doutor Mara: Sim, sobretudo quando os invernos são bastante compridos e o verão aparece como a estação redentora, para nos salvar muito bem não sei o quê. A luz que incide sobre os seres humanos ajuda a torná-los mais airosos, desenvoltos e virados uns para os outros. O verão devolve-nos a infância por instantes, os dias são maiores, as cidades ficam completamente vazias, as praias atulhadas de gente, um calor infernal nas terras do interior, os restaurantes sem mesas para sentar, crianças e adultos a fazer xixi no mar…há aqui algo de pueril, para não dizer de telúrico ou mesmo selvagem. Recentemente vi o filme “A Ultrapassagem”, do Dino Risi, e, aqueles minutos finais passados na praia são hilariantes. Cinquenta anos depois, aquela “praia” do sul da Europa não mudou absolutamente nada: barulho, confusão, gelados, bolas no ar, refrescos e uma latina propensão para improvisar a festa e a sempre bem característica ribaldaria colectiva.

DM: Doutor Mara, dizem más línguas (ou serão as boas???)  que está irreconhecível, que para além de um equilíbrio interior conseguiu neste verão aquilo que os gregos designavam por ataraxia…o equilíbrio entre o desejo e a realidade circundante. Por acaso, não está apaixonado?
Doutor Mara: Como diria o nosso poeta português contemporâneo Herberto Helder, autor do mais recente "Servidões": “A energia é a essência do mundo”. De facto, se o amor significar energia, mola, despertar, movimento, aí sim, estou verdadeiramente apaixonado. Nesta estação também sinto o desabrochar dos tecidos, o suor latente nos poros, uma tensão permanente com a nudez do sexo oposto, o destilar dos líquidos e a beleza das searas que clamam por mais seiva e fluidez nos encontros. Enfim…a soberania de Eros no verão é uma constante.Mas sim, sinto-me bastante sereno, tranquilo na alma e no espírito, sei mais do que nunca como enfrentar a dor e as adversidades, aceito as contradições existentes na realidade.

DM: O que tenciona fazer nesta estação de diferente?
Doutor Mara: Em primeiro lugar, comer muita melancia, a reposição dos líquidos é essencial nesta altura e secos já bastam os bolos a partir das cinco da tarde. E, se possível, voltar a comer sardinha no pão – depois dos santos populares, esta baixa naturalmente o seu preço! Tenho o desejo ainda de ver um ciclo de cinema italiano da reconstrução (começarei com “Francesca, Um Amor Impossível”, de Alberto Latuada). Por fim, caso for ainda possível, montarei a minha égua de seu nome Lisa.

DM: Sozinho?
Doutor Mara: Penso que já estão a querer saber demais. E...se me dão licença vou deixar esta maquineta à prova de água na poça desta rocha que está mesmo aqui à frente. Não levem a mal, mas julgo que o que é demais é exagero. Não me habituo a este mundo híper-tecnológico. Adeus.

DM: Muito obrigado, Doutor Mara, por mais uma inolvidável charla…pois, infelizmente, nunca saberemos quando será a próxima.


Ofício de Viver

Cesare Pavese (1908-1950)

“Gli uomini non si lagnano del soffrire ma dell´autoritá che li supera e tiene e fa soffrire”


“Os homens não se queixam de sofrer, mas da autoridade que os supera, domina e faz sofrer.”



Cesare Pavese, in Oficio de Viver, 14/3/1946 

terça-feira, 9 de julho de 2013

domingo, 7 de julho de 2013

O primeiro voo no céu dos Açores


"Tempos houve em que a fábrica da Sé mantinha cónegos, arcediagos, chantres, arciprestes e beneficiados, vendo-se o vasto caldeirado totalmente ocupado pelo Cabido, a dar luzimento aos esplendorosos cerimoniais litúrgicos.
A completar tão faustoso conjunto de dignidades eclesiásticas, havia ainda os meninos do coro, rapazes que envergando largas saias encarnadas e brancas sobrepelizes, cantavam no coro e ajudavam à missa.
Conta-nos o Pe. Jerónimo Emiliano de Andrade, na sua Topografia da Ilha Terceira, um interessante episódio passado no século IX, tendo como protagonista um dos aludidos meninos, que embora de compleição franzina, se destacava entre os demais, a criar situações contraditórias com a compostura requerida e imposta pelos preceitos religiosos.
       Foi assim que, encontrando-se a Sé entre obras, com andaime armado até ao cimo das torres, o menino depois de cometer mais umas das suas traquinices, fugiu perseguido por um operário, atingindo os andaimes cimeiros.
                E como nesse dia soprasse rijo o “carpinteiro”, a causar estragos  de monta – carpinteiro que levaria alguém a dizer, com muita piada, ser a exportação de ciclones uma das maiores riquezas dos Açores – arrastou o menino de pouca carne e leve ossatura, enfunado nas largas saias.
Um clamor de terror terá perpassado por quantos assistiram a tão horripilante vôo.
Mas volvido pouco tempo dissipavam-se as mais tenebrosas conjecturas com o aparecimento do imprevidente e forçado argonauta, ileso no telhado do Convento da Esperança.
Mais uma vez ficaria comprovado o velho ditado: “Ao menino e ao borracho, põe Deus a mão por baixo…”

in o  “Filósofos da Rua”, de Augusto Gomes, pág.140, editado por Jaime Cruz, a impressão ficou concluída nas Sanjoaninas de 1984, com uma tiragem de 1500 exemplares.

Ontem escrito numa parede da cidade

Ele: As palavras mentem.
Ela: O corpo também!

sábado, 6 de julho de 2013

Soneto

Ilustração de Aurora Ribeiro
No céu duma tristeza cor de farda,
Uma angústia de nuvens se desenha.
O amor já morreu: que o tempo venha
Desmantelar o que a memória guarda.

Jogai!, jogai! Quem não jogar não ganha
Nem perde. É a última cartada.
Eu aposto na vida, mesmo errada.
Talvez outro destino me sustenha.

Avião de Lisboa para o mundo,
Apaga-me a tristeza com as asas,
Tão nítidas no céu em que me afundo!

Depois desaparece atrás das casas
E deixa-me o azul, o azul profundo,


E duas nuvens de razão tocadas.

Alexandre O´Neill  (Lisboa, 19 de Dezembro de 1924 - Lisboa, 21 de Agosto de 1986)

A Melhor Juventude

Marco Tuglio Giordana(2003)



Matteo: Que palavras enchem a tua cabeça?


Georgia: ...

sexta-feira, 5 de julho de 2013

"As Ilhas Desconhecidas" no Palácio dos Capitães Generais

No dia de apresentação da exposição fotográfica, logrou-se, a propósito da visita às fotografias, ler o seguinte texto do fotógrafo Jorge Barros sobre “As Ilhas Desconhecidas” exposto numa vitrina da sala: "A sua leitura originou sempre novas descobertas, permitindo ir fotografando ilha a ilha, lugar a lugar sempre com o sentido de ir de encontro ao espírito do texto entre o impressionismo da paisagem – luz e silêncio – e sobretudo, o humanismo daqueles povos que Raul Brandão de forma excelente descreveu em 1924." A exposição estará patente ao público até ao fim de Novembro.




Annie Hall

Annie Hall de Woody Allen (1977)

"Voz de Alvy: eu pensei naquela velha piada, sabem, daquele tipo que, vai ao psiquiatra e diz: "Doutor, hum, o meu irmão está maluco. Pensa que é uma galinha." E, hum, o médico pergunta: "Bem porque é que não o interna?" E o tipo responde: "Eu internava-o mas preciso dos ovos". Bem, creio que é mais ou menos isto que penso sobre as relações humanas ou entre as pessoas. Sabem uma coisa? Elas são completamente irracionais e loucas e absurdas e, mas, hum, creio que continuamos a mantê-las porque, hum, a maior parte de nós precisa dos ovos."
 Woody Allen in Annie Hall